Cultura

Manifestações Culturais Tradicionais

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01. Cultura: Matéria-Prima do Folclore

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"Todo e qualquer ser humano tem cultura." Esta é uma das poucas "verdades absolutas" da Antropologia. Apesar desta afirmação parecer óbvia, não é, pois há muita gente que ainda pensa que alguns seres humanos não tem cultura. Por isso, é importante resaltar esta "obviedade".  


Outra verdade antropológica é que em praticamente toda e qualquer comunidade humana existem e interagem diversos componentes substantivos - indicadores sociais - que definem, identificam e constroem a cultura do grupo humano que aí vive:

1. As formas organizativas - o social, isto é, a família, os laços de parentesco, o compadrio, os grupos, as turmas, etc.

 

2. As formas do fazer - o tecnológico, o científico, o artístico, o artesanal, o literário ,etc.

 

3. Os sistemas de decisão - o político, a autoridade, a liderança, etc.


4. A visão de mundo - o religioso, o ontológico, o depois, o futuro, etc.


5. O meio ambiente - o contexto, o entorno, o ecológico, etc.


6. A memória - o passado, a origem, o anterior, etc.


7. As relações de produção - o econômico, o trabalho, a sobrevivência, etc.

 

Estes componentes são extremamente dinâmicos, interdependentes e formam uma rede de relações que são condicionantes e condicionados pelo corpo de valores (as ideologias, a arbitrariedade, a solidariedade, a violência, o afeto, o respeito, os modismos, o machismo, o egoísmo, o amor, a ternura, os preconceitos, a alegria, o prazer, etc) da sociedade.

 

Consideramos cultura exatamente esta rede de relações, processos e interações, que formam um padrão ou um desenho, definidor da identidade da comunidade ou grupo social.

 

A partir desse conceito operacional, podemos pensar:
- o processo cultural como a dinâmica do padrão ou desenho

- o indicador cultural como cada elemento da rede de relações que forma o desenho.


Com esse enfoque, podemos pensar, por exemplo:

- a cultura local como um desenho envolvendo e interagindo todos os indicadores e valores locais;

- a cultura regional como um desenho que deva conter necessariamente todos os desenhos correspondentes às culturas locais e suas interações;

- a cultura nacional, por sua vez, como um desenho que deva conter obrigatoriamente todos os desenhos ou padrões correspondentes às culturas regionais e suas interações. 

 

Consequentemente, o planejamento da dinâmica do desenho - seja local, regional ou nacional - que constitui o cerne das propostas e políticas de desenvolvimento, deveria ter como característica e ênfase a heterogeneidade e a diversidade, que de fato constituem a marca de nossa cultura, o caráter de nosso país e sua verdade histótica.

 

Assim sendo, não podemos admitir, por exemplo, como democratização da cultura brasileira um maior acesso dos diferentes grupos sociais espalhados por esse país aos bens de uma dada cultura, porque isto a homogeneizaria, desfigurando-a. Por outro lado, perderíamos o caráter de nação brasileira, porque estimularíamos o desenvolvimento social e econômico de um único desenho, o que não corresponderia ao nosso processo histórico.


Sendo a educação o principal gerador de oportunidades para o desenvolvimento social e econômico de um país (cfe.ONU/1990), a política educacional não poderia estar desvinculada dessa premissa básica (a heterogeneidade) e, obrigatoriamente, deveria ter na diversidade de desenhos culturais da nossa sociedade a alternativa e o ponto de partida para a realização do pleno e integral desenvolvimento da nação brasileira.


Só considerando uma educação plural, cuja matéria-prima de ação pedagógica seja a cultura, poderemos democratizá-la e, assim, caracterizá-la no singular como brasileira.

 

E o Folclore? Onde ele entra nessa história?

Se estamos de acordo com as premissas anteriores, verificaremos que "toda e qualquer forma de conhecimento" é uma leitura e interpretação, parcial e relativa, da cultura.

Como qualquer outra ciência, o Folclore é mais uma maneira de ler e interpretar a rede de relações e os desenhos culturais de uma sociedade. Para isso, esta ciência utiliza-se de instrumentos metodológicos de pesquisa: a observação e a análise de tudo aquilo que seja tradiocional, funcional e de aceitação coletiva dentro do grupo social estudado.

 

Seja o conhecimento científico (sistemático e sistematizado, resultante da aplicação de métodos específicos para cada ciência), seja o conhecimento não-formal (empírico, não-sistematizado, resultante da vivência e do senso comum), ambos, um e outro, são e serão sempre relativos e parciais. Nenhum melhor ou superior ao outro. Antagônicos muitas vezes, complementares outras, não opostos necessariamente. Ambos importantes porque permitem e possibilitam uma leitura mais densa e uma cooperação mais profunda do ser e da cultura humanos. E esta é a finalidade do conhecimento, creio eu: possibilitar uma leitura mais densa, mais profunda, mais rica, mais abrangente e mais humana da "travessia" humana.

 

E o Folclore, como ciência humana e social, irmã da Antropologia, e parte desse conhecimento, é, em síntese, a possibilidade de leitura "dos saberes, dos fazeres, e dos quereres humanos", estudados sob a "luneta' da tradicionalidade, da aceitação coletiva e da funcionalidade.

 

Observação
O VIII Congresso Brasileiro de Folclore, realizado em dezembro de 1995 em Salavdor, Bahia, propôs o seguinte conceito: Folclore é o conjunto das criações culturais de uma comunidade, baseado nas suas tradições expressas individual ou coletivamente, representativo de sua identidade social. Constituem-se fatores de identificação da manifestação folclórica: aceitação coletiva, tradicionalidade, dinamicidade, funcionalidade."


Resaltamos que entendemos folclore e cultura popular como equivalentes, em sintonia com o que preconiza a UNESCO (Recomendação sobre Salvaguarda do Folclore, por ocasião da 25ª Reunião da Conferência Geral da UNESCO, realizada em Paris em 1989. A expressão cultura popular manter-se-á no singular, embora, entendendo-se que existem tantas culturas quantos sejam os grupos que as reproduzem em contextos naturais e economicos específicos.

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