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Os Arturos

© Daniel Souza Contagem - Comunidade dos Arturos - Daniel Souza Comunidade dos Arturos

“Os Arturos constituem um agrupamento familiar de negros que habitam uma propriedade particular em terras do município de Contagem, no local denominado Domingos Pereira. Caracterizam-se basicamente pela manutenção da cultura negra, recebida dos ancestrais e conservada  na experiência do sagrado: são as festas religiosas que fazem do grupo um universo à parte, quando os Arturos se transmutam em filhos do Rosário.


A origem da comunidade é o negro Arthur Camilo Silvério e sua esposa, Carmelinda Maria da Silva – elos primeiros da grande família. É através de Arthur (pai) que formam os Arturos (descendentes) e a marca do nome atesta a força da ancestralidade: filhos, netos e bisnetos de Arthur são hoje ARTUROS, família mantida e alimentada pela raiz inicial.


A família dos Arturos desempenha na sociedade um papel definitivo, realizando-se como unidade aglutinadora da vida comunitária. Os descendentes de Arthur Camilo Silvério permanecem, em sua maior parte, na terra herdada dos pais como patrimônio comum.


Alguns Arturos levados por necessidades da vida – principalmente nos casos de casamentos e empregos – deixam a comunidade. Mas novos membros também passam a habitar o outro lado da porteira, ingressando na grande família de moradores e tornando-se, por adoção de um modelo de vida, Arturos de fé e de coração.


Na vida diária, os Arturos se identificam com os brasileiros, com mineiros – inseridos no contexto sócio-cultural dos descendentes de escravos. Levados a deixar a terra, de onde retiravam antigamente os recursos para a subsistência, eles buscaram trabalho no espaço urbano.  Por causa da urbanização, as atividades primárias antes praticadas na comunidade foram colocadas em segundo e as fábricas e as empresas de prestação de serviços absorveram os trabalhadores Arturos.


A comunidade dos Arturos – enquanto portadora de uma tradição cultural – não se tornou impermeável aos processos externos de transformações sociais. Adere a essas mudanças escudada na tradição de que entre um Arturo e seu grupo, através dos tempos, foram entretecidos laços indissolúveis pelo caráter histórico e afetivo. E são esses vínculos que seguram e mantêm unidos os descendentes de  Arthur Camilo: a lembrança do pai, a presença da mãe, e a certeza de que a vida é um mistério, mistério controlado pela Senhora do Rosário. É esse passado, essa memória, que garantem a manutenção dos liames de parentesco, permitindo a realização da alegria no espaço da vida rotineira.


Saber-se Arturo é reconhecer-se portador de uma história na qual o negro teve de fazer-se forte para superar as opressões. E essa força veio da fé e da devoção á mãe divina, retirada das águas pelo amor dos filhos negros: a lenda da Senhora do Rosário confirma que ela adotou os órfãos de África.”


Texto
Núbia Pereira de Magalhães Gomes
Edimilson de Almeida da Pereira

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