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Brumadinho

A Cerâmica Artística produzida em Palhano

A produção de cerâmica, palavra originada do grego “κeραμο”, que significa argila, é a atividade de produção de artefatos a partir de argilas que tornam-se muito plásticas e fáceis de moldar quando umedecidas. Após submetida a uma secagem lenta à sombra, para retirar a maior parte da água, a peça moldada é submetida a altas temperaturas que lhe atribuem rigidez e resistência, mediante a fusão de certos componentes na massa, conferindo-lhe cores e propriedades diversas, inclusive fixando os esmaltes das superfícies.


A produção de cerâmica pode ser uma atividade artística na qual são produzidos artefatos artesanais com valor estético, ou uma atividade industrial, através da qual são produzidos artefatos com valor utilitário.


De acordo com o material e técnicas utilizadas, classifica-se a cerâmica como sendo: Terracota - argila cozida em forno, sem ser vidrada, embora, às vezes, possa receber elementos vidrados e pintura antes ou depois da queima; Cerâmica Vidrada, a exemplo dos azulejos; Grês - cerâmica vidrada, às vezes pintada, feita de pasta de quartzo, feldspato, argila e areia; Faiança - louça fina obtida de pasta porosa cozida a altas temperaturas, envernizada ou revestida com esmalte sobre o qual pintam-se motivos decorativos.


As peças de cerâmica mais antigas conhecidas pelos arqueólogos foram encontradas na região da atual república Tcheca, datando de 24,500 a.C. Outras importantes peças cerâmicas foram encontradas no Japão, na área ocupada pela cultura Jomon, há cerca de oito mil anos, talvez mais. Peças assim também foram encontradas no Brasil, na região da Floresta Amazônica, com a mesma idade. São objetos simples.


A capacidade da argila de ser moldada, quando misturada em proporção correta de água, e de endurecer após a queima, permitiu que ela fosse destinada ao armazenamento de grãos ou líquidos, que evoluíram posteriormente para artigos mais elaborados, com bocais e alças, imagens em relevo, ou com pinturas vivas que possivelmente passaram a ser considerados objetos de decoração. Imagens em cerâmica de figuras humanas ou humanóides, representando possivelmente deuses daquele período, também são freqüentes.


Parte dos artesãos também chegou a usar a argila na construção de casas rudes. Em outros lugares, como na China e no Egito, a cerâmica tem sido produzida há aproximadamente 5.000 anos a.C., tendo como destaque especial o túmulo do imperador Quin Shihuang e seus soldados de terracota. No Egito, a arte de vidrar data de aproximadamente 3.000 anos a.C.. Colares de faianças vidradas aparecem entre as relíquias do terceiro milênio, juntamente com estatuetas e amuletos. O mais velho fragmento de cerâmica vidrada foi feito em policromia, trazendo o nome do rei Mens, do Egito.


Outras manifestações importantes na história da cerâmica foram encontradas entre os Babilônios e os Assírios que utilizavam cerâmicas com ladrilhos esmaltados em azul, cinza azulado e creme, e, ainda, relevos decorados ( Século 6 a.C.), bem como entre os Persas com a fabricação de objetos em argila cozida com apresentação de alto brilho, e das cores obtidas misturando óxidos metálicos, método usado na atualidade.


Com o tempo, a cerâmica foi evoluindo e ganhando os nossos dias, mas não sem contar com os esforços dos gregos, romanos, chineses, ingleses, italianos, franceses, alemães, japoneses e norte americanos.


Com possível exceção do fabrico de tijolos e telhas, geralmente utilizados na construção desde a  antiguidade na Mesopotâmia, desde muito cedo, a produção cerâmica deu importância fundamental à estética, já que seu produto, na maioria das vezes, destinava-se ao comércio. Talvez por esta razão a maioria das culturas humanas, desde seu alvorecer, acabou por desenvolver estilos próprios que, com o passar do tempo, consolidaram tendências e evoluíram no aprimoramento artístico, a ponto de se poder situar o estado cultural de uma civilização através do estudo dos artefatos cerâmicos que produzia.


Quanto à capacidade de expressão artística propiciada pela cerâmica, o ceramista Rodrigo Nunes assim se expressou: “É normal pensar que a cerâmica seja um processo estritamente dependente da manualidade, pois, ele nasce justamente dela, mas fazer cerâmica não se restringe somente à produção de objetos; fazer cerâmica é pensar sobre o processo, é vivê-lo intensamente, aprender com ele, observá-lo e descobri-lo. De muitos caminhos possíveis a serem descobertos neste processo, destaco aqui o tempo e o diálogo.


Já de início, a matéria (argila) nos impõe a iminência do tempo, o tempo de sua maturação, de seu preparo, da espera pelo melhor momento de ocar, levantar a parede, de costurar, secar, queimar, etc., e cada um destes tempos têm seu momento específico. Para respeitá-lo e melhor aproveitá-lo temos que vivê-lo no momento exato, nem antes nem depois. É o presente de cada etapa que devemos aproveitar.


Em um mundo onde os acontecimentos passam tão rápido, onde temos pouco tempo para vivermos nossa própria vida, a cerâmica nos faz parar e perceber este presente que seguidamente perdemos entre a ansiedade do futuro e o arrependimento do passado.


Quando paramos e percebemos este momento presente, a cerâmica nos revela uma outra coisa: que não estamos sozinhos. A matéria está em constante diálogo conosco, ela nos impõe ações e reações, está viva e nada passiva. É necessário aprender a ouvi-la, não para dominá-la, mas sim, para compreendê-la. Engana-se quem acha que o diálogo está somente no processo de modelar, ele estende-se na secagem, na queima, no revestimento, enfim, em todo o processo. É preciso aprender principalmente com os erros, aceitá-los e compreendê-los. O inesperado, a surpresa, o que foge de nosso pseudo controle ajudam a construir uma linguagem própria e autêntica.


Em meados da década de 1970, esta expressão artística foi introduzida no município de Brumadinho, no Povoado de Palhano, Distrito de Piedade do Paraopeba, pela ceramista japonesa Toshiko Ishii, transformando o local numa referência em pesquisa da cerâmica, conforme matérias transcritas a seguir.


Ceramistas Toshiko Ishii, Erli Fantini, Inês Antonini e Adel Souki transformam Piedade do Paraopeba em referência na pesquisa da cerâmica (
Matéria produzida por Sergio Rodrigo Reis, publicada no jornal Estado de Minas em 16 de maio de 2005)


Foi em um dia de chuva, em meados dos anos 70, que a ceramista japonesa Toshiko Ishii chegou com a família à região de Piedade do Paraopeba, no município de Brumadinho, à procura de uma fazenda para comprar. Na época, o lugar era ermo, não existia nada naquelas terras. Chovia muito no dia e, por causa da força da água, começaram a aflorar do chão, restos de cerâmica indígena. Apaixonada pela técnica milenar desde os tempos em que vivia em Kioto, no Japão, ela interpretou a descoberta como um sinal e decidiu, naquele instante, mudar definitivamente para o lugar e passar a se dedicar ao ofício. Sempre quis fazer cerâmica. Quando vivia em São Paulo não tinha como e, no Japão, essa arte é só para iniciados. Amadores não podem fazê-la, explica a artista, de 94 anos. Cinco anos após a mudança, as ceramistas mineiras Erli Fantini e Adel Souki tiveram a notícia de que existia uma senhora que mantinha ateliê a 30 quilômetros da capital e trabalhava a argila influenciada pelos traços da cultura japonesa. Elas decidiram conferir. O lugar era de difícil acesso, ainda não havia estrada e, ao chegar à fazenda e ver de perto a produção da artista oriental, as duas se encantaram e tentaram uma primeira aproximação. Como ela só se comunicava em japonês com os parentes e sabíamos desse detalhe, levamos um tradutor. À medida que o papo avançou, percebemos afinidades. Assim como nós, ela se preocupava com questões ligadas aos resultados da queima e do uso das cinzas no processo, lembra Adel Souki. A afinidade de pensamento foi o que uniu as artistas e, atualmente, ao lado de Inês Antonini, o grupo, ancorado pela nipo-brasileira, tornou a região referência na pesquisa da manifestação artística.


Para ficarem mais próximas de Toshiko Ishii, Erli, Adel e Inês Antonini construíram seus próprios fornos a lenha, do tipo japonês, em propriedades próximas. Atualmente, o trabalho pesado das queimas é dividido entre elas. O forno a lenha japonês alcança temperatura de até 1.300ºC e as peças permanecem dentro dele durante 70 horas, procedimento diferente dos fornos a gás ou elétrico, em geral, mais rápidos. As queimas acontecem quase como rituais. Na ocasião, que se repete nos períodos de pouca chuva, são organizadas equipes que se revezam, dia e noite, “alimentando” o forno com lenha, para não deixar a temperatura baixar. Nessa técnica, as peças são levadas ao forno a lenha sem esmalte e queimadas durante um longo tempo, até que as cinzas comecem a cair sobre elas e produzam texturas surpreendentes, de diferentes cores e nuances. O que importa, ao injetar lenha no forno, é criar um fluxo de caloria que atue da melhor forma possível nas peças lá dentro. O resultado sempre estará ligado à trajetória do fogo dentro do forno”, explica Inês Antonini. Outro componente que influi no processo é o tempo de queima. Erli Fantini diz que, quanto mais lento for o processo, mais tempo a cinza terá de se depositar sobre as peças e produzir efeitos. Quando a temperatura chega ao nível mais alto, as cinzas se fundem transformando-se em esmalte. Mesmo com a experiência de anos na técnica, o fascinante no processo se dá por não conseguirem prever totalmente os resultados. É sempre uma surpresa, conta Inês, explicando que a argila de alta qualidade encontrada na região foi outro motivo de elas terem sido atraídas ao lugar. Inspiradas na sabedoria de vida de Toshiko Ishii, as mineiras têm motivos especiais para se dedicar à técnica. É um aprendizado constante. É como minha própria vida”, afirma Erli, tentando traduzir a sensação. A artista Inês Antonini vai mais além: É algo como uma paixão. Mais que isso: é a salvação de minha alma. Precisava de algo que me integrasse interiormente. O contato com a terra e o fogo me permite trabalhar de forma mais intensa. A ceramista oriental, por sua vez, acha que o que mais valeu a pena, nestes anos todos dedicados à arte, foi o aprendizado conjunto: Não sou mestre de ninguém. Somos amigas e fomos aprendendo juntas. Queria que os brasileiros conhecessem a técnica japonesa e encontrei uma turma interessada, fala. Para Erli, o que mais valeu a pena foi a relação de compartilhamento. Trocamos idéias. Não nos fechamos em nossos próprios mundos. Aprendemos juntas e dividimos. Entre artistas, esse é um comportamento raro, conclui.


Matéria produzida por João Paulo, Editor de Cultura, publicada no jornal Estado de Minas em 11 de agosto de 2007:


Em 30 de julho, a arte perdeu uma de suas figuras humanas mais admiráveis. A pequena Toshiko Ishii, ceramista dona de técnica milenar, depois de muitas décadas vivendo no Brasil, morreu aos 96 anos. Discreta como sempre foi, apenas amigos próximos acompanharam os últimos momentos da artista. Além de peças de beleza única, Toshiko foi mestre de uma geração de artistas mineiros. Em Piedade do Paraopeba, na região de Brumadinho, Toshiko montou seu ateliê em meio às montanhas, pedras e plantas. Toda a matéria de sua arte, todas as cores de suas peças, toda a motivação de sua vida se dispunham à sua volta.


Toshiko trazia para a cerâmica a memória de sua gente, as lições de seus mestres (ela conviveu com a artista Tomie Ohtake, em Kioto) e a ética exemplar de não separar a utilidade da beleza. Em busca de suas lições, como seguindo uma tradição mística, vários artistas seguiram seu exemplo e, num tropismo esteticamente orientado, trataram de montar ateliês na vizinhança de Toshiko. Foi assim que as ceramistas Inês Antonini, Erli Fantini e Adel Souki se estabeleceram nas curvas das mesmas serras, sob a luz do mesmo horizonte, para aprender com o ritmo das mãos de Toshiko.


Não se tratava de uma comunidade acadêmica, mas de um falanstério artístico. As ceramistas procuraram estar perto de Toshiko, que chegou à região em meados dos anos 1970. Até o fim da vida, a artista nipo-brasileira falava português com dificuldade. A comunicação, como em suas peças, se dava de alma para alma. A proximidade com Toshiko traduzia outra via para o ensino: a ética dos mestres. Em Grande Sertão Veredas, Guimarães Rosa escreveu que mestre não é o que ensina, mas o que, de repente, aprende. Ensinar, de certa maneira, é exercitar a dúvida em companhia de pessoas próximas. O ensino só é possível para quem se dispõe a aprender.


A arte pedagógica de Toshiko se dava a partir dos elementos da natureza, como o barro. Sua mestria era dar voz ao fogo. A técnica de Toshiko exigia um forno tradicional japonês, aparentemente frágil, mas capaz de chegar a 1.300 graus. A alta temperatura exige atenção e cuidado. O forno precisa ser alimentado com método e carinho. A queima, que pode durar muitos dias, colocava a frágil Toshiko em guarda, com suas colaboradoras, em torno dos caprichos dos elementos. Imaginar a cerimônia de moldar as peças, escolher os pigmentos, acender o fogo e tratá-lo como a uma criança, aguardar a passagem das horas e se abrir à expectativa do resultado final é entender um pouco da transmissão da arte de Toshiko.


Ela fabricava beleza como quem ensina ao mundo que é preciso tempo. Ela ninava o tempo com zelo, como quem sabe que a beleza dá sentido à existência. No trabalho de Toshiko, nada se perdia. Sua sobras trazem inclusive a marca das cinzas que se desprendiam da lenha, criando texturas. Era algo não controlável, como as cores que daí brotavam.


A artista era mestrada no ofício da cerâmica e por isso humilde a seus caprichos. O que acrescentava de seu ao material era a humildade. A atitude de suas alunas, que mudaram de vida para compartilhar a proximidade com a mestra, não deixa de ser uma de suas obras mais importantes. A marca de Toshiko, mais que a matéria de que são feitos seus objetos, está na sensibilidade que ela desenvolveu em torno de seu exemplo. O calor de sua experiência moldou outros caminhos artísticos.
A arte existe, também, para criar mais arte. Passamos todos nós a vida em busca de exemplos. Quase sempre trocamos a rica experiência da proximidade com pessoas excelentes pelo prazer da fruição de resultados de pessoas eficientes. Somos escravos do sucesso. A tradução da vida bem realizada em torno de índices materiais se tornou um absoluto, um triste equívoco existencial. Quase sempre os mestres não deixam nada que justifique sua vida. Alguns livros, umas poucas peças de barro queimado, poemas e discípulos. Quem não entende a beleza da vida consagrada ao aprendizado jamais vai se emocionar ao ler Aristóteles confessar que sua vida podia ser resumida assim: “Nasceu, trabalhou, morreu”. Os dois limites da vida são sempre solitários. É no meio que se desenha nossa maior possibilidade de humanização: somos seres para o outro, para a aprendizagem, para o compartilhamento.


Viver deve significar exatamente isto: o projeto de ser com o outro, a sede de comunhão. Há muitos caminhos ensinados pela história. Alguns deles dividem os homens em grupos e entre eles, os donos de verdades que não se misturam e geram ódios. Outros parecem sorver a inclusividade como destino maior da nossa espécie. O sentimento de fraternidade é o limite máximo de nosso processo de construção como seres humanos. Se a religião e a política parecem se nutrir do primeiro elemento, que divide em nome de uma síntese arbitrária, a arte parece carregar o condão do segundo caminho, pois tem como projeto vencer pela beleza. Toshiko foi aos elementos mais duros e à tradição mais arcaica para reescrever essa história. No caminho encontrou alunas e pessoas capazes de entender seu esforço, respondendo à sua arte com a emoção e a seu ensinamento com a humildade.


João Paulo

Editor de Cultura – e-mail:

jpaulo.cunha@uai.com.br


INÊS ANTONINI

A Galeria de Arte Copas apresentou, de 1º de junho a 1º de julho de 2007, a exposição “Sigilo”, da artista plástica e ceramista Inês Antonini. Esta foi a segunda das cinco exposições selecionadas, para 2007, pelo 6º edital de Concorrência Pública do espaço. “Sigilo” trouxe aproximadamente 40 obras feitas em argila (grés, porcelana e semiporcelana) misturada com materiais diversos (pigmentos naturais, chamote e fibras), que lhe dão cores, texturas e resistência. As peças foram queimadas em forno a lenha tipo “anagama”. Trata-se de uma técnica secular de queima japonesa – o Bizen, introduzida em Minas Gerais pela ceramista Toshiko Ishii que, aos 96 anos, mantém seu ateliê na Serra da Moeda. É nesta mesma região que Inês Antonini construiu o seu forno. Utilizando uma técnica rudimentar, as obras são delicadamente empilhadas e separadas por palha de arroz e conchas do mar para evitar que se colem umas nas outras. Cada queima tem a duração de 60 a 70 horas e atinge uma temperatura de 1300ºC. Depois de lacrar o forno, ele só é aberto uma semana depois, quando as peças são retiradas e esfriadas. A ação do fogo e a deposição das cinzas nas peças levam a resultados imprevisíveis, gerando cores, luzes e sombras surpreendentes nas obras. Elas adquirem características únicas, impossíveis de serem repetidas. Segundo a artista, “a técnica Bizen é ao mesmo tempo rudimentar e sofisticada, pois o fogo, o tempo e o destino atuam na busca de uma linguagem poética no objeto cerâmico”.


LINGUAGEM MISTERIOSA
- Há alguns anos, a artista começou a imprimir os fragmentos de suas próprias peças (que ela também chama de “volutas”) em outras obras de sua criação. Surgiu, então, uma linguagem secreta e misteriosa, repleta de signos e símbolos. “Meu trabalho é baseado no silêncio e no segredo contidos no ato de dar forma ao barro, esta matéria primeira da vida do homem”, conta a escultura. Daí vem o título da exposição que ela apresenta na Galeria de Arte Copasa, “Sigilo”.


Os resultados são as caixas construídas a partir de blocos de argila cortados e escavados. Elas acondicionam uma série de carimbos e selos criados também em argila. Algumas caixas são abertas, outras têm tampas. Algumas possuem lacres feitos com tiras de couro, onde podem ser encontradas pequenas placas de porcelana que lembram hóstias.


Outras obras são grandes rolos de impressão construídos para gravar imagens na superfície do próprio barro, papel ou tecido.


Todas as obras, de acordo com Inês Antonini, podem ser tocadas, vivenciadas pelo público, pois trata-se de um trabalho táctil. Para a escultora, “a obra retrata uma busca para tentar desvendar os mistérios que envolvem a própria vida”. O mistério, aliás, que ela quer compartilhar com os visitantes da exposição. “Todos nós queremos comunicar, tornar as nossas descobertas abertas ao público”. E arremata: “nesta exposição, quero ampliar esse canal com o público, convidando-o a participar desta busca”.


Inês Antonini nasceu em Belo Horizonte, em 1946. Formada em História, optou por atuar profissionalmente na arte quando morou nos EUA (1988/90). O interesse pela cerâmica levou-a a buscar sua formação técnica na Southwest School of Arts and Craft (EUA), referência internacional na sua arte. De volta ao Brasil, participou de diversas mostras individuais e coletivas.


A inauguração de seu ateliê, em 1998, iniciou um novo período de pesquisas, envolvendo técnicas mais elaboradas. Seu trabalho atual envolve uma procura de uma linguagem pessoal, única através da simplicidade da argila. A escultora é considerada uma das maiores ceramistas mineiras.


ERLI FANTINI
Erli Fantini fala sobre seu trabalho e suas obras do seguinte modo:


“O cotidiano é o que me fortalece para o momento da criação. Todos os sentidos são observados. Criar tem de ser um exercício diário. Viver e criar são uma só coisa e devem estar sempre juntos. Mesmo aquilo que aparentemente é simples ou sem importância, no decorrer do processo é valioso. As construções foram surgindo a partir de uma memória recente, como também de lembranças passadas acrescidas de fantasias.


Surge daí uma cidade imaginária, aberta para outros momentos de criação, permitindo o renascimento de novas cidades.


Erli Fantini nasceu em 1944 na cidade de Sabará, MG. Possui bacharelado e licenciatura em Artes Plásticas, com especialização em Desenho pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).


ADEL SOUKI
Depoimento
de Márcio Sampaio


Adel Souki realiza na cerâmica a metáfora da criação do mundo, construindo com seus objetos, esculturas e instalações os sinais que indicam caminhos para um possível entendimento da vida. Em seu depoimento, vislumbramos um mapa em que a artista demarca territórios, registra acontecimentos, evoca histórias, traduz impulsos, desenha caminhos com suas cruciais escolhas de rumo.


Adel concentra em suas esculturas essas mesmas forças e substâncias dos povos antigos que moldaram na argila da vida a História, fazendo prevalecer com suas intuições mágicas a força do espírito e seu movimento solar que produz o conhecimento. Para a artista, restaurar para a modernidade esses sentidos não será apenas dar forma nova a antigas configurações.


Galeria da Cemig mostra Como fazer uma casa

A Cemig apresentou em agosto de 2008, em sua Galeria de Arte, a exposição Como fazer uma casa, da artista Adel Souki. De acordo com a artista, “Como fazer uma casa” é como construir uma vida, consciente de seus mistérios, aceitando os destroços que encaminham à morte. A instalação consiste de um muro, escultura em cerâmica de 11,7 x 2,2m, incorporados de pedaços que já foram essenciais à vida, e 55 construções de interiores com indicações necessárias a um abrigo, como: parede, poço, escada, esconderijos e refúgios. Tudo para tentar abrandar a aridez da vida. "A idéia é que, reinventando a vida através de construções, de paredes, a memória se torne visível e o mistério da morte passe a ser parte dela", diz Adel.


"Na construção do muro, o barro foi composto com pedaços de cerâmica que foram essenciais na minha vida. Nas pequenas construções, o barro vem com areia e pedras de desertos esquecidos", explica a artista. A cerâmica é a linguagem nas representações das memórias de Adel Souki.


Em uma de suas últimas oficinas (O Circuito da Cerâmica - Dias de Argila e Fogo) realizada em seu ateliê, localizado no Povoado de Palhano, no Distrito de Piedade do Paraopeba, em Brumadinho, seu trabalho teve enfoque em engobes e óxidos de uma maneira ampla, montagem de peças usando placas e rolinhos e uso de formas na execução de peças através de queima primitiva.


ADEL SOUKI fala sobre a queima das cerâmicas e as lições da Toshiko


"A queima começa com o pré-esquente, fogo fora do braseiro para acabar de secar as peças. O fogo entra devagar e depois de 24 horas do início da queima é o momento de acumular brasas para preparar o aumento da temperatura. A cada fase, usamos a lenha específica para alimentar o fogo: eucalipto, grande, médio ou rachado, pínus, madeiras roliças, catados no mato, tudo cortado com um metro de comprimento. Em cada queima, cinco a seis metros de lenha são consumidos.


No segundo dia, à tarde, é hora da troca do fogo. A lenha que antes entrava pela porta de baixo passa a ser colocada pela porta superior, que permanece como abertura de ar até o final da queima. Acompanho a temperatura pela cor do fogo e pela indicação dos cones pirométricos, que servem de referência. A partir de 1000ºC cuido para que a atmosfera do forno seja oxidante e, a temperatura, homogênea. É necessário especial atenção na escolha da lenha que, caso seja muito grossa, pode causar uma redução e interromper as cores que poderiam surgir. Uso as lenhas mais finas e restos de construção, que rapidamente se transformam em cinza e brasas.

O som tem um significado especial nesse momento. A escuta do fogo é necessária. Os sons de ar na porta e do fogo na chaminé indicam a temperatura acima de 1100ºC. O sopro, o assobio e a parada também são sinais característicos. Já a cor da fumaça na chaminé e a cor do fogo nas peças anunciam o momento certo de colocar mais lenha pela porta da frente. A temperatura a ser alcançada é de 1280ºC, que é sinalizada pelos cones pirométricos colocados dentro do forno.


Toshiko, que me acompanhava nas primeiras queimas, usava uma palavra japonesa para tentar me fazer paciente nesses momentos de exaustão, em que o fogo se negava a subir: gaman. Dizia ela que gaman é calma, é ter paciência com decisão de suportar. É dar tempo ao tempo."


Natural de Divinópolis, Minas Gerais, Adel é formada em Letras Anglo-germânicas, pela Pontifícia Universidade Católica - PUC. A matéria básica da exposição é o barro. A artista estudou na Escola Guignard, fez vários cursos de extensão, voltados para cerâmica na Holanda, França, Inglaterra, Estados Unidos, São Paulo e Rio de Janeiro.


O Sonho de Toshiko
Antes de seu falecimento em julho de 2007, a ceramista Toshiko Ishii manifestou sua vontade de difundir sua arte entre os membros da sua comunidade em Palhano. Sua filha Tsuê Ishii, juntamente com as ceramistas já citadas neste texto, está empenhada em viabilizar o sonho de sua mãe. A equipe do Senac / Ceplad manteve entendimentos com o grupo visando encontrar alternativas para transformar o sonho de Toshiko em realidade, através da proposição de ações de capacitação para a formação de novos artistas e implantação de novos ateliês.

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