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José Moreira de Souza - Agosto 2014

  • Belo Horizonte - José Moreira, presidente da Comissão Mineira de Folclore - Roberta Almeida

Esse mês, o Descubraminas conversa com José Moreira de Souza, presidente da Comissão Mineira de Folclore. Moreira esclarece o conceito de folclore, suas mudanças no decorrer do tempo, propostas voltadas para a preservação do saber popular e cartilha elaborada em parceria com o Sesc sobre tradições folclóricas.

"Folclore é o estudo do saber viver em alguma localidade que esteja incorporado profundamente na consciência das pessoas e nos grupos nos quais vivem."


Por Roberta Almeida


Descubraminas
- Em agosto, comemoramos o mês do folclore. Explique-nos melhor o que exatamente é folclore?

José Moreira -
Hoje há uma grande discussão e quase confusão quando se refere ao folclore. Nós temos insistido no seguinte: folclore é "o estudo do", ou seja, é identificado empiricamente. Às vezes as pessoas acham que o fato de estar passando um congado ou o ato de benzer alguém é folclore, mas não é. Isto é uma manifestação de um saber popular que interessa aos estudiosos do folclore. Essa conclusão foi tirada pelos próprios folcloristas na discussão sobre escrever folclore com a inicial maiúscula ou minúscula.

Concluiu-se, assim, que com "F" maiúsculo seria "o estudo do" e com minúsculo estaríamos nos referindo ao saber. Dessa forma, se considerarmos que o "saber viver" é o que interessa ao estudo do folclore, esse "saber viver" não é o folclore, mas sim a forma como é feita. É aquela velha questão das ciências modernas de não confundir o objeto de estudo com o objeto empírico. Então o que é o folclore? É o estudo do saber viver em alguma localidade que esteja incorporado profundamente na consciência das pessoas e nos grupos nos quais vivem.


DM - Quais manifestações englobam esse aspecto cultural?

JM -
Podemos citar aquelas que interessam ou as que são preferidas nos estudos, pois são exatamente essas prediletas que pautam determinadas políticas ou práticas da modernidade. Se olharmos, por exemplo, do ponto de vista de manifestações, temos um calendário que não é uma invenção moderna e o ser humano desde suas origens tem que responder ao tempo.

No caso de Minas e do Brasil, algumas manifestações obedecem rigorosamente ao nosso calendário, que é cristão com grande influência católica. Então é marcado pela religiosidade, sendo as datas mais importantes os Ciclos Natalino e da Quaresma, que é demarcado pelo Carnaval; ciclo pós-quaresma, com a Páscoa; ciclos Junino e do Rosário.

Assim, todas essas são manifestações populares de raízes profundas no saber popular, mesmo quando algumas políticas públicas tentem enquadrá-las, como é o caso do carnaval que originalmente é uma festa de ordem, mas é apresentada, na grande maioria dos casos, como a festa da desordem.


DM - Esse conceito sofreu alterações ao longo do tempo?

JM -
O conceito de folclore se modificou bastante, a própria palavra resulta de um movimento, no qual um arqueólogo chamado William John Thoms reivindica um nome novo. Este nome é folclore. O que ele quer com isto? Ele está preocupado com a Inglaterra que no ápice do processo de industrialização está perdendo suas raízes populares. Assim, esse primeiro momento rendeu algumas respostas, até que se criou o chamado "folklore society". No Brasil, as pessoas também se preocuparam com esse fator só que de maneira diferente porque não tínhamos industrialização. E ainda há um segundo momento em que esta questão começa a incomodar mais intensamente por ser pós-guerra.

A II Guerra Mundial trouxe esse novo momento que tem a ver com o saber popular, que foi a "celebração do pânico", devido ao impressionismo da bomba atômica. Nesse momento, a Unesco surge e interfere para que haja uma nova recuperação dos saberes nacionais. Mahatma Gandhi é um grande exemplo de como você pode pelo menos tentar fundar uma nação baseada nos saberes populares. É claro que é uma utopia, mas é um grande exemplo. As coisas, portanto, vão passando por ressignificações.

Na carta do folclore, chama-se a atenção ao fato de que os estudos folclóricos estão na área das ciências antropológicas. As comissões de folclore tiveram duas bandeiras, a primeira chama a atenção para o Estado e para o Governo, consequentemente, chamar a atenção dos governos para o fato de que existe povo. Povo tem um saber que deve ser respeitado e as políticas públicas não podem querer zerar isto. Esta primeira missão alcançou alguns resultados, no caso de Minas Gerais, a comissão foi reconhecida pelo governo do Estado com assinatura de Juscelino Kubistchek e da Assembleia Legislativa. Então, seria bom se de vez quando os governos reconhecessem que existe um grupo de pessoas voltado para pensar a questão do saber popular, mas o ideal mesmo é que a manutenção do saber popular exista na prática.


DM - Há 66 anos, a Comissão Mineira de Folclore foi fundada. Qual o objetivo da organização hoje?

JM -
Por um lado é ser reconhecida pelos governos enquanto uma preocupação com a gestão do saber popular. Hoje, existe uma divisão do trabalho intelectual e, quando se fala em saber popular, esse saber não merece divisão. Por exemplo, o cara que está dançando no carnaval não é um carnavalesco, é um sujeito que está participando junto com outros de toda uma encenação e essa manifestação irá repercutir no seu cotidiano. O folclore, enquanto estudo, é entendido pela academia como filosofia, história, física, química, matemática, música, letras, ou seja, o saber popular diante da modernidade pode ser entendido por todas as áreas. Hoje, há uma aproximação da Educação Física ao ensinar a meninada a usar determinados saberes populares da dança, como é o caso da quadrilha.

Por outro, a ideia da comissão é "sentir-se povo". Nosso lema é: "Atenção ao estudo do saber viver em Minas Gerais". Dessa forma, nos preocupamos com o código genético do folclorista, que é exatamente o lugar onde ele vive. Ele não sai para buscar, apenas registra o que está ao redor. A preocupação do folclorista ao realizar sua pesquisa é de sempre reverenciar o lugar onde aquilo ocorre, mesmo que aconteça do mesmo jeito em outros lugares. A partir do momento que você fixa seu saber na ordem local, você adquire a habilidade de dialogar com os outros, percebendo inclusive as diferenças.


DM - Minas Gerais possui diversas manifestações culturais que representam a tradição de um povo, como lendas, crenças, canções e costumes. Como garantir que essas manifestações continuem sendo praticadas?

JM -
Houve um momento no entendimento do folclore em que se preocupava muito com a preservação, mas hoje estamos mais focados em voltar a atenção para esses acontecimentos, quer dizer, é preciso uma atenção maior aos processos que caracterizam a mudança. Do nosso ponto de vista, o que é chamado de tradição como produto é apenas um registro das mudanças, por exemplo, quando a receita de um bolo é disseminada verbalmente pelas gerações, cada um, em cada momento, vai inventando um novo jeito de preparar essa receita, mas o registro de como fazer torna-se necessário para que essa manifestação continue a ser praticada, permitindo a mudança do original e ao mesmo tempo contribuindo para sua preservação, pois o original está totalmente aberto à mudança.

Então as práticas populares tradicionais como produto deveriam ser entendidas como processo, eu aprendo com o outro e nesse aprendizado tudo está mudando. Não existe humanidade sem tradição, portanto, não precisa assim ter essa preocupação com a preservação porque ela vai acontecer de uma forma ou de outra, naturalmente. Belo Horizonte, por exemplo, foi planejada por Aarão Reis para receber os moradores daquela época, mas hoje precisa de adaptações, o que significa que mesmo com as mudanças mantemos nossas tradições, pois Aarão Reis pensou em uma cidade que fosse legível, transparente e mais fácil de ser entendida pelo morador.


DM - Quais fatores influenciam determinada comunidade a adotar vivências que a diferenciam de grupos sociais que habitam a mesma região, como a comunidade dos Arturos em Contagem?

JM -
O caso dos Arturos pode ser explicado pelo processo histórico, voltado mais para a questão da formação étnica, mas é preciso pensar antes como se dá a formação dos lugares, refletindo sobre quais processos essa formação passa. Quando Belo Horizonte e região foram formadas vieram as pessoas para trabalhar nessas construções, mas o que não pensaram na época era onde esse trabalhadores iriam ficar, então a favela precede a cidade e a cidade cresce da periferia para o Centro. No caso de Contagem, temos a cidade industrial e a cidade operária, o povoado dos Arturos pode ser considerado uma periferia no Núcleo de Contagem que preserva sua vivência dentro desse centro repleto de variedades.


DM - Muitas pessoas pensam que o folclore abrange apenas costumes antigos. Seria muito limitado esse raciocínio? O folclore continua a surgir nos dias de hoje?

JM -
Um dos melhores caminhos para entendermos o saber popular é o mito porque nada existe sem ele. As pessoas que vivem em determinado local precisam ter um mito para viverem nesse lugar e para ser mito precisa ser celebrado, não existe maneira de conviver sem ele, pois se há a celebração, há mito e isso não pode ser inventado, ele brota por meio do reconhecimento, logo, quando é celebrado. Assim acontece com os monumentos de Aleijadinho, uma coisa criada e celebrada aqui em Minas.

Outro exemplo são as manifestações que apareceram depois do Festival de Inverno de Ouro Preto, em 1967, que não é um costume tão antigo e já é celebrado pelo povo. Esse festival nada mais é do que a celebração da cidade, que dialoga com várias áreas, tanto que depois disso surgiram os festivais de corais, por exemplo, que são as novas manifestações. E são nessas manifestações práticas que o olhar do folclorista vai encontrar a celebração plena ou o ideal de celebração.


DM - O senhor acredita que os moradores das cidades do interior têm mais ligação ou levam mais a sério a prática desses costumes?

JM -
Do ponto de vista do estudo do folclore, não. No entanto, há determinadas áreas onde o saber transmitido de pessoa para pessoa não existe e acaba que esse valor se perde, e isso acontece principalmente em grandes centros. Uma pessoa pode aprender determinado ofício participando de cursos, mas há muitos trabalhos que são passados de pai para filho, quer dizer, o aprendizado é quase que todo direcionado pelo "aprendendo com quem faz".


DM - A Comissão está preparando uma cartilha, em parceria com o Sesc, sobre tradições folclóricas, voltada para os professores da rede pública. Quais resultados são esperados com a disseminação desse material?

JM -
Pessoas de várias partes de Minas estão nesse projeto, mas estamos falando mais das especificidades desse saber em Minas Gerais. O objetivo da Comissão Mineira de Folclore em participar desse trabalho é conversar com as escolas sobre as tradições folclóricas que temos, quer dizer, eu reconheço a humanidade do outro se eu for capaz de conversar com ele.

A "verdade" só pode ser construída na conversa, pois ela advém do diálogo e toda vez que não consigo dialogar, desarmonizo com o outro. Carregamos o folclore como uma bandeira de libertação, pois devo reconhecer que só construo o saber junto com o outro e isso deve ser passado ao professor, para que ele pense a respeito disso e naturalmente desenvolva um trabalho junto às crianças.


DM - Como a produção folclórica deve ser trabalhada no processo educacional infantil?

JM -
Se o professor é treinado para trabalhar com a mente aberta, para compartilhar o que ele já sabe, logo, a criança absorverá naturalmente esse processo, pois ele levará esse conhecimento consigo de qualquer maneira. Até já fizemos trabalhos com escolas de periferia para que a ideia de "aprendizado" fosse utilizada no lugar de "ensino", quer dizer, se há o aprendizado, tanto o aluno aprende com o professor quanto o professor com o aluno, então o conhecimento que o aluno já tiver, precisa ser aproveitado pelo professor.

Se o aluno leva determinado regionalismo, porque não aproveitar essa especificidade? O ideal é que as escolas acolham esse saber popular porque a criança participa de relações não formais e aprende tudo com facilidade, então ela precisa ser apresentada à "Mula sem cabeça", "Saci Pererê", e tantos outros saberes maravilhosos, para que ele possa passar isso adiante.


Estagiária: Júlia Savassi

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