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Beatriz Coelho - Novembro 2016

  • Professora e restauradora Beatriz Coelho - Joyce Caroline
  • Escultura restaurada por Beatriz Coelho - Joyce Caroline
  • Beatriz Coelho concede entrevista ao descubraminas.com - Joyce Caroline


Dedicada ao trabalho de restauração há 40 anos, a professora e restauradora Beatriz Coelho fala ao Descubraminas sobre a arte de recuperar e preservar memórias.


“O trabalho do restaurador não deve aparecer. Quando aparece é porque foi mal feito.”


Clique aqui e assista aos melhores momentos da entrevista.


Por Roberta Almeida

Descubraminas - A senhora entrou na UFMG para ministrar aulas de xilogravura, mas logo se dedicou ao trabalho de restauração. Quando e por que decidiu investir nesse ofício?

Beatriz Coelho -
Eu fiz curso na Guignard e lá já comecei a ensinar gravura, substituindo Yara Tupinambá. Naquele tempo, não precisava prestar concurso para dar aulas na universidade e fui para a UFMG como professora de gravura, indicada pela Yara.

Após um certo tempo, fui vice-diretora da Yara e recebi uma carta do reitor que falava sobre algumas telas da Escola de Música reencontradas. Eram 39 metros quadrados de tela e ele queria que elas fossem restauradas na Escola de Belas Artes e que tivesse uma finalidade didática. Eu não entendia nada de restauração.

Aí eu comecei a ver como fazer esse trabalho. O diretor do patrimônio daqui era muito meu amigo e me arrumou um técnico para averiguar os objetos. Essas telas haviam sido aplicadas na parede com argamassa e, como foram guardadas como tubos, foram se achatando por causa do peso.

Compramos o material para a restauração e abrimos inscrições para os alunos, por causa da tal finalidade didática, mas nenhum aluno se interessou. Todo mundo ali queria ser artista. Aí quem se inscreveu foram os professores: Álvaro Apocalypse, Jarbas Juarez, Madu, Tereza Apocalypse, eu, Júlio Espíndola, Wilde Lacerda, Jefferson Lord.

Depois, ficamos apenas eu, Júlio e Jarbas. Como era um trabalho muito grande, os alunos começaram a ver e a se interessar. No ano seguinte, já tínhamos estagiários, alunos da Belas Artes. Quando vi aquelas telas igualzinho a amianto voltarem a ficar planas, flexíveis e a gente poder ver de novo a pintura que estava ali, eu me apaixonei.


DM - Em 1980, a senhora idealizou o Centro de Conservação e Restauração de Bens Culturais Móveis (Cecor), uma unidade da Escola de Belas Artes da UFMG dedicada à pesquisa e à formação de profissionais de conservação e restauração de bens do patrimônio histórico, artístico e cultural. Como foi implantar o primeiro centro regular de ensino de técnicas de restauração no Brasil?

BC -
Existia um curso, do Jair Inácio, em Ouro Preto, mas não era ligado a nenhuma instituição educacional. Então, o Cecor foi mesmo o primeiro curso regular de restauração no Brasil. Mas eu não pensei nada disso. Eu queria era um curso onde eu pudesse aprender, mas não pude me candidatar, pois o Álvaro Apocalypse, que era meu vice na época, disse: “Beatriz, você planejou tudo e agora vai designar uma pessoa para coordenar?”. Como fui coordenadora, não pude ser aluna, mas como a escola era pequena na época, eu assistia a todas as aulas que podia e fui aprendendo.

No primeiro curso, só tivemos alunos de Minas Gerais. No outro ano, já tínhamos gente do Amazonas ao Rio Grande do Sul, exatamente pela necessidade de se ter uma formação para a restauração. E minha ideia era: restaurador não é simplesmente uma pessoa habilidosa, que é o que todo mundo achava.

Restaurador tem que ter conhecimento e paciência, ele tem que estudar, tem que conhecer história da arte, de química, para saber como usar solventes e outros produtos. Ele vai ter que pegar uma obra e situá-la no tempo e ver qual história ela tem para contar, se teve intervenção, se melhorou ou piorou, restaurou realmente ou atrapalhou.

Às vezes, a intervenção é muito pior do que cupim ou do que qualquer outro tipo de coisa que degrada. Então a ideia era dar essa formação mais abrangente. Hoje, nós temos o curso de graduação em Conservação e Restauração, que tem uma parte teórica muito forte e também a prática. Esse curso funciona no Cecor, esse órgão complementar da Escola de Belas Artes da UFMG.


DM - Apesar de constituírem um dos aspectos mais originais e significativos do patrimônio cultural brasileiro, as imagens religiosas são pouco conhecidas e estudadas. Qual é o objetivo do Centro de Estudos da Imaginária Brasileira (Ceib)? Quem pode se associar a esse centro?

BC -
O Ceib começou com Mirian Ribeiro e comigo. Não existe um centro físico. Na verdade, temos uma salinha cedida pelo Cecor. Nós temos associados no Pará, Maranhão, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Paraíba, Bahia, Rio Grande do Sul, São Paulo, Portugal e Argentina. No último dia 29 de outubro, o Ceib completou 20 anos. Nós fazemos o estudo sobre as imagens devocionais. Começamos com imagens dos séculos 17, 18 e 19, mas hoje estudamos qualquer imagem devocional.

Inclusive, em 2017, o congresso vai ser na Bahia e estou querendo muito que tenha alguém para falar sobre devoção de orixás, como funciona no candomblé ou na umbanda, pois também são imagens devocionais. Abordamos a parte histórica, a função social da imagem, com qual tecnologia foi feita, como é a policromia dela, se é usada em procissões, comemorações ou congado, tudo que estiver ligado à imagem, bem como a iconografia, que é sua representação.

Já temos publicados 64 boletins, cada um possui um artigo original e já fizemos nove congressos. O décimo será esse, em Salvador. Ao Ceib, podem se associar os profissionais da área, professores ou restauradores, estudantes, colecionadores ou qualquer um que simplesmente goste do assunto.


DM - Minas Gerais detém o mais valioso acervo de arte e arquitetura colonial do Brasil e é o segundo estado que mais possui bens inscritos no Patrimônio Federal. Quais seriam as obras mineiras que precisam urgentemente de um trabalho de restauro?

BC -
Bom, eu dou aula uma vez ou outra a pedido de ex-alunos meus, mas não estou atuando diretamente na restauração do patrimônio. Minha ligação com o patrimônio é através do Ceib, estudando as imagens. Na Guignard, eu fiz gravura e escultura, então eu sempre gostei da 3ª dimensão. É uma riqueza imensa e nem tudo é do Aleijadinho, como muitos pensam.

Hoje, eu não saberia dizer o que precisa urgentemente de um trabalho de restauro, mas no tempo que estava mais atuante na área, vi coisas preciosas precisando de restauração. Revendo os documentos para a comemoração dos 20 anos do Ceib, vi um registro que fiz em 1992 sobre uma imagem do Museu de Arte Sacra de Mariana, onde eu reforçava a necessidade de restauro. Mas até hoje não sei se foi restaurada.


DM - Obras de Mestre Ataíde e Aleijadinho sobrevivem até hoje, por mais de 200 anos, graças ao trabalho de restauradores. Por que a restauração e a conservação desses bens culturais móveis são importantes para uma sociedade?

BC -
Já dei aula de iniciação à conservação e eu perguntava aos alunos, que não eram restauradores: Qual é sua cidade? O que ela tem de importante? Como é a paisagem lá? Tem rio? Tem um pico importante? Quando está de folga, você vai ver o quê? Tem algum jogador de futebol, cantor ou poeta que nasceu lá? Isso é a memória daquele local. Por pequeno que ele seja, tem uma história.

Por exemplo, Ataíde foi importantíssimo. O Cecor passou três anos em Ouro Preto restaurando a belíssima pintura na Igreja São Francisco de Assis e a caixa do órgão em Mariana. Por que fazer isso? Se isso é perdido, também se perde parte da história daquele povo, da memória daquele local. Depois que um objeto é restaurado, ele exige um constante cuidado. Aí entra a conservação.


DM - Então, depois de restaurado, quais os principais cuidados deve-se ter com o objeto de restauro?

BC -
Todo objeto de restauro deve passar sempre por manutenções, observando sempre o lugar onde vai ser guardado ou exposto, que tipo de luz vai iluminar essa peça, o tipo de umidade que o ambiente tem. O objeto não pode ser mudado de clima, de repente.

Uma vez, iam peças de Aleijadinho para uma exposição em Washington. Eu conversei com o professor da escola e ele me disse que lá tudo era climatizado, não tinha nenhum perigo para as peças. Aí eu disse: aqui nada é climatizado! Então o objeto vai para uma temperatura x, um ambiente com umidade relativa x, que ele não tem aqui.

Outro exemplo é a caixa do órgão de Mariana que falei. Ela tem que ser fiscalizada sempre para ver se não entrou cupim ou poeira e tem que tomar cuidado também com a limpeza, pois limpar demais também atrapalha. Muita gente acha que Cristo tem que sair perfumado, limpo e bonito na Semana Santa e passa até óleo de peroba, na melhor das intenções, mas isso aí está deteriorando a peça.

As pessoas habilidosas fazem desastres horríveis em obras de arte porque não sabem cuidar da forma correta. Mas você não pode atrapalhar a devoção das pessoas, então essas técnicas têm que ser ensinadas à população, mas respeitando a devoção delas. É preciso trabalhar diferentemente um objeto de museu e um objeto de uma igreja.


DM - De vez em quando, a mídia divulga casos de erros grosseiros de restauração. Quais são os segredos para um exemplar trabalho de restauração?

BC -
Primeiro que não tem segredo. A restauração hoje é bem divulgada, você faz, publica, deixa em aberto para qualquer outra pessoa. Antigamente, quem sabia não passava adiante, pois aquilo era seu conhecimento.

O que é exigido para esse trabalho ficar bem feito é a análise da obra, pois você não intervém se não tiver estudado muito bem até a função dessa obra: se ela é de devoção, de museu, decorativa e o tipo de deterioração, o que causou aquele problema e como vai ser a atuação, de um jeito que não se perceba o que foi feito.

O trabalho do restaurador não deve aparecer. Quando aparece é porque foi mal feito.


DM - Para quem deseja dedicar-se ao trabalho de restauração, qual dica a senhora daria?

BC -
Procurar um lugar que tenha um curso ou algum treinamento prático. Agora já existe no Brasil o bacharelado em restauração na Escola de Belas Artes, da UFMG, no Rio de Janeiro e em Pelotas, no Rio Grande do Sul. Tem um de tecnólogo na PUC de São Paulo e o técnico na Fundação de Arte de Ouro Preto (FAOP).

Então, dentro do possível, você tem que procurar uma formação, para aprender tudo isso que falamos, poder usar na prática e se dedicar a uma coisa tão importante como é a preservação da memória de um lugar, a preservação do patrimônio.

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