Cultura

Entrevistas

Senac
  • Logo Senac Minas
  • Hotel Grogotó
  •  

Cástor Cartelle - Setembro 2012

  • Belo Horizonte - Cartelle ao lado dos ossos de uma extinta preguiça gigante - Matheus Ventura

A história dos dinossauros e a vida dos nossos ancestrais sempre aguçaram a curiosidade do Homem. Para descobrir mais sobre o mundo pré-histórico, o Descubraminas entrevistou o paleontólogo Cástor Cartelle, que nos falou sobre sua vida em Minas Gerais, seu trabalho nas grutas, a descoberta de fósseis, a preservação do meio ambiente e a importância da educação infantil. Confira!


"Minas Gerais, além das minas, além das gerais, além de ouros pretos e marianas da vida, de ser o centro do São Francisco, que é um rio tão maravilhoso que só podia ter nome de santo de ecologia, de um ecossistema único como é o cerrado, ainda tem a arqueologia e a paleontologia plantadas pelo Estado todo. Isso é incrível!"


Por Roberta Almeida


Descubraminas - O senhor é espanhol, mas logo que chegou ao Brasil adotou o país como casa. Conte-nos como foi sua chegada e trajetória de vida em Minas Gerais.
Cástor Cartelle -
A minha chegada foi pelo Rio de Janeiro, de navio. Durante a viagem, a gente escutou pelo rádio que o primeiro sputnik soviético (primeiro satélite artificial da Terra) havia sido lançado, em 1957. Esse país era deslumbrante, os trópicos, as cores, os frutos, era um Brasil muito diferente, um Brasil que dá saudade. Um Brasil com Juscelino, onde se estava respirando o futuro e um presente em que havia trabalho. Nunca esquecerei, lá em Botafogo há uma rua que se chama Dona Mariana, quase no centro do Rio, onde as mulheres ficavam conversando, sentadas em cadeirinhas na rua, era outro Brasil que infelizmente ficou para trás.


Logo depois da passagem pelo Rio de Janeiro eu fui para o interior de São Paulo, para Indaiatuba, que hoje é uma potência. Aí voltei para o Rio, Nova Friburgo, e em seguida vim para Belo Horizonte, em 1963, para trabalhar no Colégio Loyola. Foi ótimo! Aliás, nunca esquecerei o 31 de março de 64, com os tanques passando, do Colégio Loyola a gente observava o comando da pseudo-revolução desde o Grupo Pandiá Calógeras, aquela coisa triste, mas vamos passar a página porque coisa ruim não vale a pena lembrar. Depois fui estudar na Europa, voltei e já fiquei aqui em BH praticamente o tempo todo, com exceção de dois anos que passei no Rio Grande do Sul para fazer o mestrado.


A partir daí, passei por duas universidades, PUC (Pontifícia Universidade Católica) e UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), e quando me aposentei na UFMG voltei para a PUC, de onde nunca saí porque continuei responsável pela Paleontologia. Inicialmente meu trabalho foi como padre, foi uma época maravilhosa, mas dolorosamente chego à conclusão que o caminho era outro. Tentei aprender com gente pobre, nas favelas, com mendigos pela rua e, como professor, sempre tentava mostrar o outro lado da moeda aos meus alunos, pois eles não viviam essa realidade, que é das tensões sociais, injustiças, etc. e tal. Até hoje meus alunos são quase como uma extensão da minha família. Depois me dediquei à vida científica neste, vamos dizer assim, paraíso incomparável que está em volta de Belo Horizonte. Logo a Paleontologia me levou naturalmente para uma luta pelo meio ambiente e durante mais de 25 anos eu fui do Conselho de Política Ambiental, presidi diversas câmaras de atuação da FEAM (Fundação Estadual do Meio Ambiente) e da Fundação Biodiversitas.


Eu tenho o privilégio de conhecer o que há atrás das grutas, o que há no ambiente de cavernas, o que há no ambiente cárstico, quer dizer, no calcário, uma riqueza imensurável que infelizmente poucos conhecem. Então uma parte da minha atuação foi dar a conhecer isso, através de escritos, palestras, inúmeras publicações, inclusive para crianças, que quase todo mundo esquece, e aí que está o futuro. Fizemos algumas exposições, por exemplo, duas notáveis no Palácio das Artes e consegui empolgar alunos e universidade para aceitarem a ideia do Museu que ninguém suspeitava que um dia poder-se-ia levar a ter. O Museu de Ciências Naturais da PUC hoje é uma realidade porque muitos se deram a mão, como a coleção que vocês viram aqui na Paleontologia. Quer dizer, algum professor que me ajudou, algum funcionário da PUC que me apoiou, especialmente mais de 120 alunos que durante 30 anos dedicaram suas férias a trabalhar e construir essa coleção que é do Brasil, que é da população, que está na PUC, mas é de todos.


Logo, Minas Gerais, além das minas, além das gerais, além dos ouros pretos e marianas da vida, da história, enfim, de ser o centro da nacionalidade, de ser o centro do São Francisco, que é um rio tão maravilhoso que só podia ter nome de santo de ecologia, de um ecossistema único como é o cerrado, ainda tem a arqueologia e a paleontologia plantadas pelo Estado todo. Isso é incrível! Então eu tive a sorte de descobrir isso e fazer na vida aquilo que realmente gosto. Para mim o dia melhor da semana não é sexta-feira, é segunda-feira, porque eu venho me diverti no trabalho, ainda tenho o privilégio de no final do mês me pagarem para eu fazer aquilo que é realmente uma delícia na vida.


DM - O senhor possui graduação em Filosofia e em Ciências Biológicas, é mestre em Geociências e doutor em Morfologia e dedicou boa parte da vida à pesquisa paleontológica e ao meio ambiente. Em que consiste o ofício da Paleontologia e qual a importância das descobertas paleontológicas para a sociedade atual?
CC -
Vamos deixar a parte histórica de lado porque isto é muito evidente. Paleontologia é o conhecimento e o aprofundamento da vida. Quando você conhece o passado, o presente parece que se faz mais justificado, mais conhecido, ver o que aconteceu ajuda a entender melhor o que está acontecendo. É como se lá longe você tivesse uma luz. Por exemplo, olha o sol lá fora, está nos iluminando aqui, então a paleontologia é uma espécie de sol que ilumina o agora.


Nós temos relação com o meio ambiente, temos relação com a evolução, com o passado, com a riqueza da vida, quer dizer, isso aumenta a beleza do mundo no qual estamos inseridos. Ao mesmo tempo é uma experiência humana inenarrável. Encontrar um animal fossilizado não dá para expressar. Você tem a sensação de ser o primeiro ser humano a ver um animal que um dia viveu e que a natureza miraculosamente teve a delicadeza de aguardar por você. E você começa a estudar, a reconstituir, a ver, a imaginar, é uma imaginação real e um real que se torna quase imaginação. É um mundo de encanto e um mundo de realidade. É um mundo que te faz sonhar, te faz refletir, você vira filósofo, vira historiador, vira inquietante contínuo com a vida atual.


Em última análise, é repetir que a história é mestra da vida e a história da vida está nos fósseis, logo você aprende com os fósseis o que é a vida, que é a coisa mais importante, pois sem ela não estaríamos aqui.


DM - Acompanhado por sua equipe, o senhor já realizou mais de 40 expedições a grutas e sítios paleontológicos do Brasil, descobrindo grande quantidade de fósseis que hoje compõem uma vasta coleção sobre a fauna de mamíferos do período Pleistoceno da América do Sul. Esclareça-nos o que exatamente é caracterizado como fóssil e como são organizadas essas expedições?
CC -
Bom, o fóssil é um milagre. Ele não se repete porque cada fóssil é diferente pelo ambiente, pelas circunstâncias. Esse achado é uma loteria, uma mega-sena, pena que a mega-sena nunca chegou a mim, mas outras super-senas chegaram, não é? Então, o fóssil, por definição, é toda amostra de vida anterior a 11 mil anos, este é apenas um parâmetro. É raríssimo que ocorra uma fossilização porque é preciso que ocorra antes uma série de circunstâncias, todas elas coincidentes, tanto geológicas quanto biológicas. Quando se compreende essas condições, então os fósseis acontecem.


Aqui em Minas Gerais, o fóssil mais antigo é de um bilhão e 300 milhões de anos. Toda essa região Central do Estado, indo para Bambuí e Arcos, era um mar e se preservaram algas calcárias nesse local. Em Ouro Preto, há umas pedreiras de calcário que são feitas por esses fósseis mais antigos de Minas. Indo para Maquiné, logo depois da entrada de Sete Lagoas, à esquerda, ainda se preserva ali perto da Polícia Federal um maciço rochoso que é feito dessas algas. Havia mais, mas ao refazer a estrada arrebentaram com tudo, ninguém preservou esse testemunho. Desde então nós temos outros acontecimentos, especialmente em Uberaba, do Cretáceo, a cento e poucos milhões de anos, e depois há outros acontecimentos dispersos pelo Estado, especialmente nas grutas de Minas, de 11 a 40 mil anos atrás. Tudo isso dá lampejos de como era a vida em períodos passados.


Já sobre a organização das expedições, elas só foram possíveis, ou pelo menos a maior parte delas, pelo financiamento do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). A Fapemig (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais) me financiou também, pelo menos três vezes, e depois por outros meios - para isso que existe o 13º! Quando era solteiro, podia me dar ao luxo de fazer com meu dinheiro o que eu quisesse. Hoje não.


DM - No Brasil, as primeiras pesquisas de vestígios arqueológicos foram realizadas em Lagoa Santa, no século 19, pelo dinamarquês Peter Lund, que explorou mais de 250 cavernas no Vale do Rio das Velhas. Como o senhor também possui experiência na área morfológica, podemos afirmar que assim como a atividade humana modifica o registro sedimentar, o registro sedimentar também modifica artefatos arqueológicos?
CC -
Sim. Bom, vamos pegar a primeira parte da sua questão, sobre a atividade humana. Nós somos hoje no planeta cerca de 30 milhões de espécies diferentes. 30 milhões! E acho que fica curta essa dimensão porque ainda temos bactérias, fungos e por aí vai. O homem, eu diria que hoje é uma anomalia. Anomalia por quê? Porque há homens demais. Na natureza os grandes mamíferos não ultrapassam os 30 milhões de espécies, e, hoje em dia, o homem o que fez? Só no Brasil já ultrapassam os 200 milhões de vacas, touros e porcos. Olha o desequilíbrio no meio ambiente. E os sete bilhões de seres humanos então? É um despropósito. Mas tem uma tragédia nisso aí porque a única espécie entre as 30 milhões que compartilham o planeta Terra, que é capaz de modificar o ambiente em que vive, é o ser humano, o resto não. Então, quais são as consequências em longo prazo, especialmente agora com as montanhas de lixo, com a introdução de cultivos homogêneos, como o milho e a soja, que está na onda, com a introdução de mais vacas do que brasileiros? Não sabemos, pois a escala de tempo que isso está acontecendo é mínima. Qual é a reação? Não sei. Nós estamos brincando. Brincando com os rios, com o ar. E ainda há uma omissão terrível.


Eu fico admirado, por exemplo, em Belo Horizonte, na Câmara dos Vereadores, esses senhores que estão consertando a cidade, consertam? Como é que permitem, por exemplo, centenas de prédios em bairros como Castelo e Buritis, sem levarem em conta absolutamente nada. O que é isso? Os transportes coletivos são abandonados, tem que se apelar para o carro porque não há formas de eu ir desde a PUC à UFMG em 15 minutos, que é o que faço em meu carro. Eu tenho que pegar um ônibus, como às vezes faço, e demoro uma hora e meia. Eu não tenho uma hora e meia para perder. O que está acontecendo com a Lagoa da Pampulha, que passam anos e anos e cada dia está mais podre. A água foi feita para ser bebida na cuia da mão, o ar foi feito para ser respirado, quem são os responsáveis? Os que dirigem a cidade, mas onde é que estão? Dando títulos de cidadão honorário, de 'Felipe da Silva' em nome de praça. E a realidade do equilíbrio urbano?


Eu voltei da visita que fiz agora à minha família. Fiquei revoltado. Em Belo Horizonte, desafio qualquer belorizontino que me apresente uma calçada em que durante 200 metros possa ir uma cadeira de neném ou uma cadeira de cadeirante. Simplesmente as calçadas são uma vergonha, é um atentado contra a cidadania. Isso revolta. Isso é questão paleontológica, vamos dizer assim. É a história da vida. Olha as intervenções! Por essas intervenções que estamos fazendo é que a população deveria pensar muito bem em quem é que vai votar agora, tanto para prefeito quanto para vereador, para que realmente façam pela cidade o que tem que ser feito. Quer dizer, atrofia-se dentro do trânsito e vai queimando gasolina. Viva o ar que respiramos em Belo Horizonte! Compensa com quatro árvores... Não vai por aí. Tudo isso é paleontologia ou meio ambiente. Me desculpe um pouco a indignação, é porque como cidadão tenho direito também de colocar a boca no trombone.


Mas sobre os registros sedimentares também modificarem artefatos arqueológicos também é verdade. No sentido em que seria tão bonito encontrar como encontraram na Sibéria um mamute congelado, nós encontramos ossos muitas vezes esmagados, muitas vezes faltando pedaços, muitas vezes mineralizados e às vezes, inclusive, cristalizados. Então há modificações, mas pela anatomia você vai corrigindo, vai vendo, vai reconstituindo. O paleontólogo seja lá a especialidade que tiver, seja botânico, especialista em conchas ou em artrópodes tem que ser antes um grande anatomista. A miséria é que eu mexo com mamíferos, e eles possuem entre 250 a 300 ossos, então é mais complicado, mas a anatomia muitas vezes te dá a lógica do que está faltando.


DM - Por suas diversas descobertas científicas e contribuições ao estudo da paleontologia sul-americana, o senhor foi homenageado com a denominação de uma nova espécie de preguiça extinta: a Mionothropus cartellei. Como foi encontrar, na caverna do Poço Azul, na Bahia, um esqueleto quase completo de uma preguiça gigante?
CC -
Os colegas às vezes têm essa delicadeza e eu tenho um amigo que é médico e largou a medicina para ser paleontólogo, um grande especialista em aves, e me dedicou uma espécie de urubu! Então tem um urubu que leva meu nome também. Mas encontrar uma espécie nova é inenarrável, quando encontramos o esqueleto completo, por ser o terceiro já de preguiças gigantes, não me impressionou tanto como os outros dois que apareceram que são de espécies novas, que nunca tinham sido descritos. Uma delas até homenageamos a PUC Minas, a chamamos de Ahytherium Aureum, ou preguiça de ouro, pelos 50 anos da universidade.


Talvez o maior achado, nesse sentido, faz muitos anos, numa das minhas primeiras escavações, foi quando encontrei o esqueleto completo de um animal que eu não sabia até então o que era. Maravilhoso! Branco! Na escuridão de uma gruta, a seis quilômetros da entrada, vi que era o animal completo que Lund tinha encontrado fragmentos em Maquiné, que foi a preguiça de Maquiné. Eu ia com os meus alunos e um deles não se separava do gravador, então chamei: "Vem todo mundo. Aqui tem um animal belíssimo!". Foram chegando, éramos sete sentados em volta do achado e o Ricardo apertou o botão do seu gravadorzinho e saiu a única música que poderia ser tocada: "Viagem ao Centro da Terra", de Rick Wakeman. Inacreditável! Eu lembro que me pularam as lágrimas de emoção, então é meu fóssil preferido. Um achado desses é realmente indescritível. Eu tive essa sorte na vida e por isso que eu rio quando me pagam no final do mês para fazer aquilo que eu adoro. Que maravilha!


DM - Embora o processo de transformações ambientais sempre recorrentes no globo terrestre seja contínuo, às vezes tem-se a impressão que nas cavernas o tempo parou, já que nesses ambientes é possível encontrar fósseis bem preservados e materiais que fornecem uma grande quantidade de informações sobre extintos habitantes da Terra. De que forma deve ser feita a preservação desses cenários subterrâneos?
CC -
Bom, é parado e não é. Vou fazer uma comparação que me ocorre agora. Todo mundo olha para o céu e vê as estrelas. Obviamente o astrônomo vê o que nós não vemos. É a mesma coisa na caverna. A gruta é tremendamente dinâmica, os morcegos introduzem material que alimentam uma série de vidas lá dentro. Tive um aluno, o Rodrigo Lopes, que está hoje na Universidade de Lavras, que é um dos maiores especialistas do mundo da vida de cavernas e ele explica que esse é um ecossistema hiper complexo. A menos que esteja morta a atividade geológica, as grutas continuam vivas no pingar da chuva, no pingar da dissolução do calcário, na introdução natural de elementos, na movimentação do ar lá dentro, um ecossistema muito sensível e muito dinâmico, aquilo não está parado, em que um dia um animal morto chegou lá e fossilizou. Então a atividade dentro da caverna é constante. Quantas vezes nós encontramos fezes de morcego em cima do fóssil? Há uma atividade orgânica aí, quer dizer, é um mundo que parece parado, como seria o céu, mas o olhar do astrônomo, o olhar de quem é visitante de caverna, um espeleólogo ou paleontólogo vê o que parece parado, mas há uma dinâmica realmente incrível.


Mas, para se preservar deve haver um controle muito grande, que hoje até existe, mesmo quem trabalha com isso precisa de autorização do Ibama para entrar. Você entra com o perito, que precisa te autorizar. Em Minas Gerais, só temos três grutas abertas à visitação, mas é um mundo que tem que ser conhecido porque é simplesmente fantástico.


DM - Desde a colonização portuguesa, as cavernas são utilizadas para fins religiosos. Em Minas, por exemplo, as grutas de Antônio Pereira, em Ouro Preto, e Lapa Nova, em Vazante, abrigam várias manifestações culturais. O grande fluxo de pessoas, em determinadas épocas do ano, pode impactar negativamente o ambiente cavernícola?
CC -
Certamente, mas a gente não pode ser mais papista do que o papa, não pode ser radical. Toda radicalidade leva a extremos e extremos, seja lá onde for, são abomináveis. Nós temos, por exemplo, em Minas, a sorte de ter esse mundo das cavernas, mas você não pode privar o cidadão de conhecer isso. Então, como citei anteriormente, temos abertas à visitação, durante todo o ano, três grutas, aliás, muito bem servidas, com uma iluminação primorosa, o Estado caprichou aí nessa Rota Lund, investiu para que o mineiro conheça o que tem direito. Não se pode entrar cinco mil pessoas por dia, então vamos organizar, como fizeram os espanhóis com a Gruta de Altamira: 30 pessoas por dia, pronto!


Anos atrás fui visitar essa gruta e tive que fazer a inscrição dois ou três meses antes. No dia que eu estava lá, chegou o então Rei da Espanha, que não entrou porque não estava na lista. Incrível isso! O cidadão tem que ser igual, não vamos invadir, mas ter visitas organizadas. Você tem a mais difícil, agressiva e bonita, que é a Rei do Mato. Outra, que pode ir até a vovó tranquilamente, se Deus quiser até cadeirante poderá entrar em Maquiné, onde tudo começou. A Lapinha já é diferente, vai lá para baixo, é uma intermediária entre as duas que citei anteriormente. Deve-se preservar, mas não se pode privar a população de conhecer os tesouros, inclusive naturais.


DM - O senhor traçou um roteiro de caráter educativo e científico que busca o desenvolvimento do turismo sustentável, denominado "Rota Lund". Qual o peso deste circuito para o turismo em Minas Gerais?
CC -
A Rota Lund é o primeiro roteiro científico turístico cultural do país, de uma importância imensa, que começa na PUC Minas e acaba na Gruta de Maquiné, passando pela Gruta da Lapinha e Gruta Rei do Mato, onde se tem um pouco da dimensão dessa riqueza que Deus colocou em Minas Gerais que é a arqueologia e a paleontologia, ou seja, esse mundo desaparecido. Mas está só começando, está sendo instalado agora. Em setembro, chega o príncipe herdeiro da Dinamarca, na ligação com o Lund que era dinamarquês, para inaugurar alguma coisa aqui na PUC e especialmente o Receptivo de Lagoa Santa. Já foi inaugurado o receptivo turístico da Gruta Rei do Mato e em breve será o de Maquiné e aos poucos vai fazendo-se esse roteiro turístico que tem uma importância fenomenal. Foi o que captou a sensibilidade do Aécio e do professor Anastasia, tornando isso um plano de governo, quer dizer, é um chamativo turístico que está dentro da vocação de Minas, assim como as minas, todo simbolismo de Ouro Preto, São João Del-Rei ou Tiradentes estão em Minas, então a rota é justificada nesse sentido. Tudo isso é o que faz o caldeirão de Minas Gerais, junto com um torresminho, feijão tropeiro, que são insubstituíveis e impagáveis. É o que pesa para o turismo.


DM - Além da publicação de vários artigos científicos, o senhor também preparou trabalhos literários infantis, como os livros Tempo Passado - Mamíferos do Pleistoceno de Minas Gerais (1994), Os meninos da planície (2001), que já foram vendidos 25 mil exemplares, e O Homem do Abismo (2010), inserindo, assim, a Ciência no cotidiano dos jovens. Qual a importância da popularização do conhecimento científico?
CC -
E agora (1º de setembro) foi lançado o livro "A História de Aur e Nia", com desenho do Lor, que é um gênio do desenho, num projeto da Fapemig. É um trabalho tão bonito, feito com pouco dinheiro, por volta de 30 mil, se não me engano, e vamos poder distribuir em volta de 20 mil exemplares de graça, pensando justamente na popularização do conhecimento científico. Lindos! Ficaram uma maravilha, vamos divulgar a arqueologia, o passado para as crianças. Essa obra será distribuída em escolas, museus, inclusive aqui no Museu da PUC. E ainda vai sair agora o meu grande livro, que é o "Das Grutas à Luz - Mamíferos do Pleistoceno de Minas Gerais", patrocinado pela Anglo American e pelo Governo de Minas, que fez a impressão. O lançamento ainda vamos ver quando vai ser, mas já está sendo acabado. É um livro de 250 páginas, com quase 200 figuras, bilíngue, da editora Bicho de Mato. Esse é meu canto de cisne e as fotografias são de Miguel Aun. Esse é para o grande público, vamos dizer assim.


Então tem que se investir em trabalhos infanto-juvenis. Não adianta, árvore que está torta ninguém endireita, é de pequenino que tem que começar. Logo, o futuro da modificação de conceitos, de visão está nas crianças. Gente que mexe com ciência acha que é desprezível esse tipo de literatura, inclusive a Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), que não considera como trabalho os artigos, por exemplo, de divulgação.


Eu já escrevi oito para a Ciência Hoje, são os meus melhores, e olha que eu já publiquei nas melhores revistas do mundo, mas nas melhores revistas do mundo me leem 100, na Ciência Hoje me leem 40 mil pessoas. A divulgação é um trabalho que é como um agradecimento à sociedade e um investimento no futuro. Você tem que divulgar, tem que tirar os fósseis das gavetas para ir ao cotidiano, ao dia a dia.


Em Minas, temos um exemplo fenomenal disso aí. Um camarada chamado Ângelo Machado, um dos maiores cientistas que mexia com neuroanatomia e já recebeu prêmios internacionais, descobriu substâncias no cérebro, deu conferências nas mais renomadas universidades do mundo, e praticamente abandonou a vida científica para se dedicar ao meio ambiente, à literatura de humor, inclusive uma peça adaptada do seu "Manual de sobrevivência em festas e recepções com bufê escasso" é impagável! Mas ele se dedicou especialmente à literatura infantil. Hoje, para mim, o Ângelo Machado é o maior autor de literatura infantil da língua portuguesa. Como é que um homem, com esse peso científico, quando está com a panorâmica da cabeça dele mais feita, se dedica ao meio ambiente - ele é presidente hoje da Biodiversitas, e escreve para crianças? Olha que visão de futuro. É como ele diz: "É preferível investir numa criança do que na cabeça de um cientista porque o cientista está chegando no final e a criança está começando, e se começa bem, vai ser um grande cidadão".


DM - Professor, como é o seu trabalho no Museu de Ciências Naturais da PUC-MG, do qual o senhor foi idealizador, fundador e hoje é curador da coleção de fósseis?
CC -
Eu não fundei sozinho, porque não tenho cacife para isso. Foi, além da universidade, com a ajuda de empresas como a Vale, antes da privatização, que realmente acreditaram no grupo que a gente foi formando, e hoje há um grupo muito forte de pesquisadores. Nós temos, por exemplo, na ornitologia, temos em répteis e anfíbios uma coleção e pesquisadores excelentes, como a professora Luciana. Nos mamíferos, mesma coisa, em peixes, igual, em invertebrados também, em botânica, nem se fala. São as entranhas do museu. Museu não é só exposição, museu é uma série de coisas e é esse trabalho de extensão. É notável como uma instituição particular como a Católica tenha acreditado nisso porque manter um museu não é fácil, nem é barato. Eu dou umas poucas aulas, que não chegam nem de longe à cobertura do que eu recebo.


Eu preparo a coleção, incluo peças, porque é um trabalho muito lento de identificação, de vez em quando a gente vai para campo. Além de dar aulas, eu escrevo, escrevo muito, apresento projetos, então esse trabalho mais de gabinete, de contatos, palestras, a Rota Lund, por exemplo, leva horas, eu tenho diversas reuniões para que esse roteiro se firme mais e a universidade banca, vamos dizer assim, essas reuniões fora, sabe por quê? Porque é um retorno. Quando você vê as crianças entrando no museu, admiradas, aí você encontra essas crianças uma semana depois com a mesma sensação, eu vejo meu filho com quatro anos dizendo: "Papai, vamos ao museu?" Ele já veio umas oito ou dez vezes e sempre encontra coisas novas, aplicações novas ou visões diferentes. Dar essa oportunidade às crianças de Belo Horizonte que não tinham isso, eu acho que é um trabalho de cidadania e de direito da população de saber das coisas, por exemplo, poucos brasileiros sabem que a ecologia começou em Minas Gerais, que os primeiros dinossauros começaram no Brasil, que havia aqui esse mundo extinto de preguiças, que em Minas tem dinossauros (ossadas e réplicas), então quando uma criança aprende isso, aliás, coisa que os adultos não aprenderam, olha que encanto!


Então é um ato de coragem de uma instituição particular como a PUC fazer um investimento que não é barato. E a universidade está bancando, certamente, com sacrifício. Isso é notável, e é um tanto a favor da PUC acreditar nesse trabalho de extensão, especialmente dos nossos jovens, que são o futuro do País. Ver que finalmente o Governo Federal está investindo em creches, na educação infantil, tiro o chapéu para isso, estava faltando. E agora parece que a presidente quer mesmo, inclusive como mulher, como mãe, investir nisso, algo que eu clamava aos céus. Imagine os pais que tem que trabalhar e deixar a criança aos cuidados de uma babá de 14 anos, isso não é cidadania. Então ver o direito à cultura, ver as crianças desde o pré-primário até barbado de universidade aprendendo os tesouros de uma nação, isso compensa qualquer sacrifício.



Entenda mais sobre o assunto


Arqueologia: ciência que, utilizando processos como coleta e escavação, estuda os costumes e culturas dos povos antigos através do material (fósseis, artefatos, monumentos, etc.) que restou da vida desses povos.


Espeleologia: estudo da formação e constituição de grutas e cavernas naturais e estudo dos organismos que vivem dentro das cavernas.


Fóssil: aglomeração de despojos, restos, formas, figuras de corpos organizados que se encontram enterrados em diversas profundidades ou embebidos em variadas matérias, e que indica as suas formas primitivas. 


Geomorfologia: ramo da geologia física que estuda as formas do relevo terrestre atuais e investiga a sua origem e evolução.


Paleontologia: ciência que estuda as formas de vida existentes em períodos geológicos passados, a partir dos seus fósseis.


*Fonte: Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa



Estagiário: Matheus Ventura

Enviar link

Outras entrevistas