Minas Gerais

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Descrição Geográfica da Capitania de Minas (1807)

Parte 1ª


Capítulo 1º

Descreverei em breve a capitania de Minas Gerais. Situada de 335 a 343 graus e 30 minutos de longitude e entre os 13 e 22 graus e 51 minutos de latitude, constitui a melhor parte do Brasil na América Meridional. Divisas naturais a distinguem de cada uma das limítrofes. Pega com a do Rio de Janeiro, que lhe fica ao sul do Paraibuna que, depois de receber outros rios e vários riachos, se mistura com o Paraíba até entrar no oceano, aos 21 graus e 40 minutos entre aquela [a capitania do Rio de Janeiro] e a capitania do Espírito Santo. Da [capitania] de São Paulo, no mesmo rumo, a separa a serra da Mantiqueira. Tem ao norte as capitanias de Pernambuco e Bahia; o rio Verde, que desemboca no de São Francisco aos 13 graus e 23 minutos de latitude, a diferencia da primeira; e da segunda, o Carinhanha, que verte da serra da Tabatinga, e se introduz nas margens ocidentais do mesmo rio de São Francisco em 13 graus e 37 minutos de latitude. Entre a do Espírito Santo, ao oriente, e a de Minas medeiam sertões impenetráveis de matos virgens, e a ilha da Esperança no rio Doce. Quanto às raias da parte da Goiás ao acidente, ponto é em que ainda os governadores respectivos não estão de acordo. As mais naturais ao parecer são as serras da Parida, Cristais e Tabatinga, e sertões incultos, habitados apenas do Caiapó, gentio bravo que faz grandes estragos nos viajantes que seguem por aqueles sítios. Estas são também as que os governadores de Minas justamente pretendem.


Artigo 1º


Os seus rios principais


§ 1º

[A capitania de Minas Gerais] é cortada de grandes e pequenos rios. O Doce, um dos principais, deriva a sua corrente das fraldas da serra do Ouro Preto, das quais, seguindo caminho da cidade de Mariana (aonde de denomina Ribeirão do Carmo), e amontoado depois rumo do oriente com as águas do Guarapiranga, dois Gualaxos (o do Norte e do Sul), do Casca, do Sacramento, Mombaça, e com as do Piracicaba, no lugar em que confinam as duas comarcas do Ouro Preto e Sabará, e daí recolhendo as dos rios de Santo Antônio, Corrente, Suaçuís Grande e Pequeno, Cuité, Manhuaçu, se precipita no mar Brasílico e dá cômoda barra aos 19 graus de latitude e 92 léguas da Bahia.


§ 2º

O rio de São Francisco, o maior sem dúvida da capitania, traz sua origem da serra das Canastras, e cursando rumo do norte recebe em uma, e outra margem, o Bambuí, Lambari, Pará, Marmelada, Paraopeba, Povoação, Abaeté, rio das Velhas, Jequitaí, Paracatu, Urucuia, Rio Pardo, Salgado, Carinhanha e Japoré, afora muitos ribeiros que o opulentam. É de maneira caudaloso, mormente em tempo de chuvas, que se tem por vezes alargado a dez léguas das suas margens, deixando submergidas todas as fazendas e casas, compreendidos [sic] neste espaço, e afogados todos os animais que encontra em sua correnteza. É abundante de variedade de peixes, quais o surubi, o dourado, os mandis, corvinas, piaus, corumatãs, mantrinchãs, piabanhas. As piranhas são de modo carnívoras que, arrojadas pelas cheias aos lagos, devoram os animais de todas as espécies que neles entram a beber: deu-lhes a natureza dentes agudíssimos e muito rijos.


§ 3º

O rio das Velhas, de que tira o nome uma das comarcas de Minas, abunda de ouro, e não menos o Paraopeba. Este e o Pará são providos de muito bom peixe. O Paracatu em suas cabeceiras, e os que nele deságuam, quais o Catinga, Sono, Almas e Santo Antônio, sobre serem férteis de peixe, contém diamantes. O Urucuia, vertendo da serra da Tabatinga, caminho do oriente, opulento depois com as águas dos outros rios e ribeiros, vai perder-se no de São Francisco pela parte ocidental. Cria jacarés de prodigiosa grandeza e sucuris de comprimento e grossuras descompassados, tão perigosos e temíveis que costumam abalroar as canoas e devorar os naufragantes. Os rios aqui nomeados, e no parágrafo antecedente, são os mais notáveis da comarca do Sabará.


§ 4º

O rio Grande é o mais considerável da comarca de São João; recebendo o rio das Mortes, que deu nome à comarca, o Verde, o Sapucaí, e muitos outros, desde a serra da Mantiqueira, em que nasce, até as capitanias de São Paulo e de Goiás, aonde é chamado p Paraguai, entra no rio da Prata, e com ele no mar do Sul. Todos estes rios criam variedades de peixes.


§ 5º

O Jequitinhonha, na comarca do Serro Frio, nasce ao norte das serras do arraial de Santo Antônio do Itambé em 18 graus e 20 minutos, de onde vem variar rumo do Norte até 16 graus e 20 min, dilata seu curso para o oriente engrossado já com as águas de muitos córregos e rios; desemboca depois no Oceano em 16 graus, trocando o nome de Jequitinhonha no de rio Grande. Com a última denominação o descreve o P. Simão de Vasconcelos, copioso de ilhas, e correndo mais de légua por debaixo da terra a 40 [sic] do mar. É rico de pedrarias, e a darmos crédito às relações alcançadas do índio tupiniquim, situado em tempos antigos na costa marítima entre os rios Camamu e Quiriré.


§ 6º

Pode-se crer na sinceridade das relações, uma vez que do Jequitinhonha, nos lugares conhecidos, se tem extraído ouro, diamantes, esmeraldas, safiras, e, em maior cópia, águas marinhas. Porém, a hostilidade dos Aimorés e de outros Tapuias, tem obstado aos serviços regulares que se podiam fazer em demanda deste metal e pedrarias, no espaço de mais de cinqüenta léguas que vão, da paragem em que se trabalha, sem risco, ao mar.


§ 7º

O Piauí, o Itacambiruçu e Araçuaí, que fazem barra no Jequitinhonha, abastam de crisólitas e de outras pedras preciosas; os serviços minerais nestes rios têm sido proveitosos. Pescam-se neles a curumatã, traíra e piaus; os últimos do Araçuaí são mais estimados e saborosos do que os do Jequitinhonha.


§ 8º

Temos também o rio de São Mateus, de cujas riquezas não há maior certeza; porque, receiosos os nossos de muitos gentios bravos, têm desistido das suas experiências. Afora estes, outros correm na comarca do Serro, quais o Setúbal, rio Pardo Grande e o Paraúna, todos três diamantinos; o rio Pardo, o Verde, o Jequitaí, o Cipó, o de Santo Antônio, Saçuí Grande, Itamarandiba e Fanado.


Artigo 2º


Clima
Debaixo de um céu temperado e saudável, as Gerais desconhecem as enfermidades agudas que despovoam a maior parte dos países da terra. Não maravilha ver nelas homens centenários, e de mais anos. Conhecem-se contudo as moléstias análogas aos climas úmidos e quentes: a frouxidão, de que no andar dos tempos [se originam] doenças mortais, é uma das endêmicas de Minas. Também nos sertões, as águas encharcadas e os pântanos, com os ardores do sol, produzem sezões e febres malignas. Chamam os da capitania sertões às terras de além dos registros, e, particularmente, as que vizinham com as raias das capitanias da Bahia e Pernambuco. A natureza animal, vegetal e mineral ostentam toda a sua gala. Razão será começar pela mineral, pois que se lhe deve o descobrimento e fundação da capitania.


Breve Descrição Física e Política da Capitania de Minas Gerais.


Diogo P. Ribeiro de Vasconcelos.

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