Destinos

Diamantina

Depoimento Padre Rolim

Perguntas feitas ao Padre José da Silva de Oliveira Rolim

 

Ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil, e setecentos, e oitenta e nove aos dezenove dias do mez de Outubro do dito anno nesta Villa Rica, e Casas do Real Contrato das Entradas, onde foi vindo o Desembargador Pedro José Araújo de Saldanha, Ouvidor, e Corregedor desta Comarca, junto commigo Escrivão ao diante nomeado, para effeito de se fazerem perguntas ao Padre José da Silva de Oliveira, que se achava preso em um dos Segredos, que nas ditas Casas se mandaram praticar, e sendo ali pelo dito Ministro foi mandado vir á sua presença o referido preso, ao qual fez as perguntas seguintes.

 


Foi perguntado ele Respondente como se chamava, de quem era filho, a sua naturalidade, Residência, e Idade?

Respondeu que se chamava José da Silva de Oliveira Rolim, filho legitimo do Sargento-mor José da Silva de Oliveira, actual Caixa em Real Extracção Diamantina no Tejuco; natural do mesmo Arrayal, e é Presbítero do Habito de São Pedro, Residente em Casa do dito seu Pae; e de Idade de quarenta, e dois annos.

 


Foi mais perguntado se sabia, ou suspeitava a Causa da sua prisão?

Respondeu, que elle se persuadia derivar a sua prisão do Desembargador Antonio Dinis, o qual esteve há tempos no Tejuco tirando certas Devassas, e pensa elle Respondente que o mesmo Ministro fazendo queixas delle ao Excellentissimo Senhor Luis da Cunha Menezes Governador, e Capitão General, que foi desta Capitania, dera causa ao mesmo Excellentissimo Senhor mandar despejar a elle Respondente do Tejuco em três dias, e em oito sahir da Capitania; e também tem tido elle Respondente avisos, de que sabendo aquelle Ministro, que elle se dirigia com os seus Requerimentos ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Visconde General, para obter o seu Regresso, protestara, que posto elle Respondente se restituísse a Tejuco, havia de fazer com que outra vez sahisse em uma corrente; e por estes princípios discorre que a sua prisão emanou dos officios do referido Magistrado na Corte.

 


Foi mais perguntado, se a bem desta causal, que elle Respondente porpõe; lhe occorre outra alguma, que também concorresse para a sua prisão?

Respondeu, que a única causa da sua prisão se persuade ser a que fica expressada; sem que se possa persuadir de outro algum motivo para este fim.

 


Foi mais perguntado, se elle Respondente tinha ultimamente estado nesta Capital algum tempo; quando chegou a ella; onde Residiu; e quando se retirou, e para onde?

Respondeu, que tendo chegado ao Rio de Janeiro o Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Visconde de Barbacena, Governador, e Capitão General desta Capitania, a tempo que elle Respondente se achava naquella Cidade, da mesma partiu, e veiu para esta Villa Rica; onde chegou poucos dias antes que também chegasse o mesmo Excellentissimo Senhor; e sendo por então hospede de Antonio Vieira da Crus na Água Lima, vendo que naquella situação estava incommodado, e difficultoso de applicar as suas dependências, passou a ser hospede em casa do Tenente Coronel Domingos de Abreu Vieira, Rematante, que foi do Real Contrato dos Dízimos o Triennio passado, e persuadido elle Respondente, que Sua Excellencia annuiria aos seus Requerimentos permittindo-lhe voltar para Tejuco, lhe foi insinuado na Sala, que o mesmo Excellentissimo Senhor havia consideravelmente extranhado que elle Respondente, depois dos expendidos factos, entrasse, e andasse na Capitania, e até mesmo nesta Villa, sem nova determinação, e despacho em contrario, do que estava mandado; e nesta consideração por um effeito unicamente da sua piedade o não tinha já mandado prender; do que assustado elle Respondente entrou a occultar-se mais, não apparecendo na Sala; e decorrendo algum tempo, observando, que Sua Excellencia não procedida contra elle, se capacitou, que ainda informado da sua innocencia, comtudo não queria dar-lhe despacho para o seu Regresso; porém que também não levaria o mal o elle Respondente ir para sua Casa; cujo pensamento communicou a alguns seus amigos; e convindo todos neste mesmo discurso se retirou então da Casa do dito Tenente Coronel Domingos de Abreu, e foi para Tejuco, onde residiu com mais cautela, do que o fazia nesta mesma Villa; não apparecendo de dia, e somente sahindo de noite; até que tendo noticia, que o buscavam, e queriam prender, se refugiou para a paragem erma, onde existiu, e foi ultimamente preso.

 


Foi mais perguntado, que tempo se demorou nesta Capital; qual era o seu destino, emquanto nella existiu, e quando se retirou para Tejuco?

Respondeu, que se demoraria, segundo sua lembrança, seis mezes, e que durante este espaço de tempo não se applicou, nem cuidou em mais cousa alguma, que não fossem os seus Requerimentos, instando sempre pelo despacho de Sua Excellencia para voltar a Tejuco; e que sempre formara tenção, quando o não obtivesse, ir para São Paulo; o que também participou a alguns seus amigos; mas que finalmente se deliberou, como já fica dito, partindo desta  Capital no mez de Fevereiro.

 


Foi perguntado, quem eram os seus protectores, pelos quaes caminhava para obter a graça, que supplicava; e quem lhe fazia os Requerimentos?

Respondeu, que elle geralmente supplicava a todos, os que tinham accesso a Sua Excellencia, principiado pelos Ajudantes d’Ordens do mesmo Senhor; igualmente tinha interessado na sua pretensão o Desembargador Thomas Antonio Gonzaga, o Tenente Coronel Francisco de Paula Freire de Andrade, e o mesmo seu Patrão Domingos de Abreu Vieira; e que quem lhe fez alguns Requerimentos fora o Doutor Cláudio Manoel da Costa.

 


Foi mais perguntado, se durante a sua Residência nesta Capitania, digo nesta Capital, teve elle Respondente algumas conversações ou tratou alguma materia, pela qual também se lhe pudesse originar a sua prisão?

Respondeu, que nunca teve conversações algumas, nem tratou com Pessoa alguma sobre material, da qual lhe proviesse o menor receio de desgosto, e muito menos de ser preso.

 


E por ora lhe não fez o dito Ministro mais perguntas algumas, as quaes todas lhe foram lidas por mim Escrivão e achou elle Respondente estarem conformes ás Respostas, que tinha dado; de que tudo para constar mandou o mesmo Ministro fazer este Auto, em que assignou com o mencionado Respondente; e Eu o Bacharel José Caetano César Manitti, Escrivão nomeado o escrevi, e assignei”.

Saldª - Jozé Caetano Cezar Manitti – Pe. Jozé da Sª e Olivrª Rolllim

 


Autos da Devassa da Inconfidência Mineira – Volume 11 – Ed. 1936

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