Destinos

Tiradentes

Capela do Bom Jesus da Pobreza

  • Tiradentes - Detalhe da Capela Bom Jesus da pobreza  - Divanildo Marques

No Largo das Forras está a Capela de Bom Jesus Agonizante, também conhecida por Bom Jesus da Pobreza. Sua construção deve datar da segunda metade do século 18. É simples, trazendo uma espécie de sineira na parte lateral da fachada.


O seu interior também é marcado pela simplicidade. Os destaques são: uma pintura no forro, mostrando o Pai Eterno, o Espírito Santo e uma bela imagem do Cristo Agonizante com olhos de vidro e “rubis” nas chagas.


Os “Rubis” nas Chagas de Cristo na iconografia setecentistas 
É comum encontrar referências sobre imagens de Cristo que dizem que as gotas de sangue das mesmas são incrustadas em rubi. Pesquisas revelaram que não se trata da pedra preciosa. Através de microscopia eletrônica com detector de energia dispersiva de raio X (EDS), feita na Escola de Engenharia da UFMG em cerca de 10 cristos dos séculos 18 e 19, que estão em diversas cidades históricas mineiras, foram levantados os materiais químicos presentes.


Em todos as obras,  as “gotas de rubi” apresentaram enxofre (S) e arsênico (AS), que são elementos químicos  característicos de um mineral conhecido como ouro-pigmento, devido ter a cor amarelo-ouro. “Quando aquecido em tubo de vidro fechado, o ouro-pigmento, ao sublimar (passar diretamente da fase sólida para a gasosa) e, em seguida, resfriar, adquire uma coloração vermelha com brilho resinoso.” (Ciência Hoje).


Chamados de “ rubis” ou “resina vermelha”, na realidade não são nem rubis nem resina. As características físico-químicas não conferem com nenhum dos dois. Nossos mestres mineiros dominavam muito bem técnicas europeias que estavam a serviço da arte. Assim, a técnica necessária para  dotar essas imagens com gotas de sangue que exaltavam o dramatismo próprio do barroco estava acessível aos artistas da colônia, que produziram um grande número de imagens utilizando essa técnica.


Para o pesquisador de arte mineira, Carlos del Negro, o material utilizado chama-se ialde queimado. “O ialde amarelo, ouro-pimenta (AS2S4 ), de cor amarela viva, peso específico 3,46, aquecido, funde facilmente em líquido vermelho (ponto de fusão 300°); pelo resfriamento, solidifica-se  em massa vermelha de densidade 2,76” .


Essa técnica era ensinada em um manual português que apresentava “segredos para os ofícios, artes e manufacturas, e para muitos objetos sobre a economia domestica”, de 1794, editado em Lisboa pela Officina Simão Thadeo Ferreira.


“Para fazer pingos de fangue para por nas chagas dos Crucifixos, mette ouropimenta em hum deftes vidros de vintem que tem com pouca differença tanto de altura como de diametro, tapa-o deixando-lhe hum pequeno buraco para que não eftale, e põem-o em banho maria até que o ouro pimenta fe derreta, e eleve em vapor, que hirá defcorrendo outra vez pelo vidro ao redor do colo; tira então o vidro do fogo, deixa-o esfriar, e quebra-o para lhe tirar os taes pingos, que imitarão perfeitamente pingos de fangue. Quanto maior, e mais redonda for a volta do vidro em cima, melhores fahirão os taes pingos.”


“Para fazer pingos de agora para a chaga do peito dos Crucifixos, mette em fogo de carvão bem ardentes aparas dos vidros brancos, que os vidraceiros corrão para as vidraças, mette cada apara feparadamente com huma ponta, e pega-lhe pela outra com hum alicate; quando vires que o vidro fé derrete tira-o do fogo que fará hum fio, com hum pequeno pingo. Continúa efta operação até fazer ao que te forem neceflarios.”


A capela de do Bom Jesus é tombada pelo IPHAN
Registrada pelo livro de Belas Artes
Inscrição: 477   Data: 27 de janeiro de 1964.

Enviar link