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Manifestações Culturais Tradicionais

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Ciclos da Quaresma e da Semana Santa

© Maria de Lourdes Reis Diamantina - Semana Santa em Diamantina - Maria de Lourdes Reis Semana Santa em Diamantina

Minas Gerais é um Estado marcado pelas tradições religiosas e, seguramente, o destino ideal para quem deseja conhecer e vivenciar as tradições do Ciclo da Quaresma, principalmente na Semana Santa.

O Ciclo da Quaresma se inicia na Quarta-feira de Cinzas e termina no sábado que antecede o Domingo de Ramos. Para os católicos, é um período que exige recolhimento, reflexão e penitência, na esperança de dias melhores. Este preceito lembra o período que Jesus ficou no deserto, orando e jejuando 40 dias e também os 40 anos que os judeus caminharam até chegarem à Terra Prometida.

A Quarta-Feira de Cinzas recebe este nome por causa do rito em que o sacerdote faz uma cruz na testa dos fiéis com a cinza (as cinzas usadas no ritual são provenientes da queima de ramos utilizados na Procissão de Ramos, do ano anterior), falando a expressão “Tu és pó e em pó hás de tornar”. Em áreas rurais, os devotos guardam as cinzas da fogueira de São João. Na Quarta-Feira de Cinzas, líderes comunitários religiosos reúnem as famílias, rezam e passam na testa a cinza, repetindo o dito “Tu és pó e em pó hás de tornar”.

A imposição das cinzas remonta ao Antigo Testamento onde o profeta Jonas recebeu de Deus a incumbência de tentar  converter os habitantes de Nínive, na Palestina. Depois de engolido por uma baleia, que o 'cuspiu' nas praias da cidade, Jonas atendeu o pedido de Deus e passou a pregar em Nínive. O Capítulo 3 do Profeta, no Antigo Testamento, relata que, nesse momento, o rei do lugar 'levantou-se de seu trono, tirou seu manto, cingiu-se com um pano de saco e assentou-se sobre a cinza'. O rei ainda decretou jejum. Os habitantes se converteram e Deus desistiu de castigar a cidade.
(www.arquidiocesebh.mg.gov.br)

Há brilho, pompa, muita devoção e fé durante este evento. Os rituais seguem as tradições do século 18, que podem ser apreciados durante os atos litúrgicos. Nas cidades históricas, em todas as sextas-feiras da quaresma, desde o século 18 até hoje, celebra-se o Setenário, uma liturgia em homenagem às Sete Dores de Nossa Senhora. Um dos momentos mais bonitos deste ritual é o canto Inflamatus, em que o solo de um tenor ou uma soprano emociona os fiéis.

Dentre as manifestações culturais típicas do Ciclo da Quaresma, destacam-se:

As lendas típicas da mula-sem-cabeça, do lobisomem, das casas mal-assombradas e outros mitos típicos regionais são contados com mais ênfase. Como crendice, as pessoas temem passar perto da gameleira à meia-noite.

Encomendação das Almas, um cortejo no qual os fiéis, com a cabeça totalmente coberta, rezam pelas almas dos falecidos da região, terminando na porta do cemitério.

Exemplos de locais que ainda fazem a Encomendação das Almas: Itapecerica, Carmo do Cajuru, Mariana, Santo Antônio da Ermida (Divinópolis), Januária e outros povoados do Vale do Rio São Francisco e do Rio Jequitinhonha, São João del-Rei. Há também a Dança de Santa Cruz, que é uma via sacra dançada.

Outra manifestação é a Charola de Nosso Senhor dos Passos, um cortejo com uma pequena imagem de Nosso Senhor dos Passos, com o qual os fiéis visitam as casas, sendo mais comum nas áreas rurais. Exemplos de locais: Distrito de Piedade do Paraopeba (Brumadinho), Distrito de Santo Antônio do Salto (Ouro Preto).

Assim, ouvir as músicas sacras barrocas, admirar a rica decoração das igrejas, acompanhar a programação e se misturar ao bom humor dos devotos nas portas das igrejas são boas justificativas para se visitar as cidades mineiras na Semana Santa. Várias delas realizam interessantes programações de cerimônias religiosas que seguem o ritual normal implantado pela Igreja Católica Romana.

Os destaques do calendário ficam por conta dos seguintes dias:

Domingos de Ramos
Dia em que os fiéis católicos celebram a Entrada Triunfal de Jesus em Jerusalém. As cerimônias religiosas incluem missas, sermões e procissões como a de Ramos, na qual as pessoas portam ramos de plantas cheirosas, como manjericão, alfavaca, alecrim, entre outras, e folhas de palmeiras, geralmente usadas para se fazer chás caseiros ou para serem queimadas durante as tempestades.

Nas segunda, terça e quarta-feira da Semana Santa, as paróquias fazem vias-sacras. Quanto à Procissão do Depósito e à Procissão do Encontro, cada cidade histórica tem sua programação diferenciada.

Na Procissão do Depósito, as imagens de Nossa Senhora das Dores e de Nosso Senhor dos Passos são levadas das igrejas onde ficam expostas durante o ano para as igrejas determinadas.

Na Procissão do Encontro, os fiéis acompanham, de acordo com sua devoção, a imagem do Nosso Senhor ou de Nossa Senhora. Eles saem de igrejas diferentes, acompanhados da Guarda Romana e seguem em direção à praça principal da cidade. Ali, é encenado o Encontro de Jesus com Nossa Senhora a caminho do Calvário. Após o sermão, os fiéis prosseguem com as duas imagens. Em um único cortejo, parando nos Passos da Paixão (capelas) e rezando a Via-Sacra com coral e orquestra que executam motetos, músicas do século 18. É uma boa oportunidade para se conhecer os Passos, que normalmente ficam fechados durante o ano.


Quinta-feira Santa
Na Quinta-feira Santa, as Igrejas celebram a Instituição da Eucaristia. Acontece a Missa Solene do Crisma, onde há a presença de um Bispo, a Benção dos Santos Óleos, a benção do Óleo do Crisma – cor branco ouro – que é utilizado na Crisma; a benção do Óleo dos Catecúmenos - cor vermelha – utilizado no Batismo; a benção do Óleo dos Enfermos – cor roxa – é utilizado nos doentes para fortalecê-los na doença e na morte.

Nas demais paróquias há a Missa Solene da Ceia do Senhor, a Desnudação dos Altares e a Adoração do Santíssimo Sacramento. Mais tarde os fiéis dramatizam o Lava-Pés após as cerimônias litúrgicas.


Sexta-feira da Paixão
Dia em que a Igreja Católica celebra a Paixão e Morte de Cristo e os fiéis acompanham as cerimônias religiosas.

Na parte da manhã, acontece o Sermão das Sete Palavras de Cristo na Cruz e o Ofício de Matinas. Às 15h, horário aproximado da morte de Jesus, acontece o Canto Laudes, o Canto da Paixão e a Adoração da Cruz. Mais tarde, ocorrem a dramatização do Descendimento da Cruz e a Procissão do Enterro, abrilhantada pelo canto da Verônica, ao som de marchas fúnebres tocadas pelas bandas locais acompanhadas pela batida forte das lanças da Guarda Romana nas calçadas de pedras e pelas matracas.

Nesse dia, os fiéis vivenciam também, em várias regiões, manifestações folclóricas típicas herdadas dos portugueses.

Os vinhos e os peixes preparados de várias formas, principalmente o bacalhau, tornam-se o menu principal da culinária.

Pagam-se promessas na Procissão do Enterro. Realizam-se simpatias para curar bronquite, alcoolismo e outros problemas de saúde. Planta-se alho e abóbora para obter maior produção. Levam-se plantas aromáticas para colocar na imagem do Senhor Morto, como o manjericão (branco e o roxo), alecrim e alfavaca.


Sábado de Aleluia
No Sábado de Aleluia, a Igreja Católica celebra a Liturgia da Ressurreição, a Benção do Fogo e da Água (Renovação das promessas do Batismo), Procissão das Luzes, o Precônio Pascal, as Profecias e a Santa Missa da Vigília Pascal. Destaque para o Canto do Exultet.

Domingo de Páscoa
Dia em que se celebra a Ressurreição de Cristo e os fiéis participam das cerimônias religiosas, conservando tradições como:

Decoração das ruas com tapetes feitos de serragem colorida, flores, pó de café e cal para passagem da Procissão de Páscoa. Além disso, decoram as janelas e sacadas com colchas bordadas ou de crochê e vasos ornamentais.

A presença das Irmandades religiosas, com suas coloridas opas e hábitos, de anjinhos vestidos de túnicas de cetim nos mais variados tons, ansiosos para receberem os pacotes de balas de amêndoas ou docinhos de leite secos, dos sons do badalar dos sinos das igrejas e das bandas de música evocando e saudando a Ressurreição de Cristo fazem deste dia nas cidades históricas algo imperdível no que se refere às tradições mineiras.

A queima do Judas e leitura do testamento do traidor, além de outras brincadeiras populares ocorrem, normalmente, às tardes do Domingos de Páscoa.  Merece destaque a Queima do Judas do bairro Renascença, em Belo Horizonte, que é considerado o maior Judas de Minas Gerais. Sabe-se que, através da imagem do Judas, o povo satiriza e condena personalidades políticas ou outras lideranças que não agiram de boa fé com a sociedade. Em algumas áreas rurais, encontra-se a brincadeira do Curral do Judas. Por questão de segurança, nas áreas urbanas, esta brincadeira foi extinta.

A maioria das cidades históricas mineiras mantém em seus rituais do Ciclo da Quaresma as características religiosas do século 18. Vale ressaltar que as mais conhecidas são: Alpinópolis, Baependi, Barão de Cocais, Caeté, Campanha, Carmo do Cajuru, Conceição do Mato Dentro, Congonhas, Corinto, Diamantina, Itapecerica, Itabirito, Mariana, Nova Lima, Oliveira, Ouro Preto, Prados, Sabará, Santa Bárbara, Santa Luzia, São João del-Rei, Serro e Tiradentes.

 


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