Cultura

Entrevistas

Senac
  • Logo Senac Minas
  •  
  • Hotel Grogotó

Will Conrad - Dezembro 2016

  • Quadrinista mineiro Will Conrad - Joyce Caroline
  • Will Conrad em entrevista ao descubraminas.com - Joyce Caroline
  • Will Conrad é quadrinista de carreira internacional  - Joyce Caroline
  • Quadrinista mineiro já trabahou com Stan Lee - Joyce Caroline
  • Desenhista mineiro dá vida a marcantes personagens dos quadrinhos - Joyce Caroline


Descubraminas invade as páginas dos quadrinhos e conversa com o mineiro Will Conrad. Membro do primeiro escalão dos desenhistas do mercado de quadrinhos internacional, Will está entre os artistas brasileiros mais bem-sucedidos no exterior.


“Antes de ser um desenhista, de ser um ilustrador, eu sou um contador de histórias.”


Assista aqui aos melhores momentos da entrevista!


Por Roberta Almeida


Descubraminas - Conte-nos como você iniciou sua carreira como desenhista.

Will Conrad -
A minha história como desenhista, como um hobby, eu não sei dizer exatamente como começou porque desde que me entendo por gente eu gosto de desenhar. Como profissional, eu comecei aos 20 anos como ilustrador e fazia muitos trabalhos para empresas de Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro.

O primeiro evento de quadrinhos que participei foi a Bienal Internacional de Quadrinhos, que depois virou o Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ), em 1997, aqui em BH. Foi quando mostrei um pequeno portfólio ao Will Eisner, que sempre foi uma das minhas referências tanto em termos de narrativa quanto de arte.

Na verdade, eu levei nesse evento um livro para ele autografar e coloquei o portfólio escondido. Ele me olhou e começou a passar o portfólio bem devagar, me disse para continuar estudando que eu estava no caminho certo. Foi o estopim da minha carreira, quando realmente decidi que queria trabalhar com quadrinhos.

Desde 2001, eu venho trabalhando para os mercados americano e europeu de quadrinhos. O primeiro trabalho significativo que eu peguei foi “Buffy - A caça vampiros” e entrei como arte-finalista, nem foi como desenhista principal. Eu arte-finalizava metade de uma edição, que era desenhada pelo Cliff Richards (também de Belo Horizonte). Até que eu tive a primeira chance de começar a desenhar mesmo.


DM - Você nasceu e mora em Belo Horizonte, onde desenvolve trabalhos para grandes editoras, como Dynamite, Marvel, Dark Horse e DC Comics. Como é ter uma carreira internacional sem sair de sua cidade natal?

WC -
É muito gratificante poder trabalhar aqui, junto da minha família, embora eu vá todo ano para os Estados Unidos. Esta é uma realidade que não era muito possível antes.

Com o advento da internet e as novas tecnologias de digitalização, criou-se a possibilidade de trabalhar daqui e mandar para lá. Isso facilita muito para quem está querendo entrar no mercado e não pode ou não quer fazer um investimento de mudar para fora para trabalhar.

Hoje, nós temos uma leva de bons profissionais de países da Europa, da Argentina e do Canadá que meio que quebraram essa barreira, principalmente a que o mercado americano tinha com desenhistas e roteiristas de fora.


DM - Especialista em super-heróis, você dá vida a personagens como Homem-Aranha, Wolverine, Guardiões da Galáxia, Homem-Formiga e os heróis de Os Vingadores. Como traduzir uma página de roteiro em uma página de quadrinhos?

WC -
Eu não sei se minha analogia cabe, mas acho que esse é um processo parecido com o processo de um diretor de cinema. Antes de ser um desenhista, de ser um ilustrador, eu sou um contador de histórias. Acho que o papel de um bom desenhista de quadrinhos é ajudar a contar uma história. Normalmente, recebemos um roteiro, que pode ser mais aberto, com o mínimo de descrição possível, para o desenhista fazer a página.

Tem o roteiro que é mais fechado, que acaba restringindo um pouco o papel do desenhista, e tem o roteiro mais intermediário, que é o mais comum e o que eu prefiro trabalhar, pois você tem as informações necessárias para fazer a página, como número de quadros, os diálogos que vão entrar, uma descrição básica do que acontece em cada quadro, o que ajuda a fazer a construção do layout  da página.

Quando recebo esse roteiro, eu o leio. Se necessário, peço o roteiro da história anterior, aí começo a fazer o layout. Em relação ao processo, cada desenhista tem o seu, mas na minha metodologia de trabalho, quando começo a fazer uma página, venho lendo e fazendo breakdowns com desenhos bem pequenininhos de pontos chave de cada página. Passo para o layout, que é onde eu faço toda estruturação da narrativa, peso de luz e sombra, composição e já pensando em termos de diálogo, deixando os espaços para o balão, para que a linha de narrativa seja construída.

Depois, mando esse layout para aprovação. Se houver alguma correção, eu altero, se não, passo para a finalização. O processo normal é ampliar esse layout, passá-lo para a mesa de luz, vai finalizando a página e depois passa para um arte-finalista. Como trabalhei muitos anos como arte-finalista, eu mesmo faço minha arte-final.


DM - Você também é responsável pelas capas dos livros da série Marvel, publicados pela editora "Novo Século". Como acontece o processo de criação desse material?

WC -
O processo é parecido, a diferença é que eu não tenho um roteiro e normalmente eu não tenho tempo para ler o livro inteiro. Costumo pedir uma sinopse, para ver se há alguma coisa específica que eu precise saber porque eu não gosto de fazer uma capa genérica, gosto de fazer sempre ligada, de alguma forma, à história.

Então, se houver algum evento mais importante da história, eu utilizo isso de certa maneira na imagem da capa. Faço dois ou três layouts, mando para a aprovação da Novo Século, que passa também para a aprovação da Marvel. Assim que aprovam, eu passo para o lápis, eles aprovam novamente, eu faço a arte-final e a cor.


DM - Há alguns anos, você teve a oportunidade de trabalhar com Stan Lee. Como foi essa experiência?

WC -
Nossa, foi muito legal! Essa é uma das anedotas que eu gosto de contar. Como todo bom mineiro gosta de contar histórias, né? Não é à toa que sou quadrinista. Acho que todo mundo que conhece ou gosta de quadrinhos não tem como não conhecer o Stan Lee. Ele e o Jack Kirby, quando fizeram os principais personagens da Marvel, acabaram mudando a vida de muita gente que lia quadrinhos. Nem nos meus sonhos mais loucos, imaginava que iria conhecê-lo.

Uma vez, fiz um trabalho para a Dark Horse e ele estava, na época, fazendo um programa de TV que chamava Who Wants to be a superhero?. Era basicamente um reality show onde os participantes criavam um super-herói, tipo um alter ego e mandavam para o programa. Os que foram aprovados ficavam em uma mansão e eles viviam como esses super-heróis, com várias tarefas e provas e a cada semana um ia sendo eliminado. Um dos prêmios do programa era uma história do personagem escrita pelo Stan Lee e publicada pela Dark Horse.

Quando chegou a um determinado número de participantes, eles contrataram vários desenhistas para fazer a capa do que viria a ser a revista daquele personagem se ele ganhasse e eu fui chamado para fazer uma das capas. Eu fiz, eles adoraram e estava feito o meu trabalho.

O personagem que ganhou chamava Feedback e, na época, meu estúdio não era na minha casa. Aí minha esposa me ligou no estúdio, chorando, super nervosa, falando que o Stan Lee tinha ligado para minha casa. Como ela não falava inglês, ficou desesperada achando que tinha perdido uma chance. Voltei para casa e o telefone tocou novamente, era do escritório do Stan Lee. Transferiram a ligação para ele e já fomos conversando.

Ele pegou os desenhistas que fizeram as capas, escolheu os trabalhos que mais gostou e me escolheu para fazer com ele a história desse personagem que ganhou. Foi ótimo porque ele ligou aqui em casa várias vezes, eu fiz o desenho, ele adorou, e o roteiro dele é extremamente aberto, o que me dava liberdade para criar.

Depois do desenvolvimento da história, eu estive em San Diego em uma convenção, autografando ao lado dele. Foi a realização de um sonho, uma coisa inesperada. Tive a oportunidade rara de poder falar que já trabalhei com Stan Lee, pessoalmente.


DM - Desenvolvido por professores e alunos da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), o projeto "História da Ciência em Quadrinhos" produz materiais didáticos para divulgação científica de forma lúdica. Você acredita que o uso dos quadrinhos em sala de aula é uma estratégia para que o aluno se interesse por novos conteúdos?

WC -
Eu tenho certeza disso. Aprendi a ler com as histórias em quadrinhos da "Turma da Mônica". Eu sempre achei que a forma de literatura de quadrinhos é muito eficaz e traz algumas possibilidades que não têm em um livro, por exemplo. Não que o livro não seja interessante, eu adoro ler livros também, mas quando você pega histórias em quadrinhos você está unindo duas mídias: a visual e a escrita.

Se isso for feito de maneira eficaz, eu tenho certeza que é uma das formas mais interessantes de transmitir conhecimento, de transmitir informações, pois você torna aquela literatura muito mais leve e consegue acrescentar informações que de outra forma seriam muito mais complexas. Acho extremante válido.


DM - Como todo bom mineiro, você vem, discretamente, conquistando um espaço cada vez maior junto a editores e fãs do mundo dos quadrinhos. Qual o principal desafio para se manter no concorrido mercado internacional?

WC -
Eu acho que, quer seja na área de quadrinhos ou em qualquer outra área de atuação, a primeira coisa é ter uma postura profissional. Eu faço aquilo que eu gosto e porque eu gosto. Não vou fantasiar que é uma coisa fácil, principalmente se você for desenhista de revista mensal. A editora precisa confiar muito no artista, para entregar a ele um título mensal, pois têm uma série de contratos que estão atrelados ali que dependem da sua pontualidade, da qualidade do seu trabalho.

Além disso, há outros profissionais que trabalham com a gente. Por exemplo, eu faço um desenho e a arte-final, mando para um colorista, depois vai para a pessoa que monta a revista e para o cara que vai fazer o letreiramento. Ou seja, tem uma série de pessoas que dependem que o meu trabalho seja feito no prazo.

Se for escolher uma coisa para se manter no mercado, é ter uma postura extremamente profissional sempre. Obviamente que imprevistos acontecem, mas aí é a questão de você, como profissional, entrar em contato com o seu editor, para que ele saiba o mais rápido possível o que está acontecendo. E é sempre bom trabalhar com uma margem, para que você possa equilibrar tudo.

Às vezes, vejo profissionais que chegam a um determinado nível e acham que já sabem de tudo, que dominam tudo e acreditam que vão se manter assim. Eu acho esse um erro muito grande. Para você manter o seu trabalho na primeira linha de importância no mercado, deve manter sempre aquele desejo, aquela paixão pelo que você faz, principalmente falando de arte.

Uma das formas para eu me manter sempre interessado é ficar de olho em tudo que está acontecendo de novo, tanto em termos de artes, estilos novos, quanto em termos de tecnologia.


DM - Na Campus Party 2016, você ministrou uma palestra sobre o mercado brasileiro e americano de quadrinhos. Qual dica você daria para quem quer ser profissional fazendo arte?

WC -
Olha, para se manter é isso que eu falei. Para entrar, não é muito diferente. A primeira coisa que a gente tem que ter é postura profissional, até para se aproximar de editores ou de outros profissionais que já estão estabelecidos no mercado. Eu recebo inúmeros contatos por dia, pedindo para olhar portfólio, e eu vejo uma informalidade muito grande até na forma de você escrever uma mensagem.

Para quem está querendo fazer quadrinhos, ilustração, ficar na área artística mesmo, o portfolio não pode ser aquela coisa gigante e não adianta chegar para um editor e falar tudo que você fez, ele vai querer ver o seu trabalho. Então você tem que ter um portfólio que fale o melhor que você é capaz de produzir. Não adianta eu colocar 300 páginas em um portfólio com trabalhos inacabados ou de 20 anos atrás.

Se você tiver dez imagens no seu portfólio que são fortes, que faça com que o editor pare e olhe seu trabalho, vai falar milhões de vezes mais. Não defenda seu portfólio, não fique dando desculpas para ele, deixe ele falar por si só.

Outra coisa é ter humildade para aceitar crítica. Ninguém aprende com os acertos, todo mundo aprende com os erros. Eu fui bombado várias vezes e já me falaram que eu não iria conseguir ser desenhista de quadrinhos porque meu estilo não se encaixava, não para o mercado americano. Mas o que a gente tem que entender é que a crítica é a melhor forma de você aprender, pois você pega aqueles pontos que foram criticados e trabalha neles, fazendo que eles deixem de ser os seus pontos fracos e se tornem seus pontos fortes.

Quando o editor olha o seu trabalho e cita os pontos fracos, significa que o que ele não falou não está tão ruim. Não leve para o lado pessoal quando uma pessoa técnica fizer uma crítica ao seu trabalho. E fuja dos elogios, principalmente se eles forem feitos por pessoas que não forem profissionais da área.

Além disso, não tenha vergonha de entrar em contato, de procurar pessoas para olhar o seu trabalho. Por exemplo, agora em dezembro vai ter a Comic Con Experience, em São Paulo, e vai ter caça-talentos da DC e da Marvel lá, então hoje está bem mais fácil nesse sentido de se fazer contatos. Mas tudo exige esforço, empenho e dedicação.


DM - Atualmente você está trabalhando com Cyborg, um dos principais lançamentos da DC desse ano. Como foi desenvolver esse trabalho? Quais são seus planos para 2017?

WC -
Como eu falei, o primeiro trabalho que peguei em 2001 na Dark Horse, Buffy, era do Joss Whedon, que foi o diretor dos filmes da série “Os Vingadores”. Depois, eu fiquei uns cinco anos exclusivo da Marvel e em um evento na Argentina os editores da Dark Horse me falaram em me contratar para trabalhar de novo com o Joss Whedon.

Quando foi no final de 2015, eu encontrei o Dan Didio, que é um dos mandachuva da DC, e ele me falou que tinham várias coisas para serem lançadas agora em 2016 e queria que eu participasse. Ele me falou da série Rebirth, eu analisei e aceitei o trabalho.

Como tinha terminado meu contrato com a Dark Horse e na DC eu só iria começar a trabalhar em junho, eu falei para eles que já tinha proposta da Marvel e para continuar na Dark Horse e precisava de uma coisa para fazer no primeiro semestre desse ano. Aí eles me colocaram para fazer outra série até chegar o material da Rebirth.

Acabei pegando para fazer o "Capitão Átomo", um personagem antigo que eles haviam parado de publicar, mas que é muito legal. Eu fiz a repaginação do personagem e vai ser um dos grandes lançamentos de 2017. Então a minissérie já está pronta, pois eu a fiz antes de pegar Cyborg. Foram seis edições, acho que o pessoal vai gostar.

Depois, comecei a trabalhar com Cyborg, eu não sabia que seria esse personagem. Eu estava viajando e as pessoas começaram a me mandar mensagem parabenizando pelo título e eu nem sabia qual era. Quando fui ver, a DC havia anunciado em um evento que eu iria desenhar o Cyborg. Fiquei surpreso, mas muito feliz. O Dan Didio tinha até falado que era um dos personagens preferidos dele, sem contar que é uma história muito bacana, onde aparece até a Liga da Justiça.


Papo de Mineiro

DM - Quem é ou foi verdadeiramente mineiro?
WC -
Juscelino Kubitscheck.

DM - Adoro um bom prato de...
WC -
Feijão tropeiro.

DM - Para quem visita Minas, o que você diz ser imperdível?
WC -
Experimentar a comida mineira. Eu acho que a cozinha mineira é uma das melhores do mundo.

DM - Em uma viagem, o que você sempre leva na bagagem para presentear?
WC -
Uma revista que eu desenhei.

DM - Qual desenhista melhor representa Minas Gerais?
WC -
Mozart Couto.

DM - A paisagem que te inspira...
WC -
As montanhas.

DM - Atlético, Cruzeiro ou América?
WC -
América.

DM - Quando estou fora morro de saudades de...
WC -
Da minha família.

DM - Minas Gerais é...
WC -
O máximo!

Enviar link

Outras entrevistas