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Condenada a Igreja de São Francisco de Assis da Pampulha

© Maria Lucia Dornas Detalhe - Jesus é condenado a morte - Maria Lucia Dornas Detalhe - Jesus é condenado a morte

Jornal A Noite, 26 de agosto de 1946, Rio de Janeiro


Condenada a Igreja de São Francisco de Assis da Pampulha


O arcebispo de Belo Horizonte classifica a obra de extravagante e aconselha o seu aproveitamento como museu de arte moderna - o templo não será consagrado e nem autorizada a celebração do Santo Sacrifício no seu altar.

(do enviado especial)


Nossa reportagem, após visitar demoradamente a Igreja de São Francisco da Pampulha, solicitou uma entrevista ao Arcebispo D. Antonio Santos Cabral, pois se tornava imperioso ouvir a opinião daquela alta autoridade eclesiástica. D. Antônio Santos Cabral nos recebeu em hora de audiência aos pobres. Mas apesar do seu grande trabalho, dispensou-nos particular atenção, louvou a iniciativa e cheio de ponderação, assim respondeu às nossas perguntas:


_ Inicialmente, posso adiantar que a construção da Igreja de São Francisco da Pampulha não dependeu da opinião das autoridades eclesiásticas. Não foi feita a doação do terreno à paróquia nem foram apresentados planos para aprovação prévia. Por mais uma vez, visitei a obra e desde logo percebi que se tratava de uma concepção ultramoderna, de técnica revolucionária.


_ Mas insistimos , não houve aprovação prévia ?


_ Não, e nem foi solicitada. É uma obra inteiramente particular, na qual o clero não teve a mínima participação. Minhas visitas foram feitas de caratê protocolar, pois não poderia em absoluto excusar aos ouvintes. Aguardava, entretanto, que o interior não divergisse da tradição e do equilíbrio. Mas, com o tempo, verifiquei, dolorosamente, que a fantasia dos artistas estava conduzindo por outros caminhos a realização de uma obra que se dizia em louvor ao piedoso São Francisco.


_ Não seria aconselhável proibir a continuação da obra ?


_ Nem aconselhável nem possível. Como interferir numa realização particular ? Quanto ao estilo arquitetônico, repito, poderia haver tolerância . Na França, todas as reconstruções religiosas estão obedecendo a técnica do cimento armado. Estilo verdadeiramente revolucionário, porém, compreensível. Torres parecidas com as antenas das estações de rádio, encimadas pela cruz, e outras iniciativas, tornam esses templos moderníssimos, bonitos e práticos, pois é preciso considerar que as antigas obras suntuosas, hoje, são praticamente impossíveis, principalmente na Europa, onde todo o material é caríssimo e os operários estão empenhados na reconstrução de cidades inteiras. Nos Estados Unidos também o estilo das igrejas sofreu grande evolução. Porque aqui não tolerar o mesmo? Ma de uma torre de antena, terminada em uma cruz, que bem simboliza a irradiação da fé, a essa da Pampulha armada em sentido inverso nada representando além de um bom cálculo de engenharia, há uma diferença enorme. Enquanto a primeira se atira ao alto, procurando Liz, bem elevando o símbolo sacro santo da fé, a outra parece querer perfurar o solo, em busca das trevas...


_ E quanto aos painéis e à decoração ?


_ Desgostam profundamente o clero e os fiéis. Fantasias de artistas. Extravagâncias que podem ficar muito bem nos salões de arte: motivo para estudos, polêmicas e discussões entre artistas, jornalistas e escritores. Acredito que tanto os adeptos do modernismo como os defensores da arte antiga, do chamado academismo, estão com razão, pois todos lutam pela evolução artística. Mas, para um templo aquilo não fica bem; não podemos desvirtuar a obra do Senhor nem a igreja é lugar para experiências materialistas embora artísticas.


_ Difícil, então a consagração da Igreja ?


_ Dificílima!


_ Mas a placa comemorativa de término da construção - já inaugurada embora o templo ainda não esteja concluído - faz referência ao nome de Vossa Reverendíssima.


_ Mas nela não está escrito que o clero aprovou ou consagrou a igreja. Adianta que foi construída quando o Sr. Benedito Valadares era governador do Estado de Minas Gerais e eu arcebispo de Belo Horizonte. Com essa placa, creio eu, pensaram os idealizadores da igreja prestar homenagem ao governador, a mim e ao prefeito. O seu valor é todo relativo.


Finalizando, ponderou o sr. bispo: Por que ali não se instala um museu de arte moderna? Essa luta toda está marcando uma época. Dentro em pouco, os artistas se ajustarãoescondendo o caminho que procuram, e o período de combate passará. Ai, então, ninguém pensará em construir edifícios como aquele, porque a arte moderna já será outra... Assim pois, é aconselhável aproveitar a quase igreja de São Francisco da Pampulha com toda a sua extravagância. Em vez desta discussão de agora, de toda essa divergência, contentaríamos uma corrente, não desgostando a outra, e todas ficariam com o espírito tranqüilo, uns servindo sua arte, outros trabalhando na seara do Senhor, sem outra preocupação além de serem úteis.


.... perguntas sobre a Catedral de Belo Horizonte:


_ E para concluir: mais alguma coisa sobre a São Francisco da Pampulha?


_ Já disse: obra extravagante. Um edifício bem talhado para nele se instalar um museu de arte moderna, porém, inadequado por todos os motivos para ser consagrado como igreja. Nele, pode adiantar pelo A Noite, eu não autorizei a celebração do Santo sacrifício da Missa, em qualquer cerimônia."