Minas Gerais

História

Senac
  • Logo Senac Minas
  •  
  • Hotel Grogotó

Minas de Ouro (1711)

Das minas do ouro que se descobriram no Brasil


Foi sempre fama constante que no Brasil havia minas de ferro, ouro e prata. Mas, também, houve bastante descuido de as descobrir e de aproveitar-se delas, ou porque, contentando-se os moradores com os frutos que dá a terra abundantemente na sua superfície, e com os peixes que se pescam nos rios grandes e aprazíveis, não trataram de divertir o curso natural destes, para lhes examinarem o fundo, nem de abrir àquela as entranhas, como persuadiu a ambição insaciável a outras muitas nações, ou porque de buscar índios nos matos os desviou desta diligência menos escrupulosa e mais útil.


Na vila de São Paulo há muita pedra usual, para fazer paredes e cercas, a qual, com a cor, com o peso e com as veias que tem em si, mostra manifestamente que não desmerece o nome que lhe deram de pedra de ferro, e que donde ela se tira, o há. O que também confirma a tradição de que já se tirou quantidade dele e se achou ser muito bom para as obras ordinárias que se encomendam aos ferreiros. E, ultimamente, na serra Ibiraçoiaba, distante oito dias da vila de Sorocaba, e doze da vila de São Paulo, a jornadas moderadas, o capitão Luis Lopes de Carvalho, indo lá por mandado do governador Artur de Sá, com um fundidor estrangeiro, tirou ferro e trouxe barras, das quais se fizeram obras excelentes.



Que haja, também, minas de prata, não se duvida, porque na serra das Colunas, quarenta léguas além da vila de Itu, que é uma das de São Paulo ao leste direito, há certamente muita prata, e fina. Na serra de Sabaruçu também a há. Da serra de Guarumé, defronte do Ceará, tiraram os holandeses quantidade dela, no tempo em que estavam de posse de Pernambuco. E, na serra de Itabaiana, há tradição que achou prata o avô do capitão Belchior da Fonseca Dória. E em busca de outra, foi além do rio São Francisco, Lopo de Albuquerque, que faleceu nesta sua malograda empresa.



Mas deixando as minas de ferro e de prata, como inferiores, passemos às do ouro, tantas em número e tão rendosas aos que delas o tiram. E, primeiramente, é certo que de um outeiro alto, distante três léguas da vila de São Paulo, a quem chamam Jaraguá, se tirou quantidade de ouro que passou de oitavas a libras. Em Parnaíba, também junto da mesma vila, no cerro Ibituruna, se achou ouro e tirou-se por oitavas. Muito mais, e por muitos anos, se continuou a tirar em Paranaguá e Curitiba, primeiro oitavas, depois libras, que chegaram a alguma arroba, posto que com muito trabalho para ajuntar, sendo o rendimento no catar limitado, até que se largaram, depois de serem descobertas pelos paulistas as minas gerais dos Cataguás e as que chamam do Caeté, e as mais modernas no rio das Velhas e em outras partes que descobriram outros paulistas; e de todas estas iremos agora distintamente falando.



Das minas do ouro, que chamam gerais e dos descobridores delas.



Há poucos anos que se começaram a descobrir as minas gerais dos Cataguás, governando o Rio de Janeiro Artur de Sá; e o primeiro descobridor, dizem que foi um mulato que tinha estado nas minas de Paranaguá e Curitiba. Este indo ao sertão com uns paulistas a buscar índios, e chegando ao cerro Tripuí desceu abaixo com uma gamela para tirar água do ribeiro que hoje chamam do Ouro Preto, e, metendo a gamela na ribanceira para tomar água, e roçando-a pela margem do rio, viu depois que nela havia granitos da cor do aço, sem saber o que eram, nem os companheiros, aos quais mostrou os ditos granitos, souberam conhecer e estimar o que se tinha achado tão facilmente, e só cuidaram que aí haveria algum metal não bem formado, e por isso não conhecido. Chegando, porém, a Taubaté, não deixaram de perguntar que casta de metal seria aquele. E, sem mais exames, venderam a Miguel de Souza alguns destes granitos, por meia pataca a oitava, sem saberem eles o que vendiam, nem o comprador que cousa comprava, até que se resolveram mandar alguns dos granitos ao governador do Rio de Janeiro, Artur de Sá; e, fazendo-se exame deles, se achou que era ouro finíssimo.



Em distância de meia légua do ribeiro do Ouro Preto, achou-se outra mina, que se chama a do ribeiro de Antônio Dias; e daí a outra meia légua, a do ribeiro do Bueno e a de Bento Rodrigues. E, daí três dias de caminho moderado até o jantar, a do ribeirão de Nossa Senhora do Carmo, descoberta por João Lopes de Lima, além de outra, que chamam a do ribeiro Ibupiranga. E todas estas tomaram o nome dos seus descobridores, que todos foram paulistas.



Também há uma paragem no caminho para as ditas minas gerais, onze ou doze dias distante das primeiras, andando bem até as três horas da tarde, a qual paragem chamam a do rio das Mortes, por morrerem nela uns homens que o passaram nadando, e outros que se mataram as pelouradas, brigando entre si sobre a repartição dos índios gentios que traziam do sertão. E neste rio, e nos ribeiros que dele procedem, e em outros que vêm a dar nele, se acha ouro, e serve esta da paragem como de estalagem dos que vão às minas gerais, e aí se provêem do necessário, por terem hoje os que aí assistem roças e criação de vender.



Não falo da mina da serra de Itatiaia (a saber, do ouro branco, que é ouro ainda não bem formado), distante do ribeiro do Ouro Preto oito dias de caminho moderado até o jantar, porque desta não fazem caso os paulistas, por terem as outras, de ouro formado e de muito melhor rendimento. E estas gerais, dizem que ficam na altura da capitania do Espírito Santos.


Fonte: Cultura e Opulência do Brasil, de André João Antonil.

Enviar link