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Guimarães Rosa

João Guimarães Rosa


Cronologia
Nasceu: 27 de junho de 1908
Faleceu: 19 de novembro de 1967
Filiação: Florduardo Pinto Rosa e Francisca Guimarães Rosa
Natural de Cordisburgo/MG


Formação
Bacharel em Medicina - Universidade Federal de Minas Gerais - 1930


Atividades
Médico
Voluntário da Força Pública Durante a Revolução Constitucionalista - 1932
Cônsul-Adjunto, em Hamburgo na Alemanha. Secretário da Embaixada Brasileira - 1938
Chefe de Gabinete do Ministro das Relações Exteriores João Neves Fontoura.
Membro da Delegação à Conferência de Paz em Paris.
Participou de inúmeros Encontros, Congressos e Conferências Internacionais.
1º Secretário e Conselheiro da Embaixada Brasileira, em Paris.
Chefe da Divisão de Orçamento do Ministério das Relações Exteriores - 1953
Ministro de 1º Classe - 1958
Chefe da Divisão de Fronteiras do Itamarati - 1962
Representante do o Brasil no I Congresso Latino Americano de Escritores como vice-presidente - 1967


Trajetória de vida
Com menos de 7 anos começou a estudar francês. Aos nove, saiu de Cordisburgo para morar com os avós em Belo Horizonte onde fez o curso primário no Grupo Escolar Afonso Pena.


Em 1925, matriculou-se na então denominada Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais, com apenas 16 anos.


Sua estreia nas letras se deu em 1929, quando escreveu quatro contos: Caçador de camurças, Chronos Kai Anagke (título grego, significando Tempo e Destino), O mistério de Highmore Hall e Makiné para um concurso promovido pela revista O Cruzeiro.


Em 27 de junho de 1930, ao completar 22 anos, casou-se com Lígia Cabral Penna, então com apenas 16 anos, que lhe dá duas filhas: Vilma e Agnes.


Em 1930, formou-se em Medicina.


Em 1938, vai para a Europa e fica conhecendo a Aracy Moebius de Carvalho (Ara), que viria a ser sua segunda mulher.


Foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 8 de agosto de 1963, adiou a posse por quatro anos com medo da emoção. ''A Academia é demais para mim. Sou tão pequeno como a cidade em que nasci.''


No dia 16 de novembro de 1967 finalmente tomou posse na Academia, a emoção realmente foi imensa para o coração de Guimarães Rosa, visto que quatro dias depois foi vítima de um enfarte fulminante.


Principais obras
Sagarana - contos (1946)
Com o vaqueiro Mariano - conto (1952)
Corpo de baile, ciclo novelesco - 2 vols. (1956)
Manuelzão e Miguilim
No Urubuquaquá, no Pinhém, e Noites do sertão
Grande sertão: Veredas - romance (1956)
Primeiras estórias - contos (1962)
Tutaméia (Terceiras estórias) - contos (1967)
Estas estórias - contos (1969)
Ave, palavra - diversos (1970)
O mistério dos MMM (1962)
Os sete pecados capitais (1964)


Homenagem/Título/Prêmio
Premiado pela Academia Brasileira de Letras com o livro de poemas versão Sagarana - 1936
Concorre ao Prêmio Humberto Campos, da Livraria José Olympio e obtém o segundo lugar -1938
Recebe o Prêmio da ''Sociedade Felipe de Oliveira'' com o livro Sagarana - 1946
Publica os livros '' Corpo de Baile'' e ''Grande Sertão Veredas'', com os quais obtém os prêmios: ''Machado de Assis'', do INL, '' Carmem Dolores Barbosa'' , de São Paulo e ''Paula Brito'' , do Rio de Janeiro - 1956
Recebe o Prêmio '' Machado de Assis'' , da Academia Brasileira de Letras por conjunto de obra - 1961
Recebe o Prêmio do PEN Clube do Brasil com o livro Primeiras estórias - 1963
No dia 8 de agosto é eleito por unanimidade para a Academia Brasileira de Letras - 1963
Toma posse na Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira de nº 2 que tem como patrono Álvares de Azevedo - 1967


Fragmento de um conto


O burrinho pedrês

Era um burrinho pedrês, miúdo e resignado, vindo de Passa Tempo, Conceição do Serro, ou não sei onde no sertão. Chamava-se Sete-de-Ouros, e já fora tão bom, como outro não existiu e nem pode haver igual.


Agora, porém, estava idoso, muito idoso. Tanto, que nem seria preciso abaixar-lhe a maxila teimosa, para espiar os cantos dos dentes. Era decrépito mesmo à distância: no algodão bruto do pêlo - sementinhas escuras em rama rala e encardida; nos olhos remelentos, cor de bismuto, com pálpebras rosadas, quase sempre oclusas, em constante semi-sono; e na linha, fatigada e respeitável - uma horizontal perfeita, do começo da testa à raiz da cauda em pêndulo amplo, para cá, para lá, tangendo as moscas.


Na mocidade, muitas coisas lhe haviam acontecido. Foram comprado, dado, trocado e revendido, vezes, por bons e maus preços. Em cima dele morrera um tropeiro do Indaiá, baleado pelas costas. Trouxera, um dia, do pasto - coisa muito rara para essa raça de cobras - uma jararacuçu, pendurada do focinho, como linda tromba negra com diagonais amarelas, da qual não morreu porque a lua era boa e o benzedor acudiu pronto. Vinha-lhe de padrinho jogador de truque a última intitulação, de baralho, de manilha; mas, vida afora, por amos e anos, outras tivera, sempre involuntariamente: Brinquinho, primeiro, ao ser brinquedo de meninos; Rolete, em seguida, pois fora gordo, na adolescência; mais tarde, Chico-Chato, porque o sétimo dono, que tinha essa alcunha, se esquecera, ao negociá-lo, de ensinar ao novo comprador o nome do animal, e, na região, em tais casos, assim sucedia; e, ainda, Capricho, visto que o novo proprietário pensava que Chico-Chato não fosse apelido decente.


A marca-de-ferro - um coração no quarto esquerdo dianteiro - estava meio apagada: lembrança dos ciganos, que o tinham raptado e disfarçado, ovantes, para a primeira baldroca de estrada. Mas o roubo só rendera cadeia e pancadas aos pândegos dos ciganos, enquanto Sete-de-Ouros voltara para a Fazenda da Tampa, onde tudo era enorme e despropositado: três mil alqueires de terra, toda em pastos; e o dono, o Major Saulo, de botas e esporas, corpulento, quase um obeso, de olhos verdes, misterioso, que só com o olhar mandava um boi bravo se ir de castigo, e que ria, sempre ria - riso grosso, quando irado; riso fino, quando alegre; e riso mudo, de normal.


Mas nada disso vale fala, porque a estória de um burrinho, como a história de um homem grande, é bem dada no resumo de um só dia de sua vida. E a existência de Sete-de-Ouros cresceu toda em algumas horas - seis da manhã à meia-noite - nos meados de mês de janeiro de um ano de grandes chuvas, no vale do rio das Velhas, no centro de Minas Gerais.


O burrinho permanecia na coberta, teso, sonolento e perpendicular ao cocho, apesar de estar o cocho de todo vazio. Apenas, quando ele cabeceava, soprava no ar um resto de poeira de farelo. Então, dilatava ainda mais as crateras das ventas, e projetava o beiço de cima, como um focinho de anta, e depois o de baixo, muito flácido, com finas falripas, deixadas, na pele barbeada de fresco. E, como os dois cavos sobre as órbitas eram bem um par de óculos puxado para a testa, Sete-de-Ouros parecia ainda mais velho. Velho e sábio: não mostrava sequer sinais de bicheiras; que ele preferia evitar inúteis riscos e o dano de pastar na orilha dos capões, onde vegeta o cafezinho, com outras ervas venenosas, e onde fazem vôo, zumbidoras e mui comadres, a mosca do berne, a lucília verde, a varejeira rajada, e mais aquela que usa barriga azul.


De que fosse bem tratado, discordar não havia, pois lhe faltavam carrapichos ou carrapatos, na crina - reta, curta e levantada, como uma escova de dentes. Agora, para sempre aposentado, sim, que ele não estava, não. Tanto, que uma trinca de pisaduras lhe enfeitava o lombo, e que João Manico teve ordem expressa de montá-lo, naquela manhã. Mas, disto último, o burrinho não recebera ainda aviso nenhum.


Para ser um dia de chuva, só faltava mesmo que caísse água. Manhã noiteira, sem sol, com uma umidade de melar por dentro as roupas da gente. A serra neblinava, açucarada, e lá pelas cabeceiras o tempo ainda devia de estar pior.


Sete-de-Ouros, uma das patas meio flectida, riscava o chão com o rebordo do casco desferrado, que lhe rematava o pezinho de Borralheira. E abria os olhos, de vez em quando, para os currais, de todos os tamanhos, em frente ao casarão da fazenda. Dois ou três deles mexiam, de tanto boi.


Alta, sobre a cordilheira de cacundas sinuosas, oscilava a mastreação de chifres. E comprimiam-se os flancos dos mestiços de todas as meias-raças plebéias dos campos-gerais, do Urucuia, dos tombadores do rio Verde, das reservas baianas, das pradarias de Goiás, das estepes do Jequitinhonha, dos pastos soltos do sertão sem fim. Sós e seus de pelagem, com as cores mais achadas e impossíveis: pretos, fuscos, retintos, gateados, baios, vermelhos, rosilhos, barrosos, alaranjados; castanhos tirando a rubros, pitangas com longes pretos; betados, listados, versicolores; turinos, marchetados com polinésias bizarras; tartarugas variegados; araçás estranhos, com estrias concêntricas no pelame - curvas e zebruras pardo-sujas em fundo verdacento, como cortes de ágata acebolada, grandes nós de madeira lavrada, ou faces talhadas em granito impuro.


Como correntes de oceano, movem-se cordões constantes, rodando remoinhos: sempre um vaivém, os focinhos babosos apontando, e as caudas, que não cessam de espanejar com as vassourinhas. Somam-se. Buscam-se. O crioulo barbeludo, anguloso, rumina, estático, sobre os maus aprumos, e gosta de espiar o céu, além, com os olhos de teor morno, salientes. O espúrio gir balança a bossa, cresce a cabeçorra, vestindo os lados da cara com as orelhas, e berra rouco, chamando a vaca malabar, jogada para o outro extremo do cercado, ou o guzerate seu primo, que acode à mesma nostalgia hereditária de bois sagrados, trazidos dos pascigos hindus do Coromandel ou do Travancor. Mudo chamado leva o garrote moço a impelir toda uma fileira, até conseguir aproximar-se de outro, que ele antes nunca viu, mas junto do qual, e somente, poderá sentir-se bem. E quando o caracu-pelixado solta seus mugidos de nariz fechado, começando por um eme e prolongando-se em rangidos de porteira velha, respondem-lhe o lamento frouxo do pé-duro e o berro em buzina, bem sustido e claro, do curraleiro barbatão.

In : Sagarana.


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