Destinos

Pedralva

A lenda de Pedralva


                                                   por Cláudio Souza Bustamente


Itaaçu (pedra grande) chegou, não como prisioneiro, mas como visitante. Forte e guapo. Trazia o corpo pintado e cheio de enfeites. Era bonito como o arco-íris. Dos pássaros tirara aquela profusão de cores. Chegou e ficou. A tribo não lhe perguntaria nunca quando iria embora, ele sabia disso. Passara por aquela aldeia por passar, vinha de outras plagas longínquas. Fora recebido e, ao beber manicuera (bebida de mandioca) na cuia que lhe oferecia Itatinga (pedra branca), encantou-se dela. E a cunhantã (menina-moça) dele. Por isso ficara. Não se atreve a declarar ao Pajé estar enamorado da filha, já que ela era comprometida de Botutu, o maior dos guerreiros da região, o mais intrépido caçador.


Uma noite Jaci (a Lua) enfeitiçou o coração de Itatinga. Deu-lhe ânsias de amor, ofuscando-lhe a razão, e ela, iluminada pela deusa pagã, e arrulhando qual rola terna, foi ao encontro de Itaaçu.


- Oh Jaci, por que me feres? Diz o jovem índio e atende ao apelo da amada. Sabe que seu amor é condenado, mas ama perdidamente.


O sol enfiava seus raios pela ramaria das árvores, quando ambos acordaram. Depois do pecado, a vergonha e o medo. O índio nunca temeu a onça acuada e prestes ao bote, mas sim aos castigos de Tupã (Deus) que se faria representar na ira incontida de toda a tribo. A vergonha vergastava-lhe a alma, crescia no seu largo peito angústia do arrependimento. E por isso fugiram. Não iriam longe, sabiam disso, pois, logo que fosse notada a falta de ambos, seriam caçados incontinenti.


Assim aconteceu. Botutu, com um punhado de guerreiros, já se apresentava à perseguição. Partiu célere o mancebo pela mata a dentro, como se fora o próprio Curupira (gênio tutelar da floresta). O ódio deu-lhe maiores forças. A floresta não lhe proporcionava segredos. Os rastros frescos e ainda orvalhados, não permitindo que o caçador errasse.


Dardejava o sol a meio de um céu límpido. O mormaço, bafo úmido do chão, subia e, sem brisa, cintilava, vaporizando-se no ar. A natureza se fizera em silêncio que, de quando em quando, era pontilhado pelo canto monótono dos pássaros. Mestre de caçada de veados ligeiros, Botutu negaceava qual jaguar, deslizando pela mata espessa e sombria.


Enxergaram-se a um só tempo. Rápido se projetaram no intrincado da ramaria multiforme. Flechas, quais cascáveis aladas, Botutu não as usava. Despojou-se delas e do seu arco, para maior facilidade de movimentos. Queria o inimigo vivo. Prelibava o festim da ocara (praça da aldeia) com o prisioneiro atado à mussurana (corda).Itaaçu também não queria matar. Seu coração era todo arrependimento e ternura. Olhava para Itatinga encolhida qual juriti perrengue, aos pés de um majestoso jequitibá.


Chegavam nesse momento os demais perseguidores; lépidos e silenciosos faziam o cerco. A mata era toda ouvidos, quando um silvo agudo denunciou o arremesso de uma seta. Nas costas largas do amante enterrou-se profundamente a flecha, ficando de fora só as penas. Itaaçu tombou morto, sem um gemido. Itatinga, desesperada, atirou-se sobre o amante num derradeiro amplexo, cravando em seu próprio seio a ponta da vareta. Agonizou, cobrindo de beijos o índio querido. Nada restava fazer. Os índios juntaram pedras e com elas cobriram o corpo de Itaaçu, levando o de Itatinga para a aldeia. Era noite quando lá chegaram. Tristonho e combalido, o Pajé mandou consumar-se o funeral antes do nascer do sol. Lugubremente, em local afastado, cobriram também de pedras o corpo de Itatinga.


A estória teria terminado aí, se Tupã não tivesse se condoído da sorte dos dois amantes. Repreendendo Jaci, cobriu a terra de negras nuvens, transformando aquela noite em terrível tormenta. Riscou o céu com raios flamejantes, ribombou trovões, fez chover abundantemente e tremeram as terras com violência.


Ao raiar do novo dia a tribo viu, surpresa, que de cada sepultura brotara, como por encanto, enorme e majestoso bloco de granito que se contemplavam de longe, perneando dois eternos enamorados.


A Pedra Branca - suave e feminina é ITATINGA


O Pedrão - guapo e forte - ITAAÇU.


Pedralva se localiza precisamente entre dois blocos enormes de pedra lisa e compacta: a Pedra Branca e o Pedrão.

 

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