Destinos

Nova Lima

Banquetas e regos uma herança da mineração a ser valorizada pelo turismo no município de Nova Lima

Trecho da monografia apresentada à coordenação do Curso de Especialização “Turismo e Desenvolvimento Sustentável” do IGC/UFMG como requisito parcial à obtenção do grau de Especialista.


Autoras
Graziela Camba Gomes
Lívia Cristina Nicholls


Tratamento e beneficiamento do minério em Morro Velho e o uso das banquetas

O beneficiamento do minério de Morro Velho era de responsabilidade do Departamento de Redução, onde em 1835 havia vinte e sete engenhos de pilão em atividade que pulverizavam o minério. Os grandes engenhos eram movidos à água que vinha através de canais abertos chamados regos.


O minério retirado das minas é levado ao local de britagem por vagões onde começa o primeiro processo de pulverização mecânica. Como explica Burton, os marreteiros quebram os grandes pedaços de pedras e as mulheres quebram estes pequenos pedaços para que sejam levados através dos alimentadores até caixões de trituração.


O minério pobre é levado por trenzinhos à praia, enquanto o minério rico é reduzido a lascas, colocado em funis que os descarregam em vagões para serem pulverizados pelos pilões dentro dos cofres movidos por roda hidráulica. Burton (1868/ed.1976.p.220) fala da importância das banquetas: “O encanamento que alimenta o cofre também fornece água suficiente para a lavagem do material triturado e pulverizado pelas bicas de madeira”; as bicas de madeira complementam os regos de terra e as canoas descritas anteriormente.


Posteriormente se dá a amalgamação da areia mais fina. Porém, o material mais grosseiro é levado ao “separador ou classificador onde o material a ser lavado é depositado”. Quatro túneis descarregavam seus conteúdos em arrastros ou trituradores.


LIMA (1901), descreve o material de máquinas nos anos 1860:
“Vinte rodas tocadas por água: oito que moviam cento e noventa e um mãos de pilão, para pulverizar e quebrar a pedra; seis arrastros par moer areias; uma que movia oito arrastros: uma que movia o machinismo amalgamação e quatro arrastros para moer areias; uma de engenho de serra e quatro arrastros; três para içar a pedra das minas; duas para esgotar a água, uma para levantar o molho na Tenda Grande; duas para mover as ventaneiras das forjas de duas tendas de ferreiro; uma para moer o moinho de fubá..”
(LIMA, Augusto.de 1901.p.321-362)


O material a partir de 1858 era levado à praia, área que começou a ser construída em 1855, onde havia todo o sistema de tratamento do minério. Burton explica:


“Foi feita uma represa no ribeirão, para proporcionar uma queda de água. A areia dos arrastros passou a ser transportada ao longo da margem direita em um canal de 165 metros de comprimento, 30 centímetros de largura e cerca de 23 centímetros de profundidade. É, então, conduzida por uma calha que atravessava o morro sobre o qual se encontra a casa de Mr. Smyth, e, finalmente, levada, por outras calhas, ao serviço mais baixo.” (BURTON, 1868/ed.1976.p.221)


Percebe-se assim uma construção de banquetas e regos que levava água até a praia.


Ocorrido o complexo processo de amalgamação, o minério é passado a limpeza, separação do ouro e do amálgama. No entanto, ainda é necessário o tratamento metalúrgico, uma vez que ouro, neste momento contém prata, cobre, ferro e arsênico, não estando puro.


Finalizado o processo de purificação, os lingotes são encaminhados ao escritório da Companhia para serem pesados, embalados, selados pelo selo da companhia e confiados à “Tropa do Ouro” que era responsável pelo transporte ao Rio de Janeiro, onde será embarcado o ouro à Inglaterra.


As Banquetas e regos: Informações históricas

Banqueta do Rego Grande / Bicame / Banqueta do Rego dos Amores
Este complexo de canais foi construído em 1890, pela Saint John D’el Rey Mining Company com o objetivo de captar uma parte da água do Ribeirão dos Cristais até a área da “praia” para diversas funções, desde movimentar os pilões até bombear a água da mina.


Assim foi construído um canal, conhecido em Nova Lima como Banqueta do Rego Grande devido a sua grande extensão, atualmente nomeada Av. Aldo Zanini. A banqueta tem 4.676,7 metros de comprimento, vazão de 20.000 litros por minuto e mantém até hoje as características e o trajeto originais. Ao final da banqueta do Rego Grande, encontra-se o Centro de Educação Ambiental Harry Openheimer, construído pela AngloGold Ashanti que restaurou o prédio da antiga Usina Hidrelétrica, transformando-a em sala multimídia e biblioteca.


Burton em sua visita ao local, registrou sua apreciação pela banqueta, dizendo que: “o único passeio em terreno plano que se pode dar em Morro Velho ou em suas proximidades é ao longo do Rego dos Cristais”. (BURTON,1868/ed.1976.p.196)


Além disso, desde sua construção o Rego Grande já era utilizado não só para atender a mineração, mas também para atividades de lazer para brasileiros e ingleses, conforme explica Burton: “Entrando no portão, chegamos ao Rego, ao longo de cuja margem Mr. Gordon construiu um bom caminho. Aqui, nas tardes quentes, os jovens ingleses se refrescam tomando banho. A água nasce no Morro das Cabeceiras, a cerca de quatro milhas de distância ao longo de seu curso (...).” (BURTON, 1868/ed.1976. p.196)


Outra função interessante da banqueta, que demonstra a preocupação dos ingleses de colaborar também com a comunidade, é o fato de suas águas abastecerem as casas dos moradores locais. Lloyd registra em seu livro: “Isto foi há muitos anos...Nova Lima era, então, abastecida pelas águas (verdade!) do, então, belo Rego Grande. Tranqüilas, serenas e bem cuidadas, elas adentravam nas casas nova-limenses. Apesar de não poluídas quimicamente, as águas eram incapazes de resistir a acidentes climáticos e materiais, colorindo-se de barro ao primeiro sinal de chuva.” (LLOYD.1999.p.226)


As águas captadas através do Rego Grande tinham que chegar à área da mineração para o tratamento e beneficiamento do minério e outras funções conforme explicado anteriormente. No entanto, para que as águas seguissem seu rumo, a Companhia, teve um desafio: superar uma depressão topográfica existente no trajeto e levar as águas do Rego Grande, que passam por tubos subterrâneos pela Rua Chalmers, à altura da antiga usina geradora do Retiro até o outro lado, onde a banqueta/rego passa a se chamar Banqueta do Rego dos Amores.



A solução encontrada pelo então superintendente George Chalmers para que as águas cortassem a via urbana foi construir um aqueduto chamado Bicame. Construído em 1890, faz parte do conjunto de construções feitas pela Saint John d’el Rey Mining Company e que continuam preservados, sendo atrativos para os visitantes. A denominação Bicame vem da palavra bica.


Em setembro de 1992, o aqueduto foi restaurado através de uma parceria entre a Prefeitura Municipal de Nova Lima e a Mineração Morro Velho e ganhou iluminação, destacando ainda mais sua beleza. No dia 20 de junho de 2002, após uma campanha durante comemorações dos 300 anos, com o objetivo de descobrir a “cara de Nova Lima”, o Bicame foi eleito o símbolo arquitetônico de Nova Lima, que ficou oficializado pela lei nº 1711.


O Bicame tem as seguintes medidas: Comprimento total, 194 m; Altura máxima, 12,87 m; Área da calha metálica, 73,2 dm2 ; Constituição, Calha em aço com abertura de 1,37 m, sobre estrutura de madeira (Peroba e Aroeira); Vazão de construção, 70.000 l/Seg.; Vazão Atual, 35.000 l/Seg.


Banqueta do Rego do Cubango / do Rego dos Carrapatos / do Rego do Bananal

Segundo o geólogo Marco Aurélio da Costa, a Banqueta do Rego do Cubango se inicia nas cabeceiras das Águas Claras, seguindo pela Mata do Jambreiro com a finalidade de abastecer os poços C e D do Mingu e depois caía via encanamento para rodar a antiga usina hidrelétrica do Rezende. Como se pode observar no mapa das sub-bacias, as águas foram captadas da sub-bacia do Cubango ao norte do município.


A Banqueta do Rego dos Carrapatos foi construída por escravos e é considerada uma das mais antigas de Nova Lima, datada do século XVIII. Com 5,5 km de extensão vazão de 4.600 litros por minuto, o Rego dos Carrapatos foi responsável pela captação de água potável para a então Congonhas do Sabará, hoje Nova Lima, além de fornecer água bruta para tratamento hidrometalúrgico do minério aurífero da Mineração Morro Velho e aplicação em utilidades industriais.


No ano de 2000 foi criado o Parque Ecológico Municipal do Rego dos Carrapatos, do qual toda a banqueta faz parte. Nele não são permitidos a utilização de bicicletas, motocicletas e animais domésticos. Localizado próximo à Mata do Jambreiro, no parque pode-se encontrar árvores das mais variadas espécies como: jacarandá, peroba, pau d’óleo, pau doce, canela, cortiça, sangra d’água, plantas ornamentais, lírios nativos da Mata Atlântica e Samambaia Açu, planta símbolo do parque. Algumas delas contam com mais de 100 anos de existência. Também, encontramos fauna variada como: saíra, sabiá, bem-te-vi, assanhaço, jacu (maior ave da região) e mamíferos como: ariranha ou lontra (ameaçado de extinção), paca e gato do mato, entre outros.


A Banqueta do Rego do Bananal foi construído captando-se água da região das Águas Claras, onde o desvio da água era dividido para a banqueta do Bananal e o poço C e D. Suas águas eram levadas até o bairro da Boa Vista onde provavelmente existia um engenho.


Banqueta do Rego de Matozinhos
A Banqueta do Rego de Matozinhos foi construída para servir à Mina do Faria, em Honório Bicalho. A Mina pertencia à Societé des Mines d’or de Faria, uma companhia francesa constituída em Paris em 13 de abril de 1887, que comprou do Tenente Coronel Francisco de Assis Jardim, que por sua vez havia adquirido de uma associação formada pelo Capitão João Wild, do Major Henrique Felizardo Ribeiro, o capitão Silvério de Araújo Lima e Francisco Alves de Menezes.


Aproximadamente em 1890, foi aberto um canal de 6km de comprimento (Rego de Matozinhos), com seção de 1,50 metros quadrados que visava desviar uma parte das águas da correnteza do Ribeirão dos Macacos, que corre ao pé da montanha, a fim de obter uma queda d’água de 40 metros.


De acordo com Ferrand (1894), a banqueta tinha vazão de um metro cúbico por segundo, o que permitiria fornecer uma força disponível de mais de 500 cavalos. Um engenho foi construído de 20 pilões brasileiros movidos por uma roda, perto do ponto de chegada do canal, ou seja, do Rego de Matozinhos que seria a Usina do Gaia.


Ferrand explica que:
“Como este se encontrava a mais de 1000 metros de distância e a 180 metros abaixo da boca do poço, realizava o transporte da força necessária à extração e ao esgotamento por meio de uma transmissão elétrica com a ajuda de máquinas Gramme: duas pequenas turbinas, trabalhando sob apenas 12 metros de queda, acionavam duas máquinas dínamos geradores, ligadas por cabo a duas máquinas receptoras colocadas perto do poço, uma para comandar um guincho de extração, a outra, a bomba de recalque. Uma pequena estrada de ferro de mina, com cerca de 1 quilômetro de comprimento, compreendendo duas vias e dois planos inclinados automotores de 230 metros cada, foi construída para o transporte do minério da mina até o moinho.” (FERRAND, 1894/ed.1998. p.207)


O engenho, posto em funcionamento no decorrer de 1890 sofreu várias interrupções, em conseqüência de acidentes ocorridos no canal (Rego de Matozinhos) e só começou a operar regularmente em julho de 1891. O engenheiro Robellaz detectou que na Mina do Faria o teor de minério era de apenas 7,57 g/t (bem inferior aos 26g/t esperados.) propondo-se então novas formas de tratamento.


A Companhia passou por muitas dificuldades desde a abertura da mina, até a abertura dos poços e galerias de escoamento, esgotando-se o capital. A fim de fazer modificações em sua Usina de Tratamento e de abrir uma nova frente de lavra, a companhia foi liquidada em 1893 para se reconstituir em novas bases. Assim, a sociedade foi formada com o nome de Societé Nouvelle Des Mines D’or De Faria.


VILLELA (1998) explica que, para contornar a excessiva penetração das águas nas galerias, o engenheiro Vicent Germain Auguste Carsalade, diretor da Societé dês Mines d’or de Faria, utilizou pela primeira vez a eletricidade para a drenagem dessas águas e, também, para a extração do minério. Uma década mais tarde, com capital de 60.000 libras esterlinas, a “Faria Gold Mining Company of Brazil Limited”, empresa britânica adquiriu a mina do Faria.


O ouro de granulação muito fina e a infiltração constante de águas nas galerias levou essa empresa à liquidação, tendo o seu acervo passado ao estabelecimento bancário “Fonseca Machado & Cia.”, que por seu turno a vendeu à “Saint John d’el Rey Mining Company Limited”, em 1908.


Banqueta do Rego das Vinte e Sete Voltas

Este canal foi construído para captar água do Ribeirão conhecido como Cambimbe, trazê-la seguindo a curva de nível e gravidade, para fornecer água para a Mina de Bicalho, anteriormente chamada de Mina da Florisbella. A banqueta das Vinte e Sete Voltas possui 5207m iniciando em uma bela cachoeira do mesmo nome. Segundo a comunidade local, este nome refere-se ao número de “voltas” para se chegar à cachoeira. O rego não tem mais utilidade para a mineração, porém em alguns trechos há ainda passagem de água. Nota-se exuberância ecológica e uma natureza bastante preservada.


Em um dos trechos, o canal passa a ser conhecido como Banqueta dos Maias, devido à localidade próxima chamada de “Maias”.


Banqueta do Rego do Azulão

A Banqueta do Rego do Azulão foi construída, captando-se água dos córregos chamados pela comunidade de “perta cunha” e "três barras”. Estas águas formam um poço chamado de Poço Azulão, que tem este nome devido à cor azulada da água em determinada hora do dia. As águas captadas correm pela Banqueta/Rego Azulão até uma caixa d’água construída pela Saint John Del Rey Mining Company para levar água até a Mina de Bicalho, além de fornecer água para a comunidade. Ao longo da banqueta, encontram-se aproximadamente três reservatórios que tinham a função de dar maior pressão à água. Atualmente o rego encontra-se seco em boa parte de seu trajeto devido à captações irregulares no mesmo.


Banqueta do Zumbi

Banqueta do Rego do Zumbi inicia-se na cascata conhecida por Zumbi na mata que leva o mesmo nome. Este rego tinha a função de fornecer água para a Mina de Bicalho e para abastecer a comunidade local. Até nos dias de hoje, grande parte da comunidade utiliza as águas do Rego do Zumbi. O final do rego se dá na mesma caixa d’água que recebe as águas do Azulão.


Banqueta do Rego do Urubu
Esta banqueta está localizada na propriedade particular Fazenda Asa Branca e foi construída para levar água à antiga Mina do Urubu. Esta é uma das mais antigas minas de Honório Bicalho e o rego ainda possui fluxo de água.


Banqueta do Rego do Tamanduá
Localizada no bairro São Sebastião das Águas Claras, mais conhecido como Macacos. Esta banqueta foi construída para captar água de uma nascente e levá-la até a mina do Tamanduá, hoje pertencente a MBR. Esta água, segundo a comunidade, já abasteceu o bairro São Sebastião das Águas Claras. 

Enviar link