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Marta Neves - Agosto 2016

  • Artista Plástica Marta Neves - Matheus Ventura
  • Marta Neves conversa com o Descubraminas - Matheus Ventura
  • Artista Plástica Marta Neves - Matheus Ventura
  • “Cenas para uma vida melhor” - Osama Bin Laden é reconstruído com ursinhos de pelúcia - Matheus Ventura
  • Detalhe dos ursinhos de pelúcia que formam o rosto de Osama Bin Laden - Matheus Ventura
  • Artista Plástica Marta Neves - Matheus Ventura
  • Artista Plástica Marta Neves - Matheus Ventura


Entre vidrilhos, lantejoulas, ursinhos de pelúcia e colagens, a artista plástica, professora e ilustradora, Marta Neves, conversa com o Descubraminas sobre a arte de reinventar a própria vida.


“Minas Gerais é diversa, é o mundo. Pode ser representada por uma música europeia, japonesa ou por uma imagem de Plutão. Minas Gerais é uma possibilidade.”


Clique aqui e assista aos melhores momentos da entrevista.


Por Roberta Almeida


Descubraminas - Você nasceu em Belo Horizonte, vive e trabalha aqui desde sempre. Acredita que o espaço urbano da capital influencia seu trabalho de alguma maneira?

Marta Neves -
Ah, claro! Eu sempre faço várias intervenções aqui em Belo Horizonte e para exemplificar essa ideia, eu fiz, recentemente, no passeio do Museu Mineiro, uma intervenção que tinha uma fileira de cadeiras voltadas para a Avenida João Pinheiro com uma faixa: “Estacionamento de Gente”. Na verdade, é uma proposta que pode ser levada para outros espaços e é um convite à ideia de que as pessoas é que precisam ter um lugar na cidade.

Então, bolei essa coisa de interditar uma rua e encher de cadeiras para que as pessoas possam ter um estacionamento devido para a vida e não para as máquinas, pois fica parecendo que a gente se tornou obsoleto diante de tanta insistência em dar espaço para as máquinas numa cidade em que tem tantas coisas interessantes e tanta gente que precisa viver.


DM - Seu trabalho como artista plástica é um exercício de sarcasmo sobre a arte e o sistema que a envolve. O que é arte para você? Como é agir diferente dos parâmetros esperados pela sociedade, afrontando os padrões estabelecidos?

MN -
Talvez arte seja uma forma de reinvenção da vida. É uma forma de reinvenção da própria arte. É uma grande invenção, e, nesse aspecto, tem algo de mentira porque não há algo prévio, necessariamente, uma verdade prévia instituída sobre a qual se baseia uma produção artística, uma verdade cristalizada. É uma verdade fluida e questionável o tempo inteiro. É uma mentira boa.

Por outro lado, é uma mentira que engendra a vida de uma forma diferente. Portanto, engendra vida verdadeira, engendra verdade. Esta é uma possibilidade de se entender arte, mas amanhã eu posso pensar diferente.

Acho que esse agir diferente dos padrões é uma forma de viver, de dar conta da existência e continuar se alimentando de vida. Acho que a arte é muito esse alimento. Por mais que ela possa parecer dispensável, é muito pelo contrário: ela é fundamental e transformadora da existência.


DM - Diante da construção da mentalidade do homem contemporâneo pelo discurso midiático. Qual o papel da arte na atualidade?

MN -
Acho que inúmeros papéis, mas principalmente pensando nessa ideia de destroçar os lugares comuns, de instituir a dúvida. Sempre gosto de pensar que a arte vai plantando possibilidades de vida que se fundam em algumas certezas, que vão sendo construídas, mas que são certezas momentâneas, certezas que tem esse lado de dúvida, que é uma coisa maravilhosa, justamente ao contrário de tantas certezas instituídas, padrões de comportamento, formas de discursos cristalizadas, estéticas consolidadas que, infelizmente, povoam a grande mídia.


DM - No projeto “Cenas para uma vida melhor”, Osama Bin Laden é reconstruído com ursinhos de pelúcia. Qual foi o desafio desse trabalho?

MN -
Acho que o desafio não é tanto para fazer, mas depois de ter feito, pois é um desafio muito maior lidar com as reações variadas das pessoas. Essa ideia me veio como quase que de presente via Elke Maravilha. Nós somos amigas, mas lendo uma de suas entrevistas em um jornal impresso, em que ela falava que as pessoas eram muito incomodadas com esse mundo islâmico, com essas figuras fortes de poder, com Bin Laden e quem sabe ele não seria uma espécie de outro Jesus Cristo.

Era um desafio de se pensar, não que o Bin Laden seja um arauto da paz, nada disso, mas é uma figura de poder que se impõe. Aí esta foi minha interpretação na fala da Elke. De certa forma, esse poder imposto levanta uma inveja generalizada, um desejo de poder também das pessoas, talvez tanto quanto um Jesus Cristo, que é uma figura consolidada do discurso da paz. Pensando nessa ideia de que talvez a gente tenha uma sede de poder que não é assumida, resolvi colocar o Osama como se fosse uma espécie de figura deliciosa.

Mas o desafio maior, mesmo, é essa dificuldade de lidar com as repostas. Já fui acusada até de neonazista, como se eu tivesse fazendo uma apologia absoluta a todo tipo de terrorismo. Enfim, acho que é um trabalho que dá conta das nossas próprias incongruências, das nossas misérias e apostando em explorar algo que ainda possa existir de fecundo diante de todas as nossas misérias internas que se externam por aí. Embora possa parecer aos olhos de algumas pessoas, não é de forma alguma uma apologia ao fascismo ou alguma coisa do gênero.


DM - Em “A boca pequena naturalmente”, você recria famosas obras de arte, utilizando fotografias de personagens cotidianos. Inclusive, usou o próprio animal de estimação para representar o Arco do Triunfo. Como funciona esse raciocínio estético?

MN -
Tem uma frase curiosa de um artista da Pop Art norte-americana, chamado Claes Oldenburg, que diz: “A arte está nas ruas. Olhe em volta.” Por exemplo, artistas do movimento que agora completa 100 anos, o dadaísmo, do surrealismo e tantos outros artistas a partir da arte moderna descobriram, e isto está em toda história da arte, que é a vida mesmo - e a vida mais comum - que te fornece, frequentemente e diretamente, os materiais e a própria arte em estado bruto e, muitas vezes, pronto.

Então, esse raciocínio se dá diante da descoberta da arte que está ali diante de mim. Não só vou pegar o material, mas ela está ali se manifestando como um objeto achado, como um discurso de alguém, que também tem uma poesia que precisa ser vista, descoberta ou que pelo menos merece atenção e está presente de diversas maneiras na vida cotidiana, basta, como diria Oswald de Andrade, “olhar com os olhos livres”.


DM - Nesse caso, você acha necessário ter um olhar artístico para enxergar esta arte pronta?

MN -
Acho que o olhar artístico não necessariamente é uma prerrogativa daquele que se diz artista. Acredito que o olhar artístico pode estar em qualquer pessoa.


DM - Você ilustrou o livro “A Filha da Preguiça”, do escritor mineiro Bartolomeu Campos de Queirós. Como foi essa experiência, visto que foram usados recortes de papel e, mesmo que já tivesse a ideia inicial do desenho, não seria possível definir a imagem final?

MN -
O bacana de usar certos recortes é justamente isso: você tem uma certa noção do que vai fazer, mas existe um erro e, essa dimensão do erro, do desvio, eu acho que, inclusive, casa com a própria narrativa que está lá no livro.

Essa ideia de que a preguiça pode ser um dom numa sociedade tão pautada pela ideia da grande produção, do que você está fazendo agora, os prêmios pela produtividade geral, a ideia da valorização pelo mundo do capital, pelo capitalismo cognitivo é constante.

Estamos sempre respondendo às perguntas: Qual é seu próximo projeto? Qual é seu próximo edital? Qual é seu novo empreendimento? Enfim, talvez a preguiça seja um caminho interessante. Na verdade, é algo que passa ali pelo livro, mas que não significa que seja essa a ideia, pois Bartolomeu é muito mais do que isso que estou dizendo, mas que dialoga com essa definição.


DM - Já no “Nessa Rua Tem um Rio”, projeto do Laboratório Undió, que faz referência ao Córrego do Leitão, você propôs interessantes intervenções junto aos alunos. Como ocorrem essas ações no ambiente urbano, que, ao mesmo tempo em que inovam, despertam a memória da cidade?

MN -
Esta é uma experiência maravilhosa. Acho que este projeto do Undió, comandado e aprofundando pela Júlia e a Thereza Portes, é uma oportunidade de ver o quanto é gratificante essa interação com o espaço urbano. Voltando à primeira conversinha nossa aqui hoje, eu reporto ao “Estacionamento de Gente”, que estava, inclusive, associado a uma ação do “Nessa Rua Tem um Rio”.

Quer dizer: já de cara existe sempre com esse projeto uma conexão com a cidade, que é uma conexão muito fecunda e que não necessariamente vai acontecer na Rua Padre Belchior, onde está situado o instituto, mas ali é muito interessante, e eu fiz inúmeras intervenções lá, porque você é convocado a pensar bem as transformações e os processos de circulação naquela região.

Uma região central, que tem uma conexão com o passado de Belo Horizonte no sentido de existir um comércio mais familiar, mais tradicional, o próprio Mercado Central, as lojinhas menores, talvez até ainda numa certa resistência bem interessante a ideia generalizada de gentrificação, que se associa a uma ideia de higienização e, em minha opinião, uma “shoppingnização”, se a gente pode chamar assim, quer dizer, uma transformação em shopping de várias áreas de Belo Horizonte. Enfrentar esse desafio é maravilhoso.


DM - Você já participou de exposições no Brasil e no exterior, foi indicada ao Prêmio Pipa e se apresentou na última Bienal de São Paulo, uma das mais importantes do País. Você acredita que seu trabalho já é devidamente reconhecido?

MN -
Acho que de alguma forma, sim. Talvez não seja mais porque eu não faço tanto esforço. Eu sou muito descolada com essa coisa da carreira. Uma vez, eu até fui meio rechaçada porque fui pedir para algumas pessoas participarem da votação online do prêmio de investidor de arte e alguém se incomodou e falou: “Eu não aguento esses candidatos a artistas”. Mas eu gostei muito desse nome porque certas críticas que eu recebo acabam revertendo em coisas muito boas.

Por exemplo, uma parte do grande evento "Verão Arte Contemporânea", que é sempre em ateliês de artistas e aconteceu no meu ateliê no início de 2013, foi chamado de “Uma Candidata a Artista” justamente por isso. Sou sempre uma candidata a artista, acho que nunca sou completamente profissional. É um erro, mas, ao mesmo tempo, é uma diversão e um acerto no sentido de ter uma certa leveza para lidar com essa vida aí de artista, com esse mundo da arte.

Por outro lado, alguns momentos se tornam pesados, pois às vezes eu me cobro: “Por que não ser um pouco mais profissional?” Ou talvez eu goste de ser sempre uma candidata a artista. Até um pouco indo contra a ideia de que todos já têm ou almejam de ser um “grande artista”.


Papo de Mineiro

DM - Quem é ou foi verdadeiramente mineiro?
MN -
Riobaldo Tatarana, personagem de Guimarães Rosa.

DM - Aquela música que tem a alma de Minas?
MN -
Isso aqui é um grande celeiro de samba.

DM - Adoro um bom prato de...
MN -
Pão de queijo.

DM - Para quem visita Minas, o que você diz ser imperdível?
MN -
Ouro Preto.

DM - Em uma viagem, o que você sempre leva na bagagem para presentear?
MN -
Quer que eu seja óbvia? Então vamos. Pinga, cachaça, aguardente!

DM - Qual artista melhor representa Minas Gerais?
MN -
Alberto da Veiga Guignard, que não nasceu aqui.

DM - A paisagem que te inspira...
MN -
Aquela onde eu estiver.

DM - Atlético, Cruzeiro ou América?
MN -
Galo!

DM - Fim de semana na cidade grande ou na roça?
MN -
Fim de semana num boteco.

DM - Quando estou fora morro de saudades de...
MN -
Meus cachorros.

DM - Minas Gerais é...
MN -
Minas Gerais é diversa, é o mundo. Pode ser representada por uma música europeia, japonesa ou por uma imagem de Plutão. Minas Gerais é uma possibilidade.

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