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Triunfo Eucarístico (1733)

Autor: Simão Ferreira Machado

Data da 1º publicação 1734


Deu princípio aos festivos dias um bando por ministério de várias máscaras; um aprazível objeto da vista nas diferenças do traje e precioso da compostura; outros na galantaria das figuras, assunto de riso e da jocosidade: todos por diferentes modos anunciaram ao povo a futura solenidade desde os fins de abril até o três de maio.


Neste dia saíram duas bandeiras à pública veneração pelas ruas da Vila; uma delas tinha em uma face a Senhora do Rosário, em outra a custódia do Sacramento; a outra tinha também a custódia em uma face e na outra a imagem da Senhora do Pilar, ambas de damasco carmesim.


Foram levadas por duas pessoas ricamente vestidas com numeroso e grave concurso, até se colocarem, uma defronte do templo da Senhora do Rosário, onde estava o Sacramento, outra defronte do templo da Senhora do Pilar, dele padroeira, para onde havia de ser a transladação.


Em dia da ascenção se benzeu a nova Igreja, cuja função fez por comissão de Sua Ilustríssima o Reverendo Vigário da Vara de Vila Rica, Felix Simões de Paiva; assistindo-lhe todo o clero de ambas as paróquias, vários Religiosos e a maior parte dos povos da Vila e seus arredores, que já tinham concorrido. Serviram à festividade deste dia muitas danças e máscaras, ricamente vestidas e continuaram aos olhos sempre vário, o agradável espetáculo, ordinariamente de dia, até vinte e quatro de maio, dia da transladação.


Precederam-lhe seis dias suscessivos de luminárias entre os moradores de Ouro Preto por ordem do Senado da Câmara, três gerais em toda a Vila até o Padre Faria, bairro assim intitulado o último idôneo, para nestas noites dilatar às luzes o domínio da trevas. Fica eminente à Vila um altíssimo morro, a que deu o nome de Pascoal da Silva o mais opulento morador dela e das Minas; a este morro, pela inexaurível cópia de ouro, chama o vulgo, fiador das Minas; nele estas noites nas casas dos moradores as luzes, que mostravam aos juízos o centro da opulência, por sua altura, como na região das nuvens, pareciam aos olhos luminárias do Céu.


A claridade dos ares, a serenidade do templo, a estrondosa harmonia dos sinos, a melodia artificiosa das músicas, o estrépito das danças, o adorno das figuras, a formosura na variedade, a ordem na multidão, geralmente influíram nos corações uns júbilos de tão suave alegria, que a experiência a julgava alheia da natureza, o juízo comunicado do Céu.


Para a tarde de 23 de maio, que se cumpriam em um sábado, estava destinada a solene pompa da Transladação: até às horas competentes esteve o tempo tão sereno, como amanhecera; todo o aparato esperava junto da Igreja do Rosário o progresso da procissão, que havia conduzir o divino Sacramento; impediu uma repentina chuva os desejos de todo o concurso, e frustou neste dia o desvelo de muitos, dando nova causa a despêndios e trabalho em toda a prevenção da solenidade, que ficou deferida para o seguinte dia de manhã.


Houve discurso, que com pia contemplação se persuadiu, que no impedimento deste dia servira a natureza à providência de superior mistério, quanto ao dia, porque no próprio do Senhor se visse a sua glória cedendo à Mãe de Deus a esta propriedade a honra que se destinava ao seu dia. Quanto à chuva, julgando-a muda voz do Céu, antecipada expressão do agrado, com que via em competência a fé nos entendimentos, nas vontades o amor.


Amanheceu o seguinte dia vinte e quatro de maio e ruas destinadas à procissão prevenido todo o obséquio de festividade magnificência; nas janelas correu por conta das sedas e damascos, uma vária e agradável perspectiva para a vista empenhada competência de preciosidade e artifícios; viam-se em primorosos e esquisitos lavores entre ouro e prata, tremulando as idéias do Oriente troféus à opulência do Ocidente. Estavam nas ruas em distância competente cinco elevados arcos, em cujo artifício ajudou a preciosidade do ornato, arte e competência dos artífices; eram o maior empenho da magnificência, da vista, em vagarosa atenção, desvelo e delícias, contencioso triunfo de ouro e diamantes. Um destes, fabricado de cera, na vulgar matéria pelos empenhos da arte, fez nos juízos lugar à competência, nos olhos, teatro à vitória dos esplendores do ouro, das luzes, dos diamantes. Além destes arcos estava prevenido um altar para descanço do Divino Sacramento e deliberado ato da pública veneração; foi o seu ornato, pelo custo e asseio, viva imitação dos arcos empenhado dispêndio, do autor. Aparecia nas ruas a verde amenidade dos campos, em variedade de flores a Primavera, sentia-se nos ares, em flagrância de aromas transplantada no Ocidente a odorífera Arábia do Oriente. No populoso concurso tinha vila multidão das Cortes; nas galas a polícia e gravidade, vestiu neste dia a todos do mimo das cores a natureza, em lâminas de ouro e prata o sol das luzes dos raios.


Antes de sair a procissão, esteve o Divino Sacramento colocado em um braço da Senhora, em lugar do menino; celebrou-se uma missa oficiada a dois coros de música, em cujos ministros a riqueza dos paramentos dava gosto aos olhos, devoção aos corações; no púlpito o Reverendo Doutor José de Andrade e Moraes, com um doutíssimo Sermão fez o último ato a esta solenidade na Igreja do Rosário; saiu logo a procissão manifesta aos desejos da publicidade na forma seguinte.


Precedia uma dança de Turcos e Cristãos, em número de trinta e duas figuras, militarmente vestidos, uns e outros, em igualdade divididos a um Imperador e Alferes; a estes conduziam dois carros de excelente pintura e dentro acompanhavam músicos de suaves vozes e vários instrumentos.


Seguiam-se outras danças de Romeiros ricamente vestidos, que continuamente ofereciam a vista a gravidade do gesto, a variedade da ordem em diferentes mudanças da arte.


Depois desta se dilatava outra vistosa dança, composta de músicos, em cujas figuras era o ornato todo telas e preciosas sedas de ouro e prata; pertenciam-lhe dois carros de madeira de singular pintura; um menor, que levava patente aos olhos uma serpente; outro maior, de artifício elevado em abóboda, que ocultava um Cavaleiro; este, abrindo-se a abóboda, saiu de repente e já montado a cabeça da serpente, tudo representação: - diga-se a história humana, ou da Escritura em termos breves e claros.


Seguiam-se logo quatro figuras a cavalo, representando quatro ventos, Norte, Sul, Leste, Oeste, vestido à trágica. O vento Oeste trazia na cabeça uma caraminhola de tisso-branco, coberta de peças de prata, ouro e diamantes, cingida de uma peluta branca, matizada de nuvens pardas; rematada posteriormente em um laço de fita de prata, cor de rosa, coberta de uma jóia de diamantes; ao alto de um cocar de plumas brancas, cingido de arminhos: o peito coberto de penas brancas, umas levantadas, outras baixas, todas miúdas; guarnecido de renda de prata: o capilar da seda branca de flores verdes, guarnecido de galões de prata: vestia uns manguitos de cambraia transparente e finíssimas rendas: três fraldões, de seda branca de flores verdes e cor de rosa, guarnecidos de franjas de prata: os borzeguins cobertos de penas, nas costas duas azas e um letreiro do seu nome: na mão esquerda uma trombeta, de que pendia um estandarte de cambraia transparente, bordada a mão, guarnecido de laços de fita de prata, cor de rosa e cor de fogo...


Seguiam-se logo as ninfas, ornavam as cabeças com turbantes bordados de prata e muitas pérolas, semeados de estrelas de ouro, rematados em plumagens de penas brancas e azuis: vestiam de seda azul e branca, toda de prata, coberta de galões, franjas do mesmo, os peitos em campo azul bordados de pérolas e variedade de pedraria, os capilares da mesma seda azul, semeada de estrelas de ouro, os borzeguins do mesmo modo, dos ombros, por cordões de ouro, lhe pendiam umas aljavas, no braço esquerdo sustinham os seus arcos, lavava cada uma um cão perdigueiro, preto por fitas azuis de prata em colares bordados, com muitos cascavéis de prata.


Vinha logo a lua, trazia na cabeça um turbante azul, bordado com estrelas de pérolas, rematados em uma nuvem cheia de estrelas de ouro dentro do qual saía uma lua cheia. Vestia roupas de seda azul e branca de florões e franjas de prata, o peito era uma campina de pérolas, alternando em elevados lavores lugar a muitos diamantes, o capilar de tisso azul de prata, semeado de estrelas de ouro, os borzeguins de seda azul com galões de prata, bordados de muitas pérolas sustinham no ombro direito por muitos cordões de ouro uma aljava, no braço o arco, na mão a seta.


O cavalo era branco e muito formoso os jaezes bordados todos de prata, via-se esta também nas crinas e caudas, em campo azul de muita fitaria.


Seguiam dois pajens as estribeiras, em tudo semelhantes aos primeiros das ninfas.


Seguia-se Marte, antes dele três figuras, nas cabeças com toucas mouriscas de carmesim de prata com vária ordem de fitas de tela verde de prata, por um lado com plumas brancas, vestiam do carmesim das toucas trunfado de vermelho e branco, calçavam de branco com sapatos encarnados.


Procediam em igualdade, uma no meio, duas pelos lados, a do meio tocava uma caixa de guerra, a da mão esquerda um pífano, a da direita uma trombeta...


Vinha o Sol em pouca distância, coroava-lhe a cabeça de luzes uma cabeleira de fio de ouro, vestia de tisso cor de fogo, o peito todo coberto de diamantes unidos a vários lavores de ouro, do mesmo peito lhe saía um círculo de raios com artificiosa e brilhante fábrica de ouro e pedraria, nas costas brilhava a mesma preciosidade com semelhante adorno, em umas mangas do mesmo tisso vestia sobre o campo de ouro alternada luz de diamantes, no fraldão vestia também de luz trêmula e sucessiva, em franjas da canotilhos de ouro, calçava borzeguins cor de fogo e nestes também de luz, porque em debuchos de canotilho de ouro prendia a luz de muitos cristais, levava na mão uma arpa de pintura em campo de ouro...


Seguia-se o guia da Irmandade do Santíssimo de damasco carmesim franjado de ouro, nele em uma primorosa tarje bordada uma custódia. Levava-o um irmão vestido de custosa gala dois pelos lados com duas tochas pagavam em as borlas, ambas do mesmo modo e gravemente vestidos.


Logo imediata se via a Irmandade dos Pardos da Capela do Senhor São José, em larga distância numerosa coberta de opas de seda branca. No meio dela ia o andor do seu padroeiro ornado de seda encarnada, galões e franjas de ouro, várias flores de seda e fio de ouro e prata.


Seguia-se a Irmandade da Senhora do Rosário dos Pretos, numerosa de muitos irmãos, todos com opa de seda branca. No meio dela iam três andores, o primeiro de Santo Antônio Calatagirona, o segundo de São Benedito; o terceiro da Senhora do Rosário, nas imagens era muito vistoso o ornato em sedas de ouro e prata e em imagens era muito vistoso o ornato em sedas de ouro e prata e em várias e custosas peças de ouro e diamantes, nos andores em sedas, galões e franjas de ouro e variedade e galantaria de diferentes flores de diversas matérias e alternadas cores.


Seguia-se a esta a Irmandade de Santo Antônio de Lisboa de muitos irmãos quase todos sobre diversas e preciosas galas vestiam opas de chamalote branco. No meio dela se viam três andores: o primeiro de Santo Antônio, cujo ornato era de cera branca com muitas galantarias de flores e lavores sobre papéis encarnados, verdes, azuis e mistura de lata com fitas e galões do mesmo, julgava a vista, que supria e equivalia o galante e delicado artifício ao maior ornato da preciosidade, o segundo de São Vicente Ferreira, era de talha dourada com muita galantaria e variedade de flores de seda, fio de prata e de ouro, o terceiro de São Gonçalo de Amarante, era do feitio de um carro, ornado de sedas de custo, galões e franjas de ouro e variedade de flores.


Depois desta vinha a Irmandade das Almas e São Miguel e muito numerosa de Irmãos, aos olhos de agradável vista, mais que os momentos e lúgubres sufrágios, punha na consideração dos juízos a glória das Almas, porque sobre custosas galas vestia as opas de chamalote verde. No meio era levado o glorioso São Miguel, ornado de um capecete de prata com vistosíssimo penacho de plumas, estofado de novo e ornado de muitas peças de ouro.Ia em um andor custosamente ornado de seda de verde de ouro, galões e franjas do mesmo e vário ornato de flores.


Seguia-se um numeroso séqüito de Nobres moradores da Vila, e seu Distrito, que tinham servido à República do Nobre Senado da Câmara...

Detrás dele vinha o Conde de Galvêas, Governador destas Minas, com toda a Nobreza militar e literária da Vila e de outras partes e o Nobre Senado da Câmara.

Seguia-se logo a Companhia de Dragões governada pelo seu tenente e os soldados das duas tropas, todos em boa ordem e com a mesma deram três cargas de mosquetaria depois de recolhida a Procissão.


Estava o novo Templo nos altares e em todo o seu âmbito coberto de sedas, ouro e prata, com aquele precioso artifício e decentíssimo ornato competente a todo o mais aparato e magnificência da solenidade.


Foi o Divino Sacramento colocado e exposto em um Trono e se celebrou uma missa cantada com música a dois coros: pregou ao Evangelho o Dr. Manoel Freire Batalha e de tarde fez o mesmo, em presença do Conde Governador, de toda a Nobreza e Senado da Câmara.


No seguinte dia se cantou a missa com a mesma solenidade, e música, pregou ao Evangelho e de tarde o Dr. José de Andrade Moraes com aquela energia e naturalidade de difícil imitação, que lhe dá sempre unido o aplauso e admiração, em ambos os atos com assistência dos mesmos Senhores e populoso concurso.


No terceiro e último dia se oficiou outra missa do mesmo modo, pregou de manhã e de tarde o Reverendo Padre Diogo Soares, da Companhia de Jesus, cujo estilo e erudição deu novo lustre à festividade e à sua esclarecida religião singular glória, assistiram do mesmo modo o Senhor Conde, toda a Nobreza, o Senado da Câmara e numeroso concurso.


Todos esses três dias mandou o Senhor Conde pôr de guarda à Igreja uma companhia de soldados das Ordenanças da Vila e o mesmo Senhor, por assistir a todos os atos desta solenidade, se mudou para Ouro Preto para umas grandiosas casas, que lhe tinha prevenidas a Irmandade do Santíssimo.


Na noite do dia seguinte aos do Tríduo, ardeu um artificioso fogo, feito em um plano perto da Igreja Matriz, fabricado por idéia do Reverendo Padre Diogo Soares, da Companhia de Jesus, na forma seguinte:Uma planta em quadro chamada Jardim, de oitenta e cinco palmos cada face, nos quatro cantos quatro castelos triangulares de ressalto sacado para fora, de quinze palmos cada face, que com oitenta e cinco de cada ângulo do quadro fariam cento e quinze cada face do Jardim, em cada Castelo por remate uma figura humana, guarnecida de fogo, dentro do primeiro quadro outro de sessenta palmos cada face, nos cantos quatro árvores de candeias, dentro deste se fez terceiro quadro de trinta palmos cada face, no meio uma fonte, as faces de todos os três quadros guarnecidas de rodinhas, candeias, morteiros e girândolas, todo o circuito desta fábrica guarnecidas de linhagem pintada de pedra. Houve mais toda a noite copioso fogo de espadas de várias formas, montantes e diversidade de foguetes, o que fez grande a abundância do liberal dispêndio.


Teve também este espetáculo a assistência do Senhor Conde e de toda a Nobreza e não obstante o dilatado tempo da noite, inumerável multidão de todo o gênero, que cobria os montes.


Seguiram-se alternadamente três dias de cavalhadas de tarde, três Comédias de noite, três de touros de tarde.


O curro para as cavalhadas e touros, se fez muito espaçoso e em quadra, na praia de um rio que corre perto da Igreja da Matriz, no meio dele se pôs um mastro com uma bandeira branca, de cada parte pintada uma custódia, cercado de palanques bem armado de sedas e damascos.


No meio de uma face do curso destinaram os Irmãos do Santíssimo um palanque para o Senhor Conde, pelo sítio e custoso ornato, como convinha à pessoa de tão grande Senhor.


Concorreram nas cavalhadas muitos e destríssimos cavaleiros ricamente vestidos e montados em briosos cavalos bem ajaezados e deles os mais peritos ou venturosos levaram argolinhas de ouro.


O Tablado das Comédias se fez junto da Igreja, custoso na fábrica, no ornato e aparecia de vários bastidores. Viram-se nele insignes representantes e gravíssimas figuras, foram as comédias El Secreto a Vozes, El Príncipe prodigioso, El Amo criado.

Os três dias de touros foram dividos a dois insignes cavaleiros, um dos primeiros dias a cada um, o terceiro a ambos juntos, foi o primeiro do Alferes de Dragões João Vieira Carneiro por excelente perícia e fama, conhecido e aplaudido, o segundo de Francisco da Silva Machado e também o último por impedimento do companheiro.


Este em ambos os dias (ainda que por achaque grave, débil de uma perna) obrou com tal perícia e galhardia, ministrando empenho e arte e seu valor o bravo ímpeto dos touros, principalmente mais bravos no terceiro dia, que sempre os olhos estiveram vendo triunfos de seus braços, os ouvidos ouvindo em vozes de clarins, o eco de clamores, elogios de aplausos.


Entrevieram com destríssimas sortes muitos e bem ornados capinhas, que ganhando o louvor à custa do perigo, dobravam a fúria aos touros em benefício dos cavaleiros.


Foi tal nestes dias a disposição e ordem em tudo, na situação do curro e fábrica dos palanques, na multidão e variedade do concurso, na perícia e galas dos cavaleiros e em todo o mais aparato, que se viram estes atos representados com a polícia e gravidade das cortes.


A todos e aos mais altos dos outros dias fez assistência o Senhor Conde e toda a nobreza secular e eclesiática.


Em todas as noites destes dias se continuaram ao mesmo Senhor excelentes serenatas de boas músicas e bem vestidas figuras, nas casas onde estava no Ouro Preto.


Nas mesmas em todos os dias dez deu o dito Senhor esplêndido banquete a todas as pessoas nobres e de distinção, seculares e eclesiásticas, com aquela liberalidade de ânimo, que por toda a parte publica a fama.


Desde modo celebraram esta tão grande solenidade os moradores da Paróquia do Ouro Preto desta Vila, ficando sempre inteligível aos juízos para o verdadeiro conceito da magnificência, a grande diferença que vai do conhecimento da vista à compreensão das palavras ou na voz da fama ou na maior individuação da escritura e mais sendo muitas miúdas particularidades necessárias para o agradável concurso e ornato ao referido aparato de toda a ordem da solenidade, que devem ser suposição do discurso, na prolixidade da escritura.


Não há lembrança, que visse o Brasil, nem consta que se fizesse na América, ato de maior grandeza, sendo tantos e tão magníficos os que no espaço de duzentos anos com admiração do mundo todo tem executado seus generosos habitadores.


Se a brevidade desta relação o permitisse, poderíamos individuar os festivos aplausos, que em diversos tempos nesta parte da América se tem visto e então ficaria manifesta a grande piedade e religião com que seus moradores resplandecem e entre as mais nações com singular vantagem se fazem conhecidas, desmentindo a maledicência daqueles que os pertencem infamar de ambiciosos.


E se por estas admiráveis ações excedem os Portugueses a todas as nações do mundo, agora se vem gloriosamente excedidos dos sempre memoráveis habitantes da Paróquia de Ouro Preto, não só pelo católico zelo e excessivos dispêndios, com que (para maior culto e veneração do verdadeiro Deus e exaltação de sua santa Fé) edificam suntuosos templos e erigem altares, guarnecendo-os de custosas fábricas e adornando-os de primorosos e riquíssimos ornamentos, mas tem pela majestosa pompa e magnífico aparato, com que (em glorioso triunfo) transladaram o Sacramento Eucarístico da Igreja de Nossa Senhora do Rosário para o novo templo da Senhora do Pilar.


Nestas duas mencionadas circunstâncias se fizeram tão superiores a todas as nações do mundo os moradores de Ouro Preto, que só com pasmos e admirações se podem dignamente aplaudir, pois estes fidelíssimos católicos vivendo tão apartados da comunicação dos povos e no mais recôndito de sertão, se empregam com tanto desvelo e com inimitável generosidade em festejar a Divina Majestade Sacramentada para maior exaltação da Fé e veneração dos católicos, ação tão singular, que nem a antiguidade viu primeira, nem a posteridade verá segunda, para glória desta nobilíssima Vila por sua seguríssima cristandade, fazendo assim mais conhecida e dilatada na terra do Soberano Senhor Sacramentado a devida veneração e eterna glória.


Fim do Triunfo Eucarístico.

 

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