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Allaoua Saadi - julho 2016

  • Professor Allaoua Saadi - Arquivo Pessoal
  • Professor Allaoua Saadi e sua equipe em trabalho de campo - Arquivo Pessoal
  • Professor Allaoua Saadi na Serra do Caraça - Arquivo Pessoal


Bacharel em Geografia Física, mestre em Geografia e Planejamento Ambiental e doutor em Geomorfologia, Allaoua Saadi, professor do Instituto de Geociências da Universidade Federal de Minas Gerais e grande estudioso da Serra do Espinhaço, conversa com o Descubraminas sobre os aspectos geológicos e geomorfológicos de Minas, terremotos na RMBH, planejamento turístico do Estado, e muito mais...


“Pensar no que é bom ver na Serra do Espinhaço é assumir a tarefa de resumir o infinito, enquadrar o intangível, materializar a viagem nos sonhos. Muito mais do que a Vesperata de Diamantina e as cachoeiras de Milho Verde ou do Tabuleiro, o casario do Serro e o Congado de Datas, é o infinito resto que toca mais ao sentir do que ao ver e ouvir...”


Por Roberta Almeida

Descubraminas - A atividade mineradora, embora tenha relevante importância para a economia de Minas Gerais, acarreta inevitáveis impactos ambientais. Quais seriam as soluções para que o exercício da mineração seja mais sustentável?

Allaoua Saadi -
Em primeiro lugar, para que a mineração seja (mais) sustentável é preciso que sua contribuição ao PIB (municipal, estadual e federal) seja menor em uma matriz econômica mais diversificada. Portanto, é preciso que prefeitos e governadores de territórios “ditos” mineradores obrem para esta diversificação, no lugar de comportarem-se apenas como gastadores, e maus, dos fartos recursos oriundos de impostos, CEFEM (Compensação Financeira sobre Produtos Minerais) e outras royalties, além de corromperem seus cidadãos com políticas populistas alimentadas por compras de votos.

Em segundo lugar, é necessário pensar em práticas de maior racionalidade ecológica, tais como, no caso da mineração de ferro: submissão prévia dos projetos minerários a julgamento popular de interesse público antes de seguir para os estudos ambientais, afastamento das áreas urbanas e rurais densas, proibição de sua implantação ou permanência em territórios turísticos, beneficiamento obrigatório do minério a seco, retorno obrigatório das águas utilizadas pelos minerodutos às suas regiões de origem, proibição do transporte rodoviário de minério, mesmo que seja de curta distância, recuperação do passivo ambiental acumulado com custeio por um rateio entre as empresas atualmente em atividade, projetos de recuperação das áreas mineradas alicerçados em demandas de interesse social, local e/ou regional, fiscalização séria e proativa por parte dos órgãos ambientais e do Poder Público, entre outros.


DM - No Quadrilátero Ferrífero, por exemplo, já podemos verificar os impactos hídricos causados pela extração de minério. Podemos dizer que a falta de gestão adequada desses recursos também vem causando a crise hídrica no Alto do Rio das Velhas?

AS -
Este tipo de crise não se limita ao Alto Rio das Velhas, que é um bom exemplo para análise dos conflitos hídricos no Quadrilátero Ferrífero. Também, a crise hídrica não encontra suas causas somente na atividade minerária. A maior parte desta bacia transformou-se em um campo de batalha para o desfrute das águas dos rios, lagoas e aquíferos. A mineração de ferro usa a água no processo de beneficiamento principalmente, gerando riscos de poluição dos rios, ao mesmo tempo em que altera o balanço hidrológico global com o rebaixamento dos lençóis freáticos e o bombeamento de suas águas de dentro das cavas.

A mineração subterrânea de ouro gera sua energia elétrica graças às águas armazenadas pelo sistema de lagoas interligadas que ela implantou há décadas na depressão do sinclinal Moeda. A expansão dos espaços construídos (muitos já concretizados além de outros grandes projetos) - expansão urbana, condomínios residenciais de luxo, loteamentos mais ou menos regulares – expressam demandas suplementares para abastecimento doméstico, após terem contribuído fortemente ao assoreamento dos mananciais (rios e lagoas).

Inúmeras estradas de terra e trilhas, usadas por bikeiros e motoqueiros, contribuem significativamente ao assoreamento dos rios. O novo distrito industrial de Itabirito, à margem da BR-040 onde já se ergue a enorme usina da Coca Cola, veio aumentar a pressão sobre a demanda hídrica. Não podemos também omitir o impacto da erosão sobre a disponibilidade hídrica, tendo em vista que grandes áreas de voçorocas, como nas bacias dos rios do Peixe e Itabira, transferem grandes volumes de sedimentos para as calhas dos rios e as lagoas.

Trata-se de uma visão ainda superficial dos elementos que alimentam os conflitos já existentes e aqueles em processo de configuração. À exceção de curtos episódios de seca acentuada, a oferta pluviométrica permanece inalterada, mas não se pode dizer o mesmo da disponibilidade ao usuário enquanto a demanda aumenta permanentemente. E o futuro já preocupa seriamente os grandes usuários. Conforme assistimos regularmente à eclosão de conflitos entre alguns dos usuários em presença, fica clara a ausência de um plano de monitoramento e gestão eficiente das águas da bacia.


DM - O senhor realizou um estudo sobre terremotos no Brasil, soterrando o mito de que o País está livre dos sismos. Só este ano, vários terremotos foram registrados na Grande BH. Quais orientações devem ser dadas aos moradores de cidades que sentiram o tremor, como Esmeralda, Betim, Contagem e Ibirité?

AS -
Na verdade, meu trabalho apenas alimentou uma caixa de ressonância sobre o fenômeno nos cursos de geografia e geologia, o que acabou refletindo mais na mídia e no conhecimento popular. O que aconteceu na Grande BH não é algo que destoa do comportamento sísmico do território brasileiro em seu conjunto. Várias regiões experimentaram o mesmo ao longo dos últimos séculos. O que mudou, hoje, é a existência da detecção instrumental associada ao melhor fluxo da informação.

Portanto, os moradores da Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH) podem continuar a viver do mesmo modo, pois é baixa, tanto quanto imprevisível, a probabilidade de ocorrência de sismo com magnitude muito maior. O contexto da sismicidade que afeta esta porção do território brasileiro não exige e nem justifica medidas específicas, exceto nos casos de implantação de grandes empreendimentos ou equipamentos específicos. No entanto, algo na sismicidade é realmente imprevisível e espero que ela não venha contradizer o que acabo de opinar.


DM - A propósito, tremores de terra em cidades mineradoras, como Rio Acima e Nova Lima, tem alguma relação com minas subterrâneas?

AS -
O que se pode dizer é que os sismos conhecidos até hoje, na região, não tiveram suas causas relacionadas às atividades mineradoras, embora esta relação exista em vários casos conhecidos no mundo. O caso mais atual é a forte sismicidade induzida pela extração do gás de xistos, em estados norte-americanos.


DM - Uma das ferramentas para o planejamento do turismo é a criação de bancos de dados e mapas para acompanhar a evolução da exploração da natureza, caracterizando, inclusive, paisagens com potencial para a segmentação turística. Como a cartografia pode ser utilizada no processo de aproveitamento dos produtos turísticos?

AS -
O universo atual das geotecnologias permite enormes possibilidades de cartografia automática apoiada em Sistemas de Informação Geográfica (SIG). Bancos de dados, praticamente sem limitações de tamanho e nem de localização, interagem com bases cartográficas e imagens de satélites e/ou drones, sendo gerenciados a partir de softwares abrigados em notebooks e cada vez mais acessíveis em termos de uso e custo.

Os resultados se transformam diariamente em produtos acessíveis a partir de notebooks, tablets ou smartphones. São plataformas cartográficas digitais onde se identifica atrativos de todos os tipos (naturais, culturais), tanto nas áreas urbanas como rurais as mais distantes do planeta, se observa fotografias, se visita (virtualmente) meios de hospedagem e museus, se calcula distâncias e tempo de percurso bem como custos de viagem, se faz conduzir ao destino escolhido pelo GPS, entre outros.

Os algoritmos que sustentam todas essas aplicações fazem, também, da moderna cartografia um instrumento de análise espacial multitemática que, muito mais do que suporte à localização geográfica, auxilia a compreensão das dinâmicas territoriais e, consequentemente, a tomada de decisões. Isto, claro, quando o usuário parte do ponto de vista de que essas plataformas são somente instrumentos que dependem de sua capacidade (a ele) de pensar. Infelizmente, deste ponto de vista, o turismo ainda se contenta, na maior parte das vezes, de utilizar esses recursos para o marketing e a alimentação de aplicativos visando tão somente o melhor aproveitamento da atratividade turística.

Nesse sentido, há muito para se fazer no campo do planejamento territorial do turismo. No que tange à RMBH, sei que um grupo de pesquisa ligado ao Curso de Turismo da UFMG, composto pelas professoras Mariana Lacerda, Fabiana Bernardes e Márcia Lousada, tem se constituído para desenvolver atividades de pesquisa-ação contínuas enfocando o universo das relações potencial/limitações do desenvolvimento turístico regional, com base em ideias bastante inovadoras.


DM - Vemos em Belo Horizonte distorções no uso e na ocupação dos espaços geográficos devido à vasta implantação de empreendimentos. De que maneira um mapa geomorfológico pode ser utilizado no intuito de orientar o desenvolvimento do município?

AS -
Um Mapa Geomorfológico não é um produto normatizado, nem em suas finalidades e muito menos nos conceitos básicos que sustentam sua elaboração. No Brasil, bem como na RMBH, vários órgãos públicos já produziram muitos tipos de mapas geomorfológicos com o objetivo de usá-los em projetos diversos. Infelizmente, quase todos foram sustentados por visões fisiográficas da paisagem, transformando-os em documentos descritivos de unidades de relevo.

Fica óbvio que, dentro deste enfoque, esta tarefa pode ser superada, simplesmente, por uma boa análise de um mapa topográfico. Não é mister que se confunde, frequentemente, um Modelo Digital de Terreno (MDT) com um mapa geomorfológico. O que é necessário em um Mapa Geomorfológico útil para objetivos de planejamento territorial é, primeiramente, a definição precisa da finalidade atribuída ao mesmo, que deve incorporar uma visão clara do problema a atacar e os elementos da paisagem implicados.

O que se necessita é a idealização de um Mapa de Geomorfologia Aplicada ao... (problema enfocado). Deste modo, em qualquer situação, o foco será colocado na identificação e representação da dinâmica geomorfológica e dos processos e agentes controladores, destacando os de origem natural daqueles criados pelo homem. Também, trata-se de algo que deva distanciar-se das ideias pré-estabelecidas sobre a predominância de um ou outro fator. A representação da fisiografia, incluída na cartografia, servirá de pano de fundo que venha contextualizar as condições locais e regionais dos processos dinâmicos em curso.

Isto feito, poder-se-á dispor de informações que dialogam com as condições geotécnicas e hidrológicas-hidrogeológicas, no objetivo de conceber respostas e soluções efetivamente eficazes para o delineamento da ocupação do espaço geográfico.


DM - Criado para facilitar o trânsito de ouro e diamantes de Minas Gerais até os portos do Rio de Janeiro, a Estrada Real é a maior rota turística do país. O senhor acredita que esse roteiro é realmente consumido como um produto turístico?

AS -
A chamada Estrada Real é um conjunto de caminhos extremamente emaranhados por onde se tinha obrigação de transitar ouro e diamantes, extraídos principalmente do Estado de Minas Gerais, rumo aos portos de embarque para Portugal, facilitando, portanto, a cobrança dos impostos pelos agentes da Coroa Portuguesa. De fato, em termos de distância total trata-se de um projeto de rota turística que atende à afirmação.

Quanto ao seu consumo enquanto produto turístico, a questão continua no ar. O projeto foi concebido a partir de uma ação voluntarista lançada pela FIEMG, sob coordenação do empresário Eberhard Hans Eichinger e com recursos do BID. O Estado de Minas Gerais, enquanto entidade pública, acabou adotando o projeto e nele contribuindo com investimentos. A própria FAPEMIG investiu recursos para financiar projetos de pesquisa-ação dos quais minha equipe foi beneficiária no âmbito da UFMG. Atualmente o SESI, em colaboração com outras entidades, está envolvido em projetos setoriais com o “Entre Serras: do Caraça à Piedade”, que procura consolidar uma rota religiosa entre duas referências culturais e religiosas do Estado de Minas Gerais. O traçado da Estrada Real foi sinalizado, comunidades e empresários locais foram sensibilizados, cursos de formação aos ofícios da hospitalidade foram ofertados à demanda dos municípios. Parecia que tudo tinha sido feito para que este produto se transformasse em algo revolucionário.

Faltaram: a consolidação de um conceito muito menos do que uma simples denominação, a humildade necessária para envolver as universidades públicas como parceiras e não somente como fornecedoras de estagiários, a tessitura de uma continuidade da atratividade nos caminhos ligando estações urbanas, uma inserção da paisagem como um elemento consolidador dos vazios interurbanos, uma estratégia segura para o envolvimento permanente das populações rurais vivendo em meio a esses vazios (mesmo que fosse por incentivo financeiro direto), ações de manutenção permanente dos raros equipamentos turísticos implantados ao longo da rota (a estrada Ouro Branco – Ouro Preto é o melhor sinal do desperdício de recursos públicos no turismo), uma articulação do projeto inicial Estrada Real com o PRODETUR Nordeste que, por estender-se ao Vale do Jequitinhonha, estabeleceria a conexão com a região de Diamantina.

Atualmente, posso fornecer apenas uma ideia do consumo desta rota enquanto produto turístico, através dos resultados do Passaporte Estrada Real, pois sou sócio do Ecocentro Escarpas do Caraça que, na cidade de Catas Altas e atendendo a demanda do Instituto Estrada Real, funciona como ponto de carimbo deste passaporte cujo objetivo é a consolidação da identidade da rota, tendo como público alvo cicloturistas, andarilhos, cavalheiros e off-road´s. Para obter o certificado de conclusão da rota, os participantes devem comprovar a passagem em 36 postos de carimbo, sendo 14 no Caminho Velho, 10 no dos Diamantes, 8 no Novo e 4 no Sabarabuçu.

O resultado é o seguinte no que diz respeito à rota Paraty/RJ-Diamantina/MG: de maio de 2014 a abril de 2016, foram retirados 3.815 passaportes, sinalizando um aumento, no período, de 45,3%, mas somente 1.425 certificados já foram liberados, ou seja, uma taxa de conclusão da rota de 37,35% em dois anos. Os meses de maior retirada de passaporte correspondem aos meses centrais dos períodos de férias, janeiro e julho, e as cidades de maior retirada são Diamantina e Ouro Preto. Quanto aos usuários registrados nos últimos 12 meses, predominam os paulistas com 31,12%, seguidos pelos mineiros com 26,83% e os cariocas com 14,63%, os estrangeiros contribuindo com apenas 0,3%. Fato digno de nota é que a repartição por sexo dessa população não corresponde aos dados do IBGE: 2/3 são do sexo masculino e apenas 1/3 do sexo feminino.

Apesar da nítida tendência de crescimento da demanda de passaportes, fica claro que a visitação da rota, vista por este ângulo, não atendeu ainda às expectativas criadas pelo projeto tão alardeado. O que se extrai da análise dos dados é que a rota, ou melhor, parte dela correspondente à Serra do Espinhaço, é vista como um espaço de prática esportiva ao ar livre em meio a paisagens deslumbrantes. No entanto, investigações pessoais, junto aos participantes que procuram o carimbo e/ou a hospedagem no Ecocentro Escarpas do Caraça, revelam que nem todos têm ou dedicam o tempo necessário ao desfrute dessas paisagens. A maior parte nem procura visitar os atrativos da cidade/região onde pernoitam, pois o caminho é longo e as dificuldades muitas. O importante acaba sendo o de conseguir o carimbo enquanto troféu a exibir nas rodas de amigos. Uma rota de solidão masculina durante os períodos de férias?

Em suma, o empresário que apostou no projeto para realizar importante investimento em função deste projeto, fora de centros urbanos que lhe propiciam outras clientelas mais ávidas de festas com shows de bandas de sertanejo universitário ou com festivais de cervejas artesanais, tem feito um mau negócio. A mesma história que resultou da promessa feita pelos governos estadual e federal de duplicar as rodovias convergindo para BH, enquanto condição para a acessibilidade dos turistas vindos para a Copa de Futebol. Os investimentos foram feitos e as rodovias, à terrível imagem da BR-381, continuam matando aqueles que se atrevem a buscar um lugar turístico para seu fim de semana.


DM - O senhor tem estudos sobre a Serra do Espinhaço em Minas e suas margens. Para o turista que visita Minas Gerais, o que é importante saber sobre a Serra do Espinhaço?

AS -
A Serra do Espinhaço mineira delineia uma cordilheira contínua de sul a norte, entre as cidades de Nova Era e Montezuma, no entanto com um indescritível mosaico de paisagens e atmosferas. O Hino Folclórico de Minas ressalta seus:

“Lindos campos batidos de sol, ondulando num verde sem fim
E montanhas que à luz do arrebol têm perfume de rosa e jasmim
Vida calma nas vilas pequenas, rodeadas de campos em flor.
Doce terra de matas amenas, paraíso de sonho e de amor.”

Euclides da Cunha já revelava que “A serra de Grão Mogol, raiando as lindes da Bahia, é o primeiro espécimen dessas esplendidas chapadas imitando cordilheiras, que tanto perturbam aos geógrafos descuidados”.

E no caminho de uma ponta para outra, entende-se o sentido das palavras de Milton Nascimento e Fernando Brant: “No caminho dessa cidade... passarás por Turmalina... sonharás com Pedra Azul... viverás em Diamantina.”

Pensar no que é bom ver na Serra do Espinhaço é assumir a tarefa de resumir o infinito, enquadrar o intangível, materializar a viagem nos sonhos. Muito mais do que a vesperata de Diamantina e as cachoeiras de Milho Verde ou do Tabuleiro, o casario do Serro e o congado de Datas, é o infinito resto que toca mais ao sentir do que ao ver e ouvir.

Dizer aos turistas, o quê: os campos rupestres que abrigam jardins floridos em meio às cristas de quartzitos; os lençóis de sempre vivas que no alto da Chapadinha de Cuiabá se transformam em tapetes dourados ao pôr do sol; as pontas de lança das pedras inclinadas que brincam descompromissados namoros com as luzes de todas as horas; as brancas e lascivas praias das curvas de riachos e córregos; o glorioso céu do sol poente sobre a Chapada de Acauã; e a ofuscante claridade dos lajedos de Cristália e Botumirim; a incrível sensibilidade da gente das chapadas de Turmalina, Chapada do Norte, Minas Novas e dos muitos grotões rebrotada em obras de artesanato-arte, e nisto aí a força e empoderamento das mulheres de Campo Alegre e Coqueiro Campo; e o jeito amigo, mas furtivo, da gente garimpeira de Guinda, Sopa e São João da Chapada.

A macia formosura metálica dos morros de Pedra Azul; as lunares reentrâncias das voçorocas de Gouveia que ensinam o natural ciclo da vida e da morte além da morte que regenere a vida; o curso do rio Jequitinhonha que vence os boqueirões do planalto de Diamantina para ser dominado pela represa de Irapé e termina num lânguido serpenteio ao pé dos chapadões de Araçuaí, Jequitinhonha e Almenara; a saudade das quedas de Salto da Divisa que a besteira dos dirigentes de nosso estado entregaram à inundação de uma barragem baiana, roubando a alma e o próprio nome da cidade.

Seria cometer muita injustiça com muitas outras paisagens e gente, vilas e testemunhos de uma história de escravidão e dominação, luminosidade e musicalidade, autenticidade cultural e expressões de uma nova modernidade. Precisa, simplesmente, dizer ao turista que há muito mais do que está no marketing dos “polos” turísticos.


DM - Quais práticas devem ser adotadas pelos mineiros, visando o desenvolvimento sustentável do turismo em Minas Gerais?

AS -

1 - buscar a compreensão cultural dos lugares e sua gente;
2 - transformar-se em algo poroso para absorver a experiência;
3 - tratar a rua daquela vila como a sala de sua casa, em todos os sentidos;
4 - pagar o produto local pelo que vale;
5 - deixar ali algo de si que seja realmente proveitoso para o local.

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