Destinos

São Sebastião do Paraíso

Lenda da Maria Engomada

A atual praça Com. João Alves (praça da Fonte Luminosa), serviu de cemitério de 1853 a 1897, quando foi desativado. Os poucos túmulos e "carneiras" foram desfeitos, os restos de ossos humanos foram recolhidos no "ossuário" do atual "campo santo". Os muros de "taipa" (terra socada), com o tempo ruíram por terra e naquele local somente esguias palmeiras ficaram em pé e no alto de suas folhagens, corujas costumavam se esconder.


Sem iluminação até por volta de 1910, o antigo cemitério passou a ser considerado "local assombrado". Contribuiu para isso o seguinte fato: por volta de 1855, o Circo Aretuzza chegou na cidade e foi armado ao lado da antiga Igreja N.S. do Rosário (região central da cidade). Dentre seus artistas havia um jovem e simpático amestrador de pôneis.


Quando Maria, gentil donzela de seus 18 anos, morena faceira de rosto arredondado e tristonhos olhos castanhos, filha de uma viúva da classe média, moradora lá pelos lados da Rua Tiradentes, trocou um olhar com o jovem artista do circo, ficou apaixonada. Paixão à primeira vista. Apesar da oposição de sua mãe e da rigidez própria daquela época, Maria encontrou-se com o namorado diversas vezes.


Daqui, o circo foi para Passos, cidade vizinha, de lá para Jacuí e desta para Guaxupé. Nesses dois meses que mencionado circo ficou na região, por diversas vezes o domador de pôneis dava um jeitinho e vinha visitar a jovem Maria. Da última vez, pediu a mão da moça em casamento, sendo aceito, em princípio com certa relutância por parte da futura sogra, dado à condição de ser ele artista nômade (hoje aqui, amanhã acolá). Mas, a tudo venceu a teimosia de Maria de se casar com o mencionado amestrador de pôneis.


Ficou combinado que o casamento dar-se-ia dali a trinta dias, às 17 horas na Igreja Matriz. Antes de se despedir da noiva, ele deixou com ela a documentação necessária e partiu, deixando Maria com o coração partido.


No dia combinado, ele não compareceu para o almoço; começo de apreensão por parte da jovem e da mãe dela, quem sabe até ás 14 horas ele chegaria, mas nada, 15 horas, nada. 16 horas e... o noivo não apareceu. Maria começou a dar mostras de choro nervoso. Mas, tudo bem! Ela se preparou, vestindo um vestido branco, todo engomado, conforme o seu gosto.


Ela, a mãe e os convidados foram para a Igreja esperar o noivo, certamente ele chegaria na hora do casamento. O padre, o sacristão, noiva, mãe, convidados, todos passaram a esperá-lo. O relógio da Matriz bateu 17 horas. Ele não apareceu... e assim os minutos... penosos minutos, foram passando e nada do noivo. Até que lá pelas 18:30 horas, todos, tomados de geral desconforto, deram por acabada aquela espera. Maria, humilhada, chorosa, recolheu-se com sua mãe em sua casa. Guardou o vestido branco engomado numa canastra e pensou: "Quando eu morrer quero ser enterrada com este vestido. Não tive gosto de vesti-lo em vida, vesti-lo-ei quando eu for morta."


Os anos passaram, mencionado circo nunca mais voltou a Paraíso e, do moço, Maria jamais teve noticia. Ela, de alegre e comunicativa que sempre fôra, passou a ser uma pessoa triste, marcada pela desventura. Poucos anos depois, falecia sua velha mãe. Por sua vez, Maria faleceu em 1895, com 58 anos de idade, e, satisfazendo sua vontade, foi sepultada naquele cemitério com o vestido de noiva engomado.


Depois de sua morte, nas noites de sexta-feira, quando o relógio da Matriz, ao bater as badaladas da meia noite, dizem, ela costuma aparecer sobre as palmeiras do antigo cemitério. Suas aparições são assim: de repente, eis que surge uma figura branca, de véu e grinalda, até meio corpo, sobre uma palmeira. Logo desaparece para surgir, agora de corpo inteiro, sobre outra palmeira. Volta a desaparecer para ressurgir, agora compridona sobre outra árvore e fica assim , assombrando pessoas, pelo espaço de bons minutos. O curioso é que somente à meia noite de sexta-feira tal acontecia ou acontece, principalmente na quaresma...


É a infeliz noiva enganada, a aguardar aquele volúvel artista de circo!


Autor: Doutor Luiz Ferreira Calafiori historiador e membro da Academia Parisense de Cultura

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