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Contagem

A Fazenda do Confisco

A história dessa fazenda de nome estranho é antiga, quase da idade em que se principiou a exploração das minas chamadas Gerais. Ela fazia parte do complicado sistema de arrecadação de impostos do governo colonial português que tributava o gado e tudo mais que entrava para as ditas minas do rio das Velhas do Sabará, pela Contagem das Abóboras.


Era uma grande fazenda com funcionários, lugar em que se executava o confisco de negros e gados que chegavam irregularmente até a Contagem, sem documentação em ordem ou quando seus condutores não dispunham de numerário, dinheiro ou oitavas de ouro, suficiente para quitar o tributo. Confiscavam mercadorias entradas pela Bahia e vindas pelo sertão para as minas de ouro, prendiam seus condutores e levavam tudo para essa fazenda. Depois as mercadorias eram arrematadas. Com o tempo, passou a se chamar Fazenda do Morro do Confisco, por causa do morro que emoldurava a sua sede.


Todo esse aparato fiscal criado pela Câmara de Sabará, a partir de sua instalação, e depois encampado pela Coroa portuguesa, além de complexo, era extremamente burocrático, autoritário, arbitrário, violento. Exigia escrivões, soldados, fiscais, contadores, pesadores, peões e outros funcionários para arrecadar os impostos e taxas. O sistema tributário era ainda mais complicado, pois além da tributação das cargas e dos escravos, cujo pagamento era feito a peso de oitavas de ouro, tomava-se tudo que era possível do devedor que não tinha como pagar. Por isso, criavam-se locais para depositar as mercadorias e encurralar os animais.


Assim, os postos fiscais denominados de contagens dispunham de casas de registro, depósitos de cargas, bebedouros, comedouros, calabouços, casas para funcionários, currais.  A fazenda do Confisco fez parte desse complexo sistema arrecadador português dos tempos coloniais.


Para o historiador Abílio Barreto “o Morro do Confisco tomou essa denominação porque alguns boiadeiros acostumavam desviar o seu gado do registro da Contagem para não pagar as taxas reais, sendo que esse gado era confiscado ao passar por aquele morro”.


Em 1830, séria desavença eclodiu entre os Juizes de Paz  de Contagem, Manoel Alves de Macedo Brochado, e o juiz do Curral d’el Rei. O rastilho de pólvora fora aceso pelo vigário curralense, que tomou a providência de integrar à sede de sua freguesia os moradores das fazendas dos Carneiros e do Confisco, que tinham sido anexadas dezesseis anos antes à capela do arraial da Contagem das Abóboras. Na verdade, muitos de seus moradores invadiram as terras e delas tomaram posse, passando a cultivá-las, especialmente no Confisco, preferindo manter-se filiados à capela de São Gonçalo da Contagem.


Capelão por quase quarenta anos, desde 1797 até a sua morte em 1836, o Padre Joaquim José de Alvarenga, era muito querido na capelania e lutava pela criação da paróquia. Naquele tempo, a freguesia representava uma distinção e estágio para elevar o lugar à condição de vila, pretensão que já passava na cabeça de seus moradores mais antigos. Entretanto, de direito, com decreto e todos os ritos, a paróquia foi criada somente em 1854, depois de muita luta da população, prevalecendo a vontade daqueles habitantes de permanecerem contagenses, fiéis a São Gonçalo seu santo protetor.


No ano de 1837, a Câmara de Sabará prestou informações à Presidência da Província, relativa aos registros, tendo sido dito no documento encaminhado “que já não existe edifício algum dos antigos Registros que foram criados neste Município nos lugares denominados Sete Lagoas, Ribeirão d’Areia,  Abóboras,  Jequitibá e Zabelê, por se terem extinguido, e arrematados em hasta pública com todos os seus utensílios por bem de uma Provisão da extinta Junta da Fazenda datada de 7 de junho de 1809”. Presume-se que a fazenda do Morro do Confisco também tenha sido arrematada por esta mesma provisão.


Em documento datado de 23 de fevereiro de 1843 foi realizado o formal de partilha da fazenda do Confisco entre os herdeiros Manoel Nogueira de Menezes, sua esposa Maria Rosa de Queiroz e seu irmão José de Souza Menezes. A transcrição e o reconhecimento das firmas foram feitos por Peregrino de Paula Varella, escrivão da Subdelegacia do Juízo de Paz do Distrito da Contagem.


Em 16 de fevereiro de 1856, Manoel Nogueira registrou em seu nome a propriedade da fazenda no Primeiro Registro Paroquial de Terras do Distrito de Contagem, sob a denominação de “Morro do Confisco”, com 240 alqueires (cerca de 1.056 hectares) de terra, sendo 90 alqueires mais ou menos de cultura e 150 alqueires de campos de criar. Suas terras estavam localizadas onde hoje se encontram os bairros Novo Boa Vista, Presidente Kennedy, Cabral, Guanabara, São Joaquim, Arvoredo, Fazenda do Confisco e terras de herdeiros de Geraldo Rocha, dentro do município de Contagem, além das terras onde estão o Zoológico, o Conjunto Confisco e parte da Lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte.


As divisas citadas no documento de 1856 eram as fazendas da Boa Vista, à oeste, que na época pertencia ao Capitão Manoel Alves da Silva; da Gangorra, ao norte, cuja maior parte, com cerca de 108 alqueires, era de Manoel Luiz Brandão; e as duas partes menores, com 25 alqueires cada uma, de propriedade de Joaquim Cândido Nogueira e de José de Souza Menezes (o mesmo irmão de Manoel Nogueira), nela incluindo casa, moinho e curtume; à leste, com a fazenda do Bento Pires e dos Cardosos, já na freguesia Nossa Senhora da Boa Viagem do Curral d’el Rei; e, ao sul, com Cabral e Tapera, cujas terras não foram citadas no registro paroquial, presumindo-se fazerem parte do Campo Alegre da Ventania, com 390 alqueires de cultura e campos, pertencente a Manoel Dias de Oliveira em comum com os herdeiros de Manoel Higino Diniz.


Por volta de 1860, a propriedade da fazenda do Confisco foi adquirida por Manoel da Rocha Compasso que nesse tempo era proprietário da fazenda do Sumidouro, possuindo 100 alqueires declarados de terras, localizada no distrito de Venda Nova, pertencente à freguesia de Curral d’El Rei.


Na Certidão de Testamento de Dona Francisca Thereza da Costa, datada de 25 de agosto de 1888, extraída nos cartórios de Sabará anos depois, em 7 de agosto de 1911, tinha o seguinte resumido teor: Declarava ser filha de Manoel João da Costa, tendo sido casada com Manoel da Rocha Compasso, já falecido, de cujo casamento tiveram nove filhos, dos quais, naquela data, só existiam quatro, a saber: Antônio José da Rocha, casado com Florinda Emília da Costa; Francisco José da Rocha, com Rita Cândida de São José; Manoel da Rocha Compasso, filho, com Maria Eulália; e João da Rocha Compasso, solteiro. Foram designados testamenteiros seu irmão José Antônio da Costa Ferreira, seu sobrinho Antônio José da Costa Ferreira e seu filho Francisco José da Rocha.


Deixava o remanescente da sua terça de terras de cultura das fazendas do Vieira e do Confisco como herança para seus únicos três netos José, Joaquim e Maria, filhos de Antônio José da Rocha. O testamento foi assinado, a rogo de Dona Francisca Thereza, por Manoel Policarpo Martins e aprovado pelo escrivão do Juízo de Paz, José Alves de Mello Lima. A abertura do testamento se deu em Contagem, no dia 15 de agosto de 1.893, por Joaquim José da Rocha, 2º Juiz de Paz em exercício, que o recebeu de Quinquim da Rocha, por ter falecido naquela data a sua avó Dona Francisca Thereza.


Quinquim da Rocha casou-se com Rita em 1899 e foi morar com seu sogro no Mandu, fazenda vizinha às terras do Confisco, onde instalou uma pequena casa de comércio, às margens da estrada que ligava o arraial da Contagem com a recém-inaugurada Capital de Minas. O negócio da venda prosperou, permitindo-lhe acumular algum capital para iniciar a exploração das novas terras deixadas pela sua avó.


Ex-terras do governo português, arrematadas em hasta pública, com várias invasões ocorridas no decorrer do tempo, Quinquim da Rocha teve muito trabalho para providenciar a regularização e o registro da propriedade, depois de uma arrastada divisão judicial. Somente em 1.920 pôde, então, anunciar-se legítimo proprietário da fazenda deixada pela sua avó.


Poucos vestígios foram deixados onde outrora no sítio onde se achava instalada a antiga fazenda e os currais. Isto porque, no início da colonização, a precariedade das construções em taipa de pilão, uma massa feita de cascalho e saibro socados, fez com que nenhuma delas chegasse de pé aos dias atuais, pela pouca resistência do material à erosão das águas, a não ser os alicerces de pedra de mão.


Quinquim da Rocha, resolvendo o problema da captação e acumulação de água, pode construir, por volta de 1.915, um grande engenho, aproveitando as aptidões das terras à cultura da mandioca, transformando-se no maior produtor e fornecedor de farinha de mandioca para o crescente mercado belo-horizontino.


A nova casa da fazenda do Confisco foi construída em 1935, do lado de lá do ribeirão do Bento Pires, hoje impropriamente chamado de Sarandi, em local aprazível.  A casa era espaçosa e tinha todo o conforto para os padrões da época. Possuía energia elétrica produzida por turbina própria, instalações sanitárias e cozinha com água quente encanada. A edificação representou o coroamento dos esforços Quinquim da Rocha na atividade rural que ele exercia. Esse trabalho coincidiu com um tempo de profundas mudanças que ocorriam no Brasil. Era o tempo da revolução industrial.


Depois, Geraldo Rocha, filho de Quinquim da Rocha, transformou o casarão com parcimônia, procurando não descaracterizar a sua estrutura básica e a sua fachada, mantendo o seu estilo francês. Finalmente cedeu ao chamamento da comodidade e do conforto do tempo contemporâneo, trazendo a energia da CEMIG, instalando piscina e uma área de lazer para os filhos.


Desistindo de cursar Agronomia em Viçosa, Geraldo Rocha decidiu ficar na fazenda e realizar seu projeto: utilizar melhor as terras, modernizar a lavoura e ampliar o fornecimento de hortigranjeiros para o Mercado Central de Belo Horizonte. Em 1936, com ajuda do pai, adquiriu um caminhão e passou a transportar lenha. Possuir um veículo automotor era um avanço considerável para aquela época em que ainda se fazia o transporte em carroças de boi. Associou-se ao português mestre-de-campo José Horta Monteiro, iniciando a drenagem das vargens, onde iriam implantar uma agricultura mais produtiva. Em 1938, o calçamento da estrada que ligava o centro de Belo Horizonte ao lugarejo denominado Ressaca, que havia sido implantado pelo Prefeito Otacílio Negrão de Lima, fora estendido até ao Balneário, o que beneficiou enormemente o transporte motorizado.


As décadas de 40 e 50 foram épocas de intensa atividade no Confisco. A fazenda se consolidou como grande abastecedora de Belo Horizonte. A cidade já contava com mais de 600 mil habitantes e crescia aceleradamente. Geraldo Rocha implantou uma agricultura moderna baseada na horticultura. O plantio de tomate, batata inglesa e alho irrigados, além das culturas tradicionais de feijão, arroz, milho e mandioca geravam emprego para muitas pessoas.


Promoveu-se uma verdadeira divisão do trabalho na fazenda: Quinquim da Rocha cuidava da pecuária bovina, da produção leiteira, dos pastos, das capineiras para forragem e dos currais; Geraldo Rocha era o agricultor e mantinha a horta, as roças, os pomares, o engenho de farinha, os moinhos de fubá, além da criação de suínos com mais de quinhentas cabeças; Amélia Rocha, irmã de Geraldo, administrava a exploração do Porto de Areia, como era chamado o local de extração, onde todos os dias carregavam os caminhões que se dirigiam para a Capital.


Em 1949 Geraldo Rocha promoveu uma cultura inovadora na Fazenda do Confisco, introduzindo o plantio de trigo. Foi uma experiência pioneira no município de Contagem, levada a cabo com muito entusiasmo e com o apoio da Repartição Estadual do Fomento Agrícola do Ministério da Agricultura. Para realização do projeto, o governo federal forneceu as sementes e toda maquinaria necessária à preparação da terra, plantio e colheita do cereal. Utilizaram-se as melhores terras para o cultivo e quando a seara estava madura a várzea ficava parecendo um mar dourado. A colheita daquele ano foi registrada fotograficamente e contou com a participação de autoridades estaduais e municipais da época.


Ao final da década de 60 e início dos anos 70 Geraldo Rocha ampliou e consolidou a cultura do vime, fibra cultivada somente no sul do país, própria para fabricação de móveis e ornatos. Essa atividade se constituiu em outra inovação que alcançou sucesso, transformando a Fazenda do Confisco em grande produtora e exportadora da fibra para outros estados.


Nos dias de hoje da varanda da fazenda se descortina, em direção a Pampulha, a Avenida Sarandi, o casario do Serrano e os espigões do Bairro Ouro Preto, que ali permanecem como testemunhas implacáveis da chegada da cidade. A propriedade, que foi adquirida pela família Rocha por volta de 1860, mantém-se como cenário e referencial de várias gerações, que sempre estiveram voltadas para a produção agrícola e a pecuária, contribuindo para o progresso econômico de Contagem e da Capital e, porque não dizer do próprio Estado de Minas Gerais.


Em 1998 a sede da Fazenda do Confisco foi transformada no Granvia, destinado a promoções de eventos, como uma alternativa de espaço desta natureza para o mercado metropolitano. O Granvia nasce, portanto, dentro de uma propriedade que possui sua história atrelada aos tempos coloniais de Minas.

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