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Antônio Francisco Lisboa por Rodrigo Bretas

© Maria Lucia Dornas Congonhas - Oseias - Maria Lucia Dornas Oseias

Traços biográficos relativos ao finado Antônio Francisco Lisboa,  Distinto escultor mineiro, mais conhecido pelo apelido de Aleijadinho.


Antônio Francisco Lisboa nasceu a 29 de agosto de 1730 no arraial desta cidade que se denomina – o Bom Sucesso, pertencente à freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias. Filho natural de Manuel Francisco da Costa Lisboa, distinto arquiteto português, teve por mãe uma africana, ou crioula, de nome Isabel, e escrava do mesmo Lisboa que o libertou por ocasião de fazê-lo batizar.


Antônio Francisco era pardo escuro, tinha a voz forte, a fala arrebatada e o gênio agastado; a estatura era baixa, o corpo cheio e mal configurado, o rosto e a cabeça redondos, e esta volumosa; o cabelo preto e anelado, o da barba cerrado e basto; a testa larga, o nariz retangular e algum tanto pontiagudo, os beiços grossos,  as orelhas grandes e o pescoço curto. Sabia ler e escrever, e não consta que tivesse frequentado alguma outra aula além da de primeiras letras, embora alguém julgue provável que tivesse frequentado a de latim.


O conhecimento que tinha do desenho, de arquitetura e escultura fora obtido na escola prática de seu pai e, talvez, na do desenhista pintor João Gomes Batista que, na corte do Rio de Janeiro, recebera as lições do acreditado artista Vieira, e era empregado como abridor de cunhos das casas de fundição de ouro desta capital.


Depois de muitos anos de trabalho, tanto nesta cidade como fora dela, sob as vistas e risco do pai, que então era tido na província como o primeiro arquiteto, encetou Antonio Francisco a sua carreira de mestre de arquitetura e escultura, e nesta qualidade excedeu a todos os artistas deste gênero que existiram em seu tempo. Até a idade de 47 anos, em que teve um filho natural, ao qual deu o mesmo nome de seu pai, passou a vida no exercício de sua arte, cuidando sempre em ter boa mesa e no gozo de perfeita saúde; e tanto que era visto muitas vezes tomando parte nas danças vulgares. De 1777 em diante, as moléstias, provindas, talvez, em grande parte, de excessos venéreos, começaram a ataca-lo fortemente. Pretendem uns que ele sofrera o mal epidêmico que, sob o nome de Zamparina, pouco antes havia grassado nesta província e cujos resíduos, quando o doente não sucumbia, eram quase infalíveis deformidades e paralisias; e outros que nele se havia complicado o humor gálico com o escorbútico. O certo é que, ou por ter negligenciado a cura do mal no seu começo, ou pela força invencível do mesmo, Antônio Francisco perdeu todos os dedos dos pés, do que resultou não poder andar senão de joelhos; os das mãos atrofiaram-se e curvaram, e mesmo chegaram a cair, restando-lhe somente, e ainda assim quase sem movimento, os polegares e os índices. As fortíssimas dores que de continuo sofria nos dedos e a acrimônia do seu humor colérica o levou, por vezes, ao excesso de corta-los ele próprio, servindo-se do formão com que trabalhava! As pálpebras inflamaram-se e, permanecendo nesse estado, ofereciam à vista sua parte interior; perdeu quase todos os dentes e a boca entortou-se como sucede frequentemente ao estuporado, o queixo e o lábio inferior abateram-se um pouco; assim o olhar infeliz adquiriu certa expressão sinistra e de ferocidade, que chegava mesmo a assustar a quem quer que o encarasse inopinadamente. Esta circunstância e a tortura da boca o tornavam de um aspecto asqueroso e medonho.


Quando em Antônio Francisco se manifestaram os efeitos de tão terrível enfermidade, consta que certa mulher de nome Helena, moradora da rua do Areião ou carrapicho desta cidade dissera que ele havia tomado uma grande dose de cardina (assim denominou a substancia a que se referia) com o fim de aperfeiçoar seus conhecimentos artísticos, e que daí lhe havia provindo tão grande mal.


A consciência que tinha Antônio Francisco de desagradável impressão que causava sua fisionomia o tornava intolerante e mesmo iroso para com os que lhe parecia observarem-no de propósito; entretanto era ele alegre e jovial entre as pessoas de sua intimidade.


Sua prevenção contra todos era tal que, ainda com as maneiras agradáveis de trata-lo, e com os próprios louvores tributados à sua perícia de artista, ele se molestava, julgando irônicas e expressivas de mofa e escárnio todas as palavras que neste sentido lhe eram dirigidas. Nestas circunstancias costumava trabalhar às ocultas debaixo de uma tolda, ainda mesmo que houvesse de faze-lo dentro dos templos. Conta-se que um general (talvez D. Bernardo José de Lorena), achando-se em certo dia a presencias de perto seu trabalho, fora obrigado a retirar-se pelo incômodo que lhe causaram os granitos da pedra em que escultava o nosso artista e que este deliberadamente fazia cair sobre o “importuno” espectador.


Possuía um escravo africano de nome Maurício que trabalhava como entalhador e o acompanhava por toda a parte; era este quem atava os ferros e o macete às mãos imperfeitas do grande escultor que, desde esse tempo, ficou sendo geralmente conhecido pelo apelido de – Aleijadinho. Tinha um certo aparelho de couro, ou madeira, continuamente aplicado aos joelhos, e neste estado admirava-se a coragem e agilidade com quem ousava subir pelas mais altas escadas de carpinteiro.


Maurício era sempre meeiro com o Aleijadinho nos salários que este recebia por seu trabalho. Era notável neste escravo tanta fidelidade a seus deveres que, entretanto, tinha por senhor um individuo ate certo ponto fraco, e que muitas vezes o castigava rigorosamente com o mesmo macete que lhe havia atado às mãos. Alem de Maurício tinha ainda – o Aleijadinho – dois escravos de nomes Agostinho e Januário; aquele era também entalhador e este quem lhe guiava o burro em que andava, e nele o colocava. Ia à missa sentado em uma cadeira tirada de um modo particular por dois escravos, mas quando tinha que ir à Matriz de levado às costas de Januário. Depois da fatal enfermidade que o acometeu trajava uma sobrecasaca de pano grosso azul que lhe descia até abaixo dos joelhos, calça e colete de qualquer fazenda; calçava sapatos pretos de forma análoga aos pés e trazia, quando a cavalo, um capote também de pano preto, com mangas, gola em pé e cabeção, e um chapéu de lã parda braguez, cujas largas abas estavam presas à copa por dois colchetes.


O cuidado de furtar-se às vistas de pessoas estranhas dera-lhe o hábito de ir de madrugada para o lugar em que tinha de trabalhar, e voltar a casa depois de fechada a noite e, quando devia faze-lo antes, notava-se-lhe algum esforço o empenho de alguém que sobre ele quisesse demorar suas vistas.


Entrando-se agora na apreciação do mérito do – Aleijadinho – como escultor e entalhador, tanto quanto pode faze-lo quem não é profissional na matéria, e somente à vista das obras que deixou na capela de São Francisco de Assis desta cidade, cuja planta é sua, reconhece-se que ele mereceu a nomeada de que gozou, atendendo-se principalmente ao estado das artes no seu tempo, à falta que sentiu de mestres científicos, e dos princípios indispensáveis a quem aspira à máxima perfeição nos referidos gêneros, e, sobretudo, às desvantagens contra as quais ultimamente lutava em consequência da perda de membros necessários à execução de seus trabalhos.


São obras do – Aleijadinho – a talha e escultura praticada no frontispício da referida capela, os dois púlpitos, o chafariz da sacristia, as imagens das três pessoas da SS. Trindade e dos anjos que se vêem no cimo do altar-mor, a talha deste e bem  assim a escultura alusiva à ressurreição de Cristo que se vê na frente da urna do altar-mor, a figura do Cordeiro que se acha sobre o sacrário e, finalmente, toda a escultura do teto da capela-mor.


Apenas atenta-se para estes trabalhos, depara-se logo com o gênio incontestável do artista, mas não se deixa de reconhecer, também, que ele foi melhor inspirado do que ensinado e advertido; porquanto o seu desenho ressente-se, às vezes, de alguma imperfeição.


No relevo que representa São Francisco de Assis recebendo as chagas vê-se que ele tem no corpo e no semblante a atitude e a expressão próprias de uma situação tão importante. Junto do santo vê-se, esculpida, uma açucena, cujas hastes caem tão lânguidas e pois tão naturalmente que por isso não se pode deixar de vistoriar o artista.


Na frente do púlpito que fica ao lado esquerdo do templo para quem nele entra pela porta principal, vê-se Jesus Cristo sobre uma barca pregando às turbas no mar de Tiberíade. Os vultos que representam o povo têm o ar de quem presta séria atenção, mas o Salvador não tem aí a majestade que se divisava sempre no seu rosto.


Na frente do púlpito do lado oposto acha-se representado um outro assunto tirado do Velho Testamento. É o Profeta Jonas no ato de ser lançado ao mar, e prestes a ser engolido por uma baleia, que faminta o aguarda.


Eis o resumo da respectiva legenda: Jonas achava-se embarcado, quando sobreveio uma tempestade que ameaçava submergir o navio, e tendo alguém pensado que era castigo do Senhor, infligido a algum pecador que nele se achasse, O profeta denunciou o delito que havia cometido, deixando de ir pregar na cidade de Nínive, como o mesmo Senhor lhe havia ordenado, e pediu que o lançassem ao mar, a fim de serenar a tempestade.


Este grupo parece bem desempenhado. Aos lados de cada um dos púlpitos, vêem-se dois dos quatro Apóstolos Evangelistas, cujos nomes são indicados pelas figuras alegóricas da visão do Profeta Ezequiel, a saber, o Anjo junto a S.Mateus, o leão a S. Marcos, o boi a S. Lucas, e a águia a S. João.


Todos eles têm o ar de quem recebe as divinas inspirações.


No chafariz, vê-se bem esculpida a imagem da Fé, a qual, com a expressão vaga da cegueira que lhe é própria, apresenta num retábulo o seguinte pentâmetro:


Hoec est ad Coelum quae via ducit oves”.


Abaixo, e aproximadamente à pia, vêem-se, de um e outro lado, pescoço e  rosto de um Cervo, por cuja boca deve correr água. O retábulo que os encobre oferece à vista o seguinte hexâmetro:


Ad Dominum curro, sitiens, ut cervus ad undas”.


Juízo igualmente favorável se deve fazer da execução das demais imagens e esculturas, em vulto ou em relevo, que saíram das mãos do mesmo artista, e acham-se na referida capela.


Também é obra do – Aleijadinho – a imagem de S. Jorge, que anualmente costuma sair a cavalo na procissão de Corpus Christi nesta cidade.


A respeito da encomenda desta obra deu-se o seguinte fato:


O general D. Bernardo Jose de Lorena, atendendo a que era mui pequena a imagem do dito santo que então havia, deu ordem a que viesse à sua presença o Aleijadinho, que devia ser encarregado de construir  outra. O estatuário compareceu em palácio depois de muitas instâncias para o fazer. Logo que o viu o coronel José Romão, ajudante de ordens do general, exclamou ele recuado: feio homem! Ao que disse em tom áspero Antonio Francisco, ameaçando retirar-se: é para isso que S. Excia. Ordenou-me que aqui viesse?


O general, que logo apareceu, tranquilizou o artista e pode entrar com ele em detalhes relativos à imagem de São Jorge que, declarou devia ser o grande vulto e, tendo tomado para exemplo o do dito ajudante de ordens que se achava presente, o Aleijadinho voltando-se para este e retribuindo a ofensa dele, disse duas vezes meneando a cabeça e com ar displicente: forte arganaz! Forte arganaz!


Pretende-se que, quando o artista deu por acabada a imagem, não houve quem nela não deixasse de reconhecer uma copia fiel do dito José Romão, que, formando o mesmo juízo, em vão apôs-se a que ela saísse nas procissões.


Acrescentam a isto que o talento do retratista era nele mui pronunciado, e que varias outras imagens construiu, de propósito representando exatamente vulto e feições de certas pessoas.


Nas esculturas do Aleijadinho observa-se sempre, mais ou menos bem-sucedida, a intenção de um verdadeiro artista, cuja tendência é para a expressão dum sentimento ou de uma idéia, alvo comum de todas as artes. Faltou-lhe, como já se disse, o preceito da arte, mas sobrou-lhe a inspiração do gênio e do espírito religioso.


O Aleijadinho exerceu sua arte nas capelas de São Francisco de Assis, de Nossa Senhora do Carmo e na das Almas desta cidade; na Matriz e capela de São Francisco da cidade de São João del- Rei; nas Matrizes de São João do Morro Grande e da cidade de Sabará; na capela de São Francisco de Mariana; em ermidas das fazendas da Serra Negra, Tabocas e Jaguará do sito termo de Sabará; e nos templos de Congonhas, deste último termo, e de Santa Luzia.


Há quem afirme que é em Congonhas do Campo, e em São João del-Rei que se devem procurar suas obras-primas, fazendo especial menção da magnífica planta da capela de São Francisco daquela cidade e do bem-acabado da escultura e talha do respectivo frontispício.


Desde que um individuo qualquer se torna célebre e admirável em qualquer gênero, há quem, amante do maravilhoso, exagera indefinidamente o que nele há de extraordinário; e das exagerações que se vão depois sucedendo e acumulando, chega-se a compor, finalmente, uma entidade verdadeiramente ideal. É isto o que, pode-se dize-lo, até certo ponto aconteceu a Antônio Francisco, de quem se conta o seguinte caso:


Tendo ido à corte do Rio de Janeiro, pediu que se lhe confiasse a construção da porta principal de certo templo que se concluía foi isso julgado de muita ousadia da parte de um desconhecido e contra o qual depunham as aparências. Entretanto, foi-lhe encarregada a obra. Concluída uma das metades da porta, o artista, em certa noite e furtivamente, a colocou no competente lugar. No dia seguinte foi o seu trabalho julgado acima de todos os outros do mesmo gênero, e não havendo artista que se animasse a completá-la, em vista do extraordinário mérito de sua execução, foi mister que para o fazer procurasse por toda a cidade o desconhecido gênio que, afinal, e depois de muitos esforços foi encontrado.


Com o mesmo fim de demonstrar a perícia deste escultor, conta-se que algumas mulheres, tendo ido a Matosinhos de Congonhas do Campo, na ocasião em que passavam por junto do Passo da Ceia, cumprimentavam as figuras que ali representam Cristo com os Apóstolos, o que, a ser devido somente ao bem-acabado da escultura, nos induziria a comparar as obras do nosso patrício com os cachos d’uvas de Zeuxis (famoso pintor da Antiguidade) que os pássaros feriam com o bico crendo serem frutos reais.


O Aleijadinho não ajuntou fortuna alguma no exercício de sua arte/além de que partilhava igualmente o que ganhava com o escravo Mauricio, era descuidado na guarda de seu dinheiro, que de continuo roubavam-lhe, e muito despendia em esmolas aos pobres.


Tendo passado cartas de liberdade aos escravos acima declarados, e bem assim a uma escrava de nome Ana, as quais tinha fechadas em uma caixa, os interessados lhas roubaram para, talvez, as lançarem no livro de notas. É certo, entretanto, que este libertos não entraram no gozo da liberdade durante a vida do senhor benfeitor.


Antônio Francisco trabalhava a jornal de meio oitava de ouro por dia. Quando concluiu as obras da capela do Carmo, das quais se havia primeiramente encarregado, queixou-se de ter recebido o seu salário em ouro falso. Posteriormente, pelos anos de 1811 a 1812, um seu discípulo de talha, de nome Justino, tendo-se encarregado da construção de altares da dita capela, pode obter depois de muitas instâncias, que ele fosse inspecionar e dirigir os trabalhos; e foi residir na casa em que então existia contígua e pertencente aquele santuário. Por ocasião dos dias santos de natal, Justino retira-se para a rua do Alto Cruz, onde tinha a família, deixando ali seu mestre, que, durante muitos dias, por descuido do discípulo, não teve aquele tratamento e cuidados a que estava acostumado. Com este fato coincidiu o de perder quase inteiramente a vista o nosso famoso escultor.


Neste estado recolheu-se à sua casa, sita na rua Detrás de Antônio Dias da qual, depois de algum tempo, mudou-se definitivamente para a se sua nora de nome Joana, que dele tratou caridosamente até seu falecimento, o qual teve lugar dois anos depois de seus últimos trabalhos de inspeção na capela do Carmo, a 18 de novembro de 1814, tendo de idade 84 anos, 2 meses e 21 dias.


Justino só tinha pagado a seu mestre uma mui pequena parte do salário de um ano que lhe pertencia, e pois,  desde então até o fim de sua vida, a mofina do mestre nos seus solilóquios era exigir do discípulo o que lhe era devido. Durante o tempo em que esteve entrevado, frequentes vezes apostrofava à imagem do Senhor que tinha em seu aposento, e tanta as vezes havia esculpido, pedindo-lhe que sobre ele pusesse os seus divinos pés.


É natural que então a vida de sua inteligência em grande parte consistisse em recordação de seu brilhante passado de artista, ele se transportaria muitas vezes, em espírito, ao Santuário de Matosinhos, para ler profecias no semblante dos inspirados do Velho Testamento, cujas figuras tinham sido ali obradas por seu escopo; a memorar nos três Passos da Paixão, que escultara, a bondade e a resignação do Salvador quando preso e osculado pelo apóstolo traidor, a mais solene das ceias, ou a instituição do sacramento da eucaristia e a angustia da vitima celestial contrastando o sono profundo e tranqüilo dos três apóstolos no horto de Getsêmani!


Em mau estado, existe também a casa em que este faleceu; num dos pequenos departamentos interiores dela vê-se o lugar em que, deitado sobre um estrado jazeu por quase dois anos, tendo um dos lados horrivelmente chagado, aquele que, por suas obras de artista distinto, tanto havia honrado a sua pátria!


Tanta miséria ousando aliar-se a tanta poesia!


Antonio Francisco acha-se sepultado na Matriz de Antonio Dias desta cidade. Descansa em uma sepultura contígua e fronteira ao altar da Senhora da Boa Morte, de cuja festa pouco antes tinha sido juiz.

 

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