Destinos

Diamantina

O Tesouro do Padre Brazão

Padre,suplico o perdão de Deus.


Pois não filho. Quando vislumbramos as portas da eternidade, devemos despir do mundo as vestes salpicadas de misérias, trocando-as pelas túnicas imaculadas que nos confere a confissão feita ao ministro do Senhor; Seu legítimo representante na Terra. Conta tuas culpas que eu te absolverei em nome Dele, todo misericordioso e amor.


Roubei padre – disse o escravo – roubei para tornar a ser livre como dantes e com o dinheiro partir estas algemas que me acorrentaram na África, separando-me para sempre dos meus.


Minha vida era calma e serena como as tranquilas águas que espalham sorrisos de criaturinhas, que me deu a mulher que amava. Caçado como fera, arrancado violentamente de junto deles, vi-me atirado ao porão infecto de um navio negreiro, de onde só sai quando o traficante recebeu das mãos do mercador desumano um punhado de moedas, preço de minha desventura. Venderam-me como se fosse animal.


Praguejei, amaldiçoei céus e homens. Que mal fiz para tão dura provação? Vivia para os meus, amando-os, como os brancos amam os seus. O amor não é privilégio de raças e a cor da epiderme não mineraliza os seres. A pele não modifica os corações. Todos pulsam com o mesmo sentimento e morrem da mesma dor. A saudade, foi se transformando em desespero e os traços queridos, os foi substituindo por sulcos profundos de ódio aos algozes da minha gente infeliz.


Chamei o padre para, neste ato final de minha vida, tirar-me um grilhão de consciência. Quero levar para a sepultura apenas a recordação dos meus, que ninguém me pode tirar. Apoderei-me do ouro e diamantes, mercadorias que escravizam os homens, não para  me proporcionarem fausto e ostentação, mas para dá-lo em troca de minha liberdade, também roubada. Com um roubo, pagaria outro e só com ele conquistaria de novo, o direito de ser livre. Onde buscar o preço da liberdade pelo trabalho, se de sol a sol meus senhores bebiam meu suor?


A ocasião pôs nas minhas mãos a pedra fascinante e o metal reluzente que serviram para aumentar minha desgraça. A princípio repugnava-me roubar. Relutei estender minhas mãos calejadas sobre as pedras, mas pareceu-me ouvir uma voz ciciando-me ao ouvido: “Cada pedra colhida é um elo que partes na corrente que te separa dos teus”. No brilho delas comecei a ver raios de liberdade e a imagem de meus filhos. Não pude hesitar mais. Furtei os diamantes e acumulei a fortuna que ora lhe devolvo.


E assim padre, o Intendente Felisberto Caldeira Brant, a quem fui mandado servir como criado, homem fácil e bom, com, a fortuna de diamantes que lhe chegava às mãos, de seus diversos serviços de mineração, descuidava muito, deixando sobre as mesas grandes partidas e quase sempre abertas as arcas em que guardava. Apanhando hoje um aqui, amanhã outro ali, acumulei a importância para meu resgate. Pouco me valeu, porque Deus vai libertar-me deste mundo, e para Felisberto foi a condenação. Quis denunciar-me quando o vi preso, acusado de desfalque, mas, pensei, ele é branco, será libertado um dia, eu, pobre escravo, então receberei em troca o chicote que me dilacerará as carnes até a morte. Doeu-me ver as injustiças que lhe fizeram e me pesa a consciência não Ter confessado ser eu o ladrão.


Uma forte dispneia obrigou o escravo a uma pequena pausa.


O sacerdote, cabisbaixo, meditando, recordou-se de que por um modo misterioso e que jamais teve explicação, foi roubado o cofre da Intendência, onde se guardava o produto das lavras do Contratador e onde fazia em depósito grande quantidade de diamantes e ouro pertencentes a Felisberto. Jamais se pode conseguir saber quais foram os autores da ousada empresa. Por mais extensas e minuciosas que fossem as investigações e pesquisas então feitas por ordem do Intendente, nada colheu a devassa que pudesse esclarecer o obscuro caso. Sobre esse impenetrável mistério não deixou de haver língua malévola que por um lado chegasse a atribuir o acontecimento a malversação do Contratador, para se furtar ao pagamento de suas derradeiras prestações à Real Fazenda e, por um lado, as maquinações infernais do Contratador, no intuito de enfraquecer Felisberto, diminuir-lhe o prestígio e acarretar-lhe a desejada ruína.


Ardendo em febre e arquejante, o preto velho continuou: a diferença encontrada no cofre era o preço de minha liberdade e a grilheta para Felisberto. Investigaram, interrogaram-nos, o interessante porém, era fazê-lo culpado, arrancá-lo dos seus e levá-lo para a Metrópole. Preferiram que o crime fosse dele e deixaram-no em paz. Não sei qual o seu fim. A família chora a sua ausência, como os meus choraram, e sofre a miséria, que os meus sofreram. Minha hora chegou. Morro escravo dos homens e da saudade. A fortuna, Padre Brazão, está na Amontólia, sepultada na distância média que os pés das duas primeiras jabuticabeiras plantadas para o nascente.


É sua. Devolva-a a quem é de direito.


E silenciou o escravo.


Deu-lhe o perdão, retirou-se o sacerdote com o plano concebido de  rebuscar o tesouro e entregá-lo a Felisberto, logo que este voltasse do Reino.


Voltando ao quarto os assistentes, mal o padre se retirara, ouviram frases desconexas pronunciadas pelo escravo, no delírio do tifo que o consumia. Puxando as cobertas como quem cava a terra com as mãos exclamava: aqui duas botelhas de ouro e três chifres de diamantes, entreguei tudo ao padre Brazão. Não sou criminoso, não os levo.


E a voz foi-se apagando lentamente, numa afirmativa de renúncia de vida.


Alguns dias depois, numa noite chuvosa e fria, embuçado numa grande capa, foi o Padre Brazão em busca do tesouro. Retirou-o, levou-o, com a luz de uma lanterna, para o seu sítio, algumas centenas de metros dali, no morro que descamba para o córrego Piruruca.


A falta de cofres e a perseguição dos Intendentes exigia de todos os habitantes esconderijos difíceis para seus haveres, e parece tê-lo escolhido junto de uma das muitas jabuticabeiras existentes na chácara.


Morrendo o padre, repentinamente, de uma trombose cerebral, encontraram, rebuscando seus papéis, esta pequena nota:  “Sepultei ao pé de uma delas o que não me pertence: duas garrafas de ouro e três chifres de diamantes.”


Este é o roteiro da tradição.


Perdura ainda na voz do povo diamantinense a lenda que ficou na conjunção do delírio do escravo e da linha escrita do sacerdote. Muitos ali já deixaram o juízo e outros, tempo e energia, à cata do “Tesouro do Padre Brazão”.


Um dos que tentaram, já talvez no limiar da loucura, afirmava que, numa hora crepuscular, quando só naquele ermo, ouviu uma voz que o encaminhava para o Sítio onde jaz soterrada a fortuna. A curiosidade fê-lo voltar à procura de quem lhe dava ordem e só percebeu um desmoronar de ossos, levantando uma nuvem branca de pó, que o asfixiou e o atordoou. Foi internado dias depois no manicômio de Barbacena, lá morrendo entre as grades.


Muitos já vieram de longínquas paragens, trazidos pela cobiça, e ali sepultaram dinheiro, cavando sem cessar, mas o tesouro continua dormindo no seu esconderijo.

 

 

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