Destinos

Diamantina

A Lenda da Acayaca

Eis que surge da densa nebulosidade, por entre a incerteza das origens, a mais formosa das lendas. É uma história de amor.


Do alto do Ibitira, dominando o casario do Tijuco, erguia-se Acayaca, árvore sagrada dos Índios Puris. Era grossa e frondosa, na protetora solidez. Segundo remota tradição, no dia em que a cortasse, a tribo pereceria.


O mameluco Tomás Bueno revelou aos Perós o segredo de seus irmãos. Os brancos, impedidos havia muito de chegar até o Ibitira, não tardaram em tirar proveito da traição.


Foi no dia em que uniam pelo casamento o valente guerreiro Iepipo e Cajubi, flor mimosa da tribo. No mais animado da festa, Corupela, o cacique, entrou a ouvir rumores longínquos. Desde o princípio cismado, tinha se alheado ao júbilo geral, nas bodas da filha.


O pai começava a se intrigar, quando o pio do mocho o decidiu romper o silêncio. O seu grito de alarme pôs fim ao festim. No mesmo instante, um estrondo mais forte que reboou pelas serras como um trovão distante, acabou de confirmar os vagos receios. Os Perós tinham derrubado a Acayaca.


Em pouco, os índios viram a desgraça com seus próprios olhos. Jazia por terra a árvore sagrada.


Não podendo conter-se, um guerreiro mais afoito fez soar um grito de guerra contra os brancos.


Na discussão que se verificou, dividiram-se os bravos. Na luta destruíram-se mutuamente em medonha matança.


Poucos restavam quando chegou o Pajé. Na gruta em que morava tivera aviso do acontecimento funesto. Com palavras terríveis, lançou a maldição sobre os Perós. E no fogo que alteou na Acayaca, deixou que consumisse seu corpo cansado.


Seguiu-se a mais furiosa tempestade e com a chuva e o ribombar dos trovões e ao clarão dos relâmpagos, caiam carvões estranhos, pedaços calcinados do corpo sagrado da Acayaca.


No outro dia, quando os brancos subiram ao Ibitira, só encontraram cinza e cadáveres ainda engalfinhados na luta. Dizem que o diamante, que logo começou a surgir nos serviços de ouro, eram restos da árvore sagrada, carbonizados.


É difícil apurar se Joaquim Felício dos Santos recolheu a lenda em circulação, para entrecho de seu romance “Acayaca”. De sua invenção ou já do folclore, todos a sentem hoje como criação da cultura popular tradicional.


Extraído do livro:   “Dias e noites em Diamantina"  de Ayres da Mata Machado                 

 

 

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