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Ouro Preto

Tomás Antônio Gonzaga

Tomás Antônio Gonzaga


Cronologia
Nasceu: 11 de agosto 1744
Faleceu: Fevereiro de 1810  ?
Filiação: João Bernardo Gonzaga e Tomásia Isabel Clark
Natural do Porto/Portugal


Formação
Bacharel em Direito pela Universidade de Coimbra/Portugal


Atividades
Advogado na cidade do Porto/Portugal
Juiz-de-Fora na cidade de Beja/Portugal
Ouvidor Geral de Vila Rica
Provedor dos Defuntos e Ausentes em Moçambique
Procurador da Coroa e Fazenda em Moçambique
Juiz de Alfândega em Moçambique


Trajetória de Vida
Tomás Antônio Gonzaga era o caçula de sete irmãos. Em 1755, chegou ao Brasil com a família. O pai havia sido nomeado ouvidor para o Recife. Depois, mudaram-se para a Bahia, onde o Dr. João Bernardo Gonzaga assumiu o cargo de Intendente Geral do Ouro. Nestas duas cidades brasileiras, Tomás deve ter estudado em colégios de ordens religiosas, como o dos franciscanos e o dos jesuítas. Em 1762, estava de volta a Portugal e matriculou-se no curso de Direito. Aos 23 anos,  formava-se em Coimbra e, na cidade do Porto, deu início à sua carreira de advogado, tendo como protetor o pai, na época, exercendo o cargo de desembargador em Portugal.


Ouvidor Geral de Vila Rica é o cargo para qual foi nomeado em 1782, tomando posse em dezembro do mesmo ano. “Gonzaga era um homem formado, maduro. Sua formação intelectual já estava pronta, assim como seu caráter. E essa formação tinha sido, claramente, iluminista. Gonzaga foi um típico produto daquela época em que as instituições culturais portuguesas (a Universidade de Coimbra no centro) formavam um caldeirão inquieto de idéias revolucionárias, políticas, sociais e culturais”. (Márcio Jardim).


Durante sua estada em Vila Rica, tornou-se inimigo político do governador da Capitania, Luís da Cunha Menezes, e por duas vezes, em 1784 e 1787, escreveu a D. Maria I, queixando-se das arbitrariedades do governador, “nem me atrevo a representar coisa alguma a este Exmo. General, por conhecer o seu notório despotismo. Ele tira os padecentes do patíbulo, ele açoita  com instrumentos de castigar os escravos, as pessoas livres, sem mais culpa ou processo do que uma simples informação dos comandantes. Ele mete os advogados e homens graves a ferros. Ele dá portarias aos contratadores para prenderem a todos os que eles querem que eles devam. Ele suspende a outros credores o pedirem pelos meios  competentes as suas dívidas. Ele revoga os julgados e ainda os mesmos das Relações; enfim, Senhora, ele não tem outra Lei e Razão senão mais do que o ditame de sua vontade e as dos seus criados.” Inclusive, dessas críticas, surgiram as célebres Cartas Chilenas. “Não há dúvida de que o poema está repleto de referências à administração de D. Luís da Cunha Menezes, governador da Capitania de Minas Gerais, de 1783 a 1788. É o caso da construção da Casa de Câmara e Cadeia de Vila Rica, hoje, Museu da Inconfidência de Ouro Preto” (Joaci P. Furtado).


A nomeação para desembargador na Bahia aconteceu no ano de 1786, mas permaneceu em Vila Rica. Dois anos depois, escreve novamente a D. Maria I, pedindo autorização para se casar com Maria Dorotéia Joaquina de Seixas, a quem Tomás dedicou uma série de poemas e nos quais a noiva era chamada de Marília. Entre 1788 e 1789, envolve-se no movimento da Inconfidência Mineira. Em uma das denúncias, relataram que Dr. Tomás Antônio Gonzaga havia participado de reuniões conspiratórias, no dia 26 dezembro de 1788, na casa do tenente-coronel Francisco de Paula Freire de Andrade, e no dia 27, na casa do Dr. Cláudio Manuel da Costa. Como não havia obtido resposta de D.Maria I, autorizando o casamento, no dia 20 de abril pede autorização ao Visconde de Barbacena, a qual é concedida. O casamento seria realizado dia 30 de maio, mas, nesse ínterim, o movimento foi delato por Silvério dos Reis e, no dia 9 de maio, Joaquim José da Silva Xavier foi preso no Rio de Janeiro.


Em 23 de maio de 1789, Dr. Tomás Antônio Gonzaga é preso em Vila Rica e enviado imediatamente ao Rio de Janeiro. “Chega à fortaleza da ilhas das cobras entre 5 e 6 de junho, aguardando o processo da devassa. Preso incomunicável, prossegue escrevendo as liras de Marília de Dirceu, cuja redação iniciou em Vila Rica em data ignorada”. (Joaci P. Furtado).


Ao final do processo, foi condenado a dez anos de degredo em Moçambique, então colônia portuguesa e para a qual partiu no princípio de maio de 1792, na corveta Nossa Senhora de Guadalupe.


Era o único advogado habilitado em Moçambique; por isso, acabou exercendo diversas funções. O primeiro cargo que ocupou foi o de Provedor dos Defuntos e Ausentes, auxiliou o Ouvidor José da Costa Dias Barros que se encontrava doente. No início do século 19, era nomeado para o cargo de Procurador da Coroa e Fazenda. Depois, ocupou o cargo de Juiz de Alfândega. 


Juliana de Souza Mascarenhas, filha de Alexandre Roberto Mascarenhas, um comerciante de escravos, casou-se com Tomás Gonzaga em 9 de maio de 1793. Desse casamento, nasceram: Ana Mascarenhas Gonzaga e Alexandre Mascarenhas Gonzaga. Ana casou-se, teve filhos e Alexandre não deixou descendentes.


Principais obras:
Tratado de Direito Nacional -1773
Congratulação com o povo português na feliz aclamação da muito alta e muito poderosa soberana D. Maria I, nossa senhora – 1777
Carta sobre a usura – 1783
Cartas Chilenas 
Marília de Dirceu
1792 - 1ª edição, parte I, (com 33 liras)
1799 -  2ª edição, partes I e II (total de 65 liras)                  
1800 -  3ª edição                                            
1802 -  4ª edição, incluindo 5 novas liras
1803 -  5ª edição
1804 -  6ª edição
1810 -  7ª edição, pela Imprensa Régia do Rio deJaneiro

 

Poemas


Nesta Triste Masmorra

Nesta triste masmorra,
de um semi-vivo corpo sepultura,
inda, Marilia, adoro
a tua formosura.
Amor na minha idéia te retrata;
busca, extremoso, que eu assim resista
à dor imensa, que me cerca e mata.

Quando em meu mal pondero,
então mais vivamente te diviso:
vejo o teu rosto e escuto
a tua voz e riso.
Movo ligeiro para o vulto os passos;
eu beijo a tíbia luz em vez de face,
e aperto sobre o peito em vão os braços.

Conheço a ilusão minha;
a violência da mágoa não suporto;
foge-me a vista e caio,
não sei se vivo ou morto.

Enternece-se Amor de estrago tanto;
reclina-me no peito, e com mão terna
me limpa os olhos do salgado pranto.

Depois que represento
por largo espaço a imagem de um defunto,
movo os membros, suspiro,
e onde estou pergunto.
Conheço então que Amor me tem consigo;
ergo a cabeça, que inda mal sustento,
e com doente voz assim lhe digo:

- Se queres ser piedoso,
procura o sítio em que Marilia mora,
pinta-lhe o meu estrago,
e vê, Amor, se chora,
se, as lágrimas verter, a dor a arrasta.
Uma delas me traze sobre as penas,
e para alívio meu só isto basta.


Meu Sonoro Passarinho

Meu sonoro passarinho,
se sabes do meu tormento,
e buscas dar-me, cantando,
um doce contentamento,

Ah! não cantes mais, não cantes,
se me queres ser propício;
eu te dou em que me faças
muito maior benefício:

Ergue o corpo, os ares rompe,
procura o porto da Estrela,
sobe à serra e, se cansares,
descansa num tronco dela.

Toma de Minas a estrada,
na Igreja Nova, que fica
ao direito lado, e segue
sempre firme a Vila-Rica.

Entra nesta grande terra,
passa uma formosa ponte,
passa a segunda; a terceira
tem um palácio defronte,

Ele tem ao pé da porta
uma rasgada janela:
é da sala, aonde assiste
a minha Marilia bela.

Para bem a conheceres,
eu te dou os sinais todos
do seu gesto, do seu talhe,
das suas feições e modos.

O seu semblante é redondo,
sobrancelhas arqueadas,
negros e finos cabelos,
carnes de neve formadas.

A boca risonha e breve,
suas faces cor-de-rosa,
numa palavra, a que vires
entre todas mais formosa.

Chega então ao seu ouvido,
dize que sou quem te mando,
que vivo nesta masmorra,
mas sem alívio penando.