Cultura

Manifestações Culturais Tradicionais

Senac
  • Logo Senac Minas
  • Hotel Grogotó
  •  

Circo

Hoje tem marmelada? Hoje tem palhaçada? Senhoras e senhores, preparem-se: o grande espetáculo popular que durante séculos alegra e colore a infância de muita gente, pede espaço para contar sua história nas páginas do Portal Descubraminas. Com vocês, o Circo!


O circo permeia a história humana desde a antiguidade. Grupos de artistas se reuniam para fazer espetáculos híbridos em áreas públicas. Eles apresentavam shows de contorcionismo, ilusionismo, domesticação de animais selvagens e outros artifícios artísticos que não eram comuns na sociedade da época.


Segundo algumas obras, o primeiro circo surgiu em Roma, na época do Império Romano. Os artistas que marcaram sua história são conhecidos como nômades viajantes. Estes eram principalmente ciganos e saltimbancos, artistas que divertiam o público em feiras e praças.


De acordo com Regina Horta Duarte, autora da obra "Noites Circenses", os nômades (ciganos e saltimbancos) eram apontados como povos vagabundos. Ainda segundo a autora, tais povos deixavam sinais de destruição e abandono onde passavam, instaurando linhas de fuga, detonando desejos, fragmentação de identidades e oferecendo caminhos e possibilidades imprevisíveis e perigosas.


As apresentações circenses - apesar dos tumultos e conflitos sociais e políticos durante a Idade Média -, eram realizadas em vilarejos onde haviam grupos humanos para assisti-las. Em troca, os moradores forneciam aos artistas alimentos e algum bem de uso, os quais necessitassem.


A partir do século 15, os grupos circenses começaram a se organizar, fazendo adaptações em seus espetáculos, satisfazendo o gosto do público que os assistiam. Em 1727, o circo já era considerado uma atividade nacional, gerando questões sobre como proceder com famílias ciganas, que apresentavam espetáculos considerados imorais - comédias e óperas - nas cercanias das cidades e povoados.


A partir de 1768, o cavaleiro inglês, Philip Astley deu uma forma organizada ao espetáculo circense, cujas características conhecemos até hoje. Ele é considerado o Pai do Circo "Moderno".Astley organizou a montagem do picadeiro limitando-o para as apresentações e também montou a primeira estrutura circense, que apresentava as seguintes características :

•O picadeiro era um espaço com tablado circular, delimitado por lonas cercadas por arquibancadas proporcionando a visão dos espetáculos pelo público;

•O espetáculo contava com saltimbancos, acrobatas, cavaleiros e palhaços em uma só apresentação, tornando-se assim, a base da organização do circo moderno.


A cobrança de ingressos ao público para assistir aos grandes espetáculos circenses é datada de 1770. Dez anos mais tarde, em 1780, Charles Hughes criou uma das primeiras companhias de espetáculos do mundo: a Royal Circus. Foi a primeira vez que este tipo de espetáculo e espaço aparecia com o nome de 'circo'. O sucesso da Royal Circus foi responsável pela nomenclatura "circo" ficar popular e ser conhecida até os dias de hoje. No século 18, o circo passou a ser considerado um espaço propício à bagunça, onde ocorria a ruptura de comportamentos civilizados.


Instalava-se também na sociedade, principalmente na legislação municipal e religiosa, o desejo de controlar o divertimento do povo no tempo fora do trabalho.Os espetáculos dos ciganos que eram totalmente descomprometidos com a religião e com modos de vida diferentes da filosofia religiosa, foram combatidos pela Igreja. Mas havia uma aceitação popular por ser o movimento nômade algo que provocava distúrbios sociais. Foi um movimento que despertava diversas sensações, gerava fascínio, mudança de cotidiano, deslumbramento, sensação explosiva e alegre, incontrolável e prazerosa, que transformava a cidade por onde passavam.


As famílias circenses, desde 1770, saíam da Europa Ocidental, viajando pelo continente, alegrando a todas as classes populares. Chegaram a organizar verdadeiras "dinastias circenses", que foram denominados de "Circos Tradicionais". No final do século 19 e meados do século 20, em toda a Europa, o cavalo ocupava um lugar central nas apresentações circenses. Os circos eram chamados então de 'circos de cavalinhos', e em sua maioria, os números hípicos é que davam valia à apresentação da companhia circense.


Outra atração que surgiu nos circos, no século 19, foram os animais selvagens de difícil doma, como leões, ursos e serpentes utilizadas como um atrativo para o público. Na maioria das vezes, apenas sua exibição já era suficiente para um público curioso que nunca tivera oportunidade de ver tais animais.


A presença de mágicos ilusionistas e malabaristas também marcavam os números circenses da época. "Os mágicos tinham como objetivo iludir o público através de truques que criassem uma noite agradável e cheia de emoções. Os números de ilusionismo geravam a tensão entre a dialética: origem e fim; causa e efeito; vida e morte, como no número em que a ajudante é separada em pedaços de corpo vivo e despedaçado", narra em sua obra, Regina Horta Duarte.


Um dos principais personagens que sustentam o humorismo circense é o palhaço, 'esse fazedor de graça que é tão antigo quanto o tempo, e quanto à própria arte circense'. Algumas obras apontam que os primeiros "fazedores de graça" da Itália usavam palha dentro de suas roupas para amortecer as piruetas e suavizar o impacto das quedas. Daí, surgiu o nome palhaço, símbolo maior da alegria do circo.


O Circo no Brasil
Notícias dão conta de que João Torres, homem de origem cigana, veio para o Brasil em 1574, trazendo consigo sua mulher e filhos, todos degredados. Os ciganos chegaram ao Brasil banidos de Portugal pelo decreto de D. João V, de 15 de abril de 1718, espalhando-se por diversos estados do país.


Como os ciganos não respeitavam as leis católicas, não falavam o português, tinham costumes nômades e não seguiam a boa ordem da Sociedade Colonial, eram perseguidos e acusados, por onde passavam, de toda desordem social que acontecia. Tinham hábitos e costumes bastante duvidosos: cuidavam de trapacear na compra e troca de cavalos e escravos.


As famílias de ciganos e saltimbancos que vieram da Europa, tinham como especialidades a doma de ursos e leões; o ilusionismo e as exibições com cavalos. Iam de cidade em cidade, e adaptavam seus espetáculos ao gosto da população local. Viajavam em carroças e carros de bois, levando todos os seus pertences e o material utilizado nos espetáculos.


Despertavam a curiosidade e o desejo em várias pessoas que tinham dons artísticos e acabavam acompanhando-os. Desta forma, o circo se apropriou de vários modos de vida apreendidos nas regiões por onde passava, retratados, principalmente, nos teatros de bonecos.


Normalmente instalavam suas tendas na periferia das grandes cidades e os espetáculos eram apresentados para as classes populares. A permanência das trupes nos lugares era marcada por bagunça e bebedeira. As famílias locais tinham medo que suas crianças e mulheres fossem roubadas. Várias Câmaras Municipais criaram leis que controlavam o procedimento dos grupos de ciganos ou circenses que visitavam a cidade ou vilarejo.


Os ciganos eram ágrafos. Faltam documentos que comprovem com veracidade a presença de espetáculos ciganos no século 18. Tudo que se sabe foi documentado em notícias de jornal ou em livros que contam vivências e lembranças biográficas, quando narram os espetáculos profanos apresentados por ciganos ou saltimbancos.


Alguns historiadores defendem a teoria de que o circo chegou ao Brasil, no período de 1820 -1830. Documentos datados de 1834, registram a chegada do circo de Giuseppe Chiarini, que era formalmente organizado. Este circo pode ser considerado um ponto de referência para se compreender o encontro do circense europeu com os artistas e as experiências locais. Nesta época, o circo sofreu mudanças na produção do espetáculo pela incorporação, assimilação e mistura de novos elementos vivenciados no local de sua estadia.


O Circo em Minas Gerais
As primeiras notícias que registram espetáculos teatrais e circenses em Minas Gerais são de 1728. As apresentações aconteciam em áreas públicas feitas por grupos de ciganos. Alguns registros contam que eles entraram pelos sertões de Minas através do rio São Francisco.


Os grupos circenses eram acusados pelos padres e bispos da época de hereges, pois apresentavam óperas, comédias de autores clássicos, musicais e danças com temas licenciosos e imorais. Todos estes temas entravam em confronto com os teatros e cerimônias religiosas, cujas apresentações versavam sobre a vida dos santos. As danças dramatizadas e cantorias que a população apresentava deveriam estar de acordo com o calendário religioso e entrar em sintonia com a ideologia católica que, por sua vez, era atrelada aos interesses da Metrópole.


Apesar das dificuldades de deslocamento, em virtude das estradas e do relevo, a região do Quadrilátero Ferrífero (na porção central do Estado) recebia várias Companhias de Circo, Teatro e Óperas. As companhias viajavam só em períodos de seca, já que no período chuvoso era impossível passar pelas estradas e caminhos, com toda parafernália que carregavam em carros de bois, carroças e tropa de burros.


Logo que a temporada de chuvas passava, as companhias iniciavam as propagandas e anunciavam sua chegada de maneira mais amena e eficaz.Curiosamente, os artistas circenses não eram tão discriminados nos locais onde chegavam como os ciganos. Era comum ver alegria e satisfação em toda a comunidade para recebê-los. Mas, a desconfiança de aproximar e ter maior convivência, era notada pelos escritores da época.


A presença das companhias circenses pelas cidades de Minas era o encontro da vida cultural daquele período.Grande parte desses grupos itinerantes não documentava suas atividades, o que dificulta a procura de documentos que esclareçam melhor suas contribuições para a sociedade da época e descrevam o seu modo de vida social, religioso e suas origens.


O conhecimento das artes circenses e a montagem de sua estrutura de funcionamento eram passados de pai para filho, como tradição oral e vivenciada. Toda sabedoria foi herdada de artistas ambulantes e saltimbancos."Ensinavam a armar e desarmar o circo, a preparar os números ou peças de teatro, além de treinar as crianças e adultos para executá-los. Este conteúdo tratava também de ensinar sobre a vida nas cidades, as primeiras letras, as técnicas de locomoção do circo. Através deste saber transmitido coletivamente às gerações seguintes, garantiu-se a continuidade de um modo particular de trabalhar e de montar o espetáculo", cita Regina Horta Duarte, da obra "Noites Circenses".


A partir de 1846, o município de Diamantina elaborou um documento de "Posturas Municipais", que deveria ser assinado como autorização de permanência da Cia. Circense que fosse apresentar os espetáculos no município.Seguindo o exemplo de Diamantina, vários municípios tomaram a mesma atitude, para que estes espetáculos não se transformassem em momentos de baderna, brigas e bebedeiras.Dentre as leis elaboradas para este fim, que eram muito severas, era considerado infrator, o dono de circo que levasse consigo crianças ou adolescentes que pertencessem a qualquer localidade, por onde passasse.


Havia o desejo de fuga e encantamento pela vida nômade dos circenses. Muitos eram os casos de mulheres que se encantavam e se apaixonavam pelos artistas e queriam acompanhá-los, juntando-se à trupe circense. O ator mambembe, Avelino Fóscolo, nascido em Sabará em 1864, comenta em sua obra que jovens almejavam romper as barreiras das imposições da família, da escola, do exército.


Quando a companhia circense definia a apresentação em um município, um representante da trupe era designado à localidade para pesquisar a receptividade e assinar acordos com a Prefeitura. O representante fazia contatos com os jornais e com lideranças da comunidade. Esta, era uma forma de afastar desconfianças e evitar conflitos com a sociedade e autoridades locais.


Vários viajantes estrangeiros como Saint- Hilaire (que passou pelo Brasil no período de 1817 a 1822) e Richard Burton fazem referências em seus diários sobre apresentações de espetáculos públicos. Em seus relatos, os viajantes contam que as apresentações traziam prazer e alegria para as populações dos vilarejos, mas acontecia um relaxamento dos bons costumes sociais e religiosos.


No final do século 19, os mineiros assistiam, maravilhados, as habilidades circenses na montagem dos trapézios; "a carangueja" - barra de madeira fixada perpendicularmente no mastro principal; a montagem das arquibancadas; os desfiles para propaganda do espetáculo de palhaços abrindo o cortejo, fazendo traquinagens montados em burros de cara para trás; cavalinhos; cães amestrados e cabritos equilibristas; artistas fantasiados com roupas e maquilagem colorida e a banda, acompanhando os circenses com ritmo festivo, cantando versos curiosos, chamando a atenção dos espectadores.


Tudo isto para a comunidade era um vislumbramento e provocava uma série de mudanças no cotidiano local.Por isso, vários fatos interessantes ocorreram em Minas. O mineiro, pelo seu processo histórico tradicional, em virtude da exploração do ouro e de pedras preciosas é um ser autônomo, insubmisso, progressista; logo, a magia circense de ser nômade e conhecer o mundo, a liberdade de ação e o gosto pela arte de representar e alegrar o público espectador, cuidar e adestrar animais levou vários mineiros a trabalhar em circos ou fundar Companhias Circenses como:

•"Circo Estrela do Norte", fundado pelo Sr. Nozico, em Guanhães, leste de Minas.

•"Circo Maxambomba", fundado pelo professor Maxambomba, em Carangola, na Zona da Mata mineira. O Circo Maxambomba contava com apresentações de trapézio, barras, argolas, saltos, deslocamentos, bailados e pantomima.

•Circo Guanabara, Circo Peri e Circo Albano, são outros exemplos de circos fundados em Minas.


Benjamim de Oliveira é um dos artistas circenses de Minas Gerais que merece destaque. Este mulato de Pará de Minas, fugiu com o Circo Sotero, em 1881. Mais tarde, viveu com os ciganos e fugiu para trabalhar em outros circos. Apesar das dificuldades, tornou-se o palhaço mais conhecido do público brasileiro. Benjamim recebeu elogios de Procópio Ferreira, que o elegeu como o "Rei dos Palhaços".


Atualmente, a referência dos circos mineiros é a dupla de palhaços "Pimpão e Fumaça", que desde 1995, vem montando peças teatrais para adultos e crianças. "Pimpão e Fumaça" criaram o projeto "Circo Escolar" e gravaram o disco "O Circo do Coração".

 

 

Enviar link