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Dona Geralda - Catadora de Material Reciclável de Belo Horizonte

© Júlia Savassi Belo Horizonte - Dona Geralda, uma das fundadoras da Asmare - Júlia Savassi Dona Geralda, uma das fundadoras da Asmare

Ser Mineiro é...


Reciclar a vida para ter dignidade.


Nascida na Pedreira Prado Lopes, famoso aglomerado da capital mineira, Maria das Graças Marçal, mais conhecida como Dona Geralda, se criou e criou seus nove filhos catando na rua papéis, latinhas e garrafas para a reciclagem. Há 48 anos, a catadora, que também é uma das fundadoras da Asmare, aproveita o que não serve mais para a sociedade e tira das "sobras" a dignidade que sempre acreditou que teria.


Por Roberta Almeida

Enquanto as décadas de 1970 e 1980 se preparavam para entender o conceito de sustentabilidade e a pensar em ações para mitigar impactos ambientais e sociais, Dona Geralda já sabia, na prática, o que fazer. Sem muitas escolhas e em meio à pobreza, viu no "lixo" uma alternativa. Com apenas oito anos de idade, foi para as ruas de Belo Horizonte catar material reciclável para vender. Com o dinheiro, comprava comida e ajudava a mãe a sobreviver. Aos 16, teve sua primeira filha. Um ano depois, começou a puxar seu primeiro carrinho, juntando tudo que era possível reciclar, para driblar o cansaço e a fome. "Eu tinha muita força e ainda tomava uma pinga danada. Tomava 2 litros de pinga por dia. Era o jeito que a gente achava de arrumar força pra continuar o serviço, quer dizer, você ficava anestesiado e ia levando", relembra.


Após muitos anos nas ruas, sem saber explicar o que fazia ou definir seu papel na sociedade, Dona Geralda passou por inúmeras humilhações e viveu de perto o descaso, a discriminação e o preconceito com seu trabalho. Segundo ela, os fiscais municipais e a polícia acreditavam que os catadores espalhavam sujeira pela rua. "A gente trabalhava na Praça Sete, mas no final de 80 mandaram tirar todos os catadores do Centro e colocar na Avenida do Contorno. A gente ocupou essa área aqui, onde hoje é a Asmare, aí chegou a Polícia de madrugada e botou fogo nos barracos." Depois desse episódio, Dona Geralda afirma que a Pastoral de Rua foi quem intercedeu: "Falamos com as irmãs da Pastoral que a gente só queria trabalhar e que precisava de um lugar pra separar o material. Três anos depois, em 1990, a associação surgiu. A Pastoral foi a primeira instituição a nos enxergar na rua", destaca.


A Asmare
Quem vê a estrutura da Associação dos Catadores de Papel, Papelão e Material Reaproveitável (Asmare), hoje, não imagina o que Dona Geralda e outras 19 pessoas passaram para erguer e ainda passam para manter a Associação. Com seus recém-completados 25 anos, no dia 1º de maio, a Asmare se solidificou, tirando da marginalidade cidadãos que viam no trabalho a esperança de uma vida melhor. "Pra você ter uma ideia, todo mundo que morava aqui no galpão, tem casa hoje. Isso aqui é um trabalho como outro qualquer, que tem o objetivo de gerar emprego e renda para as pessoas." Recentemente na vice-presidência da Associação, Dona Geralda é responsável pelos processos administrativos da entidade e explica que a Asmare não faz mais a reciclagem de material, apenas abriga o catador para que ele faça a separação e a pesagem. Só depois desse procedimento o material é enviado para a reciclagem.


Atualmente com dois galpões de armazenamento e triagem do material coletado, um caminhão, cerca de 60 boxes e alguns carrinhos motorizados, a Asmare possui 180 associados e muitos trabalham com toda família. Se no princípio a maior dificuldade de Dona Geralda era fazer com que as pessoas reconhecessem e valorizassem o catador, hoje, um dos principais desafios é registrar o terreno onde está localizada a associação. Para ela, conseguir o registro do terreno garantirá trabalho para ainda mais pessoas. Outra preocupação constante é a conscientização da população em relação ao transporte de material. "A gente gostaria muito que mais pessoas deixassem o material para reciclar aqui no galpão porque nós não temos condição de ir buscar em todos os lugares. Muita gente já traz. Nem precisa ser bem separadinho, desde que seja pelo menos papel com papel e plástico com plástico, já ajuda muito," explica.


Conquistas
Após 48 anos de trabalho duro e muito amor pela profissão, Dona Geralda se sente feliz e satisfeita por ter compreendido que presta um serviço à sociedade. "Começamos a entender o que era lixo e como íamos usar esse 'lixo' pra sobreviver. A gente preservou muitas árvores sem saber o que representava para o meio ambiente". Além disso, D. Geralda conta que viu a própria vida e a de muitas outras pessoas serem recuperadas: "Aqui eu parei de beber porque precisava dar exemplo. A minha vida é a Asmare e nela meus filhos criaram a consciência do trabalho. Acho que poucas mães vão ter a oportunidade de criar os filhos todos juntos. Eu saía com o carrinho para fazer a coleta e vinha todo mundo atrás de mim. Hoje são todos trabalhadores, aprenderam o que é ter direitos e deveres. Tem muita mãe que tem muito dinheiro, mas não tem a oportunidade de vê o filho crescer", reflete.


Dona Geralda afirma, ainda, que se sente realizada pela Asmare ter completado ¼ de século em 2015. "Sou muito feliz por ter conquistado minha cidadania dentro da Asmare." Outro momento marcante nesses 25 anos da Associação foi a participação em congressos na Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, e no Banco Mundial, em Washington. Nesses eventos, Dona Geralda falou sobre a Asmare e trocou experiências. "Quando fui nos Estados Unidos, no começo dos anos 2000, eu era bem crua, nunca tinha andado de avião, nem sabia nada dessas coisas aí. Quando cheguei lá, vi que vários países já reciclavam, era comum pra eles. Nas ruas tudo já ficava separadinho e cada um já fazia sua parte." Admirada, Dona Geralda afirma que a experiência trouxe repercussão não só para a Asmare, mas também para outras associações.


Reciclando vidas
Com vistas ao trabalho, Dona Geralda construiu sua própria vida e acabou enxergando o próximo. Por meio da reciclagem, recuperou e renovou a esperança de muitas pessoas. "Se não fosse a reciclagem, eu não tinha criado meus nove filhos, nem comprado a casa própria. Aqui a gente fica saudável, ajuda o meio ambiente e ajuda outras pessoas a ter cidadania. Se fosse pra eu trabalhar mais 100 anos com isso eu trabalhava. É uma terapia para a cabeça ficar separando o material", afirma. Já em relação aos mais necessitados, a catadora afirma: "Tenho muito amor pela vida do outro, sei que o que a gente faz às vezes é muito pouco, um grão de areia no oceano. Como eu queria ter sido ajudada quando comecei! Tudo pode mudar se uma mão for estendida e a gente souber aproveitar", garante.


Segundo Dona Geralda, muitos trabalhadores já deixaram a Asmare para trabalhar em outras empresas. "Aqui ele (o catador) descobriu que tinha dignidade e teve motivação pra correr atrás do que queria. Eu considero o trabalho de catador estável, pois sempre temos emprego. Se tem consumo, tem material! É um trabalho digno, mas sei que não é fácil. Tem gente mais velha aqui que carrega de 500 a 800 quilos de material todos os dias, mas você tá vendo alguém triste e desanimado aí?" Depois dessa lição, Dona Geralda define bem o que é ter cidadania e respeito ao trabalho que executa: "Você é cidadão quando tem trabalho e moradia. Quando você perde essas coisas, você fica deslocado na sociedade. Eu sempre falo com as pessoas: 'honre e faça seu trabalho com amor que o resto a gente supera'. Eu fico olhando as pessoas, hoje em dia, tem emprego, tem tudo, e fica numa choradeira!", comenta.


Espirituosa e esforçada, Dona Geralda é uma mineira de 64 anos que mudou sua realidade a partir do que estava ao seu redor. Mais que as marcas da labuta diária em seu rosto, a catadora de materiais recicláveis mostra a alegria e o orgulho da profissão que tem. Em meio a materiais recolhidos nas ruas, Dona Geralda acredita que não existe muito lixo, visto que a maioria das coisas pode ser reaproveitada. "Se reaproveita, não é lixo. Depois de reciclado, tudo pode voltar para o mercado." Ao fundar a Asmare, Dona Geralda construiu uma nova identidade, ganhou nova vida, que refletiu no próximo e incentivou outras pessoas a lutarem pela cidadania. A exemplo de Dona Geralda, realmente todo homem deveria lutar por sua dignidade!



Estagiária: Júlia Savassi

 


Matéria realizada em 2015

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© Júlia Savassi Belo Horizonte - Júlia Savassi
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