Destinos

Ouro Preto

Lembrança de Ouro Preto

De automóvel, não se chega a Ouro Preto: brota-se em pleno centro da cidade, ao pé da estátua de Tiradentes. É aquela cor esbranquiçada de osso muito seco e esquecido há séculos sob a luz do sol - tonalidade que nenhum pintor surpreendeu ainda - a da cidade morta e descarnada.


Na janela, uma velha desdentada espia a rua. Está ali há cento e cinquenta anos. Me lembro do museu - se eu perguntar pelo museu, ela é capaz de me indicar o caminho.


- Pela rua da escadinha?

- ...

- Mas me desculpe, meu carro não sobe escadinha.

- ...

- Não há outro caminho?

- ... o museu?

- Sim, o museu.


Ela sacode a cabeça, como se estivesse viva:


- Moço, a cidade toda é um museu.


Com essa, arrepio caminho - a cidade me repele, repele os automóveis: para reencontrá-la eu devia ter vindo a pé, palmilhando a poeira das longas estradas de Minas.


Então vou comprar de lembrança uns objetos de pedra-sabão. E me despeço, sem ter encontrado, em apenas meia hora de passagem, a lembrança de outros dias. Naquele clube houve um baile: vermelho, estrelas, coração. Na sacada em penumbra comparei a um raio de lua a lívida mão de namorada que pousou na minha mão. E outras emoções de juventude ainda mais puras, que estas ladeiras testemunharam: encontros, desejos, promessas de amor - ânsia de eternidade de um candidato ao esquecimento. E foi um instante apenas, muito fugaz para ser lembrado, é pouco, o tempo é pouco, tenho de partir.


- Quanto tempo o senhor acha que eu precisava para rever Ouro Preto, visitar essas igrejas, dar uma olhada em tudo isso?


- Uns cinquenta anos, talvez nem tanto - responde o velho, coçando a barba, irresoluto.


Descubro, então, que está ali outro tanto, naquela esquina, esperando um encontro qualquer - talvez comigo - que desvende para ele o mistério de Ouro Preto e a fatalidade que o faz habitante.


SABINO, Fernando. Lembrança de Ouro Preto. In A mulher do vizinho. 4ª Edição. Rio de Janeiro: Ed. Sabiá, 1962.

Enviar link