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Frei Chico - Outubro 2013

  • Frei Chico lança Dicionário da Religiosidade Popular  - Maria Lucia Dornas

Há 40 anos, Francisco van der Poel registrou a cultura do povo relacionada à fé e à experiência espiritual. Com 1.150 páginas, o Dicionário da Religiosidade Popular chega ao público, reunindo 8,5 mil verbetes, 6 mil notas de rodapé e 350 ilustrações feitas por Maria Lira Marques, ceramista do Vale do Jequitinhonha. Conheça, no Descubraminas, a vida dedicada às peculiaridades do povo simples com o olhar antropológico e a visão humanista do irreverente frade franciscano adotado pelos mineiros.


"O povo me ensinou a entender o que é a verdade, que deve ser definida como uma busca pelo conhecimento, a partir do bom-senso e da noção de comunidade."


Por Roberta Almeida

Descubraminas - No final da década de 60, mais precisamente em 1967, o senhor veio da Holanda para Minas Gerais, passou por Visconde do Rio Branco, São João del-Rei e permaneceu por 10 anos em Araçuaí. Como foi descobrir e desenvolver as tradições mineiras?

Frei Chico - Quando eu me formei em teologia, estava acontecendo o Conselho Vaticano II, que dizia: "A Igreja é o povo". Eu estava em Araçuaí, terceiro lugar mais pobre do mundo à época, e comecei a praticar essa interação com o povo. Inclusive, os brasileiros que muito me ajudaram a entender as questões sociais foram Paulo Freire e Carlos Rodrigues Brandão, que até escreveu a introdução do "Dicionário da Religiosidade Popular", que vamos abordar mais adiante. Bom, cheguei ao Brasil feito um peregrino ou missionário vindo da Holanda, então precisava conhecer as pessoas, a nova cultura, aí fui justamente ser confrontado com coisas muito diferentes e típicas de uma cultura bem preservada, pura, visto que nas casas não tinha televisão, nem rádio para entretenimento.


Quando eu andava pelas ruas da cidade, a única coisa que ouvia era a Rádio Aparecida e não era fácil me locomover para outros lugares, até Diamantina, por exemplo, eram oito horas de estrada de chão. Assim, eu ficava ali tentando entender aqueles hábitos, era uma cultura preservada e de certa maneira uma situação privilegiada para estudar em conjunto. Com o passar do tempo, descobri que os hábitos culturais estão do levantar ao deitar, do nascer ao morrer, que cultura é vida, não é folclore. E eu vi uma cultura completa. Consegui criar uma visão própria e quando comecei a ampliar esse conhecimento soube avaliar, por exemplo, o fato de muitas cidades, ao divulgarem livrinhos com sua história, colocarem nas últimas páginas, que normalmente ficam para curiosidades, uma frase de alguma benzedeira.


Quer dizer, por mais que houvesse preconceito no fato de um frade querer entender melhor todos os aspectos das tradições mineiras, eu sabia avaliar as situações de duas maneiras, o que foi essencial para desenvolver o "Dicionário da Religiosidade Popular". A primeira maneira foi o que aprendi observando a cultura do Vale do Jequitinhonha como um todo, sempre comparando com o "Manual de Coleta Folclórica", de Renato Almeida. A outra, era uma visão própria na busca pela avaliação, não no sentido do conjunto da cultura, mas sim do modo de pensar. Descobri que nem tudo tem que caber nas teorias e que essas culturas são, sobretudo, plurais; índio não é igual ao negro e quando vão falar "quem é Deus", cada um vai ter a própria experiência religiosa e esta não necessariamente precisa estar incluída em alguma Teologia. Deus é tão grande que cada um e cada religião pode saber um pouco dele, e isto faz com que este livro não seja preconceituoso.


DM - Ainda no Vale do Jequitinhonha, uma região, à época, extremamente pobre, como o senhor afirmou anteriormente, qual foi sua estratégia para tirar o foco dos problemas sociais e realmente enxergar a grande riqueza cultural daquele povo?

FC -
Paulo Freire me ensinou que ajudar o pobre em primeiro lugar é dar valor ao que ele já tem, que são suas histórias, sua cultura, suas lideranças e seus ideais. Ou seja, na medida em que a pessoa é valorizada na sua história, na sua cultura, ela também irá se autovalorizar, e foi o que aconteceu na região. Antes conhecido como o "Vale da Miséria", o "Vale das Lágrimas", hoje, o Vale do Jequitinhonha é retratado como o Vale da Cultura. Inclusive, o Brasil, que nos dias atuais é reconhecido como um País que resolve os próprios problemas, projeta-se no exterior mostrando suas brasilidades, quer dizer, mostra coisas do Nordeste, dos índios, das favelas, das escolas de samba, dos terreiros e a cerâmica do Vale.


Quando paramos para pensar nessa brasilidade mostrada, percebemos que ela pertence ao contexto dos pobres. Claro que não é tudo feito pelo povo como, por exemplo, Oscar Niemeyer, mas temos grandes escritores como Guimarães Rosa, onde a gente vê na obra esta cara de brasileiro que possui uma cultura própria. Ao se perguntar nas escolas "o que é folclore?", vemos que esta noção ainda é muito imperfeita, e essa é umas das grandes riquezas culturais do País. A mídia também é muito fraca nesta divulgação. Eu estive agora no Vale do Jequitinhonha, na Universidade Federal dos Vales Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), para justamente ministrar uma palestra sobre cultura e Vale, onde tentei mostrar que o fator cultura contribuiu para mudanças na região, como ela pode ser integrada à Universidade, então acaba que a gente deixa essa reflexão para o cidadão.


DM - Em 15.000 páginas datilografadas e 250 fitas K7 gravadas, o senhor registrou parte dessa cultura popular. De onde veio a inspiração para esses registros e a decisão de fundamentar-se nas manifestações relacionadas à religiosidade, ao trabalho, ao lazer e à experiência espiritual?

FC -
Quando fui morar no Vale do Jequitinhonha, a fé das pessoas me fez querer documentar a tradição daquele lugar. Eu comecei isso há 40 anos, mas hoje já podemos ver outras entidades com essa preocupação, como o estudo de extensão da UFVJM nas comunidades do Vale. Isto são tendências e o impacto das diferenças me inspirou, me motivou. Pensei: "Se quero ficar aqui, tenho que conhecer essa gente". Assim foi quando tive a ideia de montar um coral, a gente não podia dizer que os participantes eram artistas, mas a intuição e a capacidade que tive de escolher o repertório de um coral que sobrevive há 43 anos é fascinante. Eu gravava uma fita com uma mulher mais velha, desafinada, que não respirava direito, mas o importante era que ela estava sendo enxergada, e isso tinha que entrar sim no repertório do coral.


Tudo que pesquisava tinha que estar relacionado às tradições daquele povo. Na área de teatro e palhaços, por exemplo, aprendi que a irreverência do palhaço é a atitude do fraco diante do poderoso. No Vale, eu fiquei comovido com a pobreza de uma casa que não possuía nem o mínimo necessário, aí falei: "Nossa, mas vocês são pobres, hein!" E o morador me respondeu: "Pobre não, pobre é o diabo que ficou sem a graça de Deus, eu sou é fraco". Quer dizer, fraco é o oposto de poderoso e essa irreverência é muito semelhante ao bobo da corte, que é fraco diante do poderoso. O palhaço não era o engraçadinho para divertir o outro, ele fazia era o rei entender o que o povo pensava dele. E o bobo da corte nunca foi uma ameaça para o rei porque ele não queria o poder. Se o rei realizava um favor a um conde, duque ou príncipe, estes ficavam devendo um favor ao rei. Já o palhaço, virava amigo dele.


Nas manifestações das ruas, o povo não quer o poder, ele quer que o poder funcione, que não haja corrupção, que se acabem as desigualdades; os que querem o poder são aqueles que quebram tudo, que querem a revolução e tentam conseguir isto por meio da destruição. Essas coisas passam pela minha cabeça quando vejo o valor da cultura popular. Eu descobri que cultura é vida porque são coisas do nascer ao morrer, do deitar ao levantar e isto é importante. Eu coloco que a cultura coerente com a vida do seu portador em uma comunidade é a cultura forte, que serve de base para o desenvolvimento, para a criatividade artística, para a vivência religiosa.


DM - Para desenvolver o "Dicionário da Religiosidade Popular: cultura e religião no Brasil", o senhor deixou o preconceito de lado e desvendou o universo religioso popular das benzedeiras, curadores, raizeiros, pajés e ogãs. Após sua concepção, como o senhor entende e define esse trabalho? Acredita ser possível separar vida de religião?


FC - Do ponto de vista de quem vai usá-lo, defino como um primeiro passo para ajudar a valorizar a contribuição do povo às suas crenças. Na religiosidade, por exemplo, o padre não é único que sabe a verdade, não é o único que tem sacerdotes (sacerdote é um povo sacerdotal, segundo textos bíblicos), e o Dicionário quer revelar isso por meio de uma linguagem simples. Quando se escreve um livro, é preciso observar a quem ele está se dirigindo para que se mantenha uma linguagem. Eu sempre pensava, "será que a Lira (artesã que acompanhou Frei Chico em suas pesquisas) entende? E ela eu conhecia bem, tem apenas sete anos de escola, mas gosta de ler; quando pegava um livro de antropologia ou história, eu falava: "Lira, a honra do livro é morrer usado". Um dia, falei o seguinte: "Aqui tem um lápis e uma caneta, tudo que você achar importante neste livro me faça o favor de sublinhar". Depois, eu pegava o livro, lia e pensava: "Mas que diacho, como é que ela fica sublinhando essas coisas tão importantes?" Eu não entendia como uma mulher, negra, pobre, mas muito criativa lá do Vale do Jequitinhonha conseguia me dar aquele retorno sem ter o mínimo de instrução.


Depois disso, comecei a descobrir e a pensar a partir do outro, e isso não foi só com a Lira Marques, pois a cultura coerente com a vida do povo e da comunidade tem que ter certa objetividade porque é fruto do bom-senso e da inteligência da busca de coerência de determinado grupo. Assim, a cultura não pode ser desprezada, ela é a contribuição que o povo oferece. É muito engraçado que a benzedeira pode não parecer importante, mas a diferença entre ela e o médico é que ela trata com remédios caseiros, simpatias e rezas, ou seja, ela trata o paciente como pessoa. Já o médico, trata o corpo doente.


Enfim, este livro não é somente religião, é vida e religião, pois sem a vida a religião fica estranha. Portanto, acredito ser absolutamente impossível separar vida de religião. A religião não pode ser reduzida para um assunto particular, por isso deve apresentar essa ligação com a vida, para não acabar ficando presa à teologia ou a um livro antigo que apresente a experiência religiosa de outros povos, como é o caso da Bíblia. A Bíblia não é um manual de Teologia, ela é uma coleção de cânticos, histórias, provérbios, leis, sabedorias e outras coisas que servem como exemplo de experiência religiosa para outros povos desde que estes povos possuam suas próprias experiências. Deus não é limitado, é sem fim, nós é que somos tão limitados que cada um tem sua visão própria.


DM - Então o senhor teve uma ajuda muito especial para elaborar esse trabalho no Vale do Jequitinhonha, da ceramista Maria Lira Marques, que, inclusive, ilustra esta obra com a matéria-prima do seu trabalho, a terra. Acredita que, hoje, os artistas do Vale valorizam mais o que possuem?

FC -
Acho que reforçou muito no meio dos artistas, principalmente cantores, essa divulgação do que é próprio, da terra natal, mas é engraçado porque se olharmos para grandes artistas como Paulinho Pedra Azul ou Tadeu Franco, vemos que eles tem muito menos essa ligação com o povo do que Rubinho do Vale e Wilson Dias, por exemplo. Cultura e arte não são enfeites, são uma dimensão mais ampla que não podem ser separadas. Nós estamos com uma crise de pessoas anônimas, com enorme individualismo, sem uma comunidade, e consequentemente sem uma cultura.


Portanto, falta uma noção de comunidade para que ocorra uma maior valorização. Na Igreja Católica, por exemplo, há uma forte tentativa de influenciar para que a vida em comunidade aconteça, e pode ser que com o novo Papa isto seja possível, não acho que ele vá mudar o mundo sozinho, mas se conseguir motivar as pessoas a seguirem o exemplo dele, já seria um grande avanço e eu tenho esperança de que isso realmente aconteça.


DM - Muitos de nós conhecemos ou já ouvimos falar de pessoas que mudaram a própria realidade acreditando e participando do desenvolvimento do lugar onde vivem. Qual a importância da crendice popular para o senhor?

FC -
Para mim, a crendice popular é a execução da democracia. Esta palavra democracia na Igreja é um tabu, quem a utiliza é capaz até de ser expulso. Tem que ser muito jeitoso para valorizar esta contribuição que o povo, que possui experiência religiosa, oferece, pois é ele quem cria a comunidade. Além disso, o povo é capaz de ensinar, assim como o bobo da corte, visto que a irreverência é a força do fraco. O povo sempre tem o Deus vivo em si, tudo é "com Deus", "vai com Deus", "com Deus me deito, com Deus me levanto...". Para o povo, a experiência religiosa não começa na capela, começa na vida, é por isso que se um padre rezar somente um folheto, não será considerado uma liturgia, pois o próprio Deus vivo não está sendo respeitado.


DM - É um costume dos párocos aqui de Minas promover atividades sociais que envolvam os fieis. Há 43 anos, o senhor fundou o Coral Trovadores do Vale, no qual as pessoas cantavam músicas da sua própria cultura. Quais heranças o senhor acredita ter deixado para aquela gente, visto que este coral está na ativa até hoje?

FC - Bom, eu nunca propus nada que o coral não pudesse fazer sem mim. Eles não sabiam as músicas, então eu pegava um gravador, colocava na mesa e todo mundo sentava ao redor para ouvir umas três, quatro vezes e só depois cantarmos. Ou seja, não precisa de Frei Chico lá e agora vejo que algumas coisas se nivelaram, eu tinha os ritmos de toada, procurava a sonoridade da linguagem popular e tinha uma professora de primário que fazia questão de pronunciar o português corretamente, e eu não conseguia, e ela não conseguia contornar isto.


Sei é que o grupo tem se organizado e eu sempre fiz questão de convidar representantes da música e do povo para cantar junto com o coral, tanto que o grupo parafolclórico e o "Coral dos Trovadores do Vale" não são a mesma coisa, o coral também não é igual ao povo, nós não conseguimos cantar uma Folia de Reis igual ao povo, é muito difícil. Um dia, algumas meninas que não sabiam ler ficaram olhando para a pasta de cabeça para baixo, aí colei fotos de vários artistas famosos na capa, para ninguém segurar errado mais. Deu certo!


DM - Em uma entrevista, o senhor afirmou que a desordem e a irreverência marcam a cultura popular. Conte-nos mais sobre esse lado "subversivo" do Frei Chico.


FC -
O Pierre Sanchis, professor aposentado de Antropologia da UFMG, escreveu um livro sobre a festa popular em Portugal, mas também escreveu muitas coisas sobre o Brasil e ele mostra que a festa popular é um elemento essencial da cultura, pois é algo do povo que demonstra sua fartura; muitos se preparam durante todo o ano para estes grandes eventos, que fazem com que as pessoas continuem acreditando que as desgraças do dia a dia podem acabar, mas a festa não é fuga. Outro elemento importante das festas é a desordem, que não é algo errado, já que a ordem massacra o povo, mas nos dias dessas festas ela é desmontada. E isso não é somente no carnaval, quando os homens se vestem de mulher, por exemplo, são todos os momentos em que a estrutura se desmonta para depois reassumir a vida como ela é, sabendo que em uma próxima oportunidade, isto poderá ser feito novamente.


Esta "subversão" existe desde a Idade Média. Então, a desordem é um elemento positivo na medida em que marginalizados, uma vez por ano, demonstram que a ordem pode ser diferente. Existe um artigo na Barsa sobre irreverência, humor e riso, até está no meu site. A irreverência é essencial e é comunitária, não é algo solitário como o palhaço que representava o povo, por exemplo, nas Festas Juninas quando se realiza o casamento da roça e ele arrasa com a noiva, o tabelião, o padre, a mãe da noiva... Mas é uma coisa proveniente da comunidade, não foi criada por nenhum gênio, é um elemento da cultura. A Páscoa, não importa qual seja a classe social, é comemorada por todos. Algumas orações e crendices, por exemplo, não existem escritas em livros, mas se eu as encontro em algum lugar é porque fazem sentido para alguém. Não há um sentido padrão, há uma série de motivos que explicam por que cada costume tem sentido para cada pessoa.


DM - Como o senhor se sente por ser o único estrangeiro a integrar a Comissão Mineira de Folclore e por fazer parte do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais?

FC -
Há 32 anos faço parte da Comissão Mineira de Folclore e sinto como se essa participação fosse o reconhecimento de meu trabalho. Pelo "Dicionário da Religiosidade Popular" recebi uma carta do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA) com uma menção honrosa. Ou seja, é uma valorização, um reconhecimento mesmo pelo que faço, também sou Cidadão Honorário de Araçuaí e Betim. Não sou colecionador de medalhas, apesar de ter algumas como a da Inconfidência, a de Santos Dumont, Teófilo Otoni, da Fundação João Pinheiro, mas na Comissão, os colegas de lá, como o José Moreira, que atualmente é o presidente, e no meio de vários outros, me sinto realmente no meu lugar.


DM - Em todos esses anos de Brasil, o que o senhor aprendeu com nosso povo?

FC -
Eu fiquei meio ano em Pernambuco, viajei o São Francisco desde Pirapora até Maceió, com a turma que era contra a transposição do rio, quer dizer, vivi a maior parte do tempo em Minas Gerais, mas viajei bastante por outros lugares. E, por exemplo, os livros de Câmara Cascudo, Alceu Maynard, Renato Almeida, dentre vários outros, são fantásticos! Mas estaríamos nos enganando se não reparássemos que os livros deles foram escritos em uma época em a população brasileira urbana era de 30% e hoje é de 80%. Por isso, quando falo sobre a religiosidade urbana, se eu disser que não é um grande desafio, estarei sendo romântico - são novos tempos. Para isso, tive cursos e ministrei aulas durante 16 anos em São Paulo, de Curso Nacional Ecumênico de Liturgia e Atualização Musical juntamente com a Igreja Metodista Presbiteriana, Assembleia de Deus e Igreja Católica, também dei aula sobre Liturgia, Culto e Religiosidade Popular e se isto já é um desafio para os católicos, imagine para os evangélicos?


Mas iam muitas pessoas que eram verdadeiros líderes e as turmas se formavam com mais de 150 alunos. Meu método de avaliação com esta experiência foi: "O que eles aprenderam? Como vou avaliar a religiosidade popular?" Então eu pedia que cada um me contasse uma experiência própria com a religiosidade popular, fosse em um terreiro, uma benzedeira, na romaria, em festa popular, explicando qual a percepção retirada de tal experiência, avaliando a data e o lugar. A partir daí, eu pegava essas informações e pedia a eles autorização para utilizá-las no Dicionário, e os dados atuais da religiosidade popular partiram exatamente daí. Eu, pessoalmente, cheguei aqui com uma firmação teológica muito liberal e cheia de problemas.


Um exemplo concreto de coisas que aprendi tem relação com a personificação das forças da natureza, encontrados não só no Candomblé, como também em textos católicos que evocam o canto das montanhas. Então o que aprendi? Que Deus é plural! Ele é tão grande que ninguém sabe tudo e nós temos que saber respeitar o diferente. Fazer justiça é entrar no Reino dos Céus. Eu acho que nenhuma religião é a perfeita quando comparada com o ideal, a religião surge quando Deus decide se revelar, e isto tem a ver com o Dicionário, que mostra as formas culturais que correspondem a esta revelação: as formas humanas. Portanto, as religiões são plurais, não temos que condenar ninguém, pois ninguém é perfeito, a religião tem erros, abusos de poder e exibições. Eu sou católico e tento contribuir, quer dizer, aprendi a entender para onde tenho que caminhar e que devo respeitar tudo acima de qualquer coisa. O povo me ensinou a entender o que é a verdade, que deve ser definida como uma busca que se tem a conhecer, a partir do bom-senso e da noção de comunidade. E quando digo que estou no começo do princípio do início alguma coisa, me refiro a esta caminhada também.


Estagiária: Júlia Savassi

Colaboração: Maria Lucia Dornas

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