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Cemitério do Bonfim

  • Belo Horizonte - Arte Tumular - Maria Lucia Dornas

Constavam na lista das obras para a nova capital o projeto e a construção do Cemitério Municipal, novidade para o Brasil e para Minas Gerais. Durante a Colônia e o Império, a Igreja estava fortemente vinculada ao Estado. Como não havia certidão de nascimento e atestado de óbito, os registros correspondentes eram os assentamentos de batismo e óbito, de responsabilidade das paróquias. Os sepultamentos também estavam sujeitos à Igreja; campas distribuídas pela nave, e a capela-mor era destinada aos fiéis defuntos.


Em 1801, por preocupações higienistas, aconteceu uma tentativa de proibir os sepultamentos nos templos. Mas a lei esbarrava em uma questão de fé, ou seja, ser sepultado em território sagrado era uma das condições para a salvação da alma. Os protestos por toda a Colônia adiaram a proibição. Em 1828, uma lei imperial proibia os sepultamentos, que impregnavam as igrejas com um ar mefítico.


Em Minas, a lei demorou a ser obedecida. O presidente da Província, Francisco José de Souza Soares Andréa, em 1844, enviou uma nota à Assembleia que dizia: "É contra a decência que os templos sejam depósitos de cadáveres, é repugnante entrar em uma igreja para fazer oração ou cumprir com outros deveres de nossa religião, e ter de sofrer os efeitos da podridão, ou de sair dali para não se expor a um contágio [...]".


A solução encontrada foi a construção de cemitérios muito próximos das igrejas e capelas; dependendo do terreno, foram construídos, ao lado, nos fundos, à frente da igreja. Não era ainda o melhor recurso. Décadas depois, a questão continuava a ser alvo de críticas. O senador João Florentino Meira de Vasconcelos, na seção ordinária da instalação da Assembleia Provincial de 1881, protestou: "Em todas as outras províncias ao menos nas que tenho notícia, existem cemitérios públicos ou particulares, situados em lugares apropriados e afastados do centro populoso, para sepultura dos mortos".


A República colocou fim à questão com a proibição definitiva dos cemitérios, a criação do atestado de óbito como um documento civil e a instalação dos cemitérios municipais. Belo Horizonte, capital planejada dentro de padrões urbanísticos inovadores do final do século 19, tinha em sua planta o local destinado à construção do Cemitério Municipal - Cemitério do Bonfim. Hermano Zickler, José de Magalhães e Edgard Nascentes Coelho foram responsáveis pela planta, que lembra o projeto urbano da cidade.


Logo após sua inauguração, em 7 de fevereiro de 1897, surgiram túmulos e mausoléus com caprichosa decoração. Os principais artistas responsáveis belos exemplares de arte tumular no Cemitério do Bonfim foram: João Amadeu Mucchiut, responsável também pelas fachadas da Igreja Nossa Senhora de Lourdes e da Academia Mineira de Letras e do altar-mor da Igreja São José; e ainda os irmãos Natali, os irmãos Lunardi, João Scuotto, Carlo Bianchi, Gino Ceroni, Nicola Dantolli, Antônio Folini, Alfeu Martini e José Scarlatelli.


Esses talentosos artistas europeus que trabalharam em diversas obras públicas, particulares e em igrejas na nova capital possuíam bom conhecimento sobre arte cemiterial e deixaram no Bonfim belas iconografias sobre morte, fé, tristeza e esperança. Tais temas foram tratados por diversos estilos: acadêmico, art nouveau, art déco e modernismo.


Próximos ao necrotério, estão os túmulos mais antigos; desse período, é marcante a decoração em mármore. Após a década de 40, surgem os túmulos com decoração em bronze e granito.O mausoléu que mais causa admiração a quem vai ao Bonfim é o do ex-governador Raul Soares. Em bronze e granito, exibe expressiva simbologia, executada pelo italiano Ettore Ximenes, que trabalhou com Manfredo Manfredi no Monumento à Independência em São Paulo.


A representação da Pátria ergue-se grandiosa no centro do mausoléu. Nas mãos, traz os símbolos do direito, da vitória e da força. A força, representada pela espada, significa a defesa da lei. A figura da eloquência tem as mãos abertas em atitude discursiva. A História, pensativa sobre um livro, e o Amor à Pátria, simbolizado por um jovem que beija um manto, encontram-se no plano médio.


Finalizando, no plano mais baixo, anjos com lamparinas iluminam o busto de Raul Soares, simbolizando luz para o caminho do governador após a morte. É notável a beleza delicada do anjo do lado direito. Na lateral existe uma placa em bronze com os dizeres: "Ao seu ex-ministro Dr. Raul, homenagem da Marinha".O mausoléu foi inaugurado em 1926, dois anos após sua morte.


Quinhentos e quarenta túmulos foram inventariados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha-MG). O levantamento foi realizado de março de 2008 a outubro de 2010. "São peças que representam algum tipo de memória histórica da capital mineira. É a proximidade entre as pessoas que construíram a cidade e o cemitério", comparou o historiador e coordenador das atividades, Luís Gustavo Molinari Mundim.


Os túmulos mais visitados:


Padre Eustáquio
Quadra 43, Carneiro 312


Irmã Benigna - atribuição de milagres
Quadra 9, Carneiro 145


Menina Marlene - atribuição de milagres
Quadra 36, Carneiro 26


Sepulturas de destaque:

Olegário Maciel
- Governador do Estado / Presidente da República
Quadra 18, Carneiro Especial


Raul Soares - Governador do Estado / Ministro da Marinha
Quadra18, Carneiro Especial


Bernardo Pinto Monteiro - Senador
Quadra 10, Carneiro Especial


Francisco Silviano de Almeida Brandão - Governador do Estado / Vice-Presidente
Quadra 7, Carneiro Especial


Benedito Valadares - Governador do Estado
Quadra 18, Carneiro Especial


Otacílio Negrão de Lima
Praça Central


Julia Kubitschek - mãe de Juscelino Kubitschek
Quadra 18, Carneiro 51A


Carlos Flávio - filho de Carlos Drummond de Andrade
Quadra 28, Sepultura 41


Roberto Drummond - Jornalista e escritor
Quadra 35, Carneiro 317


Agripa de Vasconcelos - escritor


Felice Rosso - fundador do hospital Felício Rocho


Bernardino de Lima Roberto "Batata" Monteiro - jogador do Cruzeiro e da Seleção Brasileira de Futebol
Quadra 24


Pedro Rousseff - pai da presidente Dilma Rousseff


Mais fotos em: Arte tumular no Cemitério do Bonfim

Fonte: http://www.defender.org.br/mais-de-500-tumulos-do-cemiterio-do-bonfim-passam-por-inventario-em-mg/

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