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Affonso Romano de Sant'Anna - Março 2013

  • Escritor Affonso Romano de Sant'Anna - Alberto Nicollini

Com uma linguagem peculiar e textos inspiradores, Affonso Romano de Sant'Anna é poeta, cronista, professor, crítico literário e jornalista. Autor consagrado e difusor da literatura brasileira pelo mundo, o escritor contou ao Descubraminas sobre a influência da cultura mineira em seu trabalho, o amor pela poesia e o envolvimento com a obra de Drummond. À frente da Biblioteca Nacional por longos anos, simplificou as belas ações que promoveu na instituição ao nos indicar um de seus livros. Descubra mais!


"Poesia autêntica te coloca em contato com a fonte da vida. E certos versos guiam pessoas e países."


Por Roberta Almeida

Descubraminas - O senhor nasceu em Belo Horizonte e foi criado em Juiz de Fora. Como foi sua infância e adolescência em Minas Gerais? Os costumes mineiros influenciaram no seu modo de fazer poesia?

Affonso Romano de Sant'Anna - Minha mãe convenceu meu pai a voltar a Juiz de Fora (ela nasceu ali) para educar os filhos no Instituto Metodista Granbery. Meu avô imigrou da Itália para Juiz de Fora, foi agricultor e padeiro lá. Lá ela conheceu meu pai que era oficial da Policia Militar. Vivi, portanto, em Juiz de Fora dos 3 aos 20 anos, estudei no Grupo Escolar Fernando Lobo e no Granbery, comecei a fazer jornal na Gazeta Comercial e Diário Mercantil. Fundei o Centro de Estudos Cinematográficos aos moldes do que havia em BH e trabalhei de baleiro no Cine São Mateus - minha frustração foi não ter conseguido ser baleiro do Cine Central. Sobre os costumes mineiros terem me influenciado, já se diz que a gente sai de Minas, mas Minas não sai da gente. É possível que meu temperamento e minha poesia seja sempre crítica dos extremos e procure o centro onde o centro não está.


DM - O senhor cresceu em uma família protestante e aos 17 anos pregava o evangelho em várias cidades de Minas. Esta experiência religiosa interferiu na sua visão de mundo, visto que suas poesias têm forte conteúdo social?

ARS - Há uma ética protestante que perdura, o amor à justiça, à igualdade, ao trabalho, e isto é mais importante que a doutrina e a igreja metodista me fez conviver com os pobres, o que é um aprendizado. Os domingos, eu os passava em hospitais, cadeias e subúrbios. De alguma maneira a poesia é uma forma de dialogar com o mundo. John Wesley, que fundou o metodismo, dizia: "O mundo é minha paróquia"...


DM -
Já com alguma bagagem literária e participando ativamente de movimentos que transformaram a poesia brasileira, o senhor lançou, em 1962, seu primeiro livro: "O Desemprego da Poesia", onde fez uma análise sobre o desencontro do poeta no seu tempo. O senhor acredita que o poeta é valorizado como merece?

ARS - Aquele livrinho bem que merecia ser ampliado. A tese estava certa, e se eu a retomasse ia adicionar mais elementos para enriquecê-la. Tudo o que faço na vida é procurar o reemprego da poesia no cotidiano. O poeta, como eu dizia, tem concorrentes fortíssimos hoje: o artista de cinema, o cantor, o relações públicas, o jornalista, ou seja, a mídia está cheia de personagens novos. A poesia tem um desafio grande pela frente. Ao mesmo tempo, ela é um veículo antigo que tem uma força rara. As pessoas sempre recorrem à poesia quando querem que alguém lhes empreste a voz.


DM -
Já com "Canto e Palavra", de 1965, seu primeiro livro de poesias, o senhor entrou definitivamente no calendário literário. O que esperava com o lançamento desse trabalho? O senhor acredita que é mais fácil publicar e vender livros de poesia nos dias de hoje?

ARS - Aquele livro juntou duas coisas inconciliáveis na época; o "canto" e a "palavra". De um lado estavam os "líricos" e de outro os "experimentalistas". Achei que não eram contraditórios, ao contrário, a história da poesia é a história do canto e da palavra. O livro foi bem recebido, mas curioso eu já tinha 27 anos, tinha disseminado muitas coisas pelos jornais e revistas, e levei mais 10 anos para publicar o segundo livro. Ah, sim, na ocasião, a revista Manchete me botou entre os "delfins da poesia brasileira"; como dizem os portugueses, essa classificação "tem piada". Em relação à comercialização de livros nos dias hoje, a literatura, como tudo mais, está crescentemente presa ao marketing. Os Best Sellers funcionam assim. Até essa grande difusão de Drummond obedece ao marketing. O problema é: não se pode ignorar marketing, mas não se pode ficar preso a ele. Eu não vivo de poesia, vivo com a poesia.


DM -
Em 1969, o senhor apresentou a tese de doutoramento "Drummond, o gauche no tempo", que rendeu-lhe quatro prêmios nacionais, entre os quais Prêmio do Instituto Nacional do Livro, Prêmio Estadual da Guanabara e Prêmio da União Brasileira de Escritores. Além de ter sido um companheiro de confidências, como era seu envolvimento com o poeta itabirano?

ARS - Ler a obra de Drummond atentamente me foi muito útil. No rastro da tese devo ter feito umas 200 conferências sobre ele dentro e fora do País. Ensinei uma certa maneira de ler o poeta e a poesia, ele mesmo dizia que eu o havia "desparafusado todo". Mas antes tive que me "desparafusar todo", o que não é fácil, nem comum. A boa análise de uma obra é sempre uma aventura do espírito.


DM -
Quando o senhor foi chamado pelo "Jornal do Brasil", em 1984, para ser o cronista substituto de Carlos Drummond de Andrade, o periódico acabou publicando seus poemas na página de política, e não no suplemento literário. O que o senhor achou dessa iniciativa? Como passou a definir a função do poeta perante a sociedade a partir disso?

ARS - Antes que o jornal me chamasse para substituir Drummond, já havia publicado ali alguns poemas que pertencem à história da abertura política, como alguns historiadores e críticos já assinalaram. Era uma forma de acabar com o "desemprego" do poeta, assunto do meu primeiro livro. Realmente, quase quarenta anos depois, ainda encontro pessoas que guardaram as páginas com poemas como "QUE PAIS É ESTE?", "A IMPLOSÃO DA MENTIRA", etc. Há uma reedição de "QUE PAIS É ESTE?", comemorando os 30 anos do livro que tem uma interessante introdução do historiador José Murilo de Carvalho.


DM -
Estudo publicado pela Universidade de Liverpool, no último dia 15 de janeiro, comprova que ler poesia estimula a mente e pode ser mais eficaz em tratamentos do que livros de autoajuda. O senhor acredita que esse tipo de informação pode aumentar a procura por textos poéticos?

ARS -
Poesia autêntica te coloca em contato com a fonte da vida. E certos versos guiam pessoas e países...


DM -
"Estou diante da Batalha de São Romano, de Paolo Uccello.
         E exijo respeito.
         Não me venham falar
         de Marcel Duchamp"

         (Vestígios, 2005 )

Sabemos que o senhor faz severas críticas à arte contemporânea. Em sua opinião, o que melhor traduz a arte brasileira?

ARS -
Esclareço que não sou "contra" a arte contemporânea. O que faço é desmontar alguns sofismas em que certa arte se baseia. Nunca na história da arte houve tanta confusão entre remédio e placebo, nunca a bolsa de valores esteve tão misturada com a arte. Sugiro que seu leitor leia "O ENIGNA VAZIO" e "DESCONSTRUIR DUCHAMP". De resto, grandes pensadores, que cito naqueles livros, têm posições semelhantes às minhas, apenas não formalizaram a análise como eu o fiz.


DM -
Por um bom tempo, o senhor presidiu a Biblioteca Nacional, informatizando-a e criando o Sistema Nacional de Bibliotecas. Neste período na direção da entidade, quais foram os programas de incentivo à leitura que apresentaram os melhores resultados?

ARS - Fiz uma síntese disto no livro "LER O MUNDO" (GLOBAL), que em um ano teve três impressões - acho que isto diz alguma coisa. Encontrei a Biblioteca Nacional em ruínas e ao final da gestão foi apontada como a instituição federal que melhor funcionava no Rio de Janeiro.


DM -
O senhor possui inúmeras poesias divulgadas no Brasil e no exterior, várias crônicas e ensaios que fazem parte do cotidiano de uma sociedade. Quando pensa em lançar um novo trabalho, o senhor ainda busca descodificar o mundo?

ARS - Literatura é uma forma de decodificar o real. Sou um homem ligado ao meu tempo, à história.



Papo de Mineiro
- Quem é ou foi verdadeiramente mineiro?
- Aquela música que tem a alma de Minas?
- Adoro um bom prato de...
- Para quem visita Minas, o que você diz ser imperdível?
- Em uma viagem, o que você sempre leva na bagagem para presentear?
- Qual melhor escritor representa Minas?
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- Atlético, Cruzeiro ou América?
- Fim de semana na cidade grande ou na roça?
- Quando estou fora de Minas morro de saudades de...
- Minas Gerais é...

ARS - A melhor resposta para isto é esse poema:

IR PARA MINAS

Ir para Minas é voltar para casa
quando o cansaço do mundo nos abate.

Volto então ao cicio de Minas
ao cheiro de alho nas cozinhas
à fala cheia de "sabe", "gente", "trem", "uai", "Nossa"
e "demais da conta".

Venho nos outros me escutar. Espelho
côncavo e convexo
onde o direito e o avesso
passado e presente
encontram um eixo.

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