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Nada no mundo podia ser mais importante pro Totonho Ananias do que um filho doutor. E não deixava por menos: havia de ser doutor legítimo formado pra médico, em faculdade da Capital. Por que hoje em dia, ele costumava explicar, era só o sujeito entrar pra uma escolazinha dessas de fim-de-semana, daí a pouco envinha todo espanéfico, como coisa que tinha o rei na barriga. Assim não tinha vantagem, qualquer um podia virar doutor da noite pro dia, mesmo sendo do tipo roscofe. Depois dana a fazer discurso, vira chefe de embaixada de futebol, candidata a vereador, fica pior do que pavão. Totonho dizia que aquilo não sacrificava, até distraía movimentando dum lado pro outro. Pior era se, Deus o livre e guarde, tivesse de ficar quieto, isso, sim, é que ia ser a morte em vida. Sentia mas era um bruto orgulho do filho, coitado, não querendo ser pesado, como se aquilo pesasse. Imagine, o rapaz preocupado com dinheiro... Pois a Escola já não tomava todo o tempo, tanta coisa difícil, um despróposito de nome complicado, um montão de coisa pra decorar? Carecia cabeça fresca, livre de toda chateação. Essa dúvida ele não precisava ter. Se havia uma coisa que Tonico fazia como ninguém, era aproveitar a vida. Bom de conversa e de golo, passava a maior parte do tempo praticando um tal de halterocopismo, o pai custou a entender o que era aquilo. Por causa do dito esporte, quase não acabava o curso. Mesmo assim, quando chegou em casa, formado, foi recebido com foguetório, rojão, banda de música, discurso e churrasco, fora um despropósito de bebida de tudo quanto era qualidade. O povo, orgulhoso do conterrâneo-doutor, aparecia com seus reumatismos e enxaquecas, úlceras e aflições, ficavam reparando aquele moço fino, de fala mansa e modos calmos, prestando atenção a cada detalhe e depois passando a receita, a letra tão engarranchada que até o Chiquito da Farmácia custava decifrar. Havia de ser mesmo um doutor especial, eles bem que careciam. Totonho, que já tinha providenciado um cômodo bem ajeitado pra servir de consultório, cavou pro filho uma colocação no Posto de Saúde, sempre era uma garantia, não custava. Duas vezes por semana, na parte da manhã, atendia, de graça, os pobres na Santa Casa. Agora só faltava arranjar uma moça direita, de boa família, e tratar de casar. Mas Tonico, logo se viu, queria mesmo era sombra, água fresca, botina larga e jornal sem letra. Vivia de bar em bar, quase nunca tinha condição de atender: quando não estava meio tocado era a ressaca que impedia de trabalhar. O pai, lá bem no íntimo, costumava achar mal empregada a trabalheira que teve pra formar o filho. O povo, ia indo, descorçoava de procurar o médico. Dava tristeza ver um rapaz de boa família, formado, botar fora uma carreira tão bonita. Quem sabe com a graça de Deus ele não entusiasmava por alguma moça, pensava em casamento, apanhava jeito? O Zunzum corria mas ninguém aventurava a abrir o bico. Era como um tumor que todo mundo via, mas fingia não enxergar. Quem fez a coisa vir a furo foi o Dico Boca-de-Alto-falante. Ele vivia de fogo, cada hora escornado num canto mas – engraçado – costumava dizer o que todo mundo tinha vontade e não conseguia. Um dia, de manhã cedo, o Dr. Tonico acordou bem disposto, tinha ficado sem beber na véspera. Assim nove, nove e pouco, já atendia na Santa Casa. Não demorou muito a Irmã informou que o Dico estava lá fora, no maior pileque, insistindo para consultar. Conversou com o médico, voltou lá fora e falou com o pinguço: |
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