Destinos

Lima Duarte

Relato de Auguste de Saint-Hilaire sobre a região de Ibitipoca

Depois de mais ou menos uma légua, chegamos à vila de Ibitipoca, situada num alto. Embora cabeça de distrito que se estende até Rio Preto, consta esta vila de algumas casinholas apenas, e do pior aspecto. Parei numa delas, onde vive, amontoada, numerosa família de mulatos, e perguntei onde morava a autoridade local. Responderam-me que numa fazenda situada a légua e meia daqui; pedi então ao homem, a quem me dirigira, que me indicasse o caminho para a fazenda do Tanque, que sabia ser a mais próxima da serra. Este homem não só me indicou o caminho com a polidez inata aos mineiros como quis servir-me de guia durante alguns instantes.


Depois de seguir uma estrada que percorre um vale coberto de mata, cheguei afinal ao Tanque. Pedi hospitalidade a um moço que me disse estar o dono da casa ausente.


Poderia, eu, contudo, aqui passar a noite. Apressou-se em arranjar os diferentes objetos que ocupavam a sala, e ali foram descarregados os meus trastes. Logo depois chegaram Laruotte e José, que deixara na cidade para que comprassem algumas provisões. O último disse-me que nossa chegada causara alarme à cidade. Ali se ouvira falar dos acontecimentos do Rio de Janeiro, e, vendo o povo passar um homem com mulas carregadas de malas, concluiu que devia ser algum personagem de vulto, encarregado de fazer recrutamento.


A fazenda do Tanque parece ter tido outrora alguma importância, mas tornou-se a prioridade de alguns mulatos que parecem muito pobres e cai atualmente em ruínas.


Fazenda do Tanque, 15 de fevereiro
Fui hoje herborizar na serra de Ibitipoca, guiado por duas crianças da fazenda do Tanque. À base das montanhas ficam bosques espessos que atravessamos subindo insensivelmente; de repente encontramo-nos em imenso pasto cujo terreno é uma mistura de areia e terras escuras. Desde o momento em que ali pus o pé, achei no meio das gramíneas plantas que pertencem exclusivamente aos campos montanhosos, melastomáceas e uma apocinácea, etc.


A serra da Ibitipoca não é pico isolado, e sim contraforte proeminente de cadeia que atravessei desde o Rio de Janeiro até aqui. Pode ter uma légua de comprimento e apresenta partes mais elevadas, outras menos, vales, barrocas, picos e pequenas partes planas. As encostas são raramente muito íngremes; os pontos altos representam geralmente cumes arredondados e os rochedos mostram-se bastante raros. O fundo e barrocas estão geralmente cobertos de arbustos, mas poucos capões se vêem de mato encorpado; quase toda a montanha está coberta de pastos, quase sempre excelentes. Seguimos um caminho que sobe, a pouco e pouco, e chegamos a um regato chamado rio do Salto. É ele, explicaram-me, que, sob o nome de rio Brumado, rega o vale onde fica situada a fazenda deste nome e vai enfim avolumar o rio do Peixe.


Corre o rio do Salto com rapidez numa barroca estreita e, em vários lugares, rochedos a pique o margeiam. Num deles, de cor esbranquiçada, ficam inúmeras manchas pretas formadas, tanto quanto pude avaliar, por expansões liquenóides. Lembra uma e bastante a figura de um eremita embuçado no hábito, e segurando um livro. Dele fizeram um Santo Antônio que é objeto de veneração em toda a zona. Todos quantos perderam animais na serra vão rezar o terço diante da imagem e os encontram infalivelmente; outros há que, em romaria e de vela em punho, visitam o rochedo onde está representado o santo e ali fazem penitência.


A pequena distância deste lugar, chegamos a um casebre grosseiramente construído de taipa, coberto de sapé, e cujas entradas são portas estreitas fechadas com couro. Se esta choupana apenas revela a indigência, sua situação foi bem escolhida; construída como está num fundo e protegida do vento pelas colinas vizinhas. De um lado um grande bosque, do outro um riacho, cuja água é excelente e faz mover pequeno monjolo. Ao chegar fui recebido por uma mulata vestida de saia e camisa de algodão muito sujas. Grande quantidade de bonitas criancinhas, trajadas do modo mais nobre, a rodeavam. Pareceu a mulher um tanto assustada com a minha visita, mas logo se acalmou; perguntei-lhe se o marido poderia levar-me às partes mais elevadas da montanha. Respondeu-me que estava no mato, mas voltaria logo. Poderia eu falar-lhe pessoalmente. Enquanto esperava, pus-me a conversar com a dona da casa e perguntei-lhe se não se aborrecia, só, no meio daquelas montanhas.


Disse-me que ali estava, havia apenas um ano, e nunca sentira um único momento de tédio. Os trabalhos caseiros, as galinhas e os animais domésticos tomam-lhe o tempo todo. Havia, além disto, sempre algo de novo em seu pequeno lar. Era preciso ora plantar, ora colher; nasciam-lhe criações; o marido e o filho mais velho saíam para caçar e assim traziam ora um porco-do-mato, cuja carne, assada, comiam todos, ora um gato-selvagem. E com efeito mostrou-me muitas peles já curtidas de vários destes animais. A esta altura chegou o marido que consentiu muito prazerosamente em servir-me de guia. Antes de sairmos ofereceu-me queijo, farinha e bananas, frutos que só se podem colher à raiz da serra. Enquanto comíamos, continuou a conversa; meu hospedeiro contou-me que morara muito tempo na vila do Rio Preto.


Achando este lugar vantajoso para estabelecer-se, porém, ali passara um ano, só, para construir a choupana e formar plantação. Neste lapso de tempo matara dez onças e assim tornara os pastos mais seguros. Afinal para lá transportara a mulher e os filhos.


Depois de acabado o almoço partimos todos a cavalo e subimos ao Pião, nome que se dá ao cume menos arredondado e mais alto de toda a serra. Deste pico se descortina horizonte mais extenso do que o da serra de S. Gabriel. Quando o tempo está claro avistam-se até as montanhas dos arredores do Rio de Janeiro. Atrás do Pião, e em grande extensão, acha-se a montanha absolutamente cortada a pique. É difícil reprimir uma espécie de terror, quando, adiantando-se alguém até o limite permitido pela prudência, descobre a imensa profundidade, espessas florestas escondidas em sombrios vales. Sob o Pião abre-se um abismo, cuja profundeza não pode o olho calcular, mas que corresponde, dizem, e muito distante dali, a outra barroca muito mais baixa.


Os pastos que cercam o monte e, em geral, todos os que cobrem aquelas montanhas são de ótima qualidade e poderiam alimentar prodigiosa quantidade de animais. No entanto só ser vem aos de meu guia e de alguns outros vizinhos, tão pobres quanto ele.


Ao nos afastarmos do Pião, seguimos durante algum tempo as bordas escarpadas da montanha. Atravessamos, em seguida, um riacho à margem do qual cresce singular melastomácea (cujas flores são vermelho-escuras); cortamos terreno pantanoso e depois uma encosta cujas pastagens haviam sido queimadas recentemente e onde cresce em abundância uma velosia, cujas hastes e galhos tortuosos e enfezados, enegrecidos pelo fogo, terminam num tufo de folhas rígidas do meio das quais se alçam cinco ou seis flores de belo azul, e tão grandes quanto lírios. Nesta excursão apanhei prodigioso número de espécies de plantas. A maioria porém já as havia geralmente colhido, em outras montanhas desta capitania.


Meu guia pareceu-me principiar a enfadar-se de se deter a cada momento a fim de que eu pudesse arranjar minhas flores.

In: Viagem pelas províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais, Editora Itatiaia, 1975.

 

Enviar link