Cultura

Entrevistas

Senac
  • Logo Senac Minas
  •  
  • Hotel Grogotó

Berenice Menegale - Julho 2014

  • Belo Horizonte - Pianista Berenice Menegale mantém fundação em Minas Gerais - Júlia Savassi
  • Berenice é pianista e diretora executiva da Fundação de Educação Artística - Júlia Savassi
  • Pianista Berenice Menegale conversa com o descubraminas.com - Júlia Savassi
  • Pianista Berenice Menegale - Júlia Savassi

Em julho, o Descubraminas conversa com Berenice Menegale, pianista e diretora executiva da Fundação de Educação Artística (FEA). A artista nos conta sobre sua carreira, trajetória de vida e demais empreitadas de sua dinâmica história.


"Acho que hoje em dia quem visita Minas deve conhecer a Praça da Liberdade, aliás, BH está muito bem equipada de espaços culturais."


Por Roberta Almeida

Descubraminas - A senhora é natural de Belo Horizonte e desde a infância já demonstrava interesse pela música. Na capital havia alguma instituição voltada para o aprimoramento musical? Quando e como o piano começou a fazer parte de sua vida?

Berenice Menegale -
Bom, quando eu era criança havia o Conservatório Mineiro de Música, que ficava onde é hoje o Conservatório da UFMG, e esta já era uma instituição antiga, pois foi criada nos primórdios de Belo Horizonte. Assim, como nasci em 1934, o conservatório já existia, mas era uma escola que não aceitava crianças, então nunca cheguei a estudar lá.

Já o piano, começou a fazer parte da minha vida ainda na infância. Em casa tínhamos um e eu gostava de brincar com ele, tirava músicas de ouvido. Logo que meus pais souberam que havia chegado uma professora que tinha uma pedagogia para ensinar a crianças, eles a contrataram para me dar aulas. Eu tinha três aninhos, depois passei a fazer aulas com um professor do Conservatório até começar a tocar repertórios e dar recitais.

Então, para mim, tocar piano sempre foi uma coisa muito natural porque eu tinha o maior prazer tanto em tocar como de brincar de boneca, era uma atividade como qualquer outra, não tinha mistério. Gosto sempre de lembrar isso porque acredito que o aprendizado da criança precisa ser prazeroso, pode até não ser tão divertido, mas o próprio estudo tem que dar prazer a ela. Aí fui crescendo, tocando repertórios importantes e acabei indo estudar na Europa, aos 15 anos.


DM - Ainda na juventude, a senhora deixou a carreira de pianista para se dedicar à implantação da Fundação de Educação Artística. Como surgiu a ideia de fundar a escola? Qual o propósito de sua criação?
BM -
Bom, tudo sempre se encaminhou para que eu fosse uma pianista de concertos e eu fiz isso e ainda dou concertos, mas isso não me satisfazia totalmente, queria fazer algo que transmitisse alguma coisa, algo ligado à educação, desde cedo eu já queria isso. Então voltando de uma terceira viagem de estudos, minha família estava morando no Rio de Janeiro, encontrei alguns amigos que até estudaram comigo na Europa e propus que fizéssemos uma escola de música. Eu queria um lugar que oferecesse um ensino moderno, atualizado, uma educação musical evoluída e, além de tudo, em que fosse possível aceitar todos que gostassem da música, mesmo aqueles sem condições de pagar.

Assim, encontramos uma forma de fazer uma instituição de direito privado, sem fins lucrativos, ou seja, uma fundação. É claro que quando colocamos em prática uma ideia como esta não sabemos como faremos no futuro, mas encontramos o apoio de muitas pessoas para elaborar o estatuto, criar mesmo a instituição. E um dos propósitos da instituição desde o princípio era ter uma parte cultural importante, desde o ano de 1963 já colocávamos paralelamente às aulas uma programação para o domingo de manhã e já naquela época chamávamos de Manhãs Musicais, programa voltado para a divulgação da música do século 20, quer dizer, já com a mentalidade de preservar a música contemporânea, que sempre foi uma das marcas da fundação.


DM - Sabemos que a senhora é uma das criadoras do Festival de Inverno de Ouro Preto. Acredita que essa manifestação cultural foi uma oportunidade de estimular a criação musical em Minas Gerais?

BM -
Foi ,demais, porque o festival começou aqui dentro da fundação e depois fizemos uma comissão e fomos a Ouro Preto observar as condições de se fazer o festival lá no mês de julho. Em seguida, entramos em contato com o pessoal da Escola de Belas Artes da UFMG, pois a gente sabia que eles também tinham vontade de fazer alguma coisa nesse sentido, e nos juntamos para criar um festival que teria essas duas partes, artes plásticas e música. Depois, claro, o festival se ampliou muito e a FEA foi responsável pela parte de música de 1967 a 1986. Nessa época, começamos a fazer cursos mais ou menos tradicionais, observando que os alunos, vindos do Brasil inteiro, tinham uma marca generalizada de completa ignorância sobre a música do século 20, então vimos que era uma deficiência de todos os lugares, das universidades.

Então passamos a tentar modificar esse contexto e transformamos a área de música do festival em uma área de música contemporânea, isso foi muito importante, mas melhor ainda foi o estímulo à composição, porque é fácil imaginar que se os compositores atuais não forem conhecidos, tocados ou estudados essa música morre. Para os festivais fazíamos muitas encomendas a compositores, e várias obras eram desenvolvidas durante o evento, pois convidávamos compositores para dar aulas, eles mesmos compunham e compartilhavam com os alunos, era uma construção coletiva, e isso estimulou muito a criação de música contemporânea, fez com que estudantes começassem a tocar música contemporânea e se revertia em benefícios da fundação também, pois os compositores paravam por aqui, ministravam cursos, e a gente conseguia estender isso para a cidade toda, todos os estudantes de música que havia na cidade se beneficiavam.


DM - A FEA ministra aulas de música para crianças, jovens e adultos e até mesmo para pessoas da 3ª idade. É isso mesmo? Como funciona esse trabalho de difusão cultural entre pessoas de diferentes gerações?

BM -
As crianças trabalham em grupos separados mas, os cursos são para qualquer idade, justamente para não compartimentar, assim, os cursos para adultos são frequentados por pessoas de todas as idades, a partir dos 18 anos. Então temos sim pessoas aposentadas, mais idosas, que estão ainda perfeitamente aptas a fazer um curso de música. Os adultos mesmo nos procuram às vezes para retomar algum exercício que já fizeram ou para efetivar um sonho antigo.

Aqui nós damos a orientação e temos também um processo que se chama musicalização, que todos os adultos de diferentes idades participam juntos. Eles fazem o treinamento auditivo, rítmico, aprendem a ler músicas, etc. Essa base é para todos, que convivem muito bem entre si e compartilham o conhecimento que vão adquirindo. Os adultos mais velhos que estão aqui ficam encantados por serem colegas de jovens da música popular e há uma interação muito boa entre eles.


DM - A fundação também possui um programa de bolsas que atende a jovens carentes. Como funciona esse projeto? Visto que a FEA não tem fins lucrativos, como ele é mantido?

BM -
É um princípio nosso ter bolsistas, mas alguém precisa mantê-los, pois temos os professores, os instrumentos, o espaço... Hoje temos bolsistas patrocinados pelo Sesi, mas, infelizmente, mantemos esses alunos de acordo com nossas possibilidades. Para que um jovem, que é quem mais procura por esse apoio, consiga essa bolsa, fazemos uma entrevista e o avaliamos por um semestre, observamos frequência, assiduidade e interesse. Assim, conseguimos descobrir também os que podem vir a se profissionalizar, pois nem todos têm a aptidão necessária, aliás, todos os alunos são avaliados durante o semestre, e depois vamos encaminhando cada um de acordo com o que podem fazer.

Por um lado, não temos fins lucrativos, mas por outro, a fundação é deficitária. Sendo uma instituição autônoma, tentamos o tempo todo trabalhar com a captação de patrocínio, fazemos projetos culturais nos três níveis de lei de incentivo - municipal, estadual e federal - e promovemos eventos. Esse patrocínio é, em primeiro lugar, para diminuir o déficit que temos, visto que uma escola de música é algo muito caro, temos aulas individuais, em pequenos grupos, além da manutenção da parte cultural, como a sala de concertos, e como temos bolsistas essa é uma luta permanentemente.


DM - Então a Fundação é beneficiada por projetos de Leis de Incentivo à Cultura?

BM
-
Sim. Como disse, trabalhamos com os três níveis de leis e isso ajuda muito a manter a fundação e, principalmente, os bolsistas. A lei federal, por exemplo, através do Ministério da Cultura, disponibiliza um recurso em que empresas renunciam aos impostos. Então, se uma empresa resolve que vai fazer essa renúncia fiscal, ela pode patrocinar projetos aprovados pelo Ministério. Inclusive, pessoas físicas também podem fazer esse tipo de doação e é muito importante para nós o apoio de todos.


DM - Hoje, aos 50 anos, a FEA já formou artistas consagrados, como integrantes do Skank, 14 Bis e Uakti. A senhora acha que a fundação possui um diferencial para revelar talentos?

BM -
A Fundação sempre foi muito aberta, pois promovemos o ensino livre, além de aceitarmos os alunos como eles são. Desta forma, os alunos se sentem muito bem aqui e quando saem para ir à universidade continua aqui conosco. Temos um ambiente acolhedor.

Acho bem possível que esse seja o diferencial da escola, pois não padronizamos e nem prendemos os alunos, inclusive, temos aqui professores voltados para a música popular que já fazem muito sucesso, como o Rafael Macedo, quer dizer, era aluno e hoje já é professor aqui na FEA.

E eles são nossos professores porque têm uma formação muito boa, pois a fundação quer formar bons músicos. Agora o que vão fazer com essa formação é uma coisa muito pessoal, e muitos fazem música erudita e popular, quanto mais bem formado o músico, mais condições ele tem de criar uma linguagem particular.


DM - Existe em nosso Estado um patrimônio musical que mereça mais visibilidade? Como preservar esses acervos musicais históricos?

BM -
Essa é uma questão a que devemos ficar atentos porque tem muitas coisas que podem estar desaparecendo, mas hoje em dia não precisamos ter tanta preocupação como antigamente, visto que temos muitos musicólogos e cursos de musicologia nas universidades. Então as pessoas já ficam antenadas, pois elas mesmas querem encontrar um acervo para pesquisar, então até que há certo cuidado nesse sentido, mas volta e meia alguém acha alguma coisa que mereceria mais atenção, aí vão surgindo essas fontes de estudos para ajudar na preservação.


Papo de Mineiro

DM - Quem é ou foi verdadeiramente mineiro?
BM -
Meu pai, Heli Menegale. Muitos ainda se lembram dele porque foi professor do Colégio Estadual e acho que ele tinha as virtudes do mineiro.

DM - Aquela música que tem a alma de Minas?
BM -
Acredito que as serestas de Diamantina.

DM - Adoro um bom prato de...
BM -
Vaca atolada.

DM - Para quem visita Minas, o que você diz ser imperdível?
BM -
Acho que hoje em dia quem visita Minas deve conhecer a Praça da Liberdade, aliás, BH está muito bem equipada de espaços culturais.

DM - Qual escritor melhor representa Minas?
BM -
Guimarães Rosa.

DM - A paisagem que te inspira...
BM -
Sul de Minas, a Serra da Mantiqueira.

DM - Atlético, Cruzeiro ou América?
BM -
Atlético - herança de família.

DM - Fim de semana na cidade grande ou na roça?
BM -
Na roça.

DM - Quando estou fora de Minas morro de saudades de...
BM -
Da minha família, especialmente dos meus sobrinhos, irmãos e amigos.

DM - Minas Gerais é...
BM -
Maior do que a gente consegue alcançar.



Estagiária: Júlia Savassi

 

Enviar link

Outras entrevistas