Destinos

Tiradentes

Auto de perguntas feitas ao Vigario Carlos Corrêa de Toledo e Mello

Auto de perguntas feitas ao Vigário da Villa de São José Carlos Corrêa de Toledo e Mello.


Ano do nascimento de nosso Senhor Jesus Christo de mil setecentos e oitenta e nove aos quatorze do mez de Novembro nesta Cidade do Rio de Janeiro, na Fortaleza da Ilha das Cobras, aonde foi vindo o Desembargador José Pedro Machado Coelho Torres Juiz nomeado para esta Devassa commigo Marcellino Pereira Cleto Ouvidor, e Corregedor desta Comarca, e Escrivão também nomeado para esta Devassa, e o Tabellião José dos Santos Rodrigues e Araujo para effeito de se fazerem perguntas ao Vigário da Villa de São José Carlos Corrêa de Toledo e Mello, que se acha preso em custodia, e sendo ahi foi mandando vir à sua presença o dito Vigário da Villa de São José Carlos Corrêa de Toledo, e Mello, e vindo se procedeu com elle a perguntas na forma seguinte: E eu Marcellino Pereira Cleto Ouvidor, e Corregedor desta Comarca do Rio de Janeiro, e Escrivão nomeado para a presente Devassa o escrevi.


E perguntando-se lhe, como se chamava, de quem era filho; donde era natural, que idade tinha, se era casado, ou solteiro, que emprego tinha, e se tinha Ordens. Respondeu que se chamava Carlos Corrêa de Toledo, e Mello filho de Timotheo Corrêa de Toledo e de Úrsula Isabel de Mello, natural da Villa de Tobaté da Capitana de São Paulo, de idade de cincoenta, e oito annos, que nunca fora casado, e era Presbytero do habito de São Pedro, e Vigário Collado da Freguezia de Santo Antonio da Villa de São José da Capitana de Minas Geraes, e com efeito vendo-lhe eu o alto da cabeça nelle vi, que tinha signal de andar tonsurado, do que dou fé.


E perguntando se sabia a causa da sua prisão, ou a suspeitava. Respondeu que na occasião em que foi preso pelo Tenente Antonio José Dias Coelho, e pelos mais soldados, que o acompanhavam, aos ditos soldados ouviu dizer, que a prisão delle respondente, a do Coronel Ignácio José de Alvarenga, que se fez pelo mesmo Official na mesma occasião, e a do Alferes Joaquim José da Silva Xavier por alcunha o – Tiradentes – era por causa de um levante, ou Sedição, que disseram, se premeditava na Capitana de Minas Geraes, e por isso ficou elle respondente entendendo, que deste principio nasceria também a sua prisão.


E sendo perguntando se elle respondente sabia por qualquer modo, ou suspeitava, que se urdisse, e tramasse alguma Sedição, e motim na Capitana de Minas Geraes, ou nella entrava. Respondeu que sendo pelo tempo da Semana Santa do presente anno pouco mais, ou menos foi a casa delle respondente à Villa de São José o Coronel Joaquim Silvério dos Reis, e estando nella, foi para um quarto falar ao irmão delle respondente o Sargento Mor Luis Vás de Toledo, e da conversação que tiveram resultou enfadar-se este com o dito Coronel, o que ouvindo elle respondente acudiu, e perguntou, de que nascia o dito enfado, ao que o irmão delle respondente dito Sargento Mor Luis Vás de Toledo respondeu que o dito Coronel Joaquim Silvério dos Reis, vendo que não tinha com que pagar à Fazenda Real o avultado cabedal, que lhe devia, o convidava para ir à Capitania de São Paulo a fazer gente para com Ella fazer um levante, ou Sedição na Capitania de Minas Geraes, para o que elle dito Coronel Joaquim Silvério dos Reis assistiria com dinheiro; pelo que se enfadara o irmão delle testemunha dito Luis Vás de Toledo, ao que elle respondente disse que semelhantes conversas eram mal permittidas, e que não queria, que se falasse mais em semelhante cousa, e a seu irmão recommendou, que desse parte desta conversação ao seu Coronel Francisco Antonio de Oliveira Lopes, para que este a desse ao Illmo., e Exmo. General da Capitana, e elle respondente o não fez também, por julgar bastante, a que tinha dado o irmão delle respondente Luis Vás de Toledo, por não cair em irregularidade em razão do seu Estado, e sobretudo porque o dito Coronel Joaquim Silvério dos Reis é um homem louco, e mau que nada havia de conseguir em semelhante matéria por mais que falasse nella, que por estas razões não suspeitou áquelle tempo cousa alguma, porém que agora vendo-se preso julga, que daqui podia nascer alguma suspeita, e não tem elle respondente mais razão, ou motivo algum por que possa saber, ou persuadir-se que na Capitania de Minas Geraes se intentasse Sedição, ou Sublevação alguma.


E instado que dissesse a verdade; porquanto constava, que elle respondente sabia mais do que declarava na resposta, que tinha dado, e devia dizer a verdade. Respondeu que além do que já declarou, só sabia pelo ouvir dizer, ou ao Coronel Francisco Antonio de Oliveira Lopes, ou ao Sargento Mor Antonio da Fonseca Pestana, que andando o Ajudante de Ordens João Carlos Xavier da Silva Ferrão no mez de Fevereiro pouco mais , ou menos na revista dos Regimentos Auxiliares dissera perante elle Joaquim Silvério dos Reis digo dissera, vindo elle Joaquim Silvério dos Reis, chegando a umas grandes campinas dissera, que as Minas podiam ser um grande Império se fossem livres; porém não sabe elle respondente, nem ouviu dizer, se o dito Ajudante de Ordens ouviu o dito Coronel Joaquim Silvério dos Reis, ou o que elle disse, e além disto que declara nada mais sabe, que seja relativo com a dita Sedição.


E sendo-lhe perguntando se proximamente à sua prisão tinha estado sempre na sua Igreja, ou se tinha feito alguma jornada, aonde, e a que. Respondeu, que a ultima jornada que fez, foi no mez de Dezembro do anno de mil setecentos, e oitenta e oito a Villa Rica, e á Cidade de Marianna, aonde foi apresentar ao seu Excellentissimo Bispo a licença que tinha da Mesa da Consciência para passar a Portugal a dependências suas, e a pedir a encommendação da sua Igreja durante o tempo da demora delle respondedente, para seu irmão o Padre Bento Cortes de Toledo, o que com effeito tudo concluiu.


E sendo perguntando, de que foi hospede em Villa Rica, quanto tempo se demorou, e quaes eram as pessoas da sua amizade. Respondeu que foi hospede do Desembargador Thomas Antonio Gonzaga, que se demorara dez dias pouco mais, ou menos, e que as pessoas da sua amizade na dia Villa eram o Doutor Claudio Manoel da Costa , João Rodrigues de Macedo, Carlos José da Silva, Francisco Antonio Rebello, o Padre José Martins, e o mesmo Desembargador Gonzaga, de quem foi hospede, e que fora destes não tem amizade com mais pessoa alguma.


E sendo-lhe perguntado, porque razão não tinha ido para Portugal, sendo este o seu projecto, e tendo para esse fim todas as licenças necessárias.Respondeu, que a razão de não ter ido para Portugal, fora por não ter dinheiro para as necessárias despesas da viagem, e querendo cobrar de quatro fregueses seus o dinheiro, que lhe deviam para estas despesas, cada um destes lhe poz sua demanda, e nada cobrou delles, mas que era tão certo o intento, que tinha de ir, que tinha justo com Joaquim Pedro da Camara Sargento Mor de Auxiliares da Comarca ir com elle.


E sendo instado, que dissesse a verdade, que inteiramente faltava a Ella na desculpa, que dá de não ter ido para a Corte; pois só sendo elle insensato iria apresentar a licença que principiava a correr desde esse tempo, não sabendo ainda se teria dinheiro, com que fazer a viagem, nem tomaria um Encommendado para a Igreja, que a estava servindo desde o mez de Dezembro do anno passado, o que não devia ser, estando elle respondente assistindo na mesma Igreja por tão dilatado tempo sem impedimento algum, o que mostra bem não ter sido a razão, que deu, a da demora, mas sim outra causa superveniente, e por isso poderia ajustar depois a ida com o Sargento Mor Joaquim Pedro da Camara para affectar demora por ser um sujeito, que ainda se não sabe se irá, e menos o quando.


Assim como também tinha faltado á verdade em dizer que alem das pessoas que declarou serem suas amigas em Villa Rica, nenhuma outra o era; porque se ali havia um suspeito, a quem elle offereceu cem cavallos, é signal de ter com elle amizade.


Respondeu que tinha dito a verdade na antecedente resposta, e que nella insistia, e pelo que respeita aos cem cavallos, que se lhe diz ter offerecido de presente, não é verdade; porquanto elle respondente não os offereceu de presente; mas sim para que o Tenente Coronel da Tropa paga Francisco de Paula Freire de Andrade lhos comprasse para a Tropa, e pagar elle respondente com o preço delles, o que deve à Fazenda Real de Minas Geraes, e que isto fora o que escrevera ao dito Tenente Coronel.


E perguntando em que tempo escreveu elle respondente ao dito Tenente Coronel, e a resposta que teve delle. Respondeu que foi depois que elle respondente veiu de Villa Rica cousa de três mezes pouco mais, ou menos, e a resposta que o dito Tenente Coronel deu a elle respondente foi que não carecia delles para a Tropa, e por isso os não comprou, como fazia tenção, em Sorocaba, de cuja Villa chegam postos em Minas a dez, e doze oitavas, e na Fazenda Real se pagam a dezesseis oitavas, a ás vezes mais, e por isso elle respondente os offerecia.


E sendo instado, que dissesse a verdade, á qual faltava, pois aquelle modo de falar tinha outra intelligencia entre elle respondente, e o dito Tenente Coronel, e bem se vê a incongruência da sua resposta; porque se elle estava demorando sem partir para a Corte por falta de dinheiro, como queria fazer um emprego na compra de cem cavallos, nem diria, que os tinha já promptos, e bem gordos, quando ainda não sabia se eram necessários, nem se devendo esperar, que de uma vez se comprasse tanto numero de cavallos para a Tropa de Minas, sendo ao mesmo tempo pouco de esperar tão grande promptidão no pagamento, sem llhe ser pedido, constando aliás notoriamente, que o respondente por mau pagador nada se lhe queria fiar na Villa de São José, e alem disso sendo o respondente Eccleasiastico não lhe ficava licito fazer esta negociação de cavallos.


Respondeu, que o que escreveu ao Tenente Coronel não tinha outra intelligencia entre elle respondente, e o dito Tenente Coronel, e que sem embargo de não ter dinheiro, como já disse, para fazer a viagem para Portugal podia comprar os cavallos, porque estas compras se fazem fiadas, segundo o costume de Minas, e que suposto disse, que os tinha promptos, e gordos sem os ter comprado, foi para convidar, a que se lhe acceitassem, e offereceu maior numero, do que poderia ser necessário á Tropa para haver, por onde se pudesse escolher, e quanto a ser mau pagador passa pelo contrario, pois sempre que tinham dinheiro, pagava a quem devia, e suppoz também ser-lhe licito fazer esta venda á Fazenda Real.


E sendo-lhe perguntado, em que sitio foi preso.Respondeu, que légua e meia em distancia da Villa de São José, indo para a sua fazenda da Lage.


E sendo-lhe perguntado, que desígnio levava naquella jornada. Respondeu, que da Lage fazia tenção passar a uma lavra, que fica a dez léguas em distancia da Villa de São José, e de lá á fazenda dos Trabalhos, que são sete dias de viagem, porque pretendia comprar a dita Fazenda, ou outra qualquer, que se lhe offerecesse, para um seu cunhado, e depois recolher-se outra vez para a Villa de São José.


E sendo instalado, que dissesse a verdade, ao que faltava em dizer, que ia comprar uma Fazenda, e voltava, quando na realidade elle ia fugido, para o que tinha tirado toda a sua roupa, e desmanchado tudo o que era possível da sua casa sahindo rapidamente sem o participar a pessoa alguma, nem se despedir como era natural, e ao menos saber-se na terra aquelle desígnio, se elle fosse verdadeiro. Respondeu, que tinha dito a verdade na resposta antecedente, e em quanto a não se despedir na Villa de São José, que isso não pode ser reparável; porque esse foi sempre o seu costume em todas as viagens, que fazia. E por este modo houve o dito Desembargador estas perguntas por ora por feitas, e acabadas, dando o juramento ao respondente de haver falado nellas a verdade pelo que respeita a direito de terceiro, e assignou com o respondente, e o Tabelião José dos Santos Rodrigues, e Araujo, depois de tudo lhes ser lido, e as acharem na verdade; e eu, e o dito Tabelião portamos por fé, que a ellas esteve o Respondente em liberdade, e livre de ferros. E eu Marcellino Pereira Cleto Ouvidor, e Corregedor da Comarca do Rio de Janeiro, e Escrivão nomeado para esta Devassa o escrevi, e assignei.


Torres
Marcellino Pereira Cleto
Carlos Corrêa de Toledo e Mello
José dos Santos Roiz e Ar.º
 

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