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Os Profetas

  • Congonhas - Pôr do sol com profetas de Aleijadinho - Alexandre C. Mota
  • Congonhas - Pôr do sol com profetas de Aleijadinho - Alexandre C. Mota
  • Congonhas - Pôr do sol com profetas de Aleijadinho - Alexandre C. Mota

Terminada a execução das imagens dos Passos da Paixão, Aleijadinho e seu 'Atelier' iniciam as obras dos Profetas no adro do Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos. O magnífico conjunto escultórico foi totalmente executado em menos de cinco anos. Mesmo muito debilitado pela doença que o consumia, e utilizando largamente do trabalho de seu 'Atelier', Aleijadinho deixou em Congonhas, nas imagens dos Profetas, a marca de seu gênio. Esta marca se percebe antes mesmo de uma análise mais detalhada dos 12 Profetas. Ela é visível na magnífica integração das estátuas ao suporte arquitetônico constituído pelo adro da Basílica, com suas escadarias em terraços e imponentes muros de arrimo. Os blocos verticais de pedra parecem brotar espontaneamente dos parapeitos que arrematam a parte superior dos muros e, contrapondo a linha horizontal dominante, figuram modulações rítmicas de poderosa força expressiva.


O efeito final de unidade entre as estátuas dos Profetas e seu suporte arquitetônico já levou alguns estudiosos a pensar que Aleijadinho teria traçado também a planta do adro do Santuário. Entretanto, o mais provável é que ele tenha se utilizado do espaço já construído, com tamanha genialidade, que o resultado final tenha sido um novo espaço visual, diretamente subordinado ao conjunto escultórico que saiu de suas mãos.


Na realidade, Aleijadinho não só se utilizou da parte arquitetônica já construída, como também desrespeitou cabalmente os dados previstos pela arquitetura do adro para a colocação das esculturas. E ao desrespeitar esses dados, ele conseguiu em efeito melhor, muito mais rico, com suas estátuas monumentais, em tamanho quase natural, que se interligam entre si por um jogo sutil de correspondência, formando um conjunto unitário e, ao mesmo tempo, diversificado em suas partes.


Muitos autores consideram perfeita a organização cenográifca dos Profetas, comparável à de um ato de balé. Germain Bazin observou que determinados profetas desempenham o papel de protagonista, subordinando a si os demais. A função do mestre nesse 'balé', poderia ser atribuída a Abdias, de braço erguido e dedo em riste para o céu, gesto que tem um correspondente do lado oposto, na posição  equivalente do braço erguido de Habacuc. Um amplo semi-círculo, iniciado a partir dos gestos desses dois profetas, fecha externamente a composição. Esse semi-círculo contém internamente dois semi-círculos de dimensões decrescentes, o primeiro podendo ser constituído a partir dos perfis laterais de Jonas e Joel e o último prolongando os gestos de Daniel e Oséias.


As atitudes e os gestos individuais de cada uma das estátuas são simetricamente ordenados com relação ao eixo da composição. As correspondências não se fazem de forma geométrica, mas por oposições e compensações de acordo com as leis rítmicas do barroco. Um gesto de aparência aleatória, quando visto isoladamente como a ampla flexão do braço direito de Ezequiel, adquire extraordinária força expressiva quando relacionado com seu prolongamento natural, constituído pelo braço esquerdo de Habacuc.


Entretanto, essa ordenação geral da obra se revela integralmente ao espectador que souber respeitar as regras do jogo da cenografia barroca. A arte barroca, de características eminentemente teatrais, sempre tem um ponto de visão privilegiado e, em Congonhas, esse ponto situa-se aproximadamente a meia encosta da esplanada, entre o jardim dos Passos e a escadaria de acesso ao adro. Dali, torna-se mais fácil tanto a apreensão geral da cena quanto das estátuas dos Profetas individualmente. Vistas por esse ângulo, torna-se quase imperceptíveis as discutidas deformações que caraterizam quase todas as esculturas. As proporções atarracadas dos profetas Isaías e Jeremias, adquirem surpreendente força expressiva quando observadas nesta posição.


Numa análise mais profunda, alguns estudiosos discutem o verdadeiro sentido dessas deformações. Até que ponto elas resultariam da intenção do Aleijadinho ou deveriam ser imputadas à incapacidade técnica dos oficiais que o auxiliaram na obra. A primeira hipótese é a mais provável.


Entretanto, alguns autores concluiram que a origem das deformações dos Profetas seria mesmo a insuficiência técnica dos auxiliares de Aleijadinho. As maiores dificuldades da obra dos Profetas, em comparação com a dos Passos, surgira como o novo sistema de trabalho em pedra que parece ter exigido de Aleijadinho um esforço quase sobre-humano.


Depois das obras dos Passos, recentemente concluídas, o artista entrega, em 1800, o primeiro lote de peças do conjunto dos Profetas que, apesar de já revelar forte intervenção do 'Atelier', todas elas têm nos detalhes fundamentais a marca pessoal do mestre. E, depois de duas interrupções na sequência de execução da obra, finalmente, em 1805, estava concluído o mais expressivo conjunto escultórico barroco do mundo, e as deformações de alguns Profetas não diminuem a importância da obra do mestre Antônio Francisco Lisboa, o imortal Aleijadinho.


A série de profetas de Congonhas é uma das mais completas da iconografia cristã ocidental. Além dos profetas maiores, figuram oito profetas menores, selecionados na ordem do cânon bíblico.


A teologia cristã fixa em 16 o número ideal de profetas, que resulta da soma dos 12 apóstolos e quatro evangelistas. Os quatro maiores profetas, assim chamados pela maior quantidade de textos proféticos escritos, correspondem aos evangelistas Isaías, Jeremias, Ezequiel e Daniel. Os 12 profetas menores, correspondentes aos apóstolos, são Oséias, Joel, Amós, Abdias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuc, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias. No conjunto esculpido por Aleijadinho, há a substituição de Miquéias por Baruc, discípulo e secretário de Jeremias, que não integra a lista oficial de profetas, uma vez que seus textos ficaram integrados aos de Jeremias, na edição da Vulgata.


Aleijadinho não apenas respeitou a ordenação do cânon bíblico para a escolha dos Profetas de Congonhas, como ainda situou-os no adro em posições que seguem de perto essa ordenação. Isaías e Jeremias ocupam os primeiros postos à entrada. No terraço intermediário, encontram-se Baruc à esquerda e Ezequiel à direita. Finalmente, alcançando o nível superior, temos nas posições de honra, Daniel e Oséias, seguido imediatamente por Joel. Ocupando os ângulos laterais da esquerda, estão Amós, Abdias e Jonas, sendo que Naum e Habacuc ocupam posições correspondentes à direita.


A trajetória de uma seta numa linha contínua sobre a planta do adro, seguindo a ordem descrita, revelaria um desenho em ziguezague para a parte central das escadarias, com alternância de setas para a direita e oblíquas para a esquerda. Duas linhas diagonais, que se cruzam no centro do último patamar, unem Joel e Amós e Jonas e Naum. O término da trajetória é assinalado, de ambos os lados, pelas oblíquas que unem Amós e Abdias e Naum e Habacuc.


No norte da Europa, especialmente na região de Flandres, se estabeleceu o tema da caracterização dos profetas, patriarcas e outros personagens bíblicos, com vestimentas exóticas e complicadas, que incluiam longos casacos e mantos debruados de baixas bordadas, completados por barretes em forma de turbantes à moda turca. São, portanto, comuns as representações de personagens vestidos à moda turca na arte portuguesa entre 1500 e 1800. Aleijadinho teve certamente conhecimento do tema através de gravuras, editadas na época. Tanto que a coroa de louros de Daniel e a baleia de Jonas são análogas às de gravuras de Florença do Século 15.


In: Cidade dos Profetas, Sexta edição, dezembro de 2001

 

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