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Maria Helena Andrés - Agosto 2012

  • Brumadinho - Maria Helena Andrés, ex-aluna de Alberto da Veiga Guignard - Roberta Almeida

Entre telas coloridas, esculturas inspiradas em desenhos do Concretismo e muita tranquilidade, a artista plástica mineira Maria Helena Andrés, ex-aluna de Alberto da Veiga Guignard, recebeu a equipe do Descubraminas no alto das montanhas.


Confira a entrevista!


"Eu acho que Minas é um celeiro de arte e também de política, que é mais reservada, mas sempre teve uma grande influência no Brasil."


Por Roberta Almeida


Descubraminas - Alberto da Veiga Guignard foi convidado por Juscelino Kubitschek para organizar e dirigir a Escola de Belas Artes, atual Escola Guignard, da qual a senhora também foi diretora, além de ter sido aluna da 1ª geração deste mestre da pintura. O que foi mais marcante nas aulas de Guignard?
Maria Helena Andrés -
O Guignard para mim foi muito importante porque muitos anos atrás eu tinha começado a estudar com o Carlos Chambeland, um professor muito ligado às academias, ao academismo - que é uma forma mais acadêmica mesmo. Aí eu tive essa base, mas o academismo prende muito porque você fica dentro de uma fórmula, de um conceito, você não pode se expressar livremente, do jeito que é a sua tendência própria. No academismo as pessoas vão repetindo o que já foi criado, que é o que vem de fora para dentro. O modernismo já busca uma coisa de dentro para fora, uma expressão interna da pessoa, para que ela possa se expressar externamente.


Então o Guignard era um professor que também estudou na Escola Acadêmica de Munique, na Real Academia de Belas Artes de Munique, e ele viveu numa época em que vários outros pintores se libertaram desse academismo, eles achavam que não condizia com a época moderna, com o que estava surgindo, como a sociedade industrial, já que estavam repetindo o renascimento, repetindo tudo que já havia sido feito anteriormente, então esses pintores se revoltaram. Aí, depois de estudar o academismo, o Guignard também se libertou e foi estudar em Florença, e foi nos museus, olhando Botticelli, por exemplo, que ele captou aquele desenho com a sensibilidade que os antigos tinham e que não era ligado tanto ao acadêmico, era ligado à busca do aprimoramento da sensibilidade da pessoa, então era isso que o Guignard passava para a gente. Ele mandava você olhar para uma árvore, depois você começava a desenhar com toda a sua sensibilidade. Também desenhávamos figuras humanas através dos olhos, às vezes ficávamos o dia inteiro para desenhar um olho, uma mandala, e isso era uma forma de pesquisar dentro de você a sua própria sensibilidade.


Paralelamente a esses trabalhos, feitos com atenção total no agora e que eram uma forma de meditação, também fazíamos um trabalho de observação, desenvolvendo desenhos espontâneos. Então eu acho que com todo esse aprendizado a gente nunca ficava preso, pois tínhamos a disciplina, que era uma ordem interna de organizar o próprio olhar, e a liberdade, que não tinha uma regra, uma norma a ser seguida, ele simplesmente nos dava meios para que nós mesmos, através da sensibilidade, achássemos a própria composição e depois corrigíssemos. Eu, por exemplo, desse curso do Guignard, fiz muitos desenhos, tenho pastas e pastas de desenhos que foram feitos na fazenda do meu sogro, em Entre Rios de Minas, então ficou um trabalho muito importante.


DM - Os seus trabalhos, tanto esculturas quanto pinturas, possuem uma composição geométrica e dinâmica que caracterizam o Construtivismo. Como foi ser pioneira da arte concreta em Minas Gerais?
MHA -
Bom, eu fazia meus desenhos, minhas pinturas e aquarelas seguindo a linha de Guignard, que era o que eu estava estudando na escola. Depois eu comecei a sentir a necessidade de simplificar a figura, buscando, assim, a essência da forma, e esse foi um movimento que surgiu no Brasil em 1950, 1952, com a primeira Bienal de São Paulo, que foi em 1951, onde eu participei com dois quadros. Naquela época, a gente ia para São Paulo, não era só Minas Gerais que influenciava. No princípio foi a Zona Rural, foi Minas Gerais, foi a pintura figurativa, depois começou a ser também uma linguagem mais internacional e se tivéssemos tendência para aquilo, para aquelas ideias, se incorporava, formava-se um movimento, que no caso foi o Construtivista, Concretista no Brasil.


Mas, como a gente vivia mais afastado do Eixo Rio/São Paulo, era necessário que o nosso grupo aqui de Minas Gerais se transportasse para a capital paulista, para as bienais, porque lá aconteciam palestras, convivíamos com grupos de outros pintores com a mesma sensibilidade, que buscavam as mesmas coisas. Então ali em São Paulo a gente encontrava com o Volpi, Milton Dacosta, Maria Leontina, Ivan Serpa, que foi o primeiro Concretista no Brasil, com os críticos de arte, como Mário Pedrosa, Lourival Gomes Machado e vários outros. Aí nós trouxemos a Arte Concreta para Minas Gerais, eu, juntamente com outros artistas concretistas, tais como Mário Silésio, que era meu colega, Marília Gianetti Torres, Nelly Frade, Franz Weissmann, que era professor, mas também se incorporou ao movimento, e Amilcar de Castro, nós todos pertencíamos a essa primeira geração de Guignard.


Naquela época, às vezes o artista tinha várias tendências, ou seja, a fonte era a mesma, mas as tendências eram variadas, por exemplo, com o desenho eu fui transformando a figura até chegar hoje às esculturas. Guignard dava muita força para o desenho. Eu gostava muito do movimento da linha contínua e o Guignard nos dava muitos exercícios para libertação da forma, para termos uma maior liberdade de criação, que foi o começo da minha escultura, começa em um ponto, faz o lápis rodar todo o papel e volta para o mesmo lugar.


DM - Em reportagem veiculada no jornal Estado de Minas, a senhora afirmou que talvez o que produziu há 50 anos estaria mais atualizado em termos de mercado do que o produzido hoje. O que mudou na relação artes plásticas/mercado nesse período?
MHA -
Eu me sinto um pouco avessa em relação a esse negócio de mercado, sempre fui mais discreta com isso e nunca gostei de me envolver muito com o mercado de arte porque me entrego tanto ao meu trabalho, faço com tanto amor que eu prefiro escolher, ou seja, se não estiver gostando muito do trabalho, simplesmente não faço. Então essa é uma dedicação que eu faço dentro do meu silêncio, sem pensar muito em ganhar dinheiro porque ganhar dinheiro com arte é difícil. Agora o reconhecimento do que a gente faz hoje em dia é uma coisa que o artista tem que pensar porque é um pouco ingrato, não é nem pelo tanto que você trabalha, é pelo que está acontecendo no momento, pois o acontecimento do momento é mais construtivista do que expressionista ou abstracionista, e é no mundo inteiro, não só daqui.


Nessa época que você citou, eu produzi muita coisa justamente porque eu me dedicava com tanta atenção, com tanto amor a cada quadro que eu não tinha a preocupação de fazer muitos. E esse mercado de artes começou a surgir há pouco tempo. Na minha época, não tinha mercado de arte coisíssima nenhuma, você fazia seus quadros, depois vinham os críticos de arte, os escritores, os poetas ou grandes arquitetos que escreviam nos jornais e se dedicavam à crítica de arte espontaneamente. Aí, de uns tempos para cá, começaram a surgir os curadores e os críticos de arte de hoje, que comandam de certo modo as ideias. Então, como as ideias construtivistas foram e ainda estão sendo rememoradas, todos aqueles que se dedicaram ao Construtivismo estão sendo muito valorizados em termos de mercado.


Essa questão do mercado é muito difícil para o artista porque ele faz a coisa com muita coerência, se dedicando muito àquilo que faz, agora, botar aquilo no mercado já começa a virar cifrão e é meio triste isso, não é muito bom, mas isso sempre existiu e não pode se esperar uma retribuição de tudo que a pessoa faz com esforço. Com criação, dentro da literatura, por exemplo, - eu também escrevo, o criador se dedica, perde horas e horas de sono pesquisando e escrevendo, aí quando ele vai editar o livro e a editora pega o material, o criador ganha 10%, ele não tem domínio nenhum sob o livro. Se quiser reproduzir, se quiser vender, não tem direito nenhum. Com as produtoras de música são a mesma coisa, os músicos ganham apenas uma porcentagem.


No meu caso, os quadros concretistas não foram vendidos, eu concorria porque era uma coisa que estava me dando entusiasmo para crescer como artista. Então eu mandava para a Bienal do Rio de Janeiro ou de São Paulo e ganhava prêmios, e, no geral, eles compravam. Tinham quadros que ficavam nos museus, como o Museu de Artes da Pampulha, tem quadro concretista no Museu Nacional de Belas Artes, também tenho dois quadros no Museu de Arte Moderna do Rio e tem também em Brasília, mas são trabalhos muito bons, que eu me dediquei muito. Nunca tive preocupação de ficar repetindo os quadros, então não existem muitos, mas os que existem estão sendo disputados.


DM - A senhora mantém dois blogs na internet, o "Minha Vida de Artista" e "Memórias e Viagens". De que maneira as novas tecnologias facilitam o seu trabalho?
MHA -
O que eu acho é o seguinte: essas novas tecnologias, para mim, são uma forma de comunicar com o mundo porque a gente vive muito isolado. Eu vivo aqui no Retiro das Pedras ou na fazenda, por exemplo, distanciada de tudo, principalmente agora, devido à idade fico mais afastada, mas nunca que estou totalmente afastada porque eu estou ligada pela internet com o mundo todo. Os blogs, se você entrar na estatística, já tem muita gente que acessa. No princípio de fevereiro tinham 20 mil acessos, eu nunca vi a cara dessas pessoas, mas elas estão me acompanhando e é por isso que gera uma responsabilidade tão grande do que eu escrevo, do que eu ponho no ar.


Primeira coisa, para utilizar qualquer tecnologia, você tem que ter ética, não pode falar mal de ninguém, não pode se valorizar em relação ao outro, botar só as coisas que você faz, você vê que eu sempre coloco coisas dos outros, raramente eu coloco coisa minha porque eu acho falta de ética usar o blog para falar da própria coisa o tempo todo.


DM - A senhora teve a oportunidade de conviver com outras culturas quando visitou países como o Nepal, Japão, Tibete, Tailândia e Índia, onde residiu por algum tempo. Como foi adquirir novas experiências e o que te levou a visitar tantos países do Oriente?
MHA -
Bom, na Índia, eu fiquei pesquisando as coisas e os lugares que me indicaram, primeiro foi sobre Sri Aurobindo, depois Auroville, no Sul da Índia, que é considerada a cidade aurora, ela é, inclusive, patrocinada pela Unesco, onde são colocadas as ideias do Sri Aurobindo, um guru indiano que estudou a ligação da arte com a ciência, com a religião e principalmente dando uma ênfase à arte e à educação e eu sempre me interessei por arte e educação. Quando meu marido faleceu, em 1977, o Maurício, meu filho, foi para a Índia com bolsa de estudos, junto à mulher e ao filho, aí ele me chamou para passar um tempo no Oriente. E lá fui eu! O problema é que eu não tinha o dinheiro para a viagem, aí, na época, eu havia desenhado três tapeçarias para a Igreja de Nossa Senhora de Copacabana, no Rio, mas não havia cobrado, fiz de graça para a igreja. Acontece que o cardeal na época fez uma reunião lá e falou assim: "Nós estamos pagando a todo mundo. Por que essa artista não quer cobrar?" E decidiu estipular um preço pelo trabalho, que era exatamente o que eu precisava no momento para ir à Índia.


Meu marido sempre me incentivou a conhecer o mundo, ele falava que eu, como artista, não podia ficar parada em Minas, para meu trabalho não ficar muito regionalista, aí eu fiz a volta ao mundo. Depois que ele faleceu foi que eu comecei a ir mais para a Índia, para fazer uma pesquisa do lado de lá junto com o lado de cá e formar uma síntese sobre arte, ciência, religião e filosofia, juntando esses quatro pilares. As artes plásticas, por exemplo, eram totalmente separadas da música, da dança, cada um cultivando seu próprio caminho, e agora já está acontecendo a fusão de todos eles.


Nos anos 1970, eu tive um insight e até vi isso acontecendo, então comecei a pesquisar sobre esse assunto, estudar mais os orientais, o taoismo chinês, aí comecei a ver que os monges beneditinos cristãos têm uma relação muito grande com esse movimento, ou seja, entrando na meditação deles, chegam às mesmas conclusões que chegaram os iogues, havendo, assim, uma contribuição muito grande para essa união do cristianismo com o budismo, temas que sempre me interessaram.


DM - Embora a arte dos séculos 20 e 21 reflita a complexidade da vida contemporânea, como a senhora consegue traduzir e expressar tanta serenidade em sua obra?
MHA -
No começo da minha carreira, eu fazia alguns desenhos em um papel usado para proteger as radiografias que meu marido trazia da Escola de Medicina e que iam ser jogados fora. Esses papéis até hoje não tem uma só mancha de mofo, é um papel bom e daqui você pode ver a figura se transformando no abstrato e depois ela vai se modificando, vai mudando.


Então isso vem de muita vontade de trabalhar, não fazia para expor, ganhar prêmio ou dinheiro, mas sim pela vontade de buscar uma composição, uma forma. Sempre procurei fazer um trabalho incessante, sem nenhuma perspectiva de venda, nem mercado.


E agora que se está usando a reciclagem de papel... Naquela época eu já usava sem saber que estava fazendo sustentabilidade, mas não era com o intuito de ganhar esse título, o papel era bom, então eu desenhava.

 


DM - Qual a finalidade do Instituto Maria Helena Andrés (IMHA), instalado em Entre Rios de Minas? Há algum projeto do IMHA voltado para o turismo cultural na região Campo das Vertentes?
MHA -
O Instituto Maria Helena Andrés foi criado há sete anos, em Entre Rios de Minas, com o intuito de promover a cultura e a arte naquela região, que é muito fértil em bons músicos, e o Instituto tem pesquisado muito sobre a cultura local, por exemplo, lá tem os músicos que produzem os próprios instrumentos, eles já estão até velhinhos agora, e temos os alunos que são orientados por um diretor de cinema que veio da Colômbia.


Eu estive lá há pouco tempo e fiquei encantada com esses jovens, que já estavam fazendo um filminho muito interessante sobre as coisas da região. Então eu acho que o Instituto proporciona uma possibilidade dos jovens que estão estudando ali de se desenvolverem, inclusive, agora o Instituto virou um Centro de Cultura, principalmente de cinema e de fotografia. No entanto, nós ainda não temos um projeto sobre turismo cultural voltado para o Campo das Vertentes, e essa seria uma boa ideia porque assim os trabalhos feitos na região poderiam ser mais bem divulgados. Eu acho que o IMHA é muito bom para agregar valores às pessoas e também é muito bom ver as ideias da gente serem difundidas.


DM - No blog "Memórias e Viagens", a senhora conta que todas as semanas ia com a família para uma fazenda, onde podia ter maior contato com a natureza e produzir os desenhos e pinturas da vida rural de Minas Gerais. Como Minas influencia o seu trabalho?
MHA -
Primeiro eu nasci em Minas, então a gente tem que ver as origens. Eu sou mineira, nasci na avenida Afonso Pena, em Belo Horizonte, nunca tinha conhecido uma fazenda, fui conhecer a vida do campo só depois de casada, mas eu vivia em Belo Horizonte mesmo, com todas aquelas coisas de adolescente da capital, indo para a matinê do Cine Brasil ou footing na praça da Liberdade. Então acho que a vida de Minas sempre me possibilitou, de certo modo, a viver um pouco longe daquele movimento meio dispersivo do Rio e de São Paulo.


Acho que para o meu caso particular era bom ir e conhecer o que estava se fazendo, para voltar para casa e assimilar direito, porque Minas Gerais, para mim, significa também um local que permite a introspecção. Daqui surgiram grandes poetas, como Carlos Drummond de Andrade, um grande escritor como Guimarães Rosa, até tiveram que sair daqui depois porque o modo de sobreviver com arte é muito difícil, mas, para criar, para essa parte interna da criação, Minas é muito bom.


Existem muitos poetas mineiros, como os da época do Barroco, se você for pesquisar, por exemplo, Diamantina, Ouro Preto ou São João del-Rei, verá o quanto de músicos bons que surgiram. Então também temos essa tendência musical que existe aqui em Minas até hoje. Atualmente, temos, por exemplo, o grupo Uakti, meu filho até é o flautista, os grupos Corpo e Galpão, que também já foram pelo mundo afora e sempre voltam para Minas, ou seja, aqui é o ponto de criação deles. Então você pode ir vendo o grande número de grupos bons que surgiram aqui e estão por aí difundindo o nome de Minas Gerais. Eu acho que Minas é um celeiro de arte e também de política, que é mais reservada, mas sempre teve uma grande influência no Brasil.


Uma vez em uma passeata pelos Caminhos de Minas, o Paulo Brant, que naquele tempo era o Secretário de Cultura, afirmou que os artistas tinham que desenvolver suas aptidões e a política sempre ficaria atrás para seguir a ideia dos artistas, pois nós éramos os criadores. Então eu não sabia nem que ia falar nesse evento quando me passaram o microfone para dar uma palavrinha, aí eu disse: "Olha só essa terra que nós estamos, é uma terra que no passado aconteceu a Inconfidência Mineira, onde os inconfidentes eram poetas e todos foram degredados. Então o que acontece? Hoje, nós temos que fazer a Inconfidência Ecológica porque nossos rios estão indo embora, daqui a pouco os nossos netos não terão nem água para beber, para Minas não virar um deserto do Saara". Por todos esses fatos, Minas influencia no meu trabalho.


DM - A senhora divide o tempo entre a casa-ateliê no meio da natureza e o meio urbano. Quais são as vantagens em intercalar campo e cidade?
MHA -
Eu tenho a necessidade disto, sabe por quê? Eu preciso desta montanha aqui que você está vendo, se bem que aqui é muito frio nessa época do ano, mas é muito bom. E, ao mesmo tempo, eu preciso estar a par do que se passa na cidade e ter também mais contato com os filhos e os netos que estão lá, então eu tenho um apartamento em BH, onde a minha filha mora, e eu sempre vou para lá.


DM - Em agosto, a senhora comemora 90 anos e, pelo visto, muito bem vividos. Qual o segredo da longevidade?
MHA -
Eu acho que o segredo da longevidade é sempre fazer o que se gosta. Não é fazer o que está imposto de fora para dentro, mas aquilo que brota de você. Nem que sejam pequenas coisas, por exemplo, esses desenhos em rolo, que parecem um rolinho chinês, que eu fiz para minha próxima exposição, é uma coisa que posso fazer a qualquer hora, de noite, no final de semana, também o blog, que é uma coisa que eu realizo com as mãos. Então, no meu caso, desde que seja uma coisa que eu realize com as mãos fico satisfeita.


Embora eu ache que as mãos e o corpo sejam muito importantes, para mim também tem que haver uma ressonância com o pensamento, para a mente não ficar prejudicada. Mas acho importantíssimo fazer o que se gosta, inclusive eu quero começar uma pesquisa sobre o Irã, fui ao Espaço Oi Futuro e fiquei encantada com a exposição dos desenhos iranianos porque eu adoro pesquisar e descobrir coisas. Eu vou lá de novo com meu caderninho de notas e uma maquininha de retrato para acompanhar de outro âmbito o que tem acontecido naquele País, onde também existe uma poesia, uma coisa perene que é a filosofia da arte. Os iranianos são grandes artistas do cinema também. Então o importante é você se sentir bem no que faz.


DM - A exposição que vai marcar o seu aniversário entrará em cartaz no dia 18 de agosto na Galeria Livrobjeto, na Pampulha. Em que consiste e qual será a novidade desta mostra? Terá algum trabalho inédito?
MHA -
Na verdade eu não quis fazer uma festa para promover meu aniversário porque eu acho o aniversário importante, mas é um dia feito outro qualquer, não um marco. O que marca é o que a gente produz, é o que a gente faz. Como artista, acho muito mais importante o que estou realizando no campo das artes do que os anos que eu tenho. Isso é importante também, mas eu acho que é secundário em face de um trabalho feito por uma pessoa idosa e que se fundamenta no lema que foi uma constante por toda a vida, que é fazer sempre o que se gosta.


Nessa exposição, eu acho importante mostrar o itinerário, a minha trajetória nesses 70 anos de arte, que foi muito constante, pois eu nunca parei e tudo nessa exposição será inédito. Não será propriamente uma releitura, e sim uma memória. Como é uma "memória", as cores são bem alegres e sutis. Então eu coloco a memória do Concretismo e a sua expansão. Paralelamente, faço estudos para as esculturas, que foram todas tridimensionadas, e também estou montando os livros (livrobjetos) para a mostra.


Eu tenho muita coisa para fazer ainda porque a exposição será variada, então tudo será inédito, não tem nada que eu já tenha mostrado, a não ser a relembrança de determinados momentos da minha vida. Eu montei alguns poemas, como os que estão no "Livro das Viagens" e no "Cidades". Então vou passar por muitas fases da minha trajetória, do figurativo aos abstracionistas tem-se um grande caminho a percorrer, que é longo, mas é prazeroso, desde que você esteja fazendo o que gosta. Se tiver alguma coisa sendo imposta, aí não fica bom.


DM - Qual a dica para quem deseja aprender a ler e a entender a linguagem da pintura?
MHA -
Não tem segredo. Você deve buscar a simplificação da forma, ir em direção à essência da obra de arte.

 


Papo de Mineiro


DM - Quem é ou foi verdadeiramente mineiro?
MHA -
Guimarães Rosa foi um grande mineiro porque ele descobriu coisas que ninguém que vive aqui descobriu, inclusive o palavreado do mineiro.


DM - Aquela música que tem a alma de Minas?
MHA -
A música "Rosa", do disco Água Luz, elaborado pelo meu neto Alexandre. Eu gosto do despertar dos jovens, de ver o que eles estão fazendo. Gosto desse trabalho porque tem textos de Guimarães Rosa.


DM - Adoro um bom prato de...
MHA -
Comida mineira. Frango com quiabo e angu.


DM - Para quem visita Minas, o que você diz ser imperdível?
MHA -
No momento, Inhotim.


DM - Em uma viagem, o que você sempre leva na bagagem para presentear?
MHA -
Muitas vezes uma pedrinha de Minas, uma daquelas semipreciosas, o pessoal valoriza demais.


DM - Qual cantor melhor representa Minas?
MHA -
Milton Nascimento.


DM - A paisagem que te inspira...
MHA -
As montanhas de Minas.


DM - Atlético, Cruzeiro ou América?
MHA -
Atlético.


DM - Fim de semana na cidade grande ou na roça?
MHA -
Na roça.


DM - Quando estou fora morro de saudades...
MHA -
Sinto falta justamente desse espírito mineiro, das nossas montanhas.


DM - Minas Gerais é...
MHA -
É essa montanha toda...


*Estagiário de Produção: Matheus Ventura 

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