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Antônia Dumont - Bordadeira de Pirapora

© Arquivo Pessoal O particular jardim de Antônia Dumont  - Arquivo Pessoal O particular jardim de Antônia Dumont

Ser mineiro é...                             

Tecer a vida com linhas coloridas.


Mais uma bordadeira abre seu jardim para a visitação do Descubraminas.com. Entre tecidos, linhas e agulhas, Dona Antônia expõe com ternura seus arabescos em ponto alinhavo, suas rosas matizadas, pequenas margaridas em ponto folha, e muito mais...


Por Roberta Almeida

Nascida em Pirapora, Norte de Minas Gerais, Antônia Zulma Diniz Dumont, de 85 anos, passou a infância ao lado da família e dos ipês amarelos que enfeitavam seus caminhos. Ainda criança descobriu as formas e as cores do bordado. Depois, vieram o marido Demóstenes e os oito filhos.

Ao som do rádio, passou os dias, as tardes e as noites por conta do bordado e do cuidado com a educação dos filhos. Segundo a matriarca, naquela época, o bordado não era visto como profissão: “Era uma diversão, um jeito de estar junto com as amigas. Os enxovais que fazíamos eram nossas diversões criativas”, explica.


Troca de Pontos
Com a mãe, cinco dos oito filhos aprenderam o valor do trabalho em família e também aderiram ao ofício. Além dos filhos e netas, várias mulheres da pacata Pirapora receberam e ainda recebem seus ensinamentos. “São muitos anos de troca de pontos. Comecei aos oito anos de idade e, aos 18, já ensinava e aprendia bordados com outras pessoas”, afirma.

Sobre a técnica milenar do bordado, dona Antônia diz, ainda, que o ponto matiz é seu predileto. Além disso, bordar arabescos, rosas e margaridas fazem parte de sua paixão. “Para bordar, precisamos de sonho, criatividade, linhas, agulhas, tecidos, desenhos e, sobretudo, a elaboração dos riscos de própria autoria. Risco copiado não tem valor artístico”, alerta a especialista.


Grupo Matizes Dumont
Formado por cinco dos oito filhos de Dona Antônia e nove de suas netas, sendo a protagonista dessa história líder do projeto, o Grupo Matizes Dumont dedica-se à arte-educação e às artes plásticas, desenvolvendo imagens bordadas que se transformam até em ilustrações de livros. Juntos, a equipe é responsável por dar continuidade ao trabalho da bordadeira.

Direcionados pelo Grupo Matizes Dumont, vários outros projetos são elaborados, caso do "Bordando o Brasil", no qual artesãs de todo país tiveram a oportunidade de produzir peças únicas, bordadas com desenhos exclusivos de Martha Dumont. “Participamos do projeto Bordando o Brasil, de 2002 a 2008. Foram cerca de 16 mil mulheres capacitadas”, informa Dona Antônia.


Caminho das Águas
Sempre em companhia da família, a artista também promoveu o “Caminho das Águas”, projeto de mobilização social no Vale do Rio São Francisco. A ação aconteceu em 18 cidades ribeirinhas e a população teve a oportunidade de participar de 42 oficinas vivenciais, nas áreas de educação, saúde, cultura e preservação ambiental.

Coordenado pelo ICAD, em parceria com o Grupo Matizes Dumont, esse projeto resultou numa exitosa campanha de mobilização para divulgação das políticas públicas voltadas à revitalização do rio São Francisco. Além disso, fizeram com que a população ribeirinha refletisse sobre questões sociais, como obtenção de saúde e educação de qualidade.


ICAD
Sempre com o objetivo de passar adiante a alegria e o amor por meio do bordado, além de oportunizar mudanças e transformações sociais, a bordadeira criou o Instituto de Promoção Cultural Antônia Diniz Dumont (ICAD). Idealizado em 2004, o instituto foi criado no intuito de desenvolver projetos sociais, mobilização e responsabilidade socioambiental, além de geração de renda para os moradores de Pirapora, Buritizeiro e municípios vizinhos.

As ações do instituto bene­ficiam comunidades em situação de risco social e promovem a geração de renda, inclusão social e melhoria da qualidade de vida por meio do bordado artesanal. O ICAD tem a proposta de inclusão social pela arte. Fico muito feliz em ver tantas mulheres bordando e complementando sua renda familiar”, afirma a matriarca.


A arte de bordar...
Inspirada em sua própria história de vida, em encontros com outras pessoas, experiências com o aprender e o ensinar, Dona Antônia apresenta um trabalho que vai além do simples olhar. Suas telas, inclusive, já prestigiaram grandes eventos, como na exposição ‘Guerra e Paz’, do artista plástico Cândido Portinari, em Belo Horizonte. Vistos por milhares de pessoas, os trabalhos da família Dumont foram inspirados em estudos sobre Portinari.

A trupe criou verdadeiros quadros, pintados com linhas e agulhas.O bordado antes era considerado arte menor. Hoje, está nas galerias de arte e de braços dados com as artes plásticas e a literatura, por exemplo. É muito natural juntar palavras e ilustrações bordadas”, conta orgulhosa. Através do bordar, a costureira compartilha suas experiências e conta sua história de forma afetiva: “Vejo o bordado como um fio com o qual escrevo minha história”.

Além disso, Dona Antônia diz que ainda recebe muitas encomendas. Na verdade, como o trabalho é feito de maneira colaborativa por ela, os filhos e as netas, sempre é possível administrar os pedidos. “As encomendas dependem do desejo dos clientes, mas as telas bordadas, toalhas de mesa e vestidos têm uma boa saída”, explica.


“O Particular Jardim de Antônia”
Com tantos projetos de vida, uma única publicação não seria suficiente para contar a trajetória dessa artista mineira. Em “O Particular Jardim de Antônia”, a peculiaridade dos trabalhos da bordadeira é exposta com riqueza de detalhes. “Minha filha Sávia me presenteou com esse livro; ela escreveu a minha história e contou para as bordadeiras e pessoas que acreditam no bordado como um caminho de mudanças”, reflete.

Com um trabalho carregado de poesia, os bordados de Dona Antônia possuem a harmonia das cores e das formas, representam as tradições mineiras, passadas com orgulho de pai para filho, e a crença no dever a ser cumprido em prol da evolução. Entre linhas e agulhas, fio a fio dona Antônia tece sua história. Segundo a bordadeira, o segredo para que seu particular jardim continue a florir é: “Ao bordar flores, devemos bordar a alma junto”. Fica a dica!



Matéria realizada em 2015

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