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Fernando Sabino

Fernando Tavares Sabino


Cronologia

Nasceu: 12 de outubro de 1923
Faleceu: 11 de outubro de 2004
Filiação: Domingos Sabino e Odete Tavares Sabino
Natural de Belo Horizonte /MG


Formação

Curso Primário - Grupo Escolar Afonso Pena
Curso Secundário - Ginásio Mineiro
Bacharel em Direito - Faculdade de Direito da UFMG - 1946.


Atividades

Locutor do programa infantil ‘Gurilândia' - Rádio Guarani, aos 12 anos incompletos - 1935
Funcionário da Secretaria de Finanças de Minas Gerais e, nas horas vagas, lecionou português no Instituto Padre Machado.1942
Funcionário do Consulado Brasileiro em Nova York - 1946
Correspondente, na Europa, do Jornal do Brasil e revista Manchete - 1959
Efetivado como redator do serviço público da Biblioteca Nacional e Agência Nacional, coube-lhe elaborar textos para filmes de curta metragem -1963
Contratado no governo João Goulart para exercer a função de Adido Cultural junto à Embaixada do Brasil em Londres - 1964


Trajetória de vida

Dos 11 aos 14 foi escoteiro.


Bateu recorde na especialidade nado de costas.


Participou da delegação mineira no Congresso Brasileiro de Escritores em São Paulo, em 1945, sugerindo que fosse lida a Moção de Princípios proclamados pelo Congresso que exigiu do ditador Getúlio Vargas o fim da censura e a restauração do regime democrático no Brasil.


Em 1959, viajou à Europa e escreveu 96 crônicas em 90 dias de viagem.


Desde a publicação da biografia Zélia - uma paixão, em 91, quase mais nada deu certo na vida de Fernando Sabino. Foi duramente criticado e sofreu o preconceito da mídia, dos leitores e escritores. A partir daí, fugiu da convivência de todos e passou a não atender mais ninguém. Por isso, Arnaldo Bloch decidiu resgatar a imagem do escritor com o livro Fernando Sabino - Reencontro. O biógrafo ressaltou a importância de Sabino para a literatura brasileira, lembrando que ele foi um dos renovadores da crônica como gênero literário no Brasil e enfatizou que é um escritor que merece ser sempre lido.


Principais obras

- Romance

O Encontro Marcado (1956)

O Grande Mentecapto (1979)

O Menino no Espelho (1982)

- Crônicas

A Cidade Vazia (1950)

Medo em Nova York (1979)

A Mulher do Vizinho (1962)

A Inglesa Deslumbrada (1967)

Deixa o Alfredo Falar (1976)

O Encontro das Águas, Crônica Irreverente de uma Cidade Tropical (1977)

A Falta que Ela me Faz (1980)

A Vitória da Infância (1984)

A Volta por Cima (1990)

- Contos

Os Grilos não Cantam Mais (1941)

O Homem Nu (1960)

A Companheira de Viagem (1965)

O Gato Sou Eu (1983)

Biografia

Zélia, Uma Paixão (1991)

- Infantil

Macacos me Mordam (1984)

O Pintor que Pintou o Sete (1987)


Prêmio

Medalha de ouro por ser o primeiro aluno da turma - 1938

Prêmio Jabuti pelo livro ‘O Grande Mentecapto' - 1980

Prêmio Golfinho de Ouro na categoria Literatura, pelos Conselhos Estaduais de Educação e Cultura do Rio de Janeiro - 1981


Fragmentos de algumas obras e Contos


O Encontro Marcado


Primeira Parte - A procura


III - O escolhido

‘(...) A data do casamento foi marcada: assim que ficasse pronto o enxoval. Eduardo mudou-se para o Rio, tomou posse no emprego que o ministro lhe arranjara, e viu, num misto de apreensão e deslumbramento, aproximar-se o grande dia, Teve de enfrentar, depois da cerimônia, o longo desfile de cumprimentos de gente que via pela primeira vez.

- Pela primeira e última vez - assegurou a Antonieta, e escapou com ela da recepção na casa do ministro. Os únicos rostos familiares ali eram de seu Marciano e dona Estefânia, compenetrados e contrafeitos.

- Deus te faça muito feliz, meu filho - disse-lhe a mãe, comovida, procurando ajeitar-se ainda dentro do vestido novo.

- Não tenho jeito para essas coisas - confessou-lhe o velho, os olhos úmidos, e abraçou-o em despedida. Pela primeira vez Eduardo percebeu que os deixava a sós, e para sempre.

Depois foram dias de intimidade passados num hotel fora do Rio, noites de abandono nos braços um do outro, e de súbito ela quis voltar.

- Precisamos começar a viver, Eduardo.

- E não estamos vivendo? - mas ele se sentia fora de seu mundo, esquecido de tudo, pacificado, feliz. O regresso, o apartamento alugado, a mobília comprada, a vida em comum afinal feita realidade. Tudo acontecia numa seqüência rápida, sem trégua, mal ele tinha tempo de acomodar-se a uma transformação em sua vida, e logo vinha outra, ainda maior. Que viria agora? - ele se interrogava, sem saber o que fazer de si, pela primeira vez sozinho, quando ela enfim, alegando cansaço, recolhera-se mais cedo. Sentia vagamente que se tornara instrumento de desígnios outros, poderosos, desconhecidos - já não era dono de si mesmo. Você não soube escolher - lhe dissera Toledo: foi escolhido. Escolhido por quem? Para quê? Desígnios de Deus? Lembrava-se do diretor do ginásio, séculos atrás: você acredita em Deus? Já nem sabia em que acreditava, não tinha tempo para pensar. Você vive muito depressa - o pai tinha razão, era isso, depressa demais. Essa ganância de viver. Gostaria de ser um homem sereno, comedido, um escritor como Machado de Assis. Era preciso ir devagar - saber envelhecer. O fruto que apanhava ainda verde, deixava apodrecer na mão. Casado. A vida o afastava de sua origem, de seus amigos. Já nem sempre estaria presente na lembrança deles, o tempo o empurrava com força demais e isso era terrível. Mal podia sentir o gosto das novas experiências, já não eram novas, ficavam logo para trás, o passado, ele que não tinha presente, não tinha nada, não fizera nada - por que não podia parar um pouco, descansar, não dar mais um passo? Queria adquirir seus hábitos também, certa maneira de ser, ele que era moço. Sozinho. Muito precoce, aprendeu a ler sozinho, fazia o que queria, bastava arranhar o rosto. Antonieta sua mulher, dia e noite, enfim conquistada: nada mais a fazer? Sozinho, o tempo passando, ignorava tudo que ficara para trás: Mauro fizera um poema e ela não sabia, Hugo lhe mandara um telegrama, apenas um telegrama lhe mandara Hugo. Assim, eles iam mudando: nada de intimidades. Uma suave cortesia. Uma distinta amizade. Amabilidades de parte a parte. E falsidade, hipocrisia, conveniência. Pois não, também acho, com prazer. Com quem puxar angústia agora? Nascemos para morrer - nada pior do que não ter nascido. A vida tem dessas contradições, dizia o pai. Onde as verdades eternas? O tempo levava tudo, ele não tinha onde se ancorar. Oh, o Toledo era um tratado de psicologia. Tudo isso é natural, diria ele, natural, viver é assim mesmo. O tempo acontece, o que tinha de ser já foi, agora a nostalgia de já ter sido em experiência, etcetera, etcetera. Conhecia novas pessoas, pensaria outras coisas, ouviria em silêncio prudente e compassivo opiniões alheias que um dia já foram suas. E está certo! Não se pode fazer das dúvidas de outrora o pão nosso de cada dia: não posso responsabilizar ninguém pelo destino a que me dei. Sozinho: sozinho no mundo com uma mulher. O que significa isso? Significa que terei de amá-la, zelar por ela, sustentá-la, cumprir os chamados deveres de estado. Pois então o que é que estou fazendo aqui, sozinho? Não sou um homem? Um marido, não sou? Há uma fresta em minha alma por onde a substância do que sou está sempre se escapando mas não vejo onde nem por quê. Depressa, não há tempo a perder. Também tenho o meu preço mas ninguém conseguirá me comprar, todo o dinheiro do mundo não basta, hei de escapar como água entre os dedos da Coisa que me aprisionar entre os dedos - hei de fluir de um rio, dia e noite, nem que tenha de dormir de pé porque esta é a cama estreita que conduz ao reino dos céus. Não adianta pensar, a mão de Deus é pesada mas me protege a cabeça, tudo que faço nasce feito, sozinho, não adianta chorar, meu Deus, nem tenho motivos para isso, muito pelo contrário, é preciso reagir, a literatura não adianta, e os livros na estante e o cinzeiro cheio de cinza e a luz da cozinha acesa, poderia fazer um café, Antonieta dormindo e o botão do pijama, meu Deus, livrai-me do pijama, quero ser reto, quero ser puro, quero servir, pois vai trabalhar, moço, deixa de vaidade, tu és muito pretensioso, uma missão a cumprir, ora vejam, perdulário que tu és, a vida é breve, não incomoda os que trabalham, os trabalhos do homem são penosos, estou casado, estou casado, estou abatido, em verdade estou destroçado, andei depressa demais, agora chega, basta, pára, pronto! Acabou. Assim. Fique quieto. Não queira. Não estou dormindo, estou vigilante, hay que vigilar las tinieblas, capisca? Ai, Minas Gerais, já ter saído de lá, tuas sombras, teus noturnos, teus bêbados pelas ruas, Eduardo Marciano, minha mágoa, minha pena, minha pluma, merecias morrer afogado, o barco te leva para longe, a praia está perdida, mas voltarás nem que tenhas de andar sobre as águas.

De tudo, ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono um aponte, da procura um encontro".


O gato sou eu

- Aí então, eu sonhei que tinha acordado. Mas continuei dormindo.

- Continuou dormindo.

- Continuei dormindo e sonhando. Sonhei que estava acordado na cama, e ao lado, sentado na cadeira, tinha um gato me olhando.

- Que espécie de gato?

- Não sei. Um gato. Não entendo de gatos. Acho que era um gato preto. Só sei que me olhava com aqueles olhos parados de gato.

- A que você associa essa imagem?

- Não era uma imagem: era um gato.

- Estou dizendo a imagem do seu sonho: essa criação onírica simboliza uma profunda vivência interior. É uma projeção do seu subconsciente. A que você associa ela?

- Associo a um gato.

- Eu sei: aparentemente se trata de um gato. Mas na realidade o gato, no caso, é a representação de alguém. Alguém que lhe inspira um temor reverencial. Alguém que a seu ver está buscando desvendar o seu mais íntimo segredo. Quem pode ser essa alguém, me diga? Você deitado aí nesse divã como na cama em seu sonho, eu aqui nesta poltrona, o gato na cadeira... Evidentemente esse gato sou eu.

- Essa não, doutor. A ser alguém, nesta caso o gato sou eu.

- Você está enganado. E o mais curioso é que, ao mesmo tempo, está certo, certíssimo, no sentido em que tudo o que se sonha não passa de uma projeção do eu.

- Uma projeção do senhor?

- Não: uma projeção do eu. O eu, no caso, é você.

- Eu sou o senhor? Qual é, doutor? Está querendo me confundir a cabeça ainda mais? Eu sou eu, o senhor é o senhor, e estamos conversados.

- Eu sei: eu sou eu, você é você. Nem eu iria pôr em dúvida uma coisa dessas, mais do que evidente. Não é isso que eu estou dizendo. Quando falo no eu, não estou falando em mim, por favor, entenda.

- Em quem o senhor está falando?

- Estou falando na individualidade do ser, que se projeta em símbolos oníricos. Dos quais o gato do seu sonho é um perfeito exemplo. E o papel que você atribui ao gato, de fiscalizá-lo o tempo todo, sem tirar os olhos de você, é o mesmo que atribui a mim. Por isso é que eu digo que o gato sou eu.

- Absolutamente. O senhor vai me desculpar, doutor, mas o gato sou eu, e disto não abro mão.

- Vamos analisar essa sua resistência em admitir que eu seja o gato.

- Então vamos começar pela sua insistência em querer ser o gato. Afinal de contas, de quem é o sonho: meu ou seu?

- Seu. Quanto a isto, não há a menor dúvida.

- Pois então? Sendo assim, não há também a menor dúvida de que o gato sou eu, não é mesmo?

- Aí é que você se engana. O gato é você, na sua opinião. E sua opinião é suspeita, porque formulada pelo consciente. Ao passo que, no subconsciente, o gato é uma representação do que significo para você. Portanto, insisto em dizer: o gato sou eu.

- E eu insisto em dizer: não é.

- Sou.

- Não é. O senhor por favor saia do meu gato, que senão eu não volto mais aqui.

- Observe como inconscientemente você está rejeitando minha interferência na sua vida através de uma chantagem...

- Que é que há, doutor? Está me chamando de chantagista?

- É um modo de dizer. Não vai nisso nenhuma ofensa. Quero me referir à sua recusa de que eu participe de sua vida, mesmo num sonho, na forma de um gato.

- Pois se o gato sou eu! Daqui a pouco o senhor vai querer cobrar consulta até dentro do meu sonho.

- Olhe aí, não estou dizendo? Olhe a sua reação: isso é a sua maneira de me agredir. Não posso cobrar consulta dentro do seu sonho enquanto eu assumir nele a forma de um gato.

- Já disse que o gato sou eu!

- Sou eu!

- Ponha-se para fora do meu gato!

- Ponha-se para fora daqui!

- Sou eu!

- Eu!

- Eu! Eu!

- Eu! Eu! Eu!'

 

Crônica de Fernando Sabino

‘A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: 'assim eu quereria o meu último poema'. Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.


Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.


Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho - um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular. A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.


São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: 'Parabéns pra você, parabéns pra você...' Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura - ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido - vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.


Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso'.

 

 

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