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Arquitetura Civil - Século 18

© Henry Yu Ouro Preto - Conjunto arquitetônico - Henry Yu Conjunto arquitetônico

Quando se caminha pelas ruas das cidades históricas mineiras, cujas origens remontam ao final do século 17 e início do século 18, observam-se vários tipos de construções civis: moradias, prédios públicos, muros de pedra seca, chafarizes, pontes, praças públicas, pelourinhos e alguns tipos de calçamento como os pés-de-moleque, as capistranas (restaram poucos exemplares) e os paralelepípedos de granito.


Os primeiros lares mineiros foram extremamente modestos. No início do povoamento, as construções das habitações foram marcadas pela rusticidade, não havendo preocupação com acabamentos mais elaborados. Os povoados ainda estavam se consolidando e muitas pessoas não sabiam se por ali permaneceriam. Quem ditava o tempo de permanência do homem numa determinada localidade era o ouro. Se o local não estivesse proporcionando bons rendimentos, partia-se logo em busca de novos pontos de mineração. Era, por assim dizer, uma vida nômade. Deste modo, no princípio, não havia o senso de estabelecer uma 'nova morada', aquela que se constituiria em uma escolha para uma nova vida. Tudo era muito provisório.


Em 1771, três povoados são elevados à vila: Vila de Nossa Senhora do Ribeirão do Carmo (Mariana), Vila Real de Nossa Senhora do Pilar (Ouro Preto), Vila Real de Nossa da Conceição do Sabará (Sabará).


A elevação à vila era concedida por ato régio, mediante alvará, e trazia novas perspectivas para o local. Ser vila significava ter sua Casa de Câmara e Cadeia, bem como seu corpo de administradores. Um local elevado à vila demonstrava que ali já havia uma atividade econômica regular e um significativo número de almas estabelecidas. A partir deste momento, é que se tem o início de construções mais elaboradas, tanto as civis quanto as religiosas, e é nesta ocasião que as capelas começam a ser substituídas pelas matrizes.


O número de povoados elevados à vila cresceu tanto, que Minas se tornou, no século 18, a região mais urbanizada e populosa do Brasil.


As Residências
Como a frente dos lotes eram exíguas, as plantas eram organizadas em função da profundidade do lote. O corredor servia como um eixo básico, indo da porta de entrada à varanda de serviço nos fundos. Ao longo deste corredor ficavam os cômodos da casa. Usualmente, as residências eram subdivididas assim:


- Sala, com mobiliário muito simples;
- Quartos, geralmente nos fundos da casa ou no último andar caso possuíssem dois ou três andares. Não faltava o quarto da donzela, sem janela e quase sempre forrado de esteira, com assoalho de tábua corrida e boa circulação de ar.
- banheiro normalmente com a porta abrindo para a cozinha. A fumaça do fogão a lenha e as ervas que eram queimadas amenizavam o mau cheiro e diminuíam os insetos. As fezes de gado bovino misturadas com ervas medicinais eram queimadas dentro de casa para fazer assepsia.
- A cozinha era maior; afinal, era o ponto de encontro da família, principalmente nos períodos de chuva e inverno.
- Na área da mineração, várias casas possuíam quartos cujos acessos eram secretos; só os donos da casa sabiam deles. Eram para guardar riquezas ou para encontros proibidos.


Tanto para melhor aproveitamento do terreno quanto pela crença de que as doenças eram propagadas pelos ventos e correntes de ar, essas habitações eram de parede-meia. Aproveitava-se também o declive dos terrenos para a construção de porões, que tinham a função de depósito e de senzala para os escravos domésticos.


Na segunda metade do setecentos, surgem sobrados 'que se caracterizariam como o mais completo modelo de habitação no Brasil Colônia' (Susy de Mello). O termo sobrado é relativo ao 'espaço que sobrava' isto era, a área disponível acima de um soalho suspenso que acabou sendo aproveitado para a construção de mais um andar. Os sobrados podem ser classificados em três tipos: os exclusivamente residenciais, nos quais a parte inferior era utilizada como senzala dos escravos domésticos, depósito, estábulo e cocheira - para tal, as portas foram ampliadas; os de negócios, utilizados apenas para uso comercial; e os mistos, com o térreo geralmente destinado a estabelecimentos comerciais e o segundo piso destinado a residências, tendo uma entrada independente. A casa térrea tornou-se, conseqüentemente, em símbolo de pobreza.


A iluminação no interior das casas era feita a óleo animal ou vegetal, geralmente de preparação caseira, através de lampiões, candeias e candeeiros de latão encontrados facilmente em boa variedade de tamanhos. As velas já não eram tão comuns como se imagina. No século 19, o viajante Mawe até recomendava aos futuros viajantes que trouxessem velas consigo devido à dificuldade de serem adquiridas.


O casario colonial é caracterizado por vários elementos arquitetônicos:


Sacadas
As sacadas, que dão um charme à parte às casas coloniais, são de dois tipos:
Sacada corrida, cuja extensão que abrange mais de uma porta ou uma janela rasgada.
Sacada isolada, cuja extensão abrange apenas uma porta ou janela rasgada.


Janelas
Dentre os diversos modelos, encontram-se: as janelas de duas folhas, as de guilhotina, as de treliça e as janelas rasgadas por inteiro, que são as que se abrem para uma sacada ou para um guarda-corpo inteiro. Nesse tipo de janela, destaca-se a criatividade das bandeiras que as compõem. Afinal, foi nessas bandeiras que Niemeyer se inspirou para fazer os principais prédios de Brasília.


Janela rasgada por inteiro - é uma janela com abertura até o nível do pavimento.
Janela de assento - neste tipo de janela os assentos ficam um de cada lado logo abaixo do peitoril. Esses assentos são conhecidos como conversadeiras.


Muxarabi - É um elemento importante e curioso que compunha a fachada das casas. Originário das construções árabes, o balcão muxarabi foi amplamente utilizado nas construções coloniais. Era o fechamento das janelas com treliças que resguardavam a casa de olhares curiosos. Permitia a visão do exterior, além de manter a luminosidade e ventilação. O muxarabi era de onde se via sem visto.


Telhado
Nos telhados, vários recursos eram utilizados para se evitar a entrada de água das chuvas nas paredes, pois, naquela época, não havia folha de flandres para fazer as calhas.
- As telhas eram feitas de barro, em forma de meia lua ou de canal. Há notícias de que em 1713 já havia uma olaria em Mariana.
- Os beirais, de acordo com as condições econômicas do proprietário ou com a finalidade da construção, classificavam-se em:


Beira-Seveira (beira sob beira) - camadas de telha embutidas na alvenaria das paredes.
Beiral de Cachorro - peça de madeira que se apóia no frechal para sustentar o beiral do telhado.
Beiral de Cimalha - arremate superior da parede que combina com o beiral do telhado.


- As paredes normalmente eram de pau-a-pique ou taipa de sebe, alvenaria de pedra, taipa de pilão e adobe.


Portas
As portas eram de madeira. Conforme o poder econômico, eram trabalhadas com certo refinamento, como as almofadadas encontradas na maioria das igrejas e em algumas residências.


Não se pode deixar de observar os espelhos de fechaduras que restaram. Foram vendidos ou tirados para colocar as fechaduras novas, cujas chaves são menores e mais cômodas para serem portadas em chaveiros. Mas, vêem-se, ainda, em várias cidades, casas com aldraba, espelhos de fechaduras, dobradiças de época. Nos espelhos das fechaduras de antigamente sabia-se o número de filhos, a qual irmandade pertencia e o grau de poder do dono da casa.


Pintura das fachadas
Na pintura externa das paredes, usavam-se cal, tintas de terras coloridas ou de vegetais coloridos da região. Cores predominantes: branco, azul cobalto, ocre, vermelho. Nas peças de madeira, usavam-se óleo de linhaça ou mamona, cola de couro e resinas corantes de origem vegetal: anil, assafroa, ipê, mulato, pau de braúna, urucum e sangue de drago. Nos rebocos e pisos, usavam-se tabatinga (um tipo de argila bem fina, de cores branca, amarela, rósea ou avermelhada) e alvaiade (um pigmento branco constituído de carbonato de chumbo usado em pinturas de exteriores).


O Estado não possui exemplares significativos dessas casas que datam do século 18, como as que são encontradas no litoral. Entretanto, há que se ressaltar em Minas, entre outros, os seguintes bens patrimoniais:


- Ouro Preto - Casa dos Contos, Casa de Tomás Antônio Gonzaga, hoje pertencente à Prefeitura Municipal.
- São João del-Rei - Solar dos Neves e Solar dos Lustosa.
- Mariana - Museu Arquidiocesano de Arte Sacra.
- Diamantina - Casa da Chica da Silva e o Museu do Diamante, antiga Casa de Padre Rolim.
- Tiradentes - Museu do Padre Toledo, antiga Casa de Padre Toledo.
- Minas Novas - Casa de Cultura.


Os equipamentos públicos


Chafarizes e pontes foram os principais equipamentos públicos do cenário urbano setecentista mineiro. As construções destes equipamentos se avolumam e passam a ser obras mais apuradas arquitetonicamente a partir do momento em que se tem o crescimento das vilas e estabilização da população.


Estas obras eram erguidas pelo Senado da Câmara. No Chafariz dos Contos em Ouro Preto há uma interessante inscrição gravada na pedra. 'Povo que vais beber, louva de boca cheia o senado, porque tens sede e ele faz cessar a sede'. Esta inscrição faz pensar que atos como esse eram vistos como 'um favor' do poder público à população e não como uma obrigação para com aqueles que eram onerados com pesados impostos.


Chafarizes
Eram construídos nas nascentes das águas. À saída da água, utilizavam-se esculturas de golfinhos ou carrancas em pedra de quartzito ou em pedra sabão. Eram financiados pela Câmara Municipal e a utilização de suas águas era submetida a uma severa legislação. Os negros que não tinham força para trabalhar na área da mineração, eram alugados para abastecer as casas, utilizando os jarros de barro.


Pontes
As primeiras pontes eram muito rústicas, feitas de madeira e cipó. Na segunda metade do século passam a serem mais elaboradas, foram construídas com desenho em arco romano, em pedras de quartzito coladas com óleo de peixe e cal.Várias pontes têm suas cruzes, que eram para espantar os maus espíritos e assombrações que perturbavam a boa ordem nas áreas de mineração. Faziam seus festejos dia 3 de maio, dia de Santa Cruz; quando se rezava o ofício de Santa Cruz; retretas, espetáculo pirotécnico, levantamento de mastro e barraquinhas. Hoje, na maioria das cidades mineiras, observa-se a presença do cruzeiro, com os símbolos dos Martírios de Cristo, nos pontos mais altos do município sede, seguindo a mesma tradição. O espaço da murada era ocupado por bancos que servia para convívio social ali se reuniam para colocar a conversa em dia e fazer pequenos negócios.


Calçamento
Tem-se os seguintes tipos: pé de moleque, capistrana (existem poucos exemplares atualmente) e paralelepípedo de granito. Observa-se a presença desses calçamentos até mesmo nas estradas, para facilitar o trânsito de tropas nas áreas montanhosas. Na área da mineração, as cidades foram calçadas para facilitar o trânsito e evitar desbarrancamentos e desabamentos das casas de pau-a-pique.


Não se pode esquecer que a maioria das cidades históricas são verdadeiros 'formigueiros' devido à construção das minas em busca de veios do ouro. Ignorava-se se elas passariam ou não debaixo da área urbanizada. Há de se pensar que, naquela época, o peso das carroças e carros de boi, assim como o número de transportes e pessoas circulando eram bem menores em relação aos dias de hoje.


Atualmente, o poder público dessas cidades tem problemas para manter o calçamento adequado, porque, além dos problemas citados, o tipo de transporte que circula é mais pesado, o número de habitantes aumentou e as instalações elétrica, telefônica, de água e esgoto, sem um planejamento adequado, são uma ameaça à preservação do patrimônio civil.


Iluminação
No que se refere à iluminação pública, o recurso utilizado no século 18 para iluminar ruas e casas eram as candeias e archotes embebidos em óleo de mamona. Mas, hoje ainda se vêem cópias do lampião de gás, trazido pelos ingleses no século 19. Somente em 05 de setembro de 1889, é que surge no Brasil a primeira usina hidrelétrica pública, a Companhia Mineira de Eletricidade, instalada pelo industrial Bernardo Mascarenhas, em Matias Barbosa, distrito de Juiz de Fora, e assumida pela Cemig em 1980.


Forcas
Os espaços onde eram instaladas as forcas para a execução de condenados também compunham o cenário urbano das vilas de Minas. O Morro da Forca, em Ouro Preto, é um exemplo desses espaços.

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© Maria Lucia Dornas Diamantina - Aldrava - Maria Lucia Dornas Aldrava
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© Maria Lucia Dornas Diamantina - Casa do Muxarabi - Maria Lucia Dornas Casa do Muxarabi
© Henry Yu Diamantina - Janela Colonial - Henry Yu Janela Colonial
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