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Literatura século 19

Rico em estilos literários - também denominados de escolas, correntes ou movimentos -, o século 19 revelou, no Brasil, grandes talentos que realizaram obras de diversas correntes.


O panorama da literatura brasileira no século 19 pode ser, então, definido da seguinte forma: a primeira metade do século caracterizou-se pelo romantismo (prosa e poesia) e realismo (prosa); a segunda, pelo naturalismo (prosa); e as duas últimas décadas, pelo parnasianismo (poesia). O simbolismo (poesia), de menor ênfase, tem lugar somente na última década do século.


Boas produções de autores mineiros contribuíram para que a literatura brasileira florescesse e ganhasse expressão no século 19. "Verdadeiramente é do século 19 que podemos datar a existência de uma literatura brasileira..." (José Veríssimo).


Os mineiros de destaque são: Bernardo Guimarães, Júlio Ribeiro, Augusto de Lima, Afonso Arinos de Melo Franco, Joaquim Felício dos Santos, Diogo de Vasconcelos, Helena Morley.


O ouropretano Bernardo Guimarães, considerado o grande expoente do romance de tema rural, conhecido como romance regionalista ou sertanista, tem no consagrado livro A escrava Isaura (1875) o grande exemplo deste estilo. O livro ganhou muita popularidade quando foi editado e chamou a atenção para a causa abolicionista que, através de uma trama bem estruturada, serviu como denúncia social.


"Poupemos ao leitor a narração da cena vergonhosa que aí se deu. Contentemo-nos com dizer que Leôncio esgotou todos os meios brandos e suasivos ao seu alcance para convencer a rapariga que era do interesse e dever dela render-se a seus desejos. Fez as mais esplêndidas promessas, e os mais solenes protestos; abaixou-se até as mais humildes súplicas, e arrastou-se vilmente aos pés da escrava, de cuja boca não ouviu senão palavras amargas, e terríveis exprobrações; e vendo enfim que eram infrutíferos todos esses meios, retirou-se cheio de cólera, vomitando as mais tremendas ameaças.


Para dar a essas ameaças começo de execução, nesse mesmo dia mandou pô-la trabalhando entre as fiandeiras, onde a deixamos no capítulo antecedente. Dali teria de ser levada para a roça, da roça para o tronco, do tronco para o pelourinho, e deste certamente para o túmulo, se teimasse em sua resistência às ordens de seu senhor."


Na poesia, Bernardo Guimarães também abordou a temática da abolição com "Á Sepultura de um Escravo"


Repousa agora em paz, fiel escravo,
Que na campa quebraste os ferros teus,
No seio dessa terra que regaste
De prantos e suores.
E vós, que vindes visitar da morte
O lúgubre aposento,
Deixai cair ao menos uma lágrima
De compaixão sobre essa humilde cova;
Aí repousa a cinza do Africano,
- o símbolo do infortúnio
.


Júlio Ribeiro
foi um representante da corrente naturalista. Por sua obra, A Carne (1888), foi ferozmente criticado, tanto que ela chegou a ser chamada, na época, de A carniça. Dentro da linha naturalista, a intenção de Júlio Ribeiro foi criar um personagem com uma psicopatologia de histeria e libido agressiva.


"Lenita abriu os olhos. Atraiu-lhe as vistas o brilho suave do metal ferido pela luz. Ergueu-se, acercou-se da mesa, fitou com atenção a estátua: aqueles braços, aquelas pernas, aqueles músculos ressaltantes, aqueles tendões retesados, aquela virilidade, aquela robustez, impressionaram-na de modo estranho.


Dezenas de vezes tinha ela estudado e admirado esse primor anatômico em todas as suas minudências cruas, em todos os nadas que constituem a perfeição artística, e nunca experimentara o que então experimentava.


A cerviz taurina, os bíceps encaroçados, o tórax largo, a pélvis estreita, os pontos retraídos das inserções musculares da estátua, tudo parecia corresponder a um ideal plástico que lhe vivera sempre latente no intelecto, e que despertava naquele momento, revelando brutalmente a sua presença.


Lenita não se podia arredar, estava presa, estava fascinada. Sentia-se fraca e orgulhava-se de sua fraqueza. Atormentava-a um desejo de coisas desconhecidas, indefinido, vago, mas imperioso, mordente. Antolhava-se-lhe que havia de ter gozo infinito se toda a força do gladiador se desencadeasse contra ela, pisando-a, machucando-a, triturando-a, fazendo-a em pedaços.


E tinha ímpetos de comer de beijos as formas masculinas estereotipadas no bronze. Queria abraçar-se, queria confundir-se com elas. De repente corou até à raiz dos cabelos.


Em um momento, por uma como intussuscepção súbita, aprendera mais sobre si própria do que em todos os seus longos estudos de fisiologia. Conhecera que ela, a mulher superior, apesar de sua poderosa mentalidade, com toda a sua ciência, não passava, na espécie, de uma simples fêmea, e que o que sentia era o desejo, era a necessidade orgânica do macho.


Invadiu-a um desalento imenso, um nojo invencível de si própria."


Afonso Arinos
foi eleito para Academia Brasileira de Letras em 1901. É considerado um grande "contista de coisa do sertão". Em suas obras, o regionalismo é uma característica muito forte. "Possuía a qualidade mestra dos regionalistas: o dom de captar a um tempo, repercutindo nas outras, prolongando-se mutuamente, as figuras humanas e as forças da natureza." (Lúcia Miguel Pereira).


Joaquim Mironga
O sol estava querendo sumir, quando eu encostei a porteira. Pulei da sela e amarrei, no moirão, o ruço pedrês - bicho malcriado, reparador, mas de espírito. No lombo desse pagão eu comia doze léguas, de uma assentada. Olhei a frente da casa, pus a mira no alpendre e não vi ninguém. - Uai, Joaquim, aí tem coisa! - Entrei bem sutil, reparando duma banda e outra.

Patrão velho, na hora em que eu estava arreando o pedrês, tinha chegado perto de mim, dizendo: - Olha lá, Mironga, não me vás sair um perrengue!

- Perrengando, perrengando, meu branco, eu entrei lá dentro. Vossemecê há de ver, com o favor de Deus.

- Olha o café, Joaquim, sem te cortar a conversa - disse um caboclo meão, de chapéu de couro e sisigola. E estendeu o cuité fumarento, onde parecia ainda borbulhar o líquido.


Na varanda da frente, a gente do retiro estava reunida para ouvir o Joaquim, Era tempo de vaquejada e todo o dia havia um caso novo, uma chifrada de marruá, uma passagem bem feita com algum garrote bravo. A varanda era comprida, defendendo-a do mau tempo a grande cimalha, apoiada em colunas de madeira lavrada. Presas a estas, duas ou três redes, tecidas de seda de buriti, embalavam o sono da camaradagem, que ruminava o jantar depois de um dia fadigoso, em que o gado na verdade dera que fazer.


Demais, esse gado de beira do rio Preto não era caçoada. E nesse dia, no cerrado do Periquito, os vaqueiros toparam uma rês alevantada, que fez o diabo.


Mas o Joaquim não era homem de ficar quieto assim, de barriga para o ar, como qualquer tiú ao sol. Era preciso animar a rapaziada na véspera de qualquer trabalho mais difícil."


Antônio Augusto de Lima
foi poeta, jornalista, magistrado, jurista, professor e político e pertenceu a Academia Brasileira de Letras. No ano de 1880, fundou, com Raimundo Correia, Alexandre Coelho e Randolfo Fabrino, a Revista de Ciências e Letras, publicação onde se debatiam as idéias e filosofias das correntes do parnasianismo, realismo-naturalismo e romantismo. Augusto de Lima foi eleito para Academia Brasileira de Letras em 1903, mas apenas tomou posse quatro anos depois. Ocupou a presidência do Estado de Minas Gerais de março a julho de 1891.


Mundo Interior
"Quem me vê meditabundo
e de olhos fechados, brada:
"Eis uma alma encarcerada,
indiferente a este mundo."


Mal sabe a turba inexperta
que, por mais que se retraia
de nossa matéria a raia,
mais a razão se liberta


Pois, da abstração da Utopia
surge não raro um compasso;
é um sonho infinito o espaço,
mas real a Astronomia.


Se sondo, investigo, estudo,
buscando a ciência que almejo,
fito os astros,- nada vejo,
cerro os olhos, - vejo tudo.


Nas horas em que medito,
(quão breves são essas horas!)
em minha alma abrem-se auroras
com portas para o infinito." 1892


Dois historiadores foram importantes para as letras mineiras e responsáveis por dois clássicos da historiografia mineira: Joaquim Felício dos Santos, que escreveu Memórias do Distrito Diamantino, e Diogo de Vasconcelos, autor de História Antiga e História Média das Minas Gerais. Felício dos Santos também escreveu uma ficção literária, Páginas da História do Brasil Escritas no Ano de 2000 que foi uma das mais violentas críticas escritas para desmoralizar a monarquia.


"Depois de percorrer os melhores lugares das Minas e de examinar os principais, onde situasse as três vilas, que tinha de criar, acertou Albuquerque de erigir a primeira no seu dileto Ribeirão do Carmo. Convocou para isso uma junta dos moradores, que instalou no dia 8 de abril, domingo, de 1711, aos quais expôs a sua intenção e consultou se a queriam e se prometiam fazer-lhe as primeiras despesas, dando a Casa da Câmara, e o templo da matriz...Nesse mesmo ato, Antônio de Albuquerque erigiu a vila do Ribeirão de Nossa Senhora do Carmo do Albuquerque. El-rei aprovou a criação da vila por carta de 14 de abril de 1712, mas simplificou-lhe o nome para o de Vila de Nossa senhora do Carmo, e deu-lhe o título de Leal em memória de tê-lo sido às autoridades régias contra o governo usurpador de Manuel Nunes." (In: História Antiga das Minas Gerais).


Bernardo Guimarães
(1825 - 1884)
Romances:
A Escrava Isaura
O Garimpeiro
O Seminarista
O Ermitão de Muquém
O Índio Afonso
Maurício - os paulistas em São João del Rei
A Ilha Maldita
Rosaura, a Enjeitada


Contos:
Lendas e Romances
História e Tradições da Província de Minas Gerais
O Pão de Ouro


Livros de Poesias:
Cantos da solidão
Inspirações da Tarde
Novas Poesias
Folhas de Outono


Peças de Teatro:
A voz do Pajé
A cativa Isaura (obra desaparecida)
Os inconfidentes (obra inacabada)


Júlio Ribeiro
(1845 - 1890)
Gramática Portuguesa


Romances
O Padre Belchior de Pontes
Cartas Sertanejas
A Carne


Afonso Arinos de Melo Franco
(1868 - 1916)
Pelo Sertão
Os Jagunços
Lendas e Tradições Brasileiras
Histórias e Paisagens
O Contratador de Diamantes
O Mestre de Campo


Joaquim Felício dos Santos
(1828 -1895)
Memórias do Distrito Diamantino
Páginas da História do Brasil Escritas no Ano 2000
Antônio Augusto de Lima (1859 - 1934)
Contemporâneas
Símbolos
Poesias
Crônicas
Noites de Sábado
São Francisco de Assis
Coletânea de poesias
Diogo de Vasconcelos ( 1843 - 1927)
História Antiga das Minas Gerais
História Média de Minas Gerais


Alice Dayrell Caldeira Brant - Helena Morley
(1880 - 1970)
Minha Vida de Menina

 

 

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