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Alberto Rodrigues - Maio 2014

  • Belo Horizonte - Locutor em conversa descontraída com a equipe do Descubraminas - Júlia Savassi
  • Locutor em conversa descontraída com o Descubraminas - Júlia Savassi
  • Radialista conversa com o Descubraminas - Júlia Savassi


Em contagem regressiva para a Copa do Mundo no Brasil, o Descubraminas conversa com o carismático narrador esportivo Alberto Rodrigues, que nos conta sobre sua vida e carreira como radialista, além das expectativas para o Mundial de 2014.


"Hoje, Minas Gerais é tida como o melhor centro esportivo do Brasil, tem grandes estádios, centros de treinamento maravilhosos, além de possuir os times que estão em maior ascensão, com bons elencos e vitórias acumuladas. Então, certamente o turista terá curiosidade em nos conhecer."


Por Roberta Almeida



Descubraminas -
Nascido em Divinópolis e criado em Araxá, o senhor atualmente vive em Belo Horizonte. Acredita que o jeito mineiro marcou seu estilo de narrar as partidas de futebol? De que forma?

Alberto Rodrigues - Bom, vivo em Belo Horizonte desde 1960, mas o lugar que fiquei por mais tempo quanto garoto foi em Araxá, inclusive me considero araxaense, apesar de nascido em Divinópolis, mas fui criado e comecei minha carreira no rádio em Araxá.

Sobre o jeito mineiro, acredito que tenha influenciado sim minha maneira de narrar as partidas. Sempre digo que aprendi a narrar jogando futebol de botão quando ainda era garoto, mas eu escutava muitos narradores do Rio de Janeiro e São Paulo, então também acho que tenho um pouquinho do estilo desses locutores.

Quando a gente começa sempre pega o estilo de alguém e ao longo do tempo vai criando o próprio, mas tem sempre um jeitinho mineiro que o ouvinte gosta. Também temos que nos adequar, pois o ouvinte mineiro é diferente dos de outros lugares, como os do Rio, por exemplo. O mineiro gosta de uma narração com mais vibração, já o carioca gosta de ouvir de forma pausada.


DM - O senhor virou radialista em 1958, narrando os campeonatos regionais de Araxá pela Rádio Imbiara, mas, como mencionou, desde a infância brincava de irradiar jogos de botão. Como surgiu essa paixão pela locução esportiva?

AR - Pois é, eu não sei, parece que eu nasci com isso, sabe? Desde menino, quando morava em Araxá, eu tinha uns sete ou oito anos e já vibrava quando ouvia as narrações esportivas. Penso que para você ser um narrador de futebol é preciso ter uma percepção natural, pois são coisas que você não aprende na escola ou na universidade, é mesmo um dom.

Estudado, você consegue se transformar em um repórter ou comentarista, mas irradiar um jogo é mais profundo, vai além da técnica, que a gente vai desenvolvendo com o tempo. Por esse motivo acredito que existam poucos locutores esportivos no País, pois é preciso mesmo ter esse dom. Profissionalmente, estou há 50 anos nesse ramo e vejo como é difícil encontrar outros locutores para fazerem esse trabalho.


DM - Em 1963, você foi contratado pela Rádio Itatiaia e algum tempo depois virou narrador oficial dos jogos do Cruzeiro Esporte Clube. Como aconteceu essa ligação com o time celeste?

AR -
Independentemente de começar a representar o Cruzeiro, eu já era cruzeirense. Antes mesmo de vir para Belo Horizonte o primeiro jogo que assisti foi da equipe celeste. Eu tinha passado pela Itatiaia, fiquei uns tempos na Inconfidência, depois me senti um pouco desgostoso com o futebol e fiquei parado por um ano. Um dia, o Osvaldo Faria me chamou para voltar a irradiar, acho que foi na Copa de 1978, a Itatiaia ia mandar os locutores para cobrir o evento e estava faltando um profissional, aí eu aceitei o convite.

Quando foi em 1979, o Vilibaldo Alves saiu da Itatiaia e chamaram o Willy Gonser, que estava no Rio de Janeiro, para substituí-lo. Naquela época, como o Vilibaldo era o locutor oficial e tido como atleticano, a tendência maior da audiência da rádio era de ouvintes atleticanos. Assim, o Emmanuel e o Januário Carneiro e o Osvaldo Faria decidiram que o Willy irradiaria os jogos do Atlético e eu os do Cruzeiro, então faltava mesmo aquele representante do Cruzeiro, para se ter um equilíbrio e agradar a todos, sem contar que isso foi ótimo para a rádio, pois é uma estratégia que dá certo até hoje.


DM - O senhor já participou da cobertura de oito edições da Copa do Mundo FIFA (1982 - Espanha, 1986 - México, 1990 - Itália, 1994 - Estados Unidos, 1998 - França, 2002 - Japão/Coreia do Sul, 2006 - Alemanha e 2010 - África do Sul). Em sua opinião, qual foi o Mundial mais marcante?

AR
- Pela conquista, para mim foi o Mundial dos Estados Unidos, em 1994, quando o Brasil foi campeão mesmo empatando com a Itália, por 0 x 0, e nós ganhamos nos pênaltis, sendo que nessa oportunidade tive a chance de narrar o chute do Roberto Baggio, eu estava narrando a conquista quando o Willy entrou chorando, emocionado, e isso está até em um documentário da BBC de Londres.

Agora Copa organizada mesmo foi a da França, a da Alemanha. Acho que esses países já estavam realmente prontos, a estrutura estava pronta, tudo muito bem feito e elaborado. Acredito que a África do Sul, que deve ter feito muito sacrifício para realizar o evento, tenha sido a pior Copa para todos nós, acho que é mais ou menos a comparação com o Brasil, visto que ainda não estamos prontos para receber um evento dessa proporção.

Também estamos fazendo um sacrifício imenso, nossas coisas não estão prontas, temos a questão dos aeroportos, mas, enfim, as duas Copas que mais gostei foram essas da França e da Alemanha, quer dizer, estamos falando de eventos sediados na Europa, é outra ideia, a Europa já está pronta, está preparada, não tem mais o que fazer.


DM - Houve alguma história ou fato inusitado durante esse evento que marcou para sempre sua vida? Pode compartilhar conosco?

AR -
Sim. Têm vários. Na Copa do México, por exemplo, eu fui para Guadalajara encontrar com o Willy Gonser para a abertura do Mundial. Quem abriu a jornada foi o Osvaldo Faria, que estava no nosso estúdio no hotel, aí ele passou para o Willy que estava ao vivo no estádio, lá na Cidade do México, para dar prosseguimento.

Depois de uns 10 minutos de transmissão, a linha caiu, o Osvaldo mandou me chamar debaixo do chuveiro, como tinha acabado de chegar ao México, ainda estava me aprontando. Eu peguei a toalha, saí correndo, peguei o microfone e ainda narrei um gol. Quer dizer, uma situação bastante inusitada, naquele momento ninguém acreditaria que isso estava acontecendo, eu não sabia nem a escalação, então essa história realmente foi marcante e é inesquecível.


DM - A menos de dois meses da Copa do Mundo no Brasil, quais são suas expectativas para a realização da competição no nosso País?

AR
- Futebolisticamente, eu acho que será uma grande Copa porque o brasileiro é fanático por futebol, a gente vê e vive o futebol, principalmente quando a seleção brasileira joga e as vendas dos ingressos parecem que estão sendo boas. Agora, faltou um pouco de planejamento, os estádios são bons, não tenho dúvida nenhuma, como por exemplo, Mineirão, Maracanã, Itaquerão, que inaugura agora em maio, e alguns foram construídos sem necessidade, como é o caso dos estádios da Amazônia e de Brasília. Foram gastos desnecessários e as vias de acesso também estão demorando a sair, juntamente com os aeroportos e talvez esse seja o maior dos problemas.

E aí muita gente fica falando, a imprensa comenta todos os dias e eu acho que as obras realmente devem ser feitas, é inclusive um legado que a Copa vai nos deixar, mas acho que faltou estrutura, uma gestão maior de tudo, pois muita gente se aproveita disso, caso da corrupção, por exemplo, e são coisas que podem denegrir a imagem do País. Também devemos esperar algumas manifestações durante o evento e a que ponto isso pode chegar? Espero que seja tudo feito com muita cordata, sem destruir e sem violência, senão quem é ruim e quem é bom acaba sofrendo. Mas acho que futebolisticamente será uma bela Copa, com belos estádios. Nessa parte, acho que será bom, o Brasil hoje tem bons centros de treinamento, como os do Cruzeiro e Atlético, que vão receber seleções que se hospedarão em Belo Horizonte.


DM - Levando em consideração sua vasta experiência em Mundiais, de que maneira Minas Gerais pode se destacar na Copa de 2014?

AR -
Minas é um Estado que recebe muito bem as pessoas, somos sempre muito cativos. Acho que as cidades históricas também serão um ponto forte, pois os europeus gostam muito disso, gostam de ver e conhecer a história do País. A comida mineira também vai fazer sucesso. Toda essa peculiaridade vai cativar muito os turistas. O que pode ser um pouco negativo é a questão da violência, mas acho que o governo está tomando providências para realizar um regime forte de tolerância zero, afinal teremos gente de toda parte e o Brasil ficará em evidência para o mundo todo, inclusive seria ótimo se continuasse assim depois da Copa.


DM - Em que sentido a boa atuação dos times mineiros pode agregar à imagem de Minas Gerais durante a Copa do Mundo?

AR
-
Não tenho dúvida nenhuma de que o turista que vier para cá vai perguntar: "Quem é o campeão brasileiro? Quem é o campeão da Libertadores?". Isso agrega e representa muito para o Estado. Hoje, Minas Gerais é tida como o melhor centro esportivo do Brasil, tem grandes estádios, centros de treinamento maravilhosos, além de possuir os times que estão em maior ascensão, com bons elencos e vitórias acumuladas. Então, certamente o turista terá curiosidade em nos conhecer.


DM - Há cinco décadas acompanhando o futebol brasileiro, e em particular o mineiro, quais jogadores que atuam hoje em Minas o senhor acredita que merecem ser convocados pelo Felipão?

AR -
Essa é uma pergunta muito difícil porque a seleção brasileira está bem voltada para os jogadores que jogam na Europa. Essa seria a parte negativa porque não iremos colocar muitos jogadores daqui, mas tem a parte positiva porque serão jogadores que já estão acostumados a jogar na Europa e conhecem os adversários.

No entanto, hoje, por exemplo, eu vejo no Atlético o Victor, que tem chance de ir para a seleção, o Dedé, do Cruzeiro, também temos o Everton Ribeiro que foi o grande destaque do Campeonato Brasileiro de 2013. Mas ao que parece a seleção já está definida, estão faltando uns três quatro jogadores apenas e seria uma ótima escolha para o futebol mineiro se esses meninos fossem escalados.


DM - Depois de ter declarado seu amor pelo time celeste, enquanto torcedor e narrador esportivo, como é seu relacionamento com os torcedores das outras equipes mineiras?

AR -
Funciona até bem porque eu respeito muito as instituições Atlético e América, principalmente Atlético que está mais em evidência. Quando vou ao jogo no Independência para narrar Cruzeiro e Atlético, chego e sempre tem o pessoal que mexe comigo e fica nas piadinhas, tem outros que me cumprimentam e abraçam, outros me mandam no twitter dizendo que apesar de atleticanos são meus fãs, mas o relacionamento é bom por causa do respeito, ao contrário do meu filho "Vibrantinho" que fica sempre provocando com piadas (risos).


DM - O senhor narrou aproximadamente 1.500 gols e quase 3.000 partidas do Cruzeiro. Qual foi o gol mais bonito da equipe celeste e a narração inesquecível?

AR -
Nossa, são várias narrações, mas o jogo entre Cruzeiro e Palmeiras, quando o Cruzeiro foi campeão da Copa do Brasil foi emocionante demais. Tem também quando o Cruzeiro foi campão da Super Copa das Américas, em 1991, contra o River Plate com placar de 3 x 0, gols do Mário Tilico, e quando o Cruzeiro ganhou do São Paulo no Mineirão, gol do Giovani, também foi emocionante.

Mas o gol mais bonito que eu narrei foi do Alex, "o Talento". Foi em um jogo contra o São Caetano, no Campeonato Brasileiro de 2003. Uma jogada maravilhosa que ele fez, jogando pelo alto e driblando e na minha narração eu até falei: "Me ponho de pé para aplaudir esse gol que é um monumento maior do futebol". A gente tinha muita interação quando ele estava aqui. O gol do Everton Ribeiro, "o Chapeleiro Azul", contra o Flamengo também foi legal demais. São muitos gols maravilhosos, por isso até fiz alguns CDs, tenho 5 CDs de gols do Cruzeiro, o último foi a Itatiaia que fez do Campeonato Brasileiro.


DM - O senhor é carinhosamente chamado de "Vibrante". Como surgiu esse apelido?

AR
-
O "Vibrante" foi inventado pelo Osvaldo Faria, a gente estava indo para o Rio de Janeiro de carro, era 1964 ou 1965. Estava eu, o Osvaldo e o Cafunga indo fazer o jogo do Cruzeiro e Fluminense, aí o Osvaldo virou e falou: "Você vai ser o mais vibrante. A partir de agora você vai ser o Vibrante". E aí ficou porque eu irradiava muito rápido, parecia um papagaio falando, agora a gente até acalma um pouco porque a idade chega e aí fico mais na técnica (risos).


DM - Esta criatividade toda em dar apelidos para os jogadores tem a ver com o jeito mineiro?

AR -
Tem sim. O mineiro gosta de apelidar as pessoas. Esses jargões que a gente usa vem de repente. Eu uso muito o azul por causa do cruzeiro, mas agora parei um pouco porque os jogadores vêm, passam uns seis meses e já saem do time.


DM - O senhor vai fazer a cobertura desta próxima Copa?

AR
- A rádio está vendo o que vai fazer porque o Cruzeiro fará uma excursão para os Estados Unidos e, para a rádio, é melhor que eu acompanhe o Cruzeiro, então devo fazer a excursão ao invés da Copa. O rádio tem muita concorrência com a televisão, são praticamente umas cinco emissoras transmitindo o evento, então para o rádio não é tão bom assim quanto um jogo do Cruzeiro, tanto é que eu, se não fizesse o que faço, ficaria em casa vendo todos os lances pela televisão, mas isso ainda não está decidido por completo.


Estagiária: Júlia Savassi

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