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Música - Séculos 20 e 21

© Maria Lucia Dornas Belo Horizonte - Memorial Minas Gerais - Milton Nascimento - Maria Lucia Dornas Memorial Minas Gerais - Milton Nascimento

A primeira metade do século 20 não foi uma das fases mais criativas da música mineira e também brasileira. Os ritmos que marcavam bailes da época eram polca, maxixe e lundu (ritmo de origem africana), executados pelas bandas de música e corporações musicais que existiam em quase todas as cidades do interior. Em razão da Abolição da Escravatura, no final do século, os negros agora eram livres para fazer sua música, baseada nos ritmos da terra natal, antes proibidos por serem considerados de alto teor erótico.


Na década de 1930, entram em operações duas emissoras de rádio em Minas: a Rede Mineira de Rádio, que já fechou, foi ao ar pela primeira vez em 1931, e a rádio Guarani, que foi inaugurada em 1936. Por muito tempo, a rádio levou música aos mineiros da capital e também do interior. Os programas transmitidos ao vivo faziam grande sucesso, e grandes nomes da música surgiram nesse meio.


O samba também é o ritmo preferido da geração boêmia, cuja vida era “subir Bahia e descer Floresta”. Destacam-se nomes como Rômulo Paes, Gervásio Horta e Celso Garcia, que também compunham marchinhas para os carnavais de Belo Horizonte. Um dos maiores nomes do samba brasileiro foi o mineiro de Ubá, Ary Barroso, autor de “Aquarela do Brasil”. Entretanto, Ary mudou-se para o Rio de Janeiro aos 18 anos. Outro importante compositor que também se mudou para o Rio foi Ataulfo Alves, natural da cidade de Miraí, na Zona da Mata. Teve sambas gravados por Carmem Miranda, Carlos Galhardo e Almirante. Em parceria com Mário Lago, gravou “Ai, Que Saudades da Amélia!”.


Na década de 1970, outros mineiros fazem sucesso Brasil e mundo afora: Clara Nunes, da cidade de Caetanópolis, é, ainda hoje, considerada uma das vozes mais belas do País. Ficou conhecida nos anos 1960 quando foi finalista de um concurso musical. Foi contratada pela rádio Inconfidência e também apresentava um programa na TV Itacolomi. Em 1965, muda-se para o Rio de Janeiro e, no ano seguinte, lança seu primeiro LP: “A Voz Agradável de Clara Nunes”. Ela morreu em 2 de abril de 1983 por complicações numa cirurgia de varizes.


Quem também é sucesso nessa época é Milton Nascimento. Apesar de ser carioca, ainda criança foi trazido para Minas Gerais por seus pais adotivos. Cresceu em Três Pontas, onde desenvolveu seu talento musical. Aos quatro anos de idade, já iniciava seu contato com a música por meio de uma sanfoninha que ganhou de presente. Mais tarde conheceu o pianista Wagner Tiso, com quem participou da banda “W’s Boys”. Nessa ocasião, usava o nome artístico Wilton. Com essa banda ele gravou sua primeira música, “Barulho de Trem”. Com a mãe do parceiro, Milton aprendeu as primeiras lições de piano.


Mudou-se para Belo Horizonte em 1965 para prestar vestibular de Economia. Conheceu Fernando Brant e os irmãos Marilton, Márcio e Lô Borges. Com eles, Milton fez diversas parcerias, participou de programas de TV e compôs diversas músicas. Em 1966, fica em 4º lugar no Festival de Música Popular da TV Excelsior. Nesse mesmo ano, Elis Regina grava sua música “Canção do Sal”. No ano seguinte, no II Festival da Canção da TV Globo, três músicas suas são finalistas: “Morro Velho”, feita em parceria com Fernando Brant; “Maria, minha fé”, e a grande vencedora, que lhe rendeu o título de melhor intérprete do Festival: “Travessia”, também em parceria com Fernando Brant. Ainda hoje Milton Nascimento é referência da música popular brasileira, com suas letras suaves e, ao mesmo tempo, profundas.


Com seu sucesso nacional e internacional, Milton Nascimento divulgou o movimento musical mineiro “Clube da Esquina”, uma referência à esquina da Rua Divinópolis com a Rua Paraisópolis, localizadas no bairro de Santa Teresa, em Belo Horizonte, onde os irmãos Borges, desde meninos, costumavam se reunir para cantar e tocar violão. Seus componentes, Márcio e Lô Borges, Fernando Brant, Wagner Tiso, Beto Guedes, Toninho Horta, Flávio Venturini, Vermelho, Tavinho Moura, Ronaldo Bastos, Nivaldo Ornellas, Nélson Ângelo e Tavito, entre outros, tinham em comum uma mesma identidade cultural e política, privilegiando, em suas letras, os temas sociais.


Toninho Horta define bem a importância desse movimento: “o Clube da Esquina é divisor de águas na MPB: "Passados mais de 30 anos, continua sendo o único movimento que, ao lado da bossa nova, influenciou e continua influenciando a música do mundo inteiro", afirma. A contribuição se dá pela criação ‘livre e aberta’, articulação de harmonia, melodia e ‘construções rítmicas’ geniais de Milton Nascimento: acrescida das letras, a obra se torna ‘cancioneiro lírico’ que fala de justiça, amor, paixões e da vida, mais do que protesto ou política”, analisa."Não queríamos polemizar, mas apenas fazer música que tocasse fundo no coração das pessoas”.


Depois da talentosa geração do Clube da Esquina, surgiram outros nomes que também fizeram história na música mineira: Zé Rodrix e o rock rural ou blues caipira fizeram sucesso no que se denomina fase pós-Clube da Esquina.  


Os anos 80 começam ao som de guitarra. O heavy metal do Sepultura conquista o mundo, transforma-se em referência do rock. Formado pelos irmãos Iggor e Max Cavalera, além de Paulo Jr. e Jairo Guedez, a banda foi criada nos anos 80 na capital mineira. O estilo death metal foi um estouro, e uma gravadora holandesa logo se interessou pelo som da banda mineira. Com esse novo contrato, o Sepultura tocou nas duas Alemanhas, Rússia, Inglaterra, EUA e em diversos festivais de rock. Da formação original, apenas Iggor permanece. Mas o Sepultura ainda continua tocando pesado.


Outra banda de rock da mesma época que também fez sucesso foi a Sarcófago. Wagner Lamounier foi o primeiro vocalista do Sepultura. Não há gravações dele no vocal da banda, mas, num álbum do Sepultura, em parceria com Max Cavalera, escreveu a música “Antichrist”. O estilo da banda era chocante: gravavam videoclipes em cemitérios e tinham o visual com pulseiras de couro cheias de tachas e pregos. Tinham uma ideologia anticristã, extremista e satanista. A banda também fez excursões à Europa, mas não alcançou o mesmo sucesso que o Sepultura.


Mas o rock não foi o único som ouvido nas montanhas, nem Belo Horizonte foi o único palco da música mineira. No Norte e Nordeste de Minas, Saulo Laranjeira, Rubinho do Vale e Paulinho Pedra Azul mostravam a riqueza cultural daquela região castigada pela pobreza e pelo descaso. O Festivale surge em 1979 com o nome de “Encontro de Compositores do Vale do Jequitinhonha”. Seu objetivo era dar vez e voz ao povo do Vale. Reuniu 22 compositores vindos de 15 cidades da região, deixando claro que a cultura do Vale necessitava de mais espaço, o festival precisava ser maior e mais diverso, contando com várias outras coisas além da música. O Festivale hoje é referência de arte e cultura da região e sempre desvenda novos talentos da música.


Nos anos 90, o rock ainda continuou com força total: mas, ao contrário do heavy metal pesado, o estilo agora é mais pop, misturando com outras influências musicais, algumas exóticas, como o Skank fez. A banda, criada em 1991, misturou rock com música jamaicana, e logo no primeiro disco, lançado de forma independente, o sucesso já sorria para Samuel Rosa, Haroldo Ferreti, Lelo Zanetti e Henrique Portugal.


O segundo trabalho, “Calango”, vendeu mais de um milhão de cópias e lançou hits como “Jackie Tequila”. “O Samba Poconé” levou o Skank à turnê internacional: a música “Garota Nacional” ficou em primeiro lugar nas paradas espanholas por três meses, além de ser a única música brasileira a integrar a caixa "Soundtrack for a Century", lançada para comemorar os 100 anos da Sony Music. Os discos da banda ganharam edições norte-americanas, italianas, japonesas, francesas e em diversos países ao redor do mundo. Esse trabalho vendeu dois milhões de cópias, um marco no mercado fonográfico brasileiro. Depois, a banda passou a utilizar a música eletrônica com influências psicodélicas e acústicas, inovando o estilo, que está sempre se renovando, em busca de novos sons.


Quem também surgia em Minas no início dos anos 90 era o Pato Fu. Formada por Fernanda Takai, John, Xande, Ricardo Koctus e Lulu, a banda mistura batidas eletrônicas, guitarras destorcidas e melodias pops. A banda moderninha também foi criada em BH, em 1992. E ainda hoje continua inovando, com canções que mesclam diversos ritmos.


Em 1993, é formada a banda Jota Quest, com Paulo Diniz, Paulo Fonseca, Márcio Buzelin, Marco Túlio e Rogério Flausino. O primeiro trabalho foi lançado em 1995, pago pelos integrantes com shows feitos nas faculdades da capital mineira. Logo em seguida, são contratados pela mesma gravadora do Skank, de quem passa a fazer abertura de shows. O estilo do Jota é de rock pop com black music, presente em “De Volta ao Planeta”. Depois, o grupo passa a seguir uma linha mais romântica, com “Dias Melhores”, e sucessos de Nando Reis, como “Do Seu Lado”.


Outras bandas, também do rock, fazem sucesso, como Tianastácia e Terral. Mas engana-se quem pensa que só de rock’n’roll vivem os mineiros. Os estilos musicais são variados: alguns misturam músicas do congado com o pop, como Maurício Tizumba e o Tambolelê. Outros voltam às raízes do sertão, como o violeiro Chico Lobo. O sertanejo voltou com força total a Belo Horizonte, após tanto tempo sendo discriminado. As duplas César Menotti & Fabiano, Víctor & Leo, Alan & Alex, Gino & Geno, entre outras, deram um novo estilo ao sertanejo, tornando-o um ritmo bastante ouvido pelas novas gerações, que lotam as casas de espetáculo para ouvirem o ritmo típico do interior.


Hoje, a música mineira tem inúmeros ritmos. O samba, do início do século 20, tem novos artistas e ganha novos espaços, com Zé da Guimar, Copo Lagoinha, Fidelidade Partidária, etc. A MPB tem na voz da juiz-forana Ana Carolina uma das suas intérpretes mais marcantes. Não há um único estilo musical para Minas. A multiplicidade de sons, que sempre teve ambiente propício entre as montanhas, hoje faz a música mineira: regional, sertaneja de raiz, romântica e country, rock pop, com nuances eletrônicas, unidos à black music, ritmos africanos, jamaicanos e norte-americanos e heavy metal. Minas hoje toca o mundo e para o mundo.


"Eu sou da América do Sul

 Eu sei vocês não vão saber

 Mas agora eu sou cowboy

 Sou do ouro, eu sou vocês,

 Sou do mundo, sou Minas Gerais"

Para Lennon e McCartney - Lô Borges, Fernando Brant e Márcio Borges

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