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Paulo Cangussu Cordeiro - Cartunista de Belo Horizonte

© Júlia Savassi Belo Horizonte - Cartunista Guz em entrevista ao Descubraminas.com - Júlia Savassi Cartunista Guz em entrevista ao Descubraminas.com

Ser Mineiro é...


Ilustrar a leveza e a simplicidade da vida.

Para alguns, o desenho é uma forma de linguagem, provavelmente a mais antiga das artes, um meio de se expressar, transferir para o papel imagens e criações advindas da própria imaginação. Para outros, desenhar é o que dá sentido à vida, é indubitavelmente a melhor alternativa. Para o cartunista Paulo Cangussu, carinhosamente chamado de Guz, é simplesmente uma paixão.


 

Por Roberta Almeida

A chuva fina que caía naquela tarde primaveril não foi empecilho para que a equipe do Descubraminas desvendasse os enigmas de Paulo Cangussu, um cartunista mineiro de Salinas, apaixonado por Belo Horizonte. Como ele mesmo afirma, foi só colocar os pés em BH para se capitalizar de vez. Engenheiro por formação, trocou o traço técnico da ciência exata pela linha artística das charges, cartuns e caricaturas. Viveu crises governamentais, participou de movimentos sociais, enfrentou a Ditadura Militar e ficou livre de novo para vivificar sua arte. "Quando criança, eu não sabia que era possível reproduzir as coisas que víamos, até um dia que meu irmão chegou da escola com um caderno, uma caixa de lápis de cor e o desenho de uma maçã, eu embirrei querendo o que era dele. Mas, naquela época, ser menino era diferente. Você apanhava uma vez, insistia, e apanhava de novo. Até que um dia me deram um caderno de desenho e uma caixa de lápis de cor. Descobri um prazer infinito! Na minha vida de menino, a melhor coisa do mundo era sentar e desenhar", relembra.


Sobre a facilidade de manusear o lápis, Guz conta que suas possibilidades de viver como um menino comum eram muito limitadas devido a um problema congênito que tinha na perna. Ao contrário das outras crianças, não vivia na rua jogando bola ou correndo de um lado para o outro. Desta forma, encarava com ainda mais afinco o desafio de se descobrir como desenhista e de aprender, sozinho, novos traços, o que, aliás, lhe permitia criar um mundo à parte. "Eu nunca fui nenhuma revelação de desenho excepcional, mas acredito que devo o traço que tenho hoje a mim mesmo, pois desenvolvi tudo de uma forma muito autodidata, claro que depois passei a consultar vários livros e lia muitas histórias em quadrinhos, isso me ajudou a desenvolver a imaginação muito cedo e me fez criar o hábito e a variedade da leitura".


Nessa mesma linha, o artista enfatiza que o gosto pela leitura influenciou definitivamente seu traçado artístico, visto que é preciso se ter um conhecimento diversificado para abordar diferentes temáticas em seu trabalho. "Um aspecto muito interessante da leitura é que ela possibilita duas formas de fazer uma malhação no cérebro, quando você absorve imagens gráficas e letras, você transforma isso em pensamento e imaginação e aí é que acontece a malhação porque seu cérebro começa a realizar sinapses, criar músculos, alternativas oportunidades de pensamento. Por outro lado, o desenho é o inverso disso, e, para mim, que sou desenhista, acho que é uma forma melhor ainda de exercitar o cérebro, pois você imagina algo e precisa transformar isso graficamente. Ou seja, o imaginar, o que desenhar ou o que pintar, acho que é a grande definição do que é a opção pela arte", explica com entusiasmo sua teoria.


Poesia para criar
E do desenho para a disposição das palavras em versos não houve empecilhos. Também apaixonado pela poesia, Guz conta que foi com o espanhol Federico García Lorca que aprendeu a apreciar o gênero literário. "As poesias dele eram tão musicais que eu gostava de lê-las em voz alta". Deslumbrado pelos romances, que também trazem essa ligação com o poético e a sensibilidade, o desenhista sempre procurou observar temáticas mais humanas, até para aproximar e proporcionar a reflexão sobre seus trabalhos das questões sociais e às formas intrínsecas de sentir o mundo.


Paralelamente aos quadrinhos, Guz também cultivava especial carinho pela revista ‘O Cruzeiro', principal periódico brasileiro ilustrado do século 20. Nas publicações, era possível encontrar desenhos de humor que, segundo o cartunista, acabaram por influenciar sua escolha profissional. "Nunca havia me sentido capacitado para desenhar coisas de humor, até que o Millôr Fernandes foi demitido da revista ‘O Cruzeiro' e criou o boletim ‘O Pif Paf', que na edição 5 ou 6 lançou o primeiro concurso de humor do Brasil, eram 500 contos por uma piada. Fiquei pensando e tentei fazer uma piada que chamei de "As 1001 utilidades do pé". Era uma brincadeira simples, mas que tinha o truque do humor; dizia, por exemplo, que o pé esquerdo servia de horóscopo e a última coisa era a utilidade de andar. Foi aí que comecei a entender como fazer humor e fazer charges", revela.


Aos 14 anos, o cartunista descobriu a Biblioteca Pública, da qual é sócio até hoje. "Mesmo que eu não leia os livros, faço questão de pelo menos uma vez por mês ir buscá-los, mas leio nem que seja um pouquinho" (risos). Para Guz, esta busca pelo conhecimento é importante nem que seja para se manter atualizado sobre o Mercado Editorial do Brasil. "A Biblioteca é uma maneira Fantástica de lidar com o acaso. Tenho inclusive um poema que explica um pouco sobre isto, que diz: Cedinho me embarquei no trem do destino, mas sempre que vejo uma estação chamada acaso, eu desço, reflete.


Militância Política
Já na Faculdade de Engenharia, em 1964, foi pego pelo representante do Diretório Acadêmico rabiscando um pedaço de papel. Não deu outra. Lá estava o futuro cartunista desenhando o panfleto para a campanha contra a Ditadura Militar. "Acabei me envolvendo muito com o movimento, tanto desenhando quanto lutando. Cheguei a ser eleito na União Estadual dos Estudantes e entrei em um processo de ‘esquizofrenia consentida' (risos), eu era duas pessoas ao mesmo tempo, um lado chargista e o outro militante político". Mesmo ao relembrar a repressão, Guz não deixa o humor de lado. Em busca do apoio político do Congresso, foi escolhido para representar o movimento, até porque era o único da turma que possuía um terno. "Ao chegar a Brasília, me esgueirei até entrar e encontrei um deputado do Sergipe que era mais de esquerda, me identifiquei, pedi ajuda e acabou que no fim das contas conseguimos uma reunião com um dos líderes do partido, chamado Vieira de Melo, e nesta reunião ele garantiu que nos daria um apoio enfático, eu só tive uma dúvida diante da situação, "o que é enfático?"; e essa palavra nunca mais saiu do meu vocabulário", conta ao relembrar a militância juvenil.


Mas as histórias desse período não param por aí. Em uma das passeatas contra a repressão em Brasília, em setembro de 1966, Guz conta que seu grupo foi confrontado pelo DOPS quando um dos advogados do departamento mandou que eles dissolvessem a passeata. "Comecei a discutir com um delegado. Como nosso grupo havia contratado alguns meninos do Aglomerado da Serra para acompanhar o movimento, bolas de gude começaram a chover para todos os lados. Bem na hora da minha discussão, uma delas acertou o delegado, fazendo com que todos fossem diretamente para cima de mim, e eu tentando escapar da confusão acabei atropelando o oficial, que quebrou a perna. Resultado: fui preso! Ao chegar ao DOPS, todo mundo já sabia o que "eu tinha feito", e diziam: ‘Esse aqui que quebrou a perna do Dr. Otacir'. Lá sofri corredor polonês e tudo mais. Nesse dia, 400 estudantes também foram presos e, no fim, só eu continuei. Sei que fizeram uma reivindicação para me soltarem e para que isso acontecesse pediram uma confirmação para meu pai. Foi assim que minha carreira política praticamente acabou", confidencia.


Quando o hobby virou profissão...
Após a fase comunista ter ficado de lado, Guz passou a dedicar ainda mais ao desenho e descobriu muitas oportunidades como a parceria que fez com Nilson Azevedo, na qual participavam de uma seção de "O Cruzeiro", chamada "O Centavo", onde publicavam charges que falavam sobre assuntos variados. Já em 1969, obteve outra oportunidade. "Como Henfil era hemofílico e sempre tinha crises, um dia não conseguiu desenhar de tanta dor, foi quando descobriram um material que eu havia lhe encaminhado. Por coincidência, havia enviado várias vezes a ele um personagem que criei, e acabaram publicando em uma página inteira, era o número 13 do "Pasquim" e muitas pessoas ficaram sem entender quem era aquele cara de Belo Horizonte no lugar do Henfil". Para finalizar o caso, Guz conta que certo dia foi juntamente com o Nilson e mais um cartunista para o Rio de Janeiro e aproveitaram para conversar com o Henfil. Na ocasião, descobriu que só teve aquela oportunidade porque a torcida no Maracanã pediu para que o personagem "Urubu" entrasse no "Pasquim".


Nessa mesma época, Guz se formava em engenharia. Curso que, segundo ele, havia transformado, de certa forma, sua cabeça, tanto pela lógica quanto pelo bom-senso, o que também lhe orientava para a necessidade de fazer uma escolha: ou continuaria sendo cartunista ou seria de vez engenheiro. "Fiz a opção mais lógica, continuei sendo cartunista. Até tentei fazer uma pós-graduação no Rio de Janeiro, mas não consegui passar, aí fui tentar a sorte como cartunista em São Paulo. Procurei um amigo que trabalhava na Editora Abril, ele gostou do material, mas acabaram não publicando". Pela empreitada não ter dado certo, acabou arrumando um emprego como técnico de engenharia na capital paulista, mas, ao visitar a namorada em BH, uma nova oportunidade surgiu e acabou voltando para a capital mineira. "Por destino, acabei me tornando engenheiro. De vez em quando eu desenhava alguma coisa ou outra, e assim trabalhei com a engenharia até o ano 2000. Acho que o humor me deu essa capacidade de mudar de campo rapidamente", explica.


Certo dia, eis que o destino traça novamente outros rumos para o cartunista. Ao passar em frente à Reitoria da UFMG e se deparar com uma enorme fila, foi perguntar do que se tratava: inscrição para o vestibular. "Olhei tudo que era preciso para realizar a inscrição e por coincidência eu tinha tudo que era necessário, me inscrevi para Belas Artes, que sempre foi meu grande sonho na vida. Fiz as provas, quando fui ver, havia passado em 8º lugar na primeira turma. Pensei: ‘Vou precisar ser demitido'. E, por acaso, no mesmo dia solicitaram que eu levasse aquelas famosas "malas" para um político. Não aceitei. Me mandaram embora. Cheguei todo feliz em casa contando que havia sido demitido (risos). Acabou que só consegui levar o curso por um ano, mas foi ótimo, aprendi muito!", relembra com carinho.


De acordo com o cartunista, todos esses acontecimentos ajudaram para que seu hobby virasse profissão. "Tem uma frase do Rabindranath Tagore que é bastante emblemática para mim: ‘Nós nascemos duas vezes, a primeira é de nossas mães e a segunda é de nós mesmos'. Para Guz, mudar de profissão significou esse nascer dele mesmo. "Eu era engenheiro e virei cartunista assumido, era Paulo e virei Guz, e mudei até de estado civil, era casado e fiquei solteiro". E como toda escolha tem sua consequência, Guz conta que não foi nada fácil arcar com o novo jeito de levar a vida. "Tudo foi muito difícil, tentei abrir novamente uma empresa que mexia com ar-condicionado, mas com o apagão do Fernando Henrique Cardoso, as pessoas pararam de comprar esse produto e passei a ser especialista em fechar firmas". (Risos). Algum tempo depois, o cartunista foi convidado para fazer caricaturas em eventos e decidiu que investiria nesse campo. Outro fator importante a favor de sua escolha foi a internet, que proporcionou uma melhor divulgação de seu trabalho, além de ser o meio pelo qual pode ser encontrado e contratado. O artista conta ainda que já desenhou até doze horas seguidas em eventos e que a média é de aproximadamente 60 pessoas retratadas a cada sessão.


Novas tecnologias
Bastante envolvido com tudo que possibilita a comunicação, o artista possui notebook, microcomputador, tablet, smartphone, entre outras modas tecnológicas. "A primeira vez que eu vi um computador foi em 1988 quando arrumei um emprego em uma agência de publicidade, lá compraram um Macintosh. A primeira vez que eu o usei, não conseguia acreditar que alguém havia inventado aquilo". Sempre conectado às novas tendências, até para aprimorar o trabalho que desenvolve, Guz afirma que faz a pintura de seus desenhos no Photoshop. "Se Monet conseguia criar em sua palheta umas duzentas cores, o Photoshop possui dezesseis milhões, o que você acha que ele estaria utilizando hoje? Admiro muito os pintores, mas esta é minha preferência", frisa.


Esboçando a vida
Para se chegar ao resultado final de um cartum, Guz explica que o mais importante é fazer um rascunho. Para ele, esse conceito também pode ser estendido à vida. "Aprendi, por exemplo, que o rascunho é fundamental no amor. Há várias maneiras de sentir, várias pessoas a se gostar, então o rascunho serve também para a vida, sem contar que o rascunho sempre te inspira a fazer cada vez melhor". Com 70 anos de rascunhos, esse mineiro desenhista comprova que permanece com o espírito jovem, cheio de criatividade, esbanjando conhecimento e sabedoria aos que escolhem ficar em sua companhia. Nas folhas em branco que recebe a cada novo dia, o artista deixa o traço marcante e bem humorado dos cartunistas.



Estagiária: Júlia Savassi

 

Matéria realizada em 2013

 

 

 

 

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© Júlia Savassi Belo Horizonte - Júlia Savassi
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