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Ouro Preto

Igreja da Ordem Terceira de São Francisco de Assis

  • Ouro Preto - Forro da nave da Igreja de São Francisco de Assis - Sérgio Freitas
  • Ouro Preto - Igreja de São Francisco de Assis - Sérgio Freitas
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  • Ouro Preto - Forro da nave da Igreja de São Francisco de Assis - Sérgio Freitas
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  • Ouro Preto - Det.forro do nártex - Ig.S.F.de Assis - Ataíde - Maria Lucia Dornas
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  • Ouro Preto - Det. da portada da Ig. S. Fco de Assis - Maria Lucia Dornas
  • Ouro Preto - Det. da portada da Ig. S. Fco de Assis  - Maria Lucia Dornas
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'Não entrarei, senhor, 
 no
templo,
 
seu frontispício me basta.
 
Vossas flores e querubins
 são matéria de muito amar.


Dai-me, senhor, a só beleza
destes ornatos. E não a alma.
Pressente-se dor de homem
paralela à das cinco chagas.'

                                                 Carlos Drummond de Andrade


Obra prima da arte colonial brasileira, a Capela de São Francisco de Assis é uma visita imperdível em Ouro Preto. Aqui os dois grandes mestres mineiros,
Antônio Francisco Lisboa e Manoel da Costa Ataíde , deixaram obras-primas que mereceram versos de Carlos Drummond de Andrade.


Dentro da Matriz de Nossa Senhora da Conceição surgiram várias Irmandades, entre elas, a  Ordem Terceira de São Francisco em 1745. Os estatutos foram aprovados em 1760, em Madrid, pelo  frei Pedro Juan Molina. Mas, os irmãos franciscanos só obtiveram a licença régia para a edificação do templo no ano de 1771. O desejo de terem sua própria capela fez com que, em 1765, antes da  aprovação, começassem a construção pela terraplanagem do terreno. 


Arquitetura e decoração
  
O mestre pedreiro Domingos Moreira de Oliveira arrematou a obra de alvenaria em 1766, executando o risco elaborado por Antônio Francisco Lisboa. Era comum, no século 18, os templos terem suas construções iniciadas pela capela-mor; essa foi a primeira etapa a ser concluída. 


Frontispício 
Sem dúvida, esse belíssimo frontispício curvilíneo, aliado às partes decorativas, é uma obra excepcional da arquitetura brasileira. Segundo análise da Professora Myriam Ribeiro, o frontispício se aproxima do tardo-barroco internacional devido sua fachada dramática e movimentada. O risco elaborado por Aleijadinho desapareceu em 1910. As “torres fecham-se para trás no corpo da igreja, projetando o frontispício. A novidade se manifesta ainda nas formas circulares das torres, até então sem precedentes, coroadas por flechas de proporções audaciosas. O frontispício, de grande efeito arquitetural, concentra o efeito ornamental na portada e no medalhão superior.” (IPHAN).


Portada

Foi executada entre 1774 e 1775. Conforme os recibos, por ela Aleijadinho recebeu 14$400 réis . Na composição, dois grandes anjos: o da esquerda carrega uma cruz e o da direita aponta para a composição central formada por dois brasões – um com os símbolos franciscanos, o outro com as armas do Reino de Portugal. Acima, Nossa Senhora, e nas suas vestes, o forte símbolo franciscano: o braço de Cristo unido ao de São Francisco. Nossa Senhora é muito querida pelos franciscanos. A capela favorita de São Francisco era a de Nossa Senhora dos Anjos, que ficou conhecida como Porciúncula. A  Senhora dos Anjos tornou-se a padroeira da Ordem.


Medalhão
Segundo a documentação de 1766, já existia a previsão de uma escultura para o local, que geralmente era destinado ao óculo.  A respeito da estética e da execução, o historiador da arte, Germain Bazin, analisa: “A qualidade cuidadosa da execução revela uma obra saída inteiramente da sua mão, exceto, talvez, nas cabeças de anjos, um pouco afetadas, nelas há a ausência do senso monumental... a anatomia do torso do Cristo-Serafim é notável. A cabeça do santo é uma das obras-primas do nosso artista... permite apreciar sua finura aristocrática e a pureza do olhar iluminado pela aparição...”


Na composição, tem-se: o Cristo Seráfico; São Francisco ajoelhado recebendo os estigmas; a igreja do Monte Alverne, onde São Francisco recebeu os estigmas dois anos antes de sua morte em 1226; o tronco cortado, a morte; ramos de açucena, a pureza.


Decoração interior
 
No forro do nártex, o início da magnífica obra de Ataíde e o convite à penitência, arrependimento e autoflagelação. Um anjo carrega a tarja “Vanitas Vanitatum”, “Vaidade das Vaidades diz Qohélet, vaidade das vaidades, tudo  é vaidade”. Eclesiastes 2. Depois há outra inscrição, “Memento Mori”, Lembrate-se que morrerás. É convite ao fiel para refletir sobre sua vida terrena e espiritual. Na tarja central, objetos diversos que trazem o simbolismo:

Vela – Vida que se apaga

Ampulheta – Brevidade da vida

Flores – Coisas efêmeras

Canhão – Força bélica, o poder temporal

Pergaminho, livro, pena e tinteiro – Vaidade do conhecimento humano

Caveira com ramos de espinhos – Meditação sobre a vaidade e seu fim

Alaúde com livro de música – Música profana

Árvore com caule interrompido e algumas folhas – A vida é breve e vã, as folhas representam que um dia o homem vai ressuscitar.


No forro da nave, a obra máxima do mestre Manoel da Costa Ataíde: Nossa Senhora Rainha dos Anjos aparece, em toda magnificência, em meio de uma revoada de anjos que se espalham pela composição repleta de rocalhas e guirlandas. “O professor, aqui, deu espetáculo de talento, criando uma verdadeira sinfonia pictórica pelo teto acima, transbordando alegria, graça e vibração... Nota-se ainda um surpreendente efeito: é a fusão das cores conseguidas, vitória  magnífica do pintor.” (Fritz Teixeira Sales).


A Nossa Senhora Rainha dos Anjos não está dentro dos padrões estéticos da iconografia europeia – Virgens de pele muito clara, olhos azuis e cabelos louros. A  Virgem do Mestre é mulata mineira.


O rococó atinge seu requinte máximo nesse forro. Ataíde foi, sem dúvida, o grande mestre da pintura perspectivista do Brasil Colônia. A trama arquitetônica é leve, composta de rocalhas, delicadas guirlandas e anjos que parecem flutuar nos encantos do vivo colorido. As composições sempre são formadas por um medalhão central apoiado por colunas interligadas com arcos plenos,  e nas laterais, púlpitos com os doutores da igreja: São Jerônimo, Santo Agostinho, São Gregório e Santo Ambrósio.    


“Na Capitania do ouro e dos diamantes produziu-se uma situação especialíssima no terreno da música. Desde cedo caiu nas mãos dos mulatos o exercício do gênero erudito exercido superlativamente nas igrejas e capelas, perante a assistência da festa religiosa, tanto de cor branca como de cor parda e preta... para as autoridades civis, militares e eclesiásticas não houve outra  solução senão aceita-los.” (Curt Lange).


No final da década de 80, um músico argentino chamado Norberto Broggini, especializado em música barroca, analisou os anjos e seus instrumentos musicais e fez interessantes observações como:


- Um violino em tamanho natural (modelo clássico).


- Flauta barroca – transversa cônica, com uma chave apenas.


- Chimia – precursora do oboé.


- Curva do violino – oposta a curva atual.



- Trompa – começou a ser utilizada pelas orquestras do século 18, até então só usada em caçadas. Pode se considerar que os músicos mineiros estavam na vanguarda.


- As partituras têm um código real e legível . É música sacra e, provavelmente, foi escrita pelo próprio mestre.  


Na parede da nave, quatro painéis mostrando  São Pedro, Santa Madalena, São Francisco e Santa Margarida de Cortona em atitudes penitenciais.     


Manoel da Costa Ataíde executou as obras decorativas de 1801 a 1812.


Os altares laterais já são bem tardios. Foram projetados pelo Aleijadinho, mas só executados no século 19, de 1829 a 1890. Estão longe de terem o vigor de uma obra do mestre.


Púlpitos

Os púlpitos, em pedra sabão, foram executados por Aleijadinho e  inaugurados em 5 de dezembro de 1771. O cônego Luiz Vieira da Silva, considerado o maior orador que a Capitania das Minas conheceu e futuro inconfidente, foi convidado para fazer o sermão de inauguração. A colocação é inovadora para as igrejas mineiras. Por estarem colocados no arco cruzeiro, essa posição é típica das igrejas conventuais.


Na temática da decoração, tem-se, no púlpito do evangelho, do lado esquerdo, uma cena do Novo  Testamento: Jesus pregando na barca. Jesus está em primeiro plano, pregando para uma multidão que é representada em perspectiva crescente. Germain Bazin  observa: os personagens do segundo plano parecem estar nas pontas do pé para aparecerem. O planejamento da roupa e o amarrado do manto merecem uma atenção especial. 


No púlpito da epistola, lado direito, uma cena do Antigo Testamento mostra Jonas sendo lançado ao mar. Nos dois púlpitos, aparecem barcas; há um paralelo entre elas e a própria igreja, pois a nave simboliza a grande barca onde os fiéis se preparam para a vida espiritual.   


Preste atenção aos anjos, as expressões são leves, estão sorridentes, parecem crianças felizes, despreocupadas. Cabelos anelados, bochechudos, nariz afilado e olhos amendoados fazem a tipologia do mestre.


Capela-mor

É uma das mais notáveis obras do rococó mineiro. Segundo um documento, Antônio Francisco fez o projeto para o retábulo da capela-mor entre os anos de 1778 e 1779. Mas a talha só foi realizada doze anos depois. Foram assinados pelo mestre trinta e três recibos entre os anos de 1790 e 1794. Antônio Francisco executou o trabalho no arraial de Rio Espera. A policromia foi feita pelo Mestre Ataíde, pois estava incluída no contrato geral da decoração do templo. 


O coroamento do retábulo-mor é formado pela Santíssima Trindade, que coroa Nossa Senhora.  Querubins também participam da cena. A obra, provavelmente, foi inspirada na Santíssima Trindade de Xavier de Brito, da Matriz do Pilar. 


Pontos altos dessa talha são:


O sacrário e o detalhe dos estigmas
. Na simbologia da Ordem Franciscana encontra-se sempre o tema dos estigmas. Pés, mãos e coração chagados, representando os ferimentos causados pelos cravos na crucificação. No dia 14 de setembro de 1224, São Francisco subiu ao Monte Alverne para meditar. Era dia da Santa Cruz. Durante a meditação, São Francisco entrou em êxtase místico e Cristo, em forma de Serafim, lhe aparece. Francisco começa a sentir dores agudas nas mãos, nos pés e no peito. Quando o Cristo desaparece, Francisco percebe que tinha recebido suas chagas. Sempre escondeu essas chagas, que só foram descobertas pelos companheiros de Ordem após sua morte.


Frontal da mesa do altar
. Bazin chama esse conjunto de magnífico e realmente o é. Aleijadinho esculpiu a cena descrita em Marcos, um anjo anuncia as mulheres que Jesus ressuscitou – Surexit non est hic. O mestre foi minucioso e detalhista ao retratar a cena. O planejamento da roupa do anjo, sua musculatura, pernas, braços e palma da mão. A fisionomia de espanto da última mulher que, com a mão no ombro da outra, quer saber o que está acontecendo é primorosa. A cena é fechada por uma moldura, mas o sudário que sai do túmulo não respeita o limite, passa por uma rocalha e cai para fora da moldura. Realmente é magnífico. 


Toda a decoração da Capela-mor foi projetada pelo Aleijadinho, mas as figuras em relevo na ornamentação do forro (Santo Antônio, São Boaventura, São Ivo e São Conrado) são nitidamente dos auxiliares.


No centro do forro da capela-mor tem-se a síntese da graciosidade encantadora do rococó. Dois elementos de sua preferência: anjo e flor. É um anjo que mostra força e vigor. Suas roupas esvoaçam em movimentos sinuosos, como se estivesse trazendo dos céus flores para adornar o templo.


Painéis parietais
 
Pintado à “maneira de azulejo”. Aqui mestre Ataíde nos conta a vida de Abraão, que se insere na temática decorativa que é a penitência. “Representando cenas da vida de Abraão, motivo maior de sacrifício pessoal em nome da fé ... se inspirou na temática existente nos gravados de Rafael Sânzio (1483-1520), divulgados pela Bíblia de Demarne. Contudo, o artista marianense modificou substancialmente a composição do grande pintor renascentista, em proveito de cenas mais íntimas e afetivas, dos tipos humanos locais, dos corpos roliços, de exuberantes rocalhas.” (Adalgisa A. Campos).


Devido à distância e ao relevo entre a Capitania das Minas e o litoral, foi impossível para as irmandades religiosas a importação dos azulejos portugueses. Assim, os artistas mineiros tiveram que utilizar painéis de madeira.


Complementando a decoração dos painéis, têm-se anjos que seguram os instrumentos de penitência e que, para a professora Adalgisa, exibem uma profunda unidade iconográfica. Os instrumentos carregados pelos anjos são: disciplina, instrumento de flagelação utilizado pelos penitentes, a Ordem fundada por Francisco se fundamentava na pobreza, no arrependimento e no sofrimento; cilício, é um cordão ou cinta de pêlo ou lã áspera e eriçada de pontas de arame que se traz sobre  a pele para a prática da penitência; rosário e salmo 50, para as orações, esse salmo, também conhecido como “misere”, é uma súplica penitencial, se reconhece o pecado e se pede perdão. “Tem piedade de mim, ó Deus, por teu amor! ...Lava-me da minha injustiça e purifica meu pecado.” Era costume proferir o salmo 50 enquanto se usava a disciplina. Recomendava-se disciplina às segundas, quartas e sextas-feiras,  e cilícios às terças, quintas e sábados, por uma ou duas horas.


Ainda nas paredes da capela-mor, dois painéis mostrando a cena da Santa Ceia  e do Lava-pés.


Sacristia
O forro da sacristia foi pintado por Manoel Pereira de Carvalho e os quadros são de Francisco Xavier Gonçalves.


O grande destaque é para o lavabo do Aleijadinho. Foi executado à moda de um retábulo. Nele se tem a simbologia franciscana. “Não sendo um fiel um anjo, ele sofrerá e morrerá como demonstram os querubins que, sobre o coroamento, ostentam a ampulheta e a caveira.” (Marcos Hill). Uma figura com o hábito franciscano carrega uma cartela com os dizeres: “Haec est ad coelum quae via ducit – Esta é a via que conduz ao céu'. Mais abaixo, dois anjos carregam os síbolos da pobreza e da castidade. Entre os dois, mais uma inscrição: “Ad Dominum curro sitiens cervus ad undas “ – 'Corro para o Senhor como o cervo sedento para a água'. O lavabo foi presente dos irmãos para a Ordem Terceira Franciscana.


O cemitério da Ordem foi construído por Manuel Fernandes da Costa e José Ribeiro de Carvalho entre 1831 e 1838.


A Igreja de São Francisco de Assis é tombada pelo IPHAN
Registrada no livro de Belas Artes
Inscrição: 106   Data: 4 de junho de 1938.


Horário de funcionamento: terça a domingo 08h30 às 12h e de 13h30 às 17h.


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