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Betim

Colônia Santa Isabel

Se alguém chegasse agora na Colônia Santa Isabel, sem ter o conhecimento que ali é um centro de tratamento de hanseníase, não perceberia de imediato que estaria em um local especial, um importante centro especializado em Minas Gerais. Só aos poucos perceberia o que ali existe de diferente dos outros bairros: os ambulatórios. Basicamente são eles que tornam a Colônia Santa Isabel diferente de outros bairros.


Hoje, os portadores da doença vivem em um sistema aberto, circulando normalmente junto aos não portadores. O hospital-colônia está desativado. Não existe mais o isolamento compulsório imposto entre as décadas de 30 e 60. Os que desejaram, lá ficaram. O preconceito ainda hoje existente vem da falta de informação dos que desconhecem que a hanseníase tem cura após o tratamento, que pode durar de seis meses a dois anos, caso não seja interrompido. Quanto mais rápido for feito o diagnóstico, mais rápida será a cura. Hoje, no Brasil, acontecem campanhas contra o preconceito e que contribuem para que os portadores de hanseníase conquistem o pleno exercício da cidadania.  A título de observação, nos outros países usa-se o termo lepra. O Brasil é o único país onde se adota o termo hanseníase.


A hanseníase é a doença da pobreza. Se a pobreza do planeta fosse erradicada, a hanseníase também seria erradicada, como foi nos países ricos.


O historiador Rodrigo Cunha Chagas conta nesse valoroso texto a história da Colônia Santa Isabel:


“A Colônia Santa Isabel é um exemplo notório da política sanitarista adotada pelo país na década de 1920, direcionada para a erradicação de doenças contagiosas como o mal de hansen, mais conhecido por “lepra”. Tratava-se praticamente de um campo de concentração da saúde, mantido pelo Estado, onde os portadores do contagioso bacilo deveriam ficar isolados preservando a integridade física de toda uma população “não contaminada”.


O desenho urbano de Santa Isabel é peculiar e exclusivo de colônias desta natureza, o que reflete a problemática da lepra no início do século, a qual resultou em medidas sanitaristas de “cunho profilático”, por não dizer segregador.


A Colônia Santa Isabel representa um testemunho privilegiado da evolução do tratamento da hanseníase no Brasil: do confinamento à tentativa de integração foram várias as estratégias adotadas, que se refletem na própria configuração do conjunto.


Na época de sua construção, Betim era parte do município de Santa Quitéria (hoje Esmeraldas), que se estendia ainda para o território de Ibirité, Contagem. O local escolhido para a construção foi o terraço do rio Paraopeba, próximo a jusante do rio Bandeirantes, cujo vale foi também ocupado pela construção. A Colônia, na época de sua construção, tinha como via de acesso principal a ferrovia que ligava Belo Horizonte a Brumadinho, com uma estação em Mário Campos (Ibirité), próximo do seu portão de entrada. Além da infra-estrutura avançada para a época, foram construídos, ainda, equipamentos de lazer coletivo, como o cine-teatro glória e os clubes recreativos. Refletindo a religiosidade, não poderia faltar a igreja para completar o quadro local.


A chegada pelo antigo portal, ainda existente, passa primeiro pelo hoje bairro Monte Calvário, na época “saúde”, local onde foram construídos casas e equipamentos destinados aos trabalhadores que atenderiam à colônia. Em seguida, havia uma corrente que separava a referida área dos pavilhões e casas destinadas aos doentes.


Esses fatos impulsionaram a montagem de uma infra-estrutura econômica de produção própria, onde foram criadas olarias, serrarias, unidades de produção agrícola para cultivo e criação de animais com fins de auto-abastecimento.Os doentes foram aproveitados como mão-de-obra nos trabalhos de construção civil, reparos, fabricação de tijolos, serraria, agricultura e pecuária.


A independência político-administrativa da colônia em relação ao município foi um fato desde o primeiro momento. As decisões eram da alçada do Estado e o órgão que definia e encaminhava a política e administração da colônia era o serviço de saúde pública. Essa situação permanece até o ano de 1999, sob a supervisão da Fundação Hospitalar de Minas Gerais – FHEMIG. No ano 2000, a Prefeitura Municipal de Betim, em parceria com a FHEMIG, assume a administração da Colônia, sendo a propriedade das terras da que envolvem a colônia ainda pertencente ao estado de Minas.


“A vida cultural na colônia era intensa, sendo que grande parte da mesma girava em torno do Cine Teatro Glória, do Clube Recreativo e do Salão de jogos, situados no pavilhão de Juiz de Fora. Havia sessões de cinema, festivais teatrais, ‘horas dançantes’ e bailes aos sábados e domingos, animados pelos conjuntos de jazz, formados pelos rapazes da Colônia. No Salão de Jogos eram promovidos bingos e jogos que envolviam toda a comunidade. (...) Em torno do Pavilhão havia também um dinamismo intenso. Era o local do ‘footing’, de encontros, onde aconteciam os flertes e os namoros que, muitas vezes, terminavam em casamento e filhos...”.(MENDONÇA E MODESTO in: A memória betinense. Colônia Santa Isabel, rel. p. 39).


“Com o passar do tempo, a política oficial em relação às colônias foi se modificando, bem como o avanço da ciência que desenvolveu medicamentos e conhecimentos sobre a hanseníase. O aparecimento de sulfona, como medicamento eficaz para a cura da doença, foi preponderante na mudança da concepção do tratamento que passa a ser feito em dispensários (postos de saúde especificados). Essa situação explicita ainda uma nova concepção sobre o contágio que não é tão fácil de ocorrer como se imaginava no passado.” (ASSIS, Terezinha. In: A história da construção de Betim).

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