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Paulo Isidoro - Abril 2014

  • Belo Horizonte - Ex-jogador de futebol Paulo Isidoro - Roberta Almeida

Dando sequência à série de entrevistas com personalidades ligadas ao mundo da bola, o Descubraminas traz a você um bate-papo com o ex-jogador e empresário Paulo Isidoro. Craque da Seleção de 82, Isidoro compartilha com as novas gerações sua experiência dentro dos gramados.


"Para quem não conhece Minas Gerais, a Copa do Mundo será uma ótima oportunidade, pois o turista poderá assistir aos jogos e conhecer os atrativos do nosso Estado."


Por Roberta Almeida


Descubraminas
- Você nasceu em Matozinhos, mas ainda criança mudou-se para Belo Horizonte. Quais são suas lembranças da época em que vivia no interior de Minas?

Paulo Isidoro -
Eu sou de Matozinhos, nasci em 3 de agosto de 1953. Vim para Belo Horizonte com doze anos de idade, pois minha família teve a oportunidade e isto foi muito bom para mim porque minhas oportunidades de crescer na vida profissional e particular aumentaram.

Mas, da época em que vivi no interior de Minas, guardo muitas lembranças, como um grande círculo de amizades que é bem comum no interior, além da liberdade que eu tinha para correr pelos campos, visto que eu trabalhava em uma fazenda muito grande. Nos tempos de pelada, por exemplo, eu brinquei muito de jogar bola em curral, tinhamos muito espaço para correr. Em Matozinhos, também trabalhei entregando pães, o que foi uma ótima experiência para mim.


DM - Em 1973 você entrou para o time juvenil do Atlético Mineiro e aos 21 anos obteve uma chance no time titular. Como foi sua chegada ao Galo?

PI -
A oportunidade que eu tive no Atlético depois que saí do Ideal, do bairro das Graças, foi me dado pelo Carlos César Pinguim, que era comentarista da Rádio Itatiaia e presidente do clube na época, e me indicou para ser avaliado pelo Irineu, um olheiro do galo, e isso aconteceu em 1973. Daí, fui para uma avaliação no juvenil do time, consegui entrar e joguei lá por seis meses, fui artilheiro da categoria, até que em 1974 teve a mão do Telê Santana, que me observando jogar, deu a oportunidade de ser emprestado para o Nacional de Manaus, time que joguei durante o ano de 1974.

Depois que voltei de Manaus, em 1975, virei titular do Atlético. Eu tinha de 21 para 22 anos, comecei a treinar entre os outros profissionais e ganhar meu espaço. Foi importante para mim ter um treinador como o Telê, que tinha um olho clínico para enxergar meu potencial e me direcionou ao quadro profissional. Enfim, minha chegada no galo foi muito boa. Sou naturalmente uma pessoa que sempre procura se relacionar bem e tive esta oportunidade de estar no meio de jogadores de grande nome, como o Campos, Vantuir, Vanderlei, Lola. E esses jogadores também me deram apoio e me ajudaram a crescer no time.


DM - Uma vez na equipe principal, você aprimorou sua técnica e passou a armar as jogadas concluídas principalmente por Reinaldo, confirmando a interação daquela equipe. Como você analisa a conduta de alguns jogadores de hoje que preferem fazer jogadas individualizadas?

PI -
Essa interação aconteceu exatamente porque nós viemos juntos da categoria de base. Então já tínhamos um conhecimento e bom relacionamento, como acontecia comigo, Reinaldo, Marcelo, Cerezo, Ângelo e Heleno. Como o Telê nos deu a oportunidade de defender a seleção foi muito fácil ter esse entrosamento para desenvolvermos também um futebol de qualidade.

Eu não sou contra os jogadores terem jogadas individualizadas porque é sinal de que ele está demonstrando sua criatividade. Agora quando se olha um treinador como o Marcelo Oliveira, atualmente no Cruzeiro, que sempre foi um jogador muito técnico e de muitas habilidades, você percebe que ele dá bastante liberdade para que os jogadores, principalmente os novos, possam demonstrar seu talento da maneira que são. Ou seja, não são jogadores robotizados, são naturais, que exploram sua criatividade, não somente fazendo aquilo que o técnico manda.

A criatividade é importante para o crescimento natural do jogador, mas o jogo de cintura conta muito na hora de pensar em equipe e ele deve ser criativo também nesses momentos, aliado ao apoio dos próprios companheiros que precisam aprender a confiar uns nos outros. Quer dizer, as jogadas individualizadas devem acrescentar à qualidade da equipe como um todo.


DM - Em sua carreira no Atlético, qual foi o momento mais marcante com a camisa alvinegra? Existe algum título em especial? Qual foi o gol inesquecível?

PI -
Nossa, foram muitos! O tempo todo que fiquei no galo foi marcante. Fiquei até 1979 no clube, e, para mim, foi só felicidade. Eu não tive um momento de baixa da minha carreira dentro do time, foram sempre momentos altos. É claro que às vezes surgem algumas coisas que aborrecem. Em 1977, por exemplo, tive um contratempo com o Barbatana, no entanto, isso jamais vai apagar as alegrias que tive no time. Os títulos que ganhamos, em grande parte Campeonatos Mineiros, foram importantes, mas o vice no Brasileiro contra o São Paulo guardo com muito carinho, considero como título.

O campeonato mineiro mais especial que participei foi o de 1978 contra o Guarani de Divinópolis. Foi importante porque estávamos jogando contra eles no Mineirão enquanto o Cruzeiro estava ganhando de 5 lá no Sul de Minas contra o Uberlândia, e nós estávamos perdendo aqui. Faltando 12 minutos para o final, conseguimos virar o jogo para 3 x 1, dos quais dois gols foram meus, e fomos campeões. Então para mim essa foi a vitória mais suada que tive no Atlético. Já o gol mais especial, na verdade foram esses dois que acabei de falar, pois eu marquei o 1 x 1 e o 2 x 1, o que já nos dava a garantia do título, quer dizer, um abriu e o outro fechou, veio o Ziza, se não me engano, e marcou o terceiro para completar nossa alegria.


DM - Em 1982, você participou da Copa do Mundo junto aos mineiros Luizinho, Toninho Cerezo e Éder Aleixo. Conte-nos como foi vivenciar um Mundial?

PI -
Nossa, um Mundial é tudo aquilo que um jogador espera alcançar na carreira, então quando você chega ali é porque realmente está no ponto máximo, é a mesma sensação de passar no vestibular para o aluno que estudou o ano inteiro. Quando cheguei à Seleção, jogando pelo Brasil, foi a realização de meu sonho, sem contar que essa foi uma das melhores seleções a se apresentar em um Mundial. Dentre os competidores desse torneio, foi a mais bem montada.


DM - Como você mencionou, a seleção brasileira, comandada por Telê Santana, foi um dos destaques da Copa de 1982, embora o Brasil não tenha ficado com o título. Em sua opinião, o que impediu nossa vitória?

PI -
Acredito que na vida, em qualquer segmento, as coisas acontecem como devem acontecer. Naquela época, não era realmente para sermos campeões. Acho que foi mesmo um grupo muito bem formado, que todos respeitavam, tinha suas vaidades, como qualquer ser humano tem, o que não atrapalhou nossa convivência.

Você pode ver que nós estávamos em vantagem em todos os momentos, tivemos 0 x 0, 1 x 1 e 2 x 2, até que a Itália fez os 3 x 2 e nós fomos desclassificados. Mas naquele time, naquela seleção, não tem como a gente querer achar um culpado porque não tem e seria até injusto. Dentro da imprensa muitas vezes tem isso de querer taxar alguém em benefício próprio, mas se houve um culpado foi o coletivo, não tem como responsabilizar um só pela derrota.

Acho que a equipe estava muito bem e isso nos rende pauta até hoje. Esses dias dei uma entrevista para um pessoal da Inglaterra, que queria saber o porque de eu ter sido preparado o ano todo para a Copa e não ter entrado como titular na abertura do Mundial. Aliás, isso não me incomoda porque sempre pensei que quando o jogador entra na equipe ele não procura saber porque está entrando, então eu não achava que tinha que questionar a decisão do treinador de me tirar, é ele quem nos direciona, então tem que ter a liberdade de fazer o que acredita ser o melhor para a equipe.


DM - Você mantém na região da Nova Pampulha uma escolinha de futebol. Há quanto tempo faz esse trabalho? Como ele funciona?

PI -
Esse projeto já vai completar 13 anos e atendemos hoje cerca de 110 garotos. Gosto muito de fazer esse trabalho, que é feito pensando também no lado social. Tento passar para os meninos que têm o sonho de ser jogador o que vivenciei na minha vida. Então até para não criar aquela frustração, caso não consiga seguir a carreira de jogador, procuro fazer com que ele entenda que é necessário estudar, ter consciência de que família é importante, que é preciso conviver bem com seus companheiros e respeitar a diferença do outro.

Às vezes, fazemos até um trabalho de psicólogos, e isso é de fundamental importância para a vivência em sociedade, pois o menino sai daqui mais que com uma técnica, sai preparado para enfrentar o mundo. A missão da escolinha é mostrar a importância que a pessoa tem e as regras que precisa seguir para conviver em sociedade.


DM - Como os meninos encaram e aproveitam a oportunidade de aprender as técnicas do futebol? Algum garoto que passou por aqui conseguiu alavancar a carreira de jogador?

PI -
Acho que eles aprendem mais que técnicas. Quer dizer, aqui eu tenho meninos que conseguiram sim virar jogadores, mas tem um que virou policial, outros que decidiram terminar os estudos e hoje trabalham em agências bancárias, alguns viraram trocadores e motoristas de ônibus, ou seja, depois que passaram por aqui eles tiveram um segmento na vida, então eu vejo que a escolinha tem como passar para eles que não é só o futebol que importa.

O Centro de Formação de Atletas Paulo Isidoro é elevado à formação do homem, ele vai sair daqui querendo ser mais que um jogador, ele tem que ter a consciência de que precisa ser parte e contribuir com o desenvolvimento da sociedade. Muitos voltam para me visitar e eu fico morrendo de alegria, fico muito satisfeito com a boa formação de um ex-aluno.


DM - Graças à sua competência e habilidade, você ganhou vários troféus, como as Bolas de Prata e de Ouro da "Revista Placar". De que forma você transfere essa experiência para os garotos aqui da escolinha?

PI -
Essa coisa de transferir para os meninos e mostrar que eles são capazes de conseguir algo na vida é fácil. É só abrir minha vida, contar minha história. O difícil mesmo é mostrar que se eles não conseguirem o que desejam naquele momento, existem outros bons caminhos a serem seguidos. Claro que você não pode tirar deles o sonho de tentar, mas durante os trabalhos é importante mostrar todas as opções, direcionar.

Eu gosto muito de falar com os alunos sobre meu passado, pois foi através dele que consegui chegar onde estou hoje. Não vou dizer que já estou no ponto máximo, mas estou certo de que alcancei meus propósitos, realizei meus sonhos. Só conseguimos essas conquistas com muito trabalho, honestidade, dedicação e pensamento positivo. Obstáculo todo mundo tem, mas eu consegui desviar deles e seguir em frente, é o que quero que eles aprendam.


DM - Você acredita que a escolinha conseguiu cumprir a finalidade de mudar vidas por meio do esporte?

PI -
Bom, aqui já recebemos até mesmo meninos que cometeram pequenos delitos e passaram por entidades de recuperação. Um deles, por exemplo, está tentando virar jogador, mas enquanto isso trabalha em uma padaria. Olha que bacana, ele veio para cá há uns seis ou sete anos para cumprir pena e hoje parece que compreendeu e absorveu o verdadeiro objetivo desse meu projeto.

Hoje luto para fornecer psicólogo e dentista para eles, e o retorno que quero é saber que estou cumprindo com meu papel social. Penso em formar jogadores de futebol, mas também me preocupo com o caráter desses meninos. Estudar aqui é pré-requisito, quem não estuda não joga. A sociedade impõe as condições e a gente tenta seguir da melhor maneira possível. Você só será o chicote do seu corpo se desobedecer às regras comuns a todos.


DM - A poucos meses da Copa do Mundo de 2014, quais são suas expectativas para o Mundial no Brasil?

PI -
Minhas expectativas são as melhores possíveis porque eu já participei de uma Copa do Mundo, acompanhei muitas outras pela televisão e vejo a importância e a valorização que o País tem por meio do futebol. Minha expectativa é que o Brasil faça uma ótima campanha para receber bem os visitantes. Futebol também é cultura!

Belo Horizonte, por exemplo, está passando por várias obras e quando tudo estiver pronto vamos ter várias vantagens e benefícios. Eu que ando e dirijo muito dentro da cidade vejo como está caótico o trânsito, mas quando essas obras terminarem tudo vai melhorar. Ainda temos muito o que fazer pela saúde e segurança, mas temos que brigar por isso pacificamente.


DM - O senhor faz parte da comissão que promoverá o Estado de Minas Gerais durante o Mundial. Qual será a função dos embaixadores?

PI -
Bom, primeiramente, fiquei muito orgulhoso por ter sido convidado para ser embaixador de Minas para a Copa de 2014. Nosso trabalho ainda não começou 100%, mas já estamos elevando o nome do País nos eventos que participamos. Quando faço minhas viagens aproveito para divulgar o Estado. Sou um representante mineiro que divulga o que tem de bom na nossa terra. Para quem não conhece Minas Gerais, a Copa do Mundo será uma ótima oportunidade, pois o turista poderá assistir aos jogos e conhecer os atrativos do nosso Estado.


Estagiária: Júlia Savassi

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