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Teuda Bara - Novembro 2013

  • Belo Horizonte - Teuda Bara - Guto Muniz/Acervo Grupo Galpão

O Descubraminas entra no mundo do teatro com a ajuda da atriz Teuda Bara, que nos conta sobre sua juventude em Minas Gerais, experiências com o Grupo Galpão, contribuição ao cinema brasileiro e anos que fez parte do Cirque du Soleil. Imperdível!


"Minas Gerais é um lugar onde a gente vive feliz, é o lugar que eu volto quando eu saio, é minha terra."


Por Roberta Almeida

Descubraminas - Você é de uma geração que antecedeu a chegada da televisão ao Brasil. Como foi sua infância e adolescência na Belo Horizonte dos anos 1940 e 1950?

Teuda Bara - Nossa, eu tenho muita lembrança da minha vida de criança. Quando vou ao bairro Serra, por exemplo, me lembro dos momentos que vivi lá. Eu e minha família morávamos na Rua do Ouro, quando lá ainda era uma mata, juntava um bando de menino para passear no meio do mato, havia um riachinho que passava lá perto também e muito passarinho, a gente ia passeando catando tudo que era frutinha para brincar e comer. Então eu tenho na memória uma Belo Horizonte interiorana, onde participávamos das coroações na Igreja de Santana, lembro-me da minha Primeira Comunhão na Igreja da Boa Viagem, as procissões, esses foram momentos marcantes para mim.

Apesar de financeiramente essa ter sido a época mais pobre de minha família, não deixávamos de ser felizes. Desta forma, minha infância foi muito boa porque a gente se divertia com as pequenas coisas da vida, como o simples fato de comer uva, pera ou maça, já que essas frutas eram importadas e custavam a chegar ao Brasil. Na época do Natal, por exemplo, era uma delícia, mamãe fazia a árvore e o presépio, saíamos à meia-noite para ir à Missa do Galo, todo mundo de roupa nova, aí, quando chegávamos, mamãe já tinha arrumado a mesa, todo mundo ganhava uma maçã, uma caixinha de passas, um bombom e uma ameixa vermelha, a gente ficava doido e divertíamos muito.

Já mais na adolescência, eu frequentava a Rádio Inconfidência, que ficava ali onde é hoje a rodoviária, meu pai era músico e tocava no programa de auditório que acontecia lá todo domingo. Era um programa de calouros, onde você podia dançar, cantar, mostrar suas habilidades, uma vez até ganhei uma bolsinha cor-de-rosa da Sapataria Leila porque cantei e dancei um frevo. À noite, eu fugia para lá de novo, entrava pelos fundos para conhecer os artistas, então essa era uma das coisas que eu mais gostava de fazer nessa época.


DM - Foi a partir dessas experiências que você descobriu que tinha talento para as artes cênicas? De que maneira o teatro entrou e passou a fazer parte da sua vida?

TB -
Eu sempre gostei desse meio, mas na minha época não tínhamos muito contato com o teatro propriamente dito, nosso País era muito amador ainda, só fazíamos teatro na escola. Um dia, o teatro entrou quase que sem querer na minha vida. Eu estudava na UFMG, fazia Ciências Sociais, nos reunimos no DA (Diretório Acadêmico) para decidir como nos comunicaríamos com os alunos, passar as notícias, informar sobre os eventos, aí tivemos a ideia de fazer o teatro jornal, onde a gente lia e interpretava as matérias nas salas de aula e no pátio.

Então abrimos o DA, trouxemos o José Celso, o Gilberto Gil, a Darlene Glória, aí a gente começou a promover palestras e oficinas que nos ensinavam a fazer o teatro. Quando o José Celso veio aqui com a peça "O Rei da Vela", eu mudei para o Marília, então eu já tinha decidido, eu ficava ali no meio deles, conversando, dando risada, aprendendo, fiquei apaixonadfa. Assim, quando eles vieram com o 'Ensaio Geral do Carnaval do Povo', eu já tinha deixado as Ciências Sociais.


DM - Em 1982, você participou em Diamantina da oficina dirigida por George Froscher e Kurt Bildstein, membros do Teatro Livre de Munique. A partir desse trabalho, o Grupo Galpão ganhou forma. Como é fazer parte da projeção e manutenção de uma das companhias mais importantes do cenário teatral brasileiro?

TB -
Quando nós decidimos viver de teatro, resolvemos investir no teatro de rua, foi aí que participamos da oficina com o George e o Kurt, que nos deram liberdade para pensar o teatro de rua sendo apresentado na rua, dentro de uma escola ou no palco, e, com essa ideia, apresentamos até em Parada de Sete de Setembro e o Galpão ganhou forma e credibilidade.

Sobre a manutenção, sei que é feita com muitas mãos e é algo muito trabalhoso, mas nós temos uma equipe boa, que está com a gente há muito tempo. Temos a Bia, a Gilma, que é produtora, e mais dois assistentes que sempre viajam para fazer as pesquisas, tem o pessoal da divulgação e a equipe que trabalha com a manutenção dos cenários e figurinos. Então eu digo que Teatro é igual serviço de casa, ele nunca acaba, tem sempre alguma coisa para mexer.


DM - Conte-nos como é construir espetáculos no espaço público, o que a rua atribui ao teatro?

TB -
Tudo! Partindo do exemplo do que vivemos com a peça "Romeu e Julieta", lembro que estávamos ensaiando dentro do Galpão, num espaço fechado. Em um determinado momento, Gabriel Villela falou: "Não quero mais ficar aqui, não quero mais montar neste ambiente". Como íamos ensaiar para um espetáculo de rua dentro das dependências do Galpão, entende? Aí surgiu o problema: se fossemos para rua, íamos acabar atraindo público, imprensa, o que atrapalharia os ensaios.

Decidimos sair em silêncio para Morro Vermelho, Distrito de Caeté. E este local foi fundamental para tudo que aconteceu com "Romeu e Julieta". Primeiro porque o Gabriel ficou com uma praça inteira em frente à igreja para ensaiar, então ele passou a criar, colocando o Romeu andando de perna de pau pelo público, e a rua permite tudo isso. Os próprios cortes que o dramaturgo fez, foram feitos em cima da análise da atenção do público. Por exemplo, na parte em que há declamação de poesias parnasianas, chega um determinado momento que é impossível algumas pessoas não se distraírem, houve a dispersão, ele cortava.

E aconteceu também uma coisa maravilhosa que foi a integração com a comunidade local. Até porque o espetáculo foi uma coisa que caiu do céu na vida daquelas pessoas. Pensa bem, um distrito que na época mal possuía televisões? Era um local quase que de boias-frias, que saíam de manhã para trabalhar no campo e quando voltavam, ao anoitecer, sentavam na beira da escada da igreja para nos esperar, aí apresentávamos o que havíamos ensaiado até então.

Além disso, os moradores ouviam o Gabriel dizendo que precisávamos de latas de óleo. No dia seguinte, levavam centenas para nós. Eles contribuíam com tudo que podiam, até o maiô que vestia a boneca nos arrumaram. Sem contar que quando o figurino já estava praticamente pronto, Gabriel observou o casario local, que era todo pintado com um pó amarelo, azul, xadrez e aí ele simplesmente virou para a figurinista e disse: "Quero o figurino todo assim, pesquise como pintar cal em pano!" Ela quase enlouqueceu e saiu virando os ternos pelo avesso, para poder testar e pintar o tecido. Resultado: quando você olha para o figurino de "Romeu e Julieta", vê uma cidade de interior.


DM - E por falar em "Romeu e Julieta" (1992), espetáculo apresentado em várias cidades mineiras e em mais de 20 países, o Gabriel Villela adaptou a tragédia de Shakespeare no contexto da cultura popular brasileira. Como é dar vida à ‘Ama', visto os novos traços que o dramaturgo propõe para esta peça?

TB -
O Gabriel teve um poder muito grande por meio de sua poesia, ele dizia: "Se falamos da nossa terra, falamos do mundo". Então, ao ver os workshops que fizemos, ele decidiu que nosso palco seria a Veraneio e este palco acabou ficando com uma ótima visibilidade. Assim, a primeira coisa que ele fez foi contratar um professor de História da Arte para acompanhar o Galpão. Acho que ele já meio que tinha em mente tudo que faria.

Sobre a Ama, para mim é uma personagem maravilhosa, é linda! Lindo porque ela protege e defende o amor de Romeu e Julieta, quando ela diz para Julieta casar com Paris, por exemplo, é porque já sabia que a jovem cairia em desgraça, então desejava protegê-la. Dar vida a essa personagem é um privilégio, ainda mais com esse jeitinho mineiro.


DM - Você foi convidada pelo diretor canadense Robert Lepage para fazer parte do Cirque Du Soleil, como foi essa experiência de três anos com a trupe?

TB
- No início eu amei, amei mesmo! Primeiro porque eu estava em Montreal, no Canadá, segundo porque convivia com gente do mundo inteiro e só aprendendo coisas que não fazia aqui no Brasil. O espetáculo era belíssimo, o Lepage é um gênio. Então a experiência foi rica, frutífera, maravilhosa, essa coisa de estar em outro País, convivendo com outras culturas, trabalhando sobre novas regras, novas ordens. No Cirque du Soleil não é como no Galpão, aqui eu chegava no palco e falava: "Tem alguém usando o espaço aí?" Se não tivesse, eu entrava, ensaiava e pronto. Já no Cirque, tudo que eu queria fazer tinha que ter acompanhamento dos seguranças. Aqui eu soprava fogo para tudo quanto era lado, quando fui fazer isto lá, sozinha, quase me bateram (risos). Aliás, eu tinha que colocar tantos equipamentos de segurança que nem tinha graça soprar fogo.

Um dia, o espetáculo foi para os Estados Unidos, para Las Vegas, que é uma cidade totalmente atípica, só tem cassinos e resorts enormes e uma circulação de aproximadamente sete mil pessoas por dia, uma doideira. Aí quis vir embora porque lá fazíamos dois shows por dia e eu tinha outros dois dias de folga que, normalmente, ficava em casa, já que lá só tinha cassinos, ia para a casa de um amigo que tocava piano ou ia para as montanhas com uma amiga minha para tentar ver as estrelas. É realmente muito pirante, mas tive a oportunidade de ver muitas coisas boas, como o show do Elton John, Celine Dion, musicais como o Mamma Mia!, todos os espetáculos do Cirque du Soleil e até mesmo uma final de luta de sumô que, por sinal, eu adorei!!!


DM - Em 2012, o Galpão completou 30 anos. Você consegue pontuar o acontecimento mais marcante da sua carreira no grupo?

TB -
São vários! Tudo para mim é marcante, o retorno de "Romeu e Julieta", a ida a Dresden quando o muro de Berlim caiu... Nós fomos para lá apresentar este espetáculo e foi lindo. Acabamos passando por sete cidades da Alemanha e foi uma aceitação maravilhosa, terminamos no braço do público. Uma coisa que eu também tenho muito orgulho do Galpão é o fato de que mesmo já tendo apresentado peças em vários lugares do mundo, como Espanha e Inglaterra, nunca deixamos de levar nossos espetáculos para lugarejos que jamais viram um teatro na vida, como na vez que apresentamos às margens do Rio São Francisco. O rosto boquiaberto daquelas pessoas nos assistindo é incrível.

Outro caso aconteceu quando fomos para a Venezuela, na hora da apresentação caiu um toró, saímos correndo para o camarim e o público veio todo atrás de nós, ficaram todos lá observando. Nós ficamos sem saber o que fazer porque o cenário e os adereços já estavam desfeitos. Acabou que foi algo extremamente emocionante ver o Romeu e a Julieta cheios de lama se apresentando, o público ficou emocionado. Que dizer, são poucas as profissões capazes de proporcionar este tipo de prazer.


DM - Você também tem muita experiência com o cinema, como as participações nos filmes O Palhaço, do Selton Melo, O Contador de Histórias, de Luiz Villaça, e O Menino Maluquinho, de Helvécio Ratton. Você gosta do desafio que o cinema proporciona?

TB -
Cinema é algo muito bom de fazer porque é uma coisa que fica. É possível ver sempre que quisermos, pois também é bastante trabalhoso. Uma das diferenças entre cinema e teatro de rua é que na rua precisamos falar muito alto e quando você vai fazer cinema, não dá para fazer aquele monte de caretas. É outro tipo de representar.

Então tudo no cinema é diferente. A começar pelo fato que no teatro você vai do princípio ao fim, no cinema não tem isso, você pode começar pelo meio, gravar o fim, voltar no começo. O filme é gravado de acordo com a locação e situação em que se está.

Um dos filmes que mais gostei de fazer foi "O Palhaço", mas em todas as gravações eu sempre me divirto! Fiz um agora no Norte do Espírito Santo, chama-se "Abrigo ao Sol", é a história de uma mulher que fica viúva no meio do mato, sozinha; foi tudo filmado com vela, lampião, usaram baterias e o próprio diretor quis a luz desta maneira. O filme ganhou alguns prêmios, inclusive.


DM - Quais peças do Galpão, ainda em cartaz, você acredita ser imperdível?

TB -
Eu gosto muito de "Romeu e Julieta", "Partido", que tem uma parte musical muito boa, "A Rua da Amargura". Ah, eu gosto de tudo! (Risos.)


DM - Soubemos que toda sua família se dá muito bem na cozinha. Qual é sua ligação com a culinária, principalmente a mineira?

TB -
Nossa tenho total ligação com a culinária mineira, pois é como eu te falei, sou da época que não existia televisão e até o telefone era algo complicado, então não tinha estes disk-pizza, disk-hambúrguer. E minha época também exigia que a mulher soubesse cozinhar senão ela não casava; Eu fiz todos os cursos de "espera marido" que você imaginar e não casei (risos). Continuo cozinhando, adoro cozinhar, tenho um monte de livros de receitas, acompanho programas de televisão e tudo...


Papo de Mineiro

DM - Quem é ou foi verdadeiramente mineiro?
TB -
Carlos Drummond de Andrade e Guimarães Rosa.

DM - Aquela música que tem a alma de Minas?
TB-
Seresta.

DM - Adoro um bom prato de...
TB -
Moqueca.

DM - Para quem visita Minas, o que você diz ser imperdível?
TB -
Ver nossas cachoeiras.

DM - Em uma viagem, o que você sempre leva na bagagem para presentear?
TB -
Doces, queijos e cachaça de Minas.

DM - Qual cantor melhor representa Minas Gerais?
TB -
Milton Nascimento.

DM - A paisagem que te inspira...
TB -
O mar é algo que me alucina.

DM - Atlético, Cruzeiro ou América?
TB -
Cruzeiro.

DM - Fim de semana na cidade grande ou
na roça?
TB -
Depende. Eu adoro roça, mas se tiver acontecendo um trem que eu queria ver na cidade, volto para lá.

DM - Quando estou fora morro de saudades de...
TB -
Dos amigos. Eu pirava quando via programas de televisão sobre Minas em Las Vegas. Eu também sempre levei para fora muita comida mineira.

DM - Minas Gerais é...
TB -
Um lugar onde a gente vive feliz, é o lugar que eu volto quando eu saio, é minha terra!


Estagiária:
Júlia Savassi

 

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