Cultura

Entrevistas

Senac
  • Logo Senac Minas
  •  
  • Hotel Grogotó

Marli Fantini

  • Professora Marli Fantini, especialista na obra de Guimarães Rosa - Joyce Caroline
  • Descubraminas conversa com a professra Marli Fantini, especialista na obra de Guimarães Rosa - Joyce Caroline
  • Professora Marli Fantini, especialista na obra de Guimarães Rosa - Joyce Caroline
  • Professora Marli Fantini, especialista na obra de Guimarães Rosa, conversa com o Descubraminas - Joyce Caroline

Maio 2017

Especialista na grande obra e na vida de João Guimarães Rosa, Marli Fantini, professora da Faculdade de Letras da UFMG, conversa com o Descubraminas sobre o regionalismo e a universalização da obra do escritor, explica como Rosa influencia as novas gerações e faz uma reflexão sobre a profissão no Brasil nos dias de hoje.


“Guimarães Rosa confere a Minas esse caráter de universalidade, quer dizer, o sertão está em toda parte, Minas está em toda parte.”


Clique aqui e assista aos melhores momentos da entrevista.


Por Roberta Almeida

Descubraminas - Em um texto publicado na revista “O Cruzeiro”, em agosto de 1957, Guimarães Rosa faz uma declaração de amor a Minas Gerais. Qual era a relação do escritor com o nosso Estado?

Marli Fantini -
Desde esse artigo na Revista “O Cruzeiro”, Rosa já faz efetivamente uma declaração de amor a Minas e à sua diversidade. Ele levanta uma série de aspectos como a natureza, as montanhas, as inumeráveis águas e chama Minas Gerais de “patriazinha”. Assim, essa paixão vai aparecer em sua obra de forma muito evidente.

Em “Grande Sertão: Veredas”, por exemplo, o personagem Riobaldo vai dialogar com um homem muito culto, douto, que chega a Minas. Desde o início do romance, pressupostamente, ele pergunta a Riobaldo o que é Minas, o que são os gerais e o sertão mineiro e ele responde que "o sertão é aquele lugar interminável, onde os pastos carecem de fecho” e arremata: “Pão ou pães, é questão de opiniães... o sertão está em toda parte”.

Assim, tanto na obra como nessa entrevista da revista “O Cruzeiro”, Guimarães Rosa confere a Minas esse caráter de universalidade, quer dizer, o sertão está em toda parte, Minas está em toda parte.


DM - Sabemos que o escritor conseguiu universalizar o regionalismo mineiro, mas quais são as principais características da escrita de Guimarães Rosa?

MF -
Essa questão da universalização de Minas ou do sertão mineiro, mais especificamente, é uma questão que está presente na literatura de Rosa e que está também na literatura regionalista de um modo geral.

O contato com um regionalismo arcaico, preconceituoso e fechado com as vanguardas da época desencadeou uma espécie de síntese inesperada em que o regionalismo deixou de ser muito nacionalista e passou a dialogar com uma série de estéticas internacionais.

É esse fenômeno que vai conferir à obra de Guimarães Rosa essa característica que o Riobaldo denomina de “super-regionalismo”, alguma coisa que está para além do regional.

Na obra do autor, vemos que o contato com o mundo, seja da literatura, da cultura ou da religião, e com os mitos em geral, é que vai conferir esse caráter de universalidade.

Em relação à linguagem, nós temos um regionalismo muito acentuado porque ali se fala a linguagem do matuto do sertão mineiro, de pessoas que tem toda uma tradição oral, de contação de histórias, e por trás temos uma linguagem extremante sofisticada, amplamente rica, que é uma linguagem mais de vanguarda, como o discurso indireto livre que a gente vê em James Joyce ou a polifonia que vemos em Dostoievski.


DM - A inter-relação do oral com o escrito, do popular com o erudito e da intuição com a razão torna atemporal a obra de Guimarães Rosa?

MF -
Sim. Desde antes de 1956, data da publicação de “Grande Sertão: Veredas”, Guimarães Rosa já tinha essa linguagem reticular, em redes, dos dias atuais, em que o erudito dialoga com o popular, a língua muito brasileira, muito sertaneja, convive com a estrangeira, a interação do sagrado com o profano, da verdade com a mentira e do bem com o mal.

Então ele consegue segurar tudo isso nessa rede e que, de certa forma, mimetiza, com uma sofisticação estética muito grande, à rede da tradição oral de uma forma mais contemporânea. Ele já está na modernidade, mas com o pé na contemporaneidade.


DM - Ano passado, comemorou-se 60 anos da publicação de “Grande Sertão: Veredas”. O que torna esse livro um marco da literatura brasileira?

MF - Acredito que essa questão da contemporaneidade dessa obra, que 60 anos depois de sua publicação continua sendo uma obra nova, que parece conter em si um processo de auto reciclagem porque está sempre se renovando na rede dos sentidos.

A obra de Rosa torna-se, assim, um modelo de literatura para o próximo milênio. Então, em 2017, nós temos uma obra que é super nova, com paradigmas estéticos, estilísticos, linguísticos e filosóficos funcionando como algo inteiramente novo.

A obra-prima não é datada, ela não fica presa ao tempo de sua produção. Ela permite sempre novas e criativas recepções e com isso ela se realimenta das recepções, das novas leituras e a gente encontra um modelo desse novo tempo na própria obra, que é o que vemos com Cervantes, Shakespeare, Camões, e, claro, com Guimarães Rosa.


DM - Em 2005, você obteve o 1º lugar do Prêmio Jabuti com o livro “Guimarães Rosa – Fronteiras, Margens, Passagens”. Em que consiste esse trabalho?

MF - Esse livro resulta da minha tese de doutorado e eu publiquei pela Editora Senac São Paulo. A publicação vai falar sobre Guimarães Rosa, sua poética, sua linguagem e sua temática.

Então eu vou tratar dessas questões do regional para o universal, da presença do autor na Alemanha por ocasião da Segunda Guerra Mundial, da formação em Medicina, momento em que ele já denota todo seu humanismo, sua religiosidade e sua poeticidade.

Também abordo aspectos da sua vida depois de formado, como as vivências em Itaguara, Barbacena e Belo Horizonte. Ele se tornou uma espécie de soldado médico, mas ele gostava mesmo era de ler e escrever, rabiscar e aprender línguas.

Ninguém faz uma obra-prima sem conhecer muita coisa. Então o livro traz esse conhecimento, essas experiências todas para dentro da obra dele, que é diversificada e heterogênea.


DM - O que é ser escritor hoje no Brasil?

MF - Eu acho que ser escritor no Brasil talvez não seja diferente de ser escritor em qualquer outro lugar do mundo, a não ser pelo fato de que aqui nós estamos tendo uma crise econômica muito grande e que atinge as editoras em relação às publicações.

Hoje, há uma mudança em relação ao escritor e seu leitor, as publicações estão cada vez mais digitalizadas, sem contar o quanto tem sido cara a produção do livro no Brasil, o que desestimula um pouco.

Por outro lado, quem quer escrever, vai escrever sempre, seja para ser lido pelo objeto livro seja para ser lido digitalmente. Nenhuma crise impede que sejam publicadas boas obras.


DM - De que maneira você acredita que Guimarães Rosa influencia a nova geração de escritores?

MF - Guimarães Rosa é um escritor que desde que começou a publicar vem sendo lido. Em 1946, ele publicou “Sagarana”, que já era reconhecida como uma grande obra. Dez anos depois, ele faz a façanha de publicar duas obras imensas: “O Corpo de Baile” e “O Grande Sertão: Veredas”.

Logo depois, as obras começam a ter tradução em várias línguas e críticas muito importantes no mundo inteiro. De lá para cá, sempre houve leitores, sempre houve leitores críticos e sempre houve escritores leitores de Guimarães Rosa. Nesse universo de Rosa e seus leitores, como diria o próprio Guimarães Rosa, “não há o que não haja”.

Enviar link

Outras entrevistas