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Titane - Outubro 2014

  • Belo Horizonte - Artista mineira conversa com o Descubraminas.com - João Castilho

Com influências do congado mineiro, Titane aborda temas ligados às manifestações culturais populares em seus trabalhos e adiciona um toque especial às apresentações que faz por Minas Gerais, pelo Brasil e pelo mundo. Descubra a trajetória dessa peculiar artista no Descubraminas.com.


"A gente fincou o pé aqui. Queríamos conhecer o mundo, mas nunca com a ideia de que Minas não tinha futuro. Pelo contrário: sempre acreditamos que o futuro também estava aqui."


Por Roberta Almeida

Descubraminas - Você nasceu em São João del-Rei, mas foi criada em Oliveira, cidades de fortes tradições folclóricas. O interesse em desenvolver trabalhos associados às manifestações culturais teve início em sua região de origem?

Titane -
Eu tive uma formação cultural muito viva. Até os 15 anos, minha formação não era nem através de discos, era muito de ver as pessoas fazendo música. Oliveira é uma cidade muito musical. O ano todo tem festas, quer dizer, o ano começava com o Carnaval, com muita música e blocos de rua. Depois vinha a Semana Santa, com banda de música, o canto da Verônica e o coro. Em seguida, vinha a Festa do Rosário, que tinha aquela beleza não só do ponto de vista musical, como também estético e artístico.

Então eu fui muito formada por isso e minha família também é muito musical. Meus tios se encontravam para cantar em praticamente todas as reuniões familiares e eu conheci clássicos da música brasileira, como Noel Rosa e Chico Buarque, ouvindo meus tios cantarem. Meu pai ligava o rádio de manhã cedinho. A gente já acordava com aquela música caipira. Então, até os 15 anos eu acho que é muito definitivo o que você vive, acredito que minha sensibilidade musical foi muito definida por essas festas de rua. A cultura dos shows, por exemplo, eu só fui absorver depois dos 16, 18 anos.


DM - Em seus trabalhos você vincula a música às artes cênicas, a movimentos corporais e à ideia do contato com o coletivo. Como acontece a integração dessas artes em seu processo criativo?

T -
Dentro da música eu sou especialmente uma intérprete, mais do que uma compositora, mais do que dominar um instrumento harmônico. E, como intérprete, minha vida é feita em cena. Sou muito mais uma cantora de palco do que de estúdio. Então eu tive que desenvolver uma linguagem em cena para convencer meu público. Tenho prazer de investigar o uso da voz e do corpo e o trabalho acaba tendo sempre uma característica cênica muito evidente, e, para completar, houve um momento na minha vida que encontrei artistas muito importantes, como Klauss Vianna, que é bailarino.

Fui aluna dele e minha técnica vocal foi toda desmanchada e reconstruída com a técnica da consciência corporal dele. Quando você canta, o esforço físico fica tão evidente, é tão expressivo, que o cantar também ganha expressão cênica. Há um prazer muito grande e o esforço técnico está distribuído por todo o corpo. Então, o corpo ganha muita projeção em cena e essa projeção começa a se confundir com a linguagem das artes cênicas. Meu encontro com as artes cênicas vem muito de encontro com a minha performance de intérprete.

Às vezes, as pessoas dizem que sou meio atriz, mas eu digo que sou uma cantora, uma intérprete. O meu ponto de partida é musical, mas sei que em cena isso acaba tendo uma expressividade muito grande e que se mistura com as artes cênicas. Em outro momento, cruzei com o diretor de teatro João das Neves e desde que ele dirigiu meu primeiro show a gente nunca mais se desgrudou. Então, a experiência com essas pessoas traz, sim, ao meu trabalho muito das artes cênicas.

E tem também essa minha ligação profunda com as manifestações populares, que representa a ideia do coletivo. No congado, por exemplo, não existe separação entre canto e dança e tem também a contação de histórias, que é bem teatral. O congadeiro canta, dança e conta história ao mesmo tempo, não existe essa separação, então eu sempre persegui isso por puro prazer. Meu último trabalho, "O Campo das Vertentes", é um esforço claro disso: tocar, cantar e dançar.


DM - Em seu repertório encontramos músicos da nova geração, clássicos da MPB, temas instrumentais, canções tradicionais e influências do congado mineiro, além de manifestações artístico-religiosas de raízes afro-brasileiras. Como você equilibra tradição e modernidade?

T -
Acho que essa não é uma característica apenas minha, mas sim uma característica da arte contemporânea. Eu acho que tudo que se produz hoje é muito híbrido e, ao produzir, o artista bebe de várias fontes. Eu nasci como cantora na década de 80 e já havia o prenúncio disso, que veio aflorar com a virada do século. Quando fiz meu disco "Inseto Raro" (1996), diziam que a gente era eclético. Nunca entendi se isso era um elogio ou uma depreciação, mas a verdade é que todo mês eu cantava em São Paulo e no Vale do Jequitinhonha. Então, esse ecletismo na verdade era a diversidade que tínhamos, chegando de uma maneira avassaladora dentro da música brasileira.

Foi um período de início de quebra de paradigmas de mercado porque começou a surgir a produção independente, livre das grandes gravadoras que dominavam o mercado. O que eu sentia nos anos 1980 era que dentro do segmento de mercado consolidado não tinha lugar para mim, para o que eu queria fazer. Sou inclusive de uma primeira geração de músicos que se estabeleceu em Minas, no sentido de que a gente não migrou para acontecer fora e depois voltar para Minas Gerais. Então, foi quando os grandes centros econômicos, sociais e culturais começaram a implodir. A gente fincou o pé aqui. Queríamos conhecer o mundo, mas nunca com a ideia de que Minas não tinha futuro. Pelo contrário: sempre acreditamos que o futuro também estava aqui.

Quando eu falo que nos estabelecemos aqui criando linguagem, vivendo como artistas, criando um mercado de trabalho e uma linguagem musical, é porque, até então, você podia sobreviver aqui trabalhando em estúdio, em bar, fazendo jingles ou dando aula, e eu nunca me adaptei a essas atividades, tinha que ser o palco. E nesse momento a música que eu fazia conversava com as fontes do mundo todo, inclusive com as culturas populares e afro-mineira, que ainda não eram absorvidas pela música brasileira. A música mineira era chamada de regional, como sendo uma coisa menor e localizada. Sou filha de um encontro cruel entre a cultura branca e a negra. A escravidão é uma coisa muito recente. O mundo anda rápido, as tecnologias andam e a gente tenta acompanhar, mas a psicologia humana não acompanha.


DM - Você começou suas atividades musicais no início dos anos 1980 e, desde então, apresenta trabalhos com características bem mineiras, como os discos "Titane" (1985), "Verão de 2001" (1990), "Inseto Raro" (1996), "Sá Rainha" (2000) e "Ana" (2008). O que a cultura mineira representa para você?

T -
Aos 28 anos, eu saí daqui e fui para São Paulo. Foi quando encontrei Klauss Vianna. Fui disposta a cortar todo tipo de vínculo que eu tivesse com tudo e comigo mesma, digamos assim. Senti que eu precisava viver alguma coisa muito diferente do que eu já tinha vivido e me dispus a tudo. Acontece que nesse caminho percebi que era muito mais ligada à Minas do que imaginava. Percebi que minha arte era a projeção da minha cultura e essa independência artística me mostrava que, quanto mais fiel a mim eu fosse, mais característico meu trabalho seria.

Então esse é um território de grande liberdade individual, pois é a liberdade do indivíduo que promove a criação artística. Quanto mais o indivíduo é fiel a si mesmo, mais ele vai fundo na sua alma, mais ele vai encontrar sua cultura de origem: é inevitável! Eu realmente sempre fui muito fundo, sempre gostei dessa investigação, sempre precisei dela.

A gente procura na própria individualidade, mas encontra dentro dela uma cultura coletiva muito grande. Então eu decidi por esse casamento. Naquele momento, a cultura mineira representava tudo que eu era. Essa cultura nossa de origem não é uma coisa estática, está em permanente evolução, vai crescendo. Às vezes eu acho até que o artista é a evolução de certa cultura. Então, acredito que a cultura mineira representa isso pra mim.


DM - Em uma entrevista, você afirmou que aprendeu a música "Tirana da Rosa" com Frei Chico e Lira Marques. Como você se sente ao passar adiante o saber popular do Vale do Jequitinhonha?

T -
Tem muita gente que até acha que eu sou do Vale. Fui muito bem recebida e aprendi muito a cantar lá. Tenho um timbre agudo, mas quando comecei era completamente anti-radiofônico. Estava no auge do investimento no rock nacional. Então, a voz das mulheres era grave e rouca e a minha era muita clara e limpa. Mas as mulheres do Vale cantam assim e aquilo me arejou a cabeça. Eu gostava muito de vê-las cantando, me identifiquei e fiquei feliz.

O que eu posso dizer é que o Vale do Jequitinhonha é uma das maiores fontes musicais do país. A cultura musical da região é de uma exuberância inesgotável e ela poderia ter se perdido, no entanto, no momento em que Frei Chico e Lira começaram a sistematizar, a estudar, pesquisar, guardar aquele material e colocar à disposição de outras pessoas, novos projetos de preservação da cultura foram criados, como todos os corais de trovadores do Vale.

Aquilo ali deu tão certo e as pessoas entenderam tão bem que virou uma forma de ser, artística, daquele coral. Então o Vale possui pérolas e informações que não segura para si, ele joga para o mundo. Tive a sorte de ser levada para lá pelo Rubinho do Vale e sinto saudades, tenho vontade de voltar para lá e "Tirana da Rosa" é uma das músicas que trouxe na minha boca e nunca mais saiu. Existem muitas versões dela. A que eu canto foi organizada pelo Frei Chico. Ele transformou os versos em uma canção com começo, meio e fim.

Eu já a peguei daquele jeito e a maneira como eu canto reforça ainda mais essa ideia de canção. Eu quis construir de uma maneira que não soasse somente como medieval ou do Vale ou MPB. Eu queria uma estrutura que não se fechasse em um tempo específico. Então, propus a utilização de recursos de todas as épocas, várias culturas.


DM - Por ter aprendido tantas coisas nessa região, você acha que representa o Vale?

T -
No instante em que eu estou cantando uma música de lá, com certeza eu sou uma porta-voz daquela cultura. Não é que eu me arvoro de ser representante de nada, mas eu sei que ao aprender uma música de um lugar e espalhá-la pelo mundo, mesmo que seja com uma versão pessoal minha, tenho que deixar o mais claro e explícito de onde que saiu aquilo.


DM - Já em "Titane e o Campo das Vertentes" (2009) você explora e valoriza a riqueza cultural dessa região mineira. Como surgiu a ideia desse espetáculo?

T -
Há muito tempo. Eu queria um elenco grande comigo porque gostaria justamente de experimentar como era colocar em cena um grupo que pudesse desenvolver uma música a partir da cultura afro-mineira, da cultura musical. Então, eu queria colocar todo mundo cantando, tocando e dançando. Escolhi o Campo das Vertentes porque sabia que os ritmos pertencentes ao congado mineiro não são de fácil absorção. Acreditei que trabalhando com as pessoas de lá, eles me entenderiam melhor, pois já tinham esse costume e, realmente, foi o que aconteceu. Trabalhei com o pessoal de Belo Horizonte, Itapecirica, Oliveira e Divinópolis. Sendo congadeiro ou não, já tinha essa sonoridade na cabeça, uma pulsação dentro do corpo. Essa afinidade ajudaria muito no projeto.

Depois procurei o Makely e o Sérgio Pererê. Eu sempre recorro ao Makely quando quero colocar o pé no chão. Ele é um artista que não tem pudor e tem na música uma poesia muito rica, são formas musicais simples, que fluem com facilidade. Então eu poderia fazer um trabalho musicalmente consistente sem exigir demais desse coro, quer dizer, eu já estava pedindo muito que eles dançassem, tocassem e cantassem. Eram jovens sem experiência artística.

A mesma coisa fiz com Sérgio Pererê, que tem uma música muito consistente e as pessoas aprendem facilmente. Isso era importante tanto para o elenco, quanto para o público. No entanto, o Pererê era o contrário do Makely, pois ele já é do mundo sagrado, gosta de lidar com essa sacralidade de matriz africana, a sacralidade dos quarteis de congado mineiro. A união deu certo, os jovens eram muito dispostos e tinham muita vontade de trabalhar. Tivemos uma experiência muito boa desse ponto de vista porque as primeiras oficinas foram realizadas com recurso público da Lei de Incentivo à Cultura e elas tiveram um efeito multiplicador maravilhoso.

Quando fui gravar o DVD "Campos das Vertentes", anos depois, porque demorou a saírem recursos, fiquei sem saber como faria para juntar todos os meninos novamente e aí utilizei como critério chamar aqueles que continuaram na carreira artística. Achei 22 que disseram que a experiência conosco foi definitiva. Esta experiência foi, portanto, um núcleo de formação artística. E quando eu decidi vir para BH, em 1980, vim porque aqui seria uma consolidação para mim, mas hoje vejo que o interior de Minas também é um centro formador de arte contemporânea. Então, nós criamos um ambiente para que estes jovens que sentem um impulso artístico possam experimentar a criação com liberdade, sem pensarem que estão sozinhos, para que percebam que a arte não é uma profissão instável.


DM - Em 2008, foi fundada em Belo Horizonte a Associação Campo das Vertentes. Qual é o objeto desse projeto? A associação ainda existe?

T -
Existe. Ela agora funciona junto com a UFMG e estamos fazendo um trabalho com indígenas. É um texto do João (das Neves) produzido há vinte anos e será montado um espetáculo no mesmo esquema das oficinas. A associação foi formalizada em 2008 e o primeiro objetivo é a formação artística integrada à experiência de montagem de espetáculo.

É uma associação artístico-cultural que trabalha com recursos de lei de incentivo. Mas mesmo depois que os projetos acabam, algumas peças continuam. Agora temos dois espetáculos em cartaz, o "Campo das Vertentes" e a "As Santinhas e os Congadeiros", feitos somente com membros de comunidades de Congado do interior de Minas.


DM - Com uma vida dinâmica, você também produziu os trabalhos "Voo das Garças", de Zé Coco do Riachão, e "Negros do Rosário", um registro da sonoridade do congado mineiro. Você continua a produzir trabalhos de outros artistas?

T -
Eu produzo muito eventualmente. Normalmente me envolvo na produção de projetos que tenho um impulso pessoal, como se fosse quase que uma necessidade minha. Nesses dois casos eu produzi porque não existiam discos sobre isso, e eu, dentro da festa do Rosário de Oliveira, sou de uma Guarda de Catupé. Então, naturalmente produzi o disco de lá.

O Zé Coco também estava produzindo os discos dele no período em que fazíamos os encontros populares no interior e foi uma iniciativa dele. Então a gente fez: foi um disco importante porque foi o único que ficou como propriedade dele. Foi feito praticamente com uma direção musical dele e, às vezes, o produtor decide que não será assim e o artista fica insatisfeito.

Depois disso, não produzi mais discos, mas produzi vários outros trabalhos, como uma grande ida a Ouro Preto das guardas de Congado, alguns festivais. O Campo das Vertentes mesmo foi uma produção que precisou de um público grande. Atualmente, eu coordeno o projeto "Iaiá", que também é um trabalho que mistura formação com espetáculo. Tenho muito prazer em fazer isso e abraço com muito carinho.


Papo de Mineiro

DM - Quem é ou foi verdadeiramente mineiro?
T -
Guimarães Rosa.

DM - Aquela música que tem a alma de Minas?
T -
"Ponta de Areia" de Milton Nascimento e "Estrela Natal" de Sérgio Pererê

DM - Qual artista melhor representa Minas?
T -
Milton Nascimento.

DM - Adoro um bom prato de...
T -
Variados. Mas na minha casa sempre tem arroz, feijão, algum refogado, como abóbora, couve, e alguma carne.

DM - Em uma viagem, o que você sempre leva na bagagem para presentear?
T -
O novo disco de algum artista mineiro eu sempre levo para presentear.

DM - Atlético, Cruzeiro ou América?
T -
Cruzeiro.

DM - Cidade grande ou campo?
T -
Uma terceira via. Minha terceira via tem água e ar limpo.

DM - Quando estou fora de Minas morro de saudades de...
T -
Não sei se é saudade, mas é vício em pão de queijo.

DM - Minas Gerais é...
T -
Inesgotável, sem fim...


Estagiária: Júlia Savassi

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